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sábado, março 16, 2013

Estilo ao Alcance de Todos


As exportações estão na moda e a moda está nas exportações. Por todo o lado, a moda desportiva vintage portuguesa espalha charme, glamour e bom gosto. Atente-se no orgulho com que o laureado Brad Pitt enverga as malhas do Desportivo das Aves mid-90’s, com o vigoroso patrocínio Autoni. Pitt mostra que é possível exibir um grande estilo mesmo com as roupas normalmente associadas ao Prof. Neca.  Angelina sorri, confiante.


George Clooney é outra vedeta de Hollywood que não resiste ao encanto das vestimentas lusas. Nem mesmo ao sair das gravações do seu spot publicitário para a Nespresso se coíbe de mostrar ao mundo a sua predilecção pelo portuguesíssimo Café Delta e, consequentemente, pelo torrefacto equipamento do Campomaiorense, marca Tepa, um modelo muito contemporâneo. É provável que tamanho desaforo à Nespresso não caia bem junto dos mesmos, mas Pedro Morcela já se disponibilizou para prestar todo o apoio necessário a George Clooney caso haja algum stress.


No mundo da música, as estrelas tecem loas à qualidade da estamparia portuguesa, do techno à world music. Até os inoxidáveis Metallica desse maluco que é o James Hetfield sucumbiram perante o arrojo do equipamento Adidas do Estoril 1997-98, principalmente pelo fogoso patrocínio do Big Show Sic, que tantas e tão inesquecíveis tardes de divertimento popular e zoófilo nos proporcionou. A combinação de cores e temas pode parecer estranha. E, na realidade, é mesmo estranha.


Rodando a agulha para o lado da política, é com algum espanto que notamos que até nas latitudes mais improváveis se notam os efeitos do tsunami estilístico da antiga II Divisão de Honra. Soube-se agora, através de uma fuga informação privilegiada, que Kim Yong-il, esse caricatural líder coreano, apenas se permitia a quebrar o seu rígido protocolo de vestuário com as sóbrias camisolas patrocinadas pela Reflux do Penafiel 1995. Vermelho, com algumas pinceladas de negro e amarelo, cores bem socialistas. Ai de quem não sorrisse.


Quando Christine Lagarde, a habitualmente sóbria directora do temido FMI, precisa de dar mais cor ao seu discurso opta por trajar o jersey do União da Madeira 1994, patrocínio Prégaia. Não é uma escolha qualquer – como uma líder multi-regional, Lagarde percebe que a harmonia entre os vários povos é bem-vinda e, como tal, é perfeitamente lógico que se vista com o emblema dos anos 90 que mais se celebrizou pela coexistência relativamente pacífica de várias nacionalidades. Lagarde, aliás, até passa por sósia do Lepi actual.


Até Barack Obama, que dispensa apresentações, aprecia sentir o conforto da camisola esquisita do Boavista do início dos anos 90 nos seus momentos de lazer. O desporto pode ser outro, mas o impacto do patrocínio Vila Flor no axadrezado que foi um dia de Nogueira, um plácido Cristo no Bessa, é transversal a todos os desportos, credos, raças e culturas, para além de reforçar a imagem de proximidade do presidente com o povo. E Michelle Obama tem uma camisola com o patrocínio Teresinha, que usa para jogar às (primeiras-)damas.

No frio siberiano, Vladimir Putin caminha sem medo. Desafiante, implacável e sem pingo de sangue a correr-lhe nas veias, o touro russo exala uma aura de invencibilidade. Muito desse prestígio deve-se ao saudável equipamento do Alverca da sua belle-époque primodivisionária. A preferência de Putin pelo Alverca remonta aos tempos em que o seu compatriota Faizulin conduziu uma memorável missão de espionagem futebolística no Ribatejo – o joelho original de Mantorras está algures perdido no Kremlin, diz-se à boca cheia.
O traje também pode indiciar o estado de uma relação. Aqui vemos os famosos Robert Pattinson e Kristen Stewart, na sua fase aparentemente platónica. Por enquanto, era só sorrisos e  vaidade. Ele, com um modelo Paços de Ferreira – Moliday, de fabricante obscuro; ela, com as cores do seu inimigo figadal, o Freamunde – Capital do Móvel, marca Joma. Era um equilíbrio instável entre vampiros que só podia dar sangue. Como efectivamente deu.


