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quarta-feira, julho 17, 2013

Oito Maravilhas



No Verão de há 15 anos, não era a Expo ’98 nem o Portugal “in fashion” de Guterres que faziam sonhar o povo. Todos sabíamos que o que aquecia os nossos corações era o aproximar de mais uma época de bola… e esta colecção em particular, de uma qualidade gráfica a roçar os melhores trabalhos de 1940 (coincidentemente, outro ano de exposição lusa ao mundo).

Na pérola do Atlântico, este guardião belga cimentava a sua posição entre os postes. Um nome forte, suficientemente exótico mas razoavelmente pronunciável, e um queixo quadrado à lá Stan Smith. Foi o último de uma linhagem de guardiães da terra do Tintin que adocicaram as nossas cadernetas, depois dos bons auspícios de Hubart, passando pelo anti-vedetismo de Preud’Homme e decaindo para a marreca do De Wilde. Van der Straeten caiu injustamente no esquecimento, mas se quiserem podem visitar a sua página no Facebook e segui-lo só por uma questão de compaixão. Todos os likes serão bem-vindos e ajudarão Van der Straeten a fazer as pazes com o seu ego.

À frente de Straeten, Alex Bach. A grande dúvida à volta de Bach era se pronunciá-lo como “bache”, “baque” ou “barrh” – chamá-lo só Alex era quase sacrilégio depois do retumbante êxito de Alex, o Bunbury. A outra dúvida era se o tipo era mesmo descendente do compositor, o que poderia conferir-lhe um certo prestígio que nunca justificou em campo. Com tantas indecisões, Alex not Beethoven demorou a afinar marcações, falhou alguns tempos de salto, deu sinfonias de como não jogar em linha e foi escrever árias para outra freguesia finda esta época… para nunca mais voltar a jogar fora do seu país. O Passo Fundo, o Sapiranga e o Chapecoense que o digam.

Rodando a agulha para Chaves, damos de caras com uma cara sobejamente conhecida… aparentemente. Este parece, numa primeira instância, o velho Filipe, tão largamente dissertado nestas páginas etéreas. Mas numa vista mais cuidada, notamos que, na verdade, é o seu gémeo perdido, o Filife. Filipe era devastação, Filife era criação. Filipe cravava pitons, Filife cravava trocos para a disco. Filife é uma contracção anglicista de “feel” + “life”, “sente a vida”. Como todos os que saboreiam a vida no limite, Filife teve vida curta e desapareceu dos radares após esta temporada. Filipe não ficou atrás e também se eclipsou nesta temporada dos palcos maiores do futebol indígena.

No velho Salgueiral ainda pululavam estrelas cadentes do futebol. E quando estas faziam finca-pé e teimavam em rejeitar o solene Vidal Pinheiro, então arranjavam-se imitações que faziam corar os originais. Senão de espanto, talvez de embaraço. Eis Schuster, não o genial alemão, mas o prodigioso transmontano Rui Miguel, que fez gala do seu penteado à tigela e da sua cara sacada a um anúncio seminal das batatas Pála-Pála. Viveu a “personna” de Schuster (sem “c”) com muito afinco. Isso levou-o a inquietar-se rapidamente com os ares de Paranhos, desatando a correr meio mundo. Com direito a visitar o óbvio Chipre, onde distribuía autógrafos em que assinava “I’m The Real-Fake Schuster”. 

Voltemo-nos agora para Coimbra, onde damos de caras com uma cara bem conhecida do showbiz internacional: nada menos que o aclamado Febras. Não, não é o Febras, que também é uma eminência à sua maneira, mas é o Mickey. Médio laborioso e conhecido mundialmente por namorar a ratinha mais famosa do Universo, foi mui respeitado nas hostes beirãs, nomeadamente pela claque Mancha Negra. Até que caiu a moeda e pensaram “Oh diabo, então a Mancha Negra apoia o Mickey? Temos sido muito Patetas…”. O paradoxo atingiu dimensões colossais e, aqui d’el Coronel Cintra, Mickey foi forçado ao exílio. 

A mística conimbricense, contudo, continuou presente nas mãos do Sr. Vítor Alves. É verdade, houve um Pedro Roma antes de Pedro Roma. Este secular senhor, aliás, já pouco mais fazia do que carregar a mística, pois jogar era coisa que já lhe pesava demasiado nas articulações. E só Deus sabia o quanto lhe custava aguentar com a mística e quantos emplastros foram necessários para levar a mística a bom porto. Nesse sentido, o trabalho que menos lhe custava era babar-se para uma garrafa enquanto estava no banco, garrafa essa que depois era ofertada como “água mineral da boa” aos caloiros da equipa.

