sábado, março 16, 2013
Estilo ao Alcance de Todos
terça-feira, agosto 07, 2012
Vitorino, o Emigrante
| "vai devagar, emigrante" |
Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume.
Um dia normal para o moço, que colocara cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca.
Lá vai Vitorino, filho da terra, estimado por todos, transmitindo carradas de monóxido de carbono para a atmosfera.
Lá vai Vitorino, inimigo público número um da camada de ozono, cumprimentando todos à sua passagem.
O Acácio da frutaria, que acena carinhosamente.
O Sr. Fialho da drogaria, que lhe cospe impropérios derivados da falta de paciência para com o infernal chinfrim vomitado pelo escape da motorizada.
O Macedo da sala de chuto, que lhe endereça um salutar e bonacheirão "Tudo de bom!" de bochecha rosada.
Vitorino chega ao café, coloca cuidadosamente uma viscosa bisga no canto do passeio e estaciona a Casal-Boss em cima dos caixotes de fruta.
"É mesmo à Vitorino", exclamam sorridentes (e babados) os convivas que vegetam à porta do estabelecimento, sinceros admiradores da técnica apurada na arte de endereçar uma bela e consistente bisga enquanto se mantém simultâneamente um SG Ventil repousando nos lábios.
Vitorino, o orgulho de Freamunde, é abraçado por todos e cumprimentado com os mais doces impropérios (e simpáticas referências à idoneidade de sua Mãe), sinal do mais belo e sincero male-bonding.
Nisto, o Hino da Alegria enche o estabelecimento - em versão midi.
É o alcatel do Vitorino, que toca impaciente. O jovem saca da pequena bolsinha preta CK pendurada ao cinto e leva o aparelho à boca.
Segue-se um alegre porém digno "Atão, caralho?"
Mas cedo se dissolve o ar casual de Vitorino.
O sobrolho franze-se em tom de atenção redobrada.
Adopta um semblante sério, profissional.
Algo se passa.
Os convivas em seu redor ignoram-no, viram a sua atenção para o novo videoclip da Ana Malhoa, que agracia os ecrãs da TV do café, obra e graça do Made in Portugal.
Vitorino retorque à chamada telefónica em staccato de tom afirmativo e expectante.
- "tá bem, caralho", são as últimas palavras docemente proferidas pelo jovem antes de voltar a guardar o telemóvel na sua bolsinha de cinto Louis Vuitton.
Sem expressão na ruborizada face, Vitorino caminha em direcção ao inerte grupo ainda fixado nos atributos da filha de José Malhoa.
- "Bou pró caralho mais belho", afirma com a costumeira suplesse.
O inesperado anúncio cai em saco roto, dado o fascínio do bando com as saltitantes insígnias da jovem artista de variedades na TV.
- "Bou pró caralho mais belho!!!!!!", vocifera novamente Vitorino na tentativa de chamar a atenção da horde.
Faz-se silêncio. Aliás, a TV estivera em mute todo este tempo.
- "Para onde, caralho?", indaga expectante o mais anafadito do grupo, um senhor de meia idade de t-shirt branca com a inscrição "Freamunde
- "Sei lá. O gajo disse Roma. Onde é essa merda, caralho?", questiona gentilmente o jovem, ainda semi-abananado com a notícia.
| "Io sono spettacolare" |
Porém, a conclusão é quase unânime, e solenemente transmitida pelo Zé Coxo, jovem trintão de boné JCA ofertado pelo Zé Mota no final de um inesquecível Paços 1 - Ovarense 1 em 2004.
- "Oube lá, Bitorino...essa merda é no estrángeiro."
A notícia atinge o mancebo como uma carícia matrimonial do Paco Bandeira:
- "Eu? No estrángeiro? Mas a única bez que fui ao estrángeiro foi quando fui jogar com o Freamunde à Lixa", asseverou um Vitorino confuso com a geografia nacional.
- "Ouvi dizer que no estrángeiro as pessoas têm 3 metros de altura e cabelo verde", afirmou cauteloso o senhor anafado.
Perante o ar cada vez mais assustado de Vitorino, o tipo mais magrinho do grupo - conhecido por ser o habitante de Freamunde com a maior colecção de postais do Bozinoski de férias - pôs água na fervura. Eis Quim Cowboy, boçal e roufenho:
- "Caro amigo, excelentíssimo colega de viagem na sinuosa auto-pista da vida. Peço mil perdões por interromper esta salutar tertúlia de cariz geográfico, porém penso ter informações relativamente ao paradeiro de tal metrópole. Assevero-o de forma absolutamente humilde e despretensiosa, dado que a máxima socrática "só sei que nada sei" se mantém curiosamente actual. Todavia, creio que vos referis à Pátria de Vittorio Emanuelle II."