Os proxenetas também não ficaram indiferentes à moda desportiva portuguesa. E em época de crise no consumo, incluindo o sexual, há que ser inovador. Agora, já é habitual encontrarmos meninas pelas bermas das estradas ostentando o equipamento do Moreirense com o patrocínio De Borla. Marketing agressivo? Publicidade enganosa? Fica ao seu critério... Mas nada melhor do que experimentar antes de formar a sua opinião.


Exemplo extremo do interesse pelo imaginário futebolístico do final de século é o demonstrado pelos detentores dos direitos do Superhomem. Eles adquiriram os direitos de imagem da mítica camisola vestida por Botende ao próprio guardião e a partir de agora o Superhomem terá dois fatos oficiais: o do costume e o de Botende. A alteração do catálogo provou-se um sucesso. Botende encheu-se de guita e o Superhomem ficou um pouco mais imune à kriptonite, devido às estranhas propriedades da camisola Saillev.


Para finalizar, uma despedida. O ex-papa Bento XVI não quis dizer adeus sem revelar a sua profunda gratidão a missionários tão benquistos no Vaticano, como Serifo, Constantino ou Cao, que, sob o manto Leça – Imoloc, faziam com que adversários, árbitros e público em geral rezassem pela sua sorte. O papa demissionário não podia deixar de reconhecer a força de espírito que aquele equipamento lhe deu nas horas mais difíceis, quando a fé parecia vacilar: a fé vacilava e, pumba!, lá vinha uma aparição de um Alfaia em cima de um Tozé a ceifar a fé por trás, reanimando-a. De uma forma brutal, é certo, mas aquilo de facto espevitava-a para a vida. É assim, ínvios são os caminhos religiosos. Uma vez prestada a homenagem, o seu coração pôde entrar mais aliviado no mosteiro, com a camisola Leça - Imoloc a voar por entre os fumos da Praça de São Pedro.

terça-feira, agosto 07, 2012

Vitorino, o Emigrante



"vai devagar, emigrante"
Verão de 2007. 

Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume.

Um dia normal para o moço, que colocara cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca. 

Lá vai Vitorino, filho da terra, estimado por todos, transmitindo carradas de monóxido de carbono para a atmosfera. 


Lá vai Vitorino, inimigo público número um da camada de ozono, cumprimentando todos à sua passagem. 

O Acácio da frutaria, que acena carinhosamente. 
O Sr. Fialho da drogaria, que lhe cospe impropérios derivados da falta de paciência para com o infernal chinfrim vomitado pelo escape da motorizada. 
O Macedo da sala de chuto, que lhe endereça um salutar e bonacheirão "Tudo de bom!" de bochecha rosada. 

Vitorino chega ao café, coloca cuidadosamente uma viscosa bisga no canto do passeio e estaciona a Casal-Boss em cima dos caixotes de fruta. 
"É mesmo à Vitorino", exclamam sorridentes (e babados) os convivas que vegetam à porta do estabelecimento, sinceros admiradores da técnica apurada na arte de endereçar uma bela e consistente bisga enquanto se mantém simultâneamente um SG Ventil repousando nos lábios. 

Vitorino, o orgulho de Freamunde, é abraçado por todos e cumprimentado com os mais doces impropérios (e simpáticas referências à idoneidade de sua Mãe), sinal do mais belo e sincero male-bonding. 

Nisto, o Hino da Alegria enche o estabelecimento - em versão midi. 

É o alcatel do Vitorino, que toca impaciente. O jovem saca da pequena bolsinha preta CK pendurada ao cinto e leva o aparelho à boca. 
Segue-se um alegre porém digno "Atão, caralho?" 

Mas cedo se dissolve o ar casual de Vitorino. 
O sobrolho franze-se em tom de atenção redobrada. 
Adopta um semblante sério, profissional. 