Nesta turma de estudantes pontificava ainda o monossilábico Tó Sá, bastas vezes referenciado por aqui, mas cujo perfil só agora é condignamente exposto. Foi lateral de créditos firmados, pertencente a uma casta em que abundavam Tós no panorama nacional. E Zés e médios obscuros com II no nome também. E chegava a haver, numa conjugação perfeita, o Tó Zé II. E Tó Zés e Zé Tós no mesmo plantel. E quando Sá ainda era sinónimo de apelido de goleador de culto para alguns (sim, estamos em pensar em ti, Moreira de Sá) (não, por acaso não estávamos a pensar em ti, Orlando Sá) e não nome do meio para futuras vedetas pseudo-boxistas.

Pois, o Bira… Bira? “Mas quem é o Bira?”, é a nossa pergunta e a dos próprios companheiros de equipa, desde o Hugo Costa ao Caju. Se o Bira era bera… é bem provável que sim. A qualidade gráfica do cromo, essa sim, é indiscutivelmente (olá, Guilherme Aguiar) bera. Podemos dizer que Bira gostava de beber cerveja por uma palhinha. Ou podemos dizer que Bira dava cambalhotas sempre que ouvia Chitãozinho & Xoróró. Ou ainda que ele contava sempre aquela anedota do palhaço que foi encontrado no deserto todo nu e com um baralho de cartas na mão e ninguém percebia. Pode ser verdade, pode ser especulação, ninguém sabe e ninguém se importa. E isto é tudo o que se nos apraz dizer sobre o Bira. Já não é mau.

sábado, março 16, 2013

Estilo ao Alcance de Todos


As exportações estão na moda e a moda está nas exportações. Por todo o lado, a moda desportiva vintage portuguesa espalha charme, glamour e bom gosto. Atente-se no orgulho com que o laureado Brad Pitt enverga as malhas do Desportivo das Aves mid-90’s, com o vigoroso patrocínio Autoni. Pitt mostra que é possível exibir um grande estilo mesmo com as roupas normalmente associadas ao Prof. Neca.  Angelina sorri, confiante.


George Clooney é outra vedeta de Hollywood que não resiste ao encanto das vestimentas lusas. Nem mesmo ao sair das gravações do seu spot publicitário para a Nespresso se coíbe de mostrar ao mundo a sua predilecção pelo portuguesíssimo Café Delta e, consequentemente, pelo torrefacto equipamento do Campomaiorense, marca Tepa, um modelo muito contemporâneo. É provável que tamanho desaforo à Nespresso não caia bem junto dos mesmos, mas Pedro Morcela já se disponibilizou para prestar todo o apoio necessário a George Clooney caso haja algum stress.


No mundo da música, as estrelas tecem loas à qualidade da estamparia portuguesa, do techno à world music. Até os inoxidáveis Metallica desse maluco que é o James Hetfield sucumbiram perante o arrojo do equipamento Adidas do Estoril 1997-98, principalmente pelo fogoso patrocínio do Big Show Sic, que tantas e tão inesquecíveis tardes de divertimento popular e zoófilo nos proporcionou. A combinação de cores e temas pode parecer estranha. E, na realidade, é mesmo estranha.


Rodando a agulha para o lado da política, é com algum espanto que notamos que até nas latitudes mais improváveis se notam os efeitos do tsunami estilístico da antiga II Divisão de Honra. Soube-se agora, através de uma fuga informação privilegiada, que Kim Yong-il, esse caricatural líder coreano, apenas se permitia a quebrar o seu rígido protocolo de vestuário com as sóbrias camisolas patrocinadas pela Reflux do Penafiel 1995. Vermelho, com algumas pinceladas de negro e amarelo, cores bem socialistas. Ai de quem não sorrisse.


Quando Christine Lagarde, a habitualmente sóbria directora do temido FMI, precisa de dar mais cor ao seu discurso opta por trajar o jersey do União da Madeira 1994, patrocínio Prégaia. Não é uma escolha qualquer – como uma líder multi-regional, Lagarde percebe que a harmonia entre os vários povos é bem-vinda e, como tal, é perfeitamente lógico que se vista com o emblema dos anos 90 que mais se celebrizou pela coexistência relativamente pacífica de várias nacionalidades. Lagarde, aliás, até passa por sósia do Lepi actual.