O silêncio torna-se ensurdecedor, apenas quebrado pelos súbitos urros do confuso bando. Zé Coxo enrola-se em posição fetal, agarrado à cabeça. Toni Viagra esmaga cadeiras na parede, qual incrível Hulk tomado de fúria. Dois dos restante convivas berram desesperados, enquanto estilhaçam garrafas de RC Cola na testa.
Contudo, Vitorino fita Quim Cowboy de olhos arregalados e tom sereno, exortando-o afectuosamente a desenvolver o tema abordado:
- "Oube lá, queres levar um testo na fronha? Fala português, caralho."
Quim Cowboy ajeita nervoso o chouriço que guarda no bolso da camisa Fabio Lucci, beija sofregamente o cromo de Pesaresi que traz sempre consigo na carteira, e solta um ansioso "Itália".
- "Ô?", indaga sagazmente Vitorino. "A cena das pizzas?"
- "Certamente, camarada. A Itália, oficialmente denomeada República Italiana, é uma república parlamentar unitária localizada no centro-sul da Europa. Ao norte, faz fronteira com França, Suíça, Áustria e Eslovénia ao longo dos Alpes. Ao sul.."
A grosseira exposição de Quim Cowboy é felizmente interrompida por uma garrafa de Snappy que encontra ruidosamente a parte de trás do seu crâneo.
Vitorino dirige-se calmamente para a saída, enrolando um pensativo elástico entre os dedos, de olhar fixo no chão. A sua vida está prestes a mudar.
O jovem cantarola entredentes as primeiras estrofes da melodia "Sonhos de Menino", de Tony Carreira.
De semblante sonhador, ergue suavemente o queixo e balbucia com elegância:
"Sou um emigrante, caralho."
Cinco Verões volvidos, Vitorino está de retorno à casa de partida.
Roma ficou para trás, e os sonhos adiados. Na caçadeira futebolística carrega agora as memórias de tiros disparados na prestigiosa Liga dos Campeões da UEFA, carrinhos mal temporizados em San Siro, passes transviados no Delle Alpi e um olhar crítico in loco à crise da dívida grega.
Pelo meio, um "buenos dias Matosinhos" com os "aviões lá 'trás" e a indignidade do clube detentor de seu passe ter pago 270,000 € para se livrar dele por uma época.
Verão de 2012.
Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume.
Um dia normal para o moço, que coloca cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca, e sussurra sorridente:
"Estou de volta, caralho."
terça-feira, março 08, 2011
Quem Vê Caras Não Vê Relvados
| Quando não há jogos, este recinto polidesportivo também serve para mini-safaris |
| Chico Sliva: "É dos carecas que elas gostam mais". |
| Paulo Sousa: "Olha-me só esta m..."! |
| Tarcísio: "As orelhas não são postiças". |
| Luiz Carlos: "Não só ladro como também mordo". |
| Sougou: "Bah". |
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Os Gordos Somos Nós
- Rochemback;
- Miguel Veloso;
- A esposa do protector e progenitor de Miguel Veloso, quando grávida deste, a comer pastéis de nata de forma alarve depois de embuchados dez menus Big Mac XL e com o Rochemback às cavalitas, depois deste ter passado três meses no Brasil apenas a comer a gordura da picanha com o mínimo de movimento possível.
Pois bem. Se quanto à última hipótese não subsistem dúvidas relativamente à adiposidade envolvida, pese embora a sua aderência apenas indirecta ao futebol, quanto aos buchas de Alvalade a realidade factual surpreende os mais distraídos.
Segundo a fórmula de cálculo do famoso IMC – Índice de Massa Corporal, Miguel Veloso nem sequer é gordo: com os seus simpáticos 24,4 de IMC, Miguel Veloso é, pasme-se, “normal”. Quem diria. A ciência, porém, não nos deixa mentir.
E Rochemback, de quem esperaríamos no mínimo ter um pneuzinho a mais, a bunda um pouco descaída, uns papos no pescoço ou algo do género, deixa-nos de boca aberta: o brasileiro apresenta uns saudáveis 24,8 e, embora no limiar do excesso de peso, é também um tipo “normal”. Ou seja, a lentidão que é a sua imagem de marca não é consequência da sua massa corporal, mas apenas feitio. E que feitio.