Algo se passa. 

Os convivas em seu redor ignoram-no, viram a sua atenção para o novo videoclip da Ana Malhoa, que agracia os ecrãs da TV do café, obra e graça do Made in Portugal.
Vitorino retorque à chamada telefónica em staccato de tom afirmativo e expectante. 
- "tá bem, caralho", são as últimas palavras docemente proferidas pelo jovem antes de voltar a guardar o telemóvel na sua bolsinha de cinto Louis Vuitton. 

Sem expressão na ruborizada face, Vitorino caminha em direcção ao inerte grupo ainda fixado nos atributos da filha de José Malhoa. 
- "Bou pró caralho mais belho", afirma com a costumeira suplesse. 

O inesperado anúncio cai em saco roto, dado o fascínio do bando com as saltitantes insígnias da jovem artista de variedades na TV. 

- "Bou pró caralho mais belho!!!!!!", vocifera novamente Vitorino na tentativa de chamar a atenção da horde. 

Faz-se silêncio. Aliás, a TV estivera em mute todo este tempo. 

- "Para onde, caralho?", indaga expectante o mais anafadito do grupo, um senhor de meia idade de t-shirt branca com a inscrição "Freamunde Quase Capital do Móvel". 

- "Sei lá. O gajo disse Roma. Onde é essa merda, caralho?", questiona gentilmente o jovem, ainda semi-abananado com a notícia. 


"Io sono spettacolare"
Instala-se a confusão. Cada cabeça, sua sentença. 

Porém, a conclusão é quase unânime, e solenemente transmitida pelo Zé Coxo, jovem trintão de boné JCA ofertado pelo Zé Mota no final de um inesquecível Paços 1 - Ovarense 1 em 2004. 
- "Oube lá, Bitorino...essa merda é no estrángeiro." 

A notícia atinge o mancebo como uma carícia matrimonial do Paco Bandeira: 
- "Eu? No estrángeiro? Mas a única bez que fui ao estrángeiro foi quando fui jogar com o Freamunde à Lixa", asseverou um Vitorino confuso com a geografia nacional. 

- "Ouvi dizer que no estrángeiro as pessoas têm 3 metros de altura e cabelo verde", afirmou cauteloso o senhor anafado. 

Perante o ar cada vez mais assustado de Vitorino, o tipo mais magrinho do grupo - conhecido por ser o habitante de Freamunde com a maior colecção de postais do Bozinoski de férias - pôs água na fervura. Eis Quim Cowboy, boçal e roufenho: 
- "Caro amigo, excelentíssimo colega de viagem na sinuosa auto-pista da vida. Peço mil perdões por interromper esta salutar tertúlia de cariz geográfico, porém penso ter informações relativamente ao paradeiro de tal metrópole. Assevero-o de forma absolutamente humilde e despretensiosa, dado que a máxima socrática "só sei que nada sei" se mantém curiosamente actual. Todavia, creio que vos referis à Pátria de Vittorio Emanuelle II." 

O silêncio torna-se ensurdecedor, apenas quebrado pelos súbitos urros do confuso bando. Zé Coxo enrola-se em posição fetal, agarrado à cabeça. Toni Viagra esmaga cadeiras na parede, qual incrível Hulk tomado de fúria. Dois dos restante convivas berram desesperados, enquanto estilhaçam garrafas de RC Cola na testa. 

Contudo, Vitorino fita Quim Cowboy de olhos arregalados e tom sereno, exortando-o afectuosamente a desenvolver o tema abordado: 
- "Oube lá, queres levar um testo na fronha? Fala português, caralho." 

Quim Cowboy ajeita nervoso o chouriço que guarda no bolso da camisa Fabio Lucci, beija sofregamente o cromo de Pesaresi que traz sempre consigo na carteira, e solta um ansioso "Itália". 

- "Ô?", indaga sagazmente Vitorino. "A cena das pizzas?" 

- "Certamente, camarada. A Itália, oficialmente denomeada República Italiana, é uma república parlamentar unitária localizada no centro-sul da Europa. Ao norte, faz fronteira com FrançaSuíçaÁustria e Eslovénia ao longo dos Alpes. Ao sul.." 