Até Barack Obama, que dispensa apresentações, aprecia sentir o conforto da camisola esquisita do Boavista do início dos anos 90 nos seus momentos de lazer. O desporto pode ser outro, mas o impacto do patrocínio Vila Flor no axadrezado que foi um dia de Nogueira, um plácido Cristo no Bessa, é transversal a todos os desportos, credos, raças e culturas, para além de reforçar a imagem de proximidade do presidente com o povo. E Michelle Obama tem uma camisola com o patrocínio Teresinha, que usa para jogar às (primeiras-)damas.

No frio siberiano, Vladimir Putin caminha sem medo. Desafiante, implacável e sem pingo de sangue a correr-lhe nas veias, o touro russo exala uma aura de invencibilidade. Muito desse prestígio deve-se ao saudável equipamento do Alverca da sua belle-époque primodivisionária. A preferência de Putin pelo Alverca remonta aos tempos em que o seu compatriota Faizulin conduziu uma memorável missão de espionagem futebolística no Ribatejo – o joelho original de Mantorras está algures perdido no Kremlin, diz-se à boca cheia.
O traje também pode indiciar o estado de uma relação. Aqui vemos os famosos Robert Pattinson e Kristen Stewart, na sua fase aparentemente platónica. Por enquanto, era só sorrisos e  vaidade. Ele, com um modelo Paços de Ferreira – Moliday, de fabricante obscuro; ela, com as cores do seu inimigo figadal, o Freamunde – Capital do Móvel, marca Joma. Era um equilíbrio instável entre vampiros que só podia dar sangue. Como efectivamente deu.


Os proxenetas também não ficaram indiferentes à moda desportiva portuguesa. E em época de crise no consumo, incluindo o sexual, há que ser inovador. Agora, já é habitual encontrarmos meninas pelas bermas das estradas ostentando o equipamento do Moreirense com o patrocínio De Borla. Marketing agressivo? Publicidade enganosa? Fica ao seu critério... Mas nada melhor do que experimentar antes de formar a sua opinião.


Exemplo extremo do interesse pelo imaginário futebolístico do final de século é o demonstrado pelos detentores dos direitos do Superhomem. Eles adquiriram os direitos de imagem da mítica camisola vestida por Botende ao próprio guardião e a partir de agora o Superhomem terá dois fatos oficiais: o do costume e o de Botende. A alteração do catálogo provou-se um sucesso. Botende encheu-se de guita e o Superhomem ficou um pouco mais imune à kriptonite, devido às estranhas propriedades da camisola Saillev.


Para finalizar, uma despedida. O ex-papa Bento XVI não quis dizer adeus sem revelar a sua profunda gratidão a missionários tão benquistos no Vaticano, como Serifo, Constantino ou Cao, que, sob o manto Leça – Imoloc, faziam com que adversários, árbitros e público em geral rezassem pela sua sorte. O papa demissionário não podia deixar de reconhecer a força de espírito que aquele equipamento lhe deu nas horas mais difíceis, quando a fé parecia vacilar: a fé vacilava e, pumba!, lá vinha uma aparição de um Alfaia em cima de um Tozé a ceifar a fé por trás, reanimando-a. De uma forma brutal, é certo, mas aquilo de facto espevitava-a para a vida. É assim, ínvios são os caminhos religiosos. Uma vez prestada a homenagem, o seu coração pôde entrar mais aliviado no mosteiro, com a camisola Leça - Imoloc a voar por entre os fumos da Praça de São Pedro.

sábado, fevereiro 09, 2013

Acácio Pestana



Para quem não sabe, já existia um verdadeiro líder madeirense antes de Alberto João Jardim, José Manuel Coelho ou o Prof. Rui Mâncio. Chamava-se Acácio Pestana, o one-man-show do jornalismo desportivo ilhéu. Sempre na sombra dos mais metropolitanos Gabriel Alves ou José Nicolau de Melo, foi precocemente remetido para um injusto oblívio. Meus senhores, este senhor levou o desporto madeirense às costas durante anos e anos. Ele suportou praticamente sozinho as expensas de relatar jogos e comentar resumos de futebol insulares. Por isso, respeitinho. Se não fosse Acácio Pestana, nunca teríamos popularizado o Estádio dos Barreiros como “o Caldeirão” e jamais conheceríamos a existência da palavra “canícula”. Provavelmente, não teríamos o prazer de sentir aquele timbre tão característico a pintar-nos telas expressionistas na nossa imaginação, quando, colados ao rádio, ouvíamos Acácio descrever o “gol da turma forasteira, que vinha porfiando desde o início da etapa complementar”. Eram outros tempos, eram outros bigodes. Acácio Pestana multiplicava-se por toda a ilha. A seguir às bananas, era Acácio Pestana o produto mais exportado da Madeira. 
Era vê-lo em vários ecrãs em simultâneo no “Domingo Desportivo” de então, magnetizando a atenção de Rui Tovar. Por muito que gostássemos daquele móvel anacrónico estrategicamente colocado entre os apresentadores, com um telefone também muito estrategicamente colocado a fazer de bibelot e notássemos a falta de um naperon para completar aquela paisagem tão anos 80, era a omnipresença de Acácio que impressionava. E, por incrível que pareça, não havia imagens decentes de Acácio Pestana na internet. Até hoje. Demos mais sentido às nossas vidas. Recuperámos Acácio Pestana.