É um pouco mais a norte que encontramos os verdadeiros gordos do futebol indígena. Curiosamente, dois guarda-redes, que bem poderiam ter sido dois guarda-tachos, tal o apetite voraz que os caracteriza.
A temporada 2007/08 do Freamunde iniciou-se sob nuvens pesadas e um ambiente carregado. Os problemas eram notórios e difíceis de depurar. Existia uma concorrência apertada para a baliza e era quase impossível que dois egos tão gigantes como os que são apresentados de seguida não chocassem entre si, de tão desmesurados que eram.
A escolha era tão difícil que o técnico Jorge Regadas optou pelo terceiro guarda-redes, deixando estes dois volumosos jogadores a lutar entre si num restaurante qualquer. Então eles decidiram-se por um tira-teimas épico, onde ganharia aquele que mais conseguisse enfardar sem rebentar. Valia tudo, desde comer resíduos de lipoaspiração até antropofagia, excepto comer pacotes de açúcar inteiros.
Para já, Tó Figueira tem alguma vantagem: partiu na pole-position, devorou 3 pratos de cozido à portuguesa, metade da vaca que aparece nos produtos “La Vache Qui Rit” e toda a colecção dos gordurosos frascos de gel do Rui Santos; Rui Ribeiro também vai bem, mas para além dos três quilos de arroz de pato, ainda só comeu dois ou três placards publicitários à volta do campo do Freamunde e está com dificuldades em mascar as partes mais recônditas da sua fritadeira.
Ao pé destes dois, Rochemback e Miguel Veloso são uns meninos, Miguel Veloso de forma literal.
Feliz Natal e que Rudi esteja convosco.
domingo, junho 29, 2008
Pobre Bock
Um golo mais, um gole a mais.
Fartura e esplendor, espuma e gás. Um ponta-de-lança com propensão para trocadilhos fáceis.
Fernando Oliveira nasceu no Porto, nos idos de 1975. Formou-se como jogador no azul-e-branco clube local. Aí, presume-se, ganhou aptidões únicas. Uma relação orgásmica com o golo. Um epíteto que marca, de forma indelével, todo o futebol nortenho. Fernando é Bock, recebeu de braços e goelas abertas a sua notável alcunha. Bock é, sem complacências, um super goleador esquecido, poeta maldito do golo, homónimo de cerveja famosa, tudo num só corpo sedento de sentir as redes a balouçar.
Podia ser ficção. Talvez um Robin Hood das divisões inferiores. Quiçá um modesto Hercule Poirot a detectar as pistas do golo. Ou um rebelde incompreendido, o James Dean de Vizela. Mas não. Bock e a sua desdita são cruelmente reais, como mais um despiste no IP4.
A Bock só lhe faltou ser, realmente, super. Domingo após Domingo, Bock cirandou pelas hospitaleiras localidades entre Douro e Minho, no seu afã habitual por entre defesas incautos e guarda-redes desamparados. Labutou, porfiou, alcançou. Bock não parou. Bock facturou e facturou, encheu de alegria os adeptos locais. Glória. Esplendor. O terror dos adversários, sempre com um sorriso humilde a transbordar-lhe da boca. Chuteiras afinadas e remates certeiros, a vida de Bock confunde-se com o golo, para ele vive, dele sobrevive. Bock libertou Freamunde dos jugos neo-imperialistas de Paços de Ferreira, vizinhos aburguesados da Primeira Liga, deu-lhes uma razão para acreditar que era possível ser maior e melhor.
Uma eterna promessa que aguardou pela concretização… A história de Bock é tão linda quanto trágica, porquanto Bock obteve um sucesso local esmagador que nunca extravasou os muros imaginários da II Divisão, a despeito de tanto golo, tanta alegria proporcionada, tanto abraço de companheiro e de aficionado.
Bock podia ser mais uma atracção da tasca, mais um jogador de sueca ou dominó. Mas não; não se resignou e forneceu-nos, a todos nós, o verdadeiro sentido da vida: nunca desistir, sonhar até morrer, marcar um golo aqui e ali. Em Freamunde ou em Caldas de Vizela, resiste e esquece-te que te chamas Fernando Oliveira, a vida brilhará àquele que estende a esperança e a alegria aos que lhe seguem, figuras sombrias do fado que é esta vida de anonimato.