A grosseira exposição de Quim Cowboy é felizmente interrompida por uma garrafa de Snappy que encontra ruidosamente a parte de trás do seu crâneo. 

Vitorino dirige-se calmamente para a saída, enrolando um pensativo elástico entre os dedos, de olhar fixo no chão. A sua vida está prestes a mudar. 
O jovem cantarola entredentes as primeiras estrofes da melodia "Sonhos de Menino", de Tony Carreira. 

De semblante sonhador, ergue suavemente o queixo e balbucia com elegância: 
"Sou um emigrante, caralho." 

Cinco Verões volvidos, Vitorino está de retorno à casa de partida. 
Roma ficou para trás, e os sonhos adiados. Na caçadeira futebolística carrega agora as memórias de tiros disparados na prestigiosa Liga dos Campeões da UEFA, carrinhos mal temporizados em San Siro, passes transviados no Delle Alpi e um olhar crítico in loco à crise da dívida grega. 
Pelo meio, um "buenos dias Matosinhos" com os "aviões lá 'trás" e a indignidade do clube detentor de seu passe ter pago 270,000 € para se livrar dele por uma época. 

Verão de 2012. 

Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume. 
Um dia normal para o moço, que coloca cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca, e sussurra sorridente: 

"Estou de volta, caralho." 

terça-feira, março 08, 2011

Quem Vê Caras Não Vê Relvados

Quando não há jogos, este recinto polidesportivo também serve para mini-safaris
Este é o recinto da Oliveirense, em meados de 2010. Vamos designá-lo apenas por “recinto”. Normalmente, as equipas profissionais jogam em relvados, um pouco por todos os cantos deste mundo redondo. Porém, chamar a isto “relvado” poderia induzir certo gado bovino e ovino em erro e provocar-lhe indigestões escabrosas. Denominar-lhe de “mato” também seria ofensivo para o verdadeiro mato. “Pista de motocrosse” seria mais plausível, mas faltam algumas rampas. E não, não é o areal de Alvalade em meados dos anos 90, o tal que fazia o Hadji sentir-se em casa, pese embora o esforço de emulação.

Mesmo que alguns duvidem, este era mesmo o “recinto” da Oliveirense, como atesta a publicidade à Simoldes, e a Oliveirense deixou-o posar ao natural para os “Cadernos d’A Bola”, despindo-se de preconceitos. Previsíveis ondas de polémica se levantaram após este desbocado nu integral. Antes destas ondas serem consideravelmente abafadas pelos socalcos de areia, lama, relva mumificada e matéria viscosa largada pelo nariz do Bafode na época passada, foi possível recolher algumas reacções do mundo da bola.

Chico Sliva: "É dos carecas que elas gostam mais".
Começando por alguém da casa: Chico Silva. É verdade, é mesmo um Chico a sério, quem diria?, 24 quilates, um Chico proveniente de uma casta seleccionada, que também é Silva a tempo inteiro. Este Chico não é excepção à longa tradição dos Chicos e, como tal, não é homem de virar a cara à adversidade. Aprecia campismo selvagem e pisca o olho ao naturismo. Adepto de documentários do National Geographic sobre sobrevivência em condições extremas, está convicto que vai ser capaz de passar uma bola em condições sem contrair uma lesão e vê a possibilidade de jogar neste recinto como uma oportunidade e não como uma ameaça. Até porque esta vai ser a sua casa e é bom que se vá habituando.

Paulo Sousa: "Olha-me só esta m..."!
Paulo Sousa, médio incansável do Paços de Ferreira, até pôs os bofes de fora. "Fosga-se, eu já disputei bolas em pântanos pejados de crocodilos com dentes mais afiados que os do Sá Pinto na fase pré-aparelho, mas isto é pior que o Adelino Ribeiro Novo". De facto, estava habituado a carregar pianos em pisos que até os búfalos considerariam indignos de pisar, mas isto parecia demais. Colhido pela surpresa de poder jogar neste recinto, Paulo Sousa olhou para os céus à procura de uma resposta que lhe apaziguasse o coração. E essa resposta chegou-lhe sob a forma de carrinho e embrulhado com um belo cartão amarelo de apresentação. O costume, portanto.