Este predador perdido no obscurantismo, vampiro da grande área, marcou que se fartou. Sempre mais ou menos ignorado pelos menos informados, mais interessados em produtos instantâneos ao olhar, nos grandes e caros artigos de montra, tipo Postigas, Nunos Gomes e Pauletas. Bock lá estava, atrás, furando marcações, atento à linha do fora-de-jogo, remetido para as prateleiras mais recônditas. Um modesto culto da personalidade, bem à sua imagem, desenvolveu-se à sua volta, reclamando-lhe o estatuto.
Passou por Maia, Amarante e Lixa, dali abalou como folha caduca voando ao vento, já com o olhar em Freamunde, onde explodiria, versejando ao ritmo do último toque em direcção às malhas. Pensavam os adeptos, este tem mesmo que sair, é muito bom, com demasiado gás para conseguirmos retê-lo por aqui, nos confins do semi-profissionalismo futebolês lusitano. Um Bock topo de gama. Saiu para o que muitos consideravam uma escalada progressiva rumo ao topo do mundo. O que se seguiu foi Trofense, Marco, Ermesinde, Marco e Leixões. A arrancada tardava. Bock lá ia amansando a bola, indicando-lhe com meiguice “o golo é já aqui”. Mas o sucesso, o reconhecimento, onde ficam?
A massa associativa de Freamunde resgatou de novo o seu filho adoptivo pródigo. Relançou de novo todo o seu instinto goleador. Hoje, a contabilidade dos golos já ultrapassa os cem, foi duas vezes melhor goleador dos campeonatos nacionais, médias inclusivamente superiores a um golo por jogo. E, já a perspectivar o ocaso desta incompreensivelmente desconhecida carreira, regressou ao segundo escalão português. Podia ser desta. Tinha voltado a subir o degrau, as ambições eram legítimas. Debalde. As nuvens não tardaram.
Os últimos ecos deram conta de um desaguisado entre o treinador dessa equipa, o Vizela, por sinal carente de golos, e Bock. Bock, pura e simplesmente… não jogava! Não tinha oportunidade de explanar todo o seu manancial de remates e cabeceamentos fatais, não podia fazer o que mais gostava. Mais uma vez, todas as portas ilustres se fecharam, desprezando o seu currículo construído com suor e golos. Não teve alternativa: empacotou a trouxa e regressou, outra vez, aonde lhe conseguiam dar crédito: Freamunde. A propósito da despedida, o amargurado Bock confidenciou: “No dia da rescisão o técnico fugiu de mim, evitou falar comigo e não esteve na reunião que tive com a direcção. Tive de pedir ao presidente para me permitir ir ao balneário despedir dos colegas.”
Em Freamunde agradeceram. Com muita comiseração, assistem ao seu actual símbolo de volta aos únicos balneários onde sempre se sentiu acarinhado, mesmo sabendo que tal só é possível por manifesta desatenção dos grandes senhores do futebol. Ninguém quer saber de Bock. Ninguém quer olhar para os golos que Bock marca. Ninguém quer um avançado português competente nas suas fileiras. Ninguém quer mais um nome esquisito para ombrear com Sokotas, Kikins ou Buenos.
Bock resignou-se, enfim. 31 anos já não dão azo a grandes utopias. Está destinado a ser o profeta dos mais fracos, um anti-herói forçado pelas circunstâncias mais ou menos funestas que se atravessam no percurso da gente esforçada, mas sem o favorecimento dos astros. Uma história que acabou estranhamente como tantas outras, depois de tanto fulgor evidenciado.
Bock desabafou: “Encontro-me no auge das minhas capacidades como jogador e goleador e só lamento não conseguir concretizar o sonho de jogar na SuperLiga. Cada um nasce para o que nasce, e se calhar, por muito que dê nas vistas, não sairei deste escalão. Mas se tiver que ser assim, que seja sempre ao serviço do Freamunde”.
--------------------------------NOTA: Este belo texto foi redigido pelo nosso novo colaborador, que em breve fará a sua primeira aparição em conferência de imprensa, devidamente adornado com um boné laranja da JCA. Que seja a primeira de muitas investidas gloriosas, e que o destino não lhe deixe apenas participar num par de treinos, tal qual Rushfeld ou Luzhny. Um massivo Bem-Haja, e seja bem vindo.