Tarcísio: "As orelhas não são postiças".
Mas surpresa, surpresa, foi a sentida por Tarcísio, defesa do Freamunde. “Oi? Como é?”, parece desabafar o desamparado brasileiro. “Hã”? Colhido pela estupefacção, Tarcísio temeu pela sua sorte. “Como é meismo? Vô botá meus péis nêssi gramado aí?... Olha aí, isso não é gramado pra eu”! Tarcísio viu-se grego, metido em palpos de aranha, fez trinta-e-uns por sei lá quantas linhas e suou as estopinhas para esconjurar o perigo. No processo, abateu duas ou três toupeiras que se levantaram dos buracos no chão. Sobreviveu mas não quer repetir a experiência. Antes fosse sodomizado pelo Luiz Carlos no balneário como se fosse o Último Tango em Freamunde. Com ou sem margarina (Nicolau) Vaqueiro.


Luiz Carlos: "Não só ladro como também mordo".
Luiz Carlos, o duro, podia perceber de sodomizações, mas recintos de jogo com uma manutenção pior que a do pior lavabo público do Chade não eram do seu agrado. É certo, favoreciam o seu jogo viril e directo, polvilhado com uma cabeçada e um balão extemporâneo aqui e ali, mas os seus rins ressentiam-se e pedras do tamanho do Dominguez ameaçavam tomar conta deles. A verdade é que o estilo de jogo de Luiz Carlos, uma espécie de Vidigal maldisposto, devia pouco ao estado do terreno. O jogo de Luiz Carlos é robótico, no sentido dos seus movimentos assemelharem-se ao do gajo de feiticeiro de Oz sem nenhum vestígio de óleo nas juntas – aparentemente, o Rui Costa recusou abrir mão do seu vasto portfolio de substâncias oleosas, alegando “ah, são cenas minhas e tal”, indo depois esbofetear um delegado ao jogo escolhido ao calhas no meio de uma confusão.

Sougou: "Bah".
Esperem aí, Rui Costa foi meter-se numa confusão? Bah, nada de especial, parece querer dizer Sougou. O arisco senegalês resignou-se. Não quer discutir mais. Se tiver que jogar nesse campo, olha, lá vai ter que ser. Pois, cá vamos indo, a vida é assim, umas vezes a correr como Forrest Gump junto às faixas, outras vezes abalroado sem dó nem piedade por centrais com níveis sofríveis de afectuosidade, e pronto, sempre é melhor do que andar a vender girafas de madeira esculpidas à mão em feiras de artesanato. Sougou é como se fosse o Mancha Negra, mas em bom, e todos nós somos Coronéis Cintra que andamos atrás dele para o ver fugir aos foras-de-jogo e serpentear por entre os defesas. Sougou tem tanto de velocista como de mártir e toda a gente tem pena dele, especialmente quando o vêem jogar em recintos como este.

Mas nas costas depois dizem que o Sougou cheira mal.

E não é por nada, mas contaram-me que vocês nem sabem o pivete que o Sougou larga depois dos jogos, assim quando está todo encharcado em suor.

Imaginem o que é estar fechado num balneário sem água e com o Sougou nestas condições sentado ao vosso lado a comer uma sandes de queijo.

Se calhar também desabafavam às escondidas.

Pá, foi o que eu ouvi dizer.

Que o Sougou é um mártir, que joga muito bem pelos flancos e que é gajo cinco estrelas, tudo bem.

Mas cheira mal e devia investir mais no Axe.


RUI SANTOS PERGUNTA:


Sougou devia usar desodorizante?

700800901 Sim, Axe.

700800902 Sim, marca branca.

700800903 Só quando fosse ver a namorada.

700800904 Não, nem pensar.

700800905 A culpa é do Xistra.




Resultados do inquérito da semana anterior:

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico?

Sim 9%

Não 65%

Prefiro gastar 0,60 € + IVA noutra coisa qualquer 23%

Zeferino Boal 3%

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Os Gordos Somos Nós

Quando se associa o adjectivo “gordo” ao substantivo “futebol” surgem normalmente três respostas:

- Rochemback;
- Miguel Veloso;
- A esposa do protector e progenitor de Miguel Veloso, quando grávida deste, a comer pastéis de nata de forma alarve depois de embuchados dez menus Big Mac XL e com o Rochemback às cavalitas, depois deste ter passado três meses no Brasil apenas a comer a gordura da picanha com o mínimo de movimento possível.

Pois bem. Se quanto à última hipótese não subsistem dúvidas relativamente à adiposidade envolvida, pese embora a sua aderência apenas indirecta ao futebol, quanto aos buchas de Alvalade a realidade factual surpreende os mais distraídos.

Segundo a fórmula de cálculo do famoso IMC – Índice de Massa Corporal, Miguel Veloso nem sequer é gordo: com os seus simpáticos 24,4 de IMC, Miguel Veloso é, pasme-se, “normal”. Quem diria. A ciência, porém, não nos deixa mentir.

E Rochemback, de quem esperaríamos no mínimo ter um pneuzinho a mais, a bunda um pouco descaída, uns papos no pescoço ou algo do género, deixa-nos de boca aberta: o brasileiro apresenta uns saudáveis 24,8 e, embora no limiar do excesso de peso, é também um tipo “normal”. Ou seja, a lentidão que é a sua imagem de marca não é consequência da sua massa corporal, mas apenas feitio. E que feitio.

É um pouco mais a norte que encontramos os verdadeiros gordos do futebol indígena. Curiosamente, dois guarda-redes, que bem poderiam ter sido dois guarda-tachos, tal o apetite voraz que os caracteriza.

A temporada 2007/08 do Freamunde iniciou-se sob nuvens pesadas e um ambiente carregado. Os problemas eram notórios e difíceis de depurar. Existia uma concorrência apertada para a baliza e era quase impossível que dois egos tão gigantes como os que são apresentados de seguida não chocassem entre si, de tão desmesurados que eram.

Rui Ribeiro, “el gordo” de Freamunde, devorava amiúde capões inteiros ao pequeno-almoço. Ganhou alguma notoriedade engolindo as bolas mais suculentas que lhe eram rematadas. Tinha ficado uma época quase em jejum de jogos e jejum é coisa que não liga com Rui Ribeiro. Nesta temporada, Rui Ribeiro jurara para si mesmo que iria devorar todas as sandes de leitão que vislumbrasse nos estágios da equipa, decidido a recuperar a seu estatuto. IMC = 27,2. Ou seja, “excesso de peso”.




Porém, Tó Figueira, “el glutón”, não estava pelos ajustes. Proveniente de Famalicão, Tó Figueira botava a mão aos doces conventuais com maior perícia do que botava a mão à bola. Tó Figueira, o terror de qualquer jantar de grupo, absorvia quantidades indescritíveis de alimento, desde doces da casa até presunto de Chaves. Uma vez durante um treino, quase que sorvia Bock de uma só penada, convencido que o notável avançado era mesmo uma cerveja fresquinha. Tó é Figueira porque ingeriu a árvore em vez de andar a escolher os frutos um a um, o que era uma trabalheira. IMC = 28,3. O que significa “excesso de peso”, a caminhar a passos largos para “obesidade grau I”.

A escolha era tão difícil que o técnico Jorge Regadas optou pelo terceiro guarda-redes, deixando estes dois volumosos jogadores a lutar entre si num restaurante qualquer. Então eles decidiram-se por um tira-teimas épico, onde ganharia aquele que mais conseguisse enfardar sem rebentar. Valia tudo, desde comer resíduos de lipoaspiração até antropofagia, excepto comer pacotes de açúcar inteiros.

O aperitivo estava no próprio plantel: o jovem e franzino Artur, uma espécie de Albert Hammond Jr. com algum jeito para a bola. Rui Ribeiro considerou que, com alguma boa vontade, o cabelo do apetitoso Artur assemelhava-se a algodão doce. Já Tó Figueira, deliciado com a qualidade de passe do guedelhudo Artur, afiou os dentes a pensar no delicioso petisco que seriam aquelas pernas e pés.


Para já, Tó Figueira tem alguma vantagem: partiu na pole-position, devorou 3 pratos de cozido à portuguesa, metade da vaca que aparece nos produtos “La Vache Qui Rit” e toda a colecção dos gordurosos frascos de gel do Rui Santos; Rui Ribeiro também vai bem, mas para além dos três quilos de arroz de pato, ainda só comeu dois ou três placards publicitários à volta do campo do Freamunde e está com dificuldades em mascar as partes mais recônditas da sua fritadeira.

Ao pé destes dois, Rochemback e Miguel Veloso são uns meninos, Miguel Veloso de forma literal.

E não podia deixar de abordar o tema Freamunde nem referir Bock sem colocar uma fotografia do mesmo. Bock existe, Bock está aqui, Bock penetra-nos a mente com o seu olhar assassino. Enquanto vocês liam este texto na diagonal, Bock facturou mais um golo.




Feliz Natal e que Rudi esteja convosco.

domingo, junho 29, 2008

Pobre Bock

A vida é isto mesmo, Fernando Oliveira.

Um golo mais, um gole a mais.

Fartura e esplendor, espuma e gás. Um ponta-de-lança com propensão para trocadilhos fáceis.

Fernando Oliveira nasceu no Porto, nos idos de 1975. Formou-se como jogador no azul-e-branco clube local. Aí, presume-se, ganhou aptidões únicas. Uma relação orgásmica com o golo. Um epíteto que marca, de forma indelével, todo o futebol nortenho. Fernando é Bock, recebeu de braços e goelas abertas a sua notável alcunha. Bock é, sem complacências, um super goleador esquecido, poeta maldito do golo, homónimo de cerveja famosa, tudo num só corpo sedento de sentir as redes a balouçar.

Podia ser ficção. Talvez um Robin Hood das divisões inferiores. Quiçá um modesto Hercule Poirot a detectar as pistas do golo. Ou um rebelde incompreendido, o James Dean de Vizela. Mas não. Bock e a sua desdita são cruelmente reais, como mais um despiste no IP4.

A Bock só lhe faltou ser, realmente, super. Domingo após Domingo, Bock cirandou pelas hospitaleiras localidades entre Douro e Minho, no seu afã habitual por entre defesas incautos e guarda-redes desamparados. Labutou, porfiou, alcançou. Bock não parou. Bock facturou e facturou, encheu de alegria os adeptos locais. Glória. Esplendor. O terror dos adversários, sempre com um sorriso humilde a transbordar-lhe da boca. Chuteiras afinadas e remates certeiros, a vida de Bock confunde-se com o golo, para ele vive, dele sobrevive. Bock libertou Freamunde dos jugos neo-imperialistas de Paços de Ferreira, vizinhos aburguesados da Primeira Liga, deu-lhes uma razão para acreditar que era possível ser maior e melhor.

Uma eterna promessa que aguardou pela concretização… A história de Bock é tão linda quanto trágica, porquanto Bock obteve um sucesso local esmagador que nunca extravasou os muros imaginários da II Divisão, a despeito de tanto golo, tanta alegria proporcionada, tanto abraço de companheiro e de aficionado.









Bock podia ser mais uma atracção da tasca, mais um jogador de sueca ou dominó. Mas não; não se resignou e forneceu-nos, a todos nós, o verdadeiro sentido da vida: nunca desistir, sonhar até morrer, marcar um golo aqui e ali. Em Freamunde ou em Caldas de Vizela, resiste e esquece-te que te chamas Fernando Oliveira, a vida brilhará àquele que estende a esperança e a alegria aos que lhe seguem, figuras sombrias do fado que é esta vida de anonimato.

Este predador perdido no obscurantismo, vampiro da grande área, marcou que se fartou. Sempre mais ou menos ignorado pelos menos informados, mais interessados em produtos instantâneos ao olhar, nos grandes e caros artigos de montra, tipo Postigas, Nunos Gomes e Pauletas. Bock lá estava, atrás, furando marcações, atento à linha do fora-de-jogo, remetido para as prateleiras mais recônditas. Um modesto culto da personalidade, bem à sua imagem, desenvolveu-se à sua volta, reclamando-lhe o estatuto.

Passou por Maia, Amarante e Lixa, dali abalou como folha caduca voando ao vento, já com o olhar em Freamunde, onde explodiria, versejando ao ritmo do último toque em direcção às malhas. Pensavam os adeptos, este tem mesmo que sair, é muito bom, com demasiado gás para conseguirmos retê-lo por aqui, nos confins do semi-profissionalismo futebolês lusitano. Um Bock topo de gama. Saiu para o que muitos consideravam uma escalada progressiva rumo ao topo do mundo. O que se seguiu foi Trofense, Marco, Ermesinde, Marco e Leixões. A arrancada tardava. Bock lá ia amansando a bola, indicando-lhe com meiguice “o golo é já aqui”. Mas o sucesso, o reconhecimento, onde ficam?

A massa associativa de Freamunde resgatou de novo o seu filho adoptivo pródigo. Relançou de novo todo o seu instinto goleador. Hoje, a contabilidade dos golos já ultrapassa os cem, foi duas vezes melhor goleador dos campeonatos nacionais, médias inclusivamente superiores a um golo por jogo. E, já a perspectivar o ocaso desta incompreensivelmente desconhecida carreira, regressou ao segundo escalão português. Podia ser desta. Tinha voltado a subir o degrau, as ambições eram legítimas. Debalde. As nuvens não tardaram.

Os últimos ecos deram conta de um desaguisado entre o treinador dessa equipa, o Vizela, por sinal carente de golos, e Bock. Bock, pura e simplesmente… não jogava! Não tinha oportunidade de explanar todo o seu manancial de remates e cabeceamentos fatais, não podia fazer o que mais gostava. Mais uma vez, todas as portas ilustres se fecharam, desprezando o seu currículo construído com suor e golos. Não teve alternativa: empacotou a trouxa e regressou, outra vez, aonde lhe conseguiam dar crédito: Freamunde. A propósito da despedida, o amargurado Bock confidenciou: “No dia da rescisão o técnico fugiu de mim, evitou falar comigo e não esteve na reunião que tive com a direcção. Tive de pedir ao presidente para me permitir ir ao balneário despedir dos colegas.”

Em Freamunde agradeceram. Com muita comiseração, assistem ao seu actual símbolo de volta aos únicos balneários onde sempre se sentiu acarinhado, mesmo sabendo que tal só é possível por manifesta desatenção dos grandes senhores do futebol. Ninguém quer saber de Bock. Ninguém quer olhar para os golos que Bock marca. Ninguém quer um avançado português competente nas suas fileiras. Ninguém quer mais um nome esquisito para ombrear com Sokotas, Kikins ou Buenos.

Bock resignou-se, enfim. 31 anos já não dão azo a grandes utopias. Está destinado a ser o profeta dos mais fracos, um anti-herói forçado pelas circunstâncias mais ou menos funestas que se atravessam no percurso da gente esforçada, mas sem o favorecimento dos astros. Uma história que acabou estranhamente como tantas outras, depois de tanto fulgor evidenciado.

Bock desabafou: “Encontro-me no auge das minhas capacidades como jogador e goleador e só lamento não conseguir concretizar o sonho de jogar na SuperLiga. Cada um nasce para o que nasce, e se calhar, por muito que dê nas vistas, não sairei deste escalão. Mas se tiver que ser assim, que seja sempre ao serviço do Freamunde”.

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NOTA: Este belo texto foi redigido pelo nosso novo colaborador, que em breve fará a sua primeira aparição em conferência de imprensa, devidamente adornado com um boné laranja da JCA. Que seja a primeira de muitas investidas gloriosas, e que o destino não lhe deixe apenas participar num par de treinos, tal qual Rushfeld ou Luzhny. Um massivo Bem-Haja, e seja bem vindo.

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