domingo, dezembro 23, 2012

Natal É Rudi (E Mais Qualquer Coisinha)



Natal é tradição. E a tradição de Natal é mais que um bolo-Rodolfo-Reis, é mais que uma árvore de Natal com embrulhos ao seu redor, é mais que as capas ridículas dos jornais desportivos. Tradição de Natal é Rudi.

Rudi, que por causa do seu belo penteado à tigela, ganhou a audição para novo vocalista dos Weezer, batendo Medane aos pontos. “Uma questão de atitude”, confidenciou-nos o management da banda. Portanto, a tradição é Rudi mas Rudi desafia a tradição. Já estou a ver “The Sweater Song” cantada em transmontano com sotaque balcânico e um clip cheio de alheiras.


Natal é Paixão. Natal é Hamori. Afinal o Natal é o quê?

O Natal é o que nós quisermos que seja, sempre quando quisermos que seja. Porém, a gente costuma dizer que primeiro vem o Paixão e só depois chega o Hamori. O Paixão é uma força assolapada que nos ataca de pitons em riste, pleno de rebaldaria e fogoso com os seus cabelos insubmissos que mais parecem uma hidra de sete cabeças. Já o Hamori chega de mansinho, instala-se subrepticiamente no nosso âmago, é discreto e lavadinho como se acabasse de sair do banho, mas não duvideis do seu forte pontapé. O Paixão passa bem sem o Hamori mas, não raras vezes, o Hamori começa após um tackle eficiente do Paixão. E por isso é que dissemos que primeiro vem o Paixão e só depois vem o Hamori. O que nem sempre é verdade, mesmo quando tudo nos leva a pensar o contrário.


Por exemplo, na situação acima, o carro nº1 conduzido pelo Paixão, um Peugeot 206 verde com aileron traseiro e luzinhas roxas a debruarem as suas partes baixas, avança maneiro pela estrada fora, com o stereo a debitar inanidades sonoras indiferente a tudo ao seu redor; está confiante que terá prioridade sobre o Hamori, a vetusta espécie de furgão branco com o nº2, que se aproxima vagarosamente do cruzamento pela sua esquerda. Contudo, há um ríspido sinal STOP que faz com que Paixão trave bruscamente, eventualmente com o auxílio do travão de mão, de modo a evitar as sempre lamentáveis colisões mortais entre Paixão e Hamori – verdadeiras visões doentias onde a amálgama de despojos deixa o espectador confuso sobre o que seria aquilo realmente, se Paixão ou Hamori, com resultados por vezes devastadores para a saúde mental dos próprios transeuntes. “Maldição!”, brama Paixão, enquanto o Hamori, tranquilamente, avança a sua inexorável marcha.

E se é João Catatau a validar esta situação, nós nada podemos argumentar.



Natal é magia. Só isso explica que Zeferino Boal esteja na calha para ganhar a votação que por ora se encontra no canto superior direito deste vosso humilde blogue. Será a primeira votação que Boal ganhará na sua vida, mesmo considerando as votações para delegado de turma e para administrador de condomínio. A boa estrela que guiou os Reis Magos está também a ajudar o nosso dedicado Zeferino a encontrar o seu caminho. O papa pode dizer adeus à vaca e ao burro no presépio, mas não pode fazer nada quanto à força mística de Zeferino. No Natal canta-se pela glória de Boal.

Um feliz e cromífluo Natal a todo o povo da bola.

domingo, maio 08, 2011

Entre Duas Terras

MADRID – Seguindo a europeização dos nossos clubes, nós, Cromos da Bola S.A.D., atravessámos a fronteira e constatámos que o futebol português está na moda. E tudo se deve, sem grande margem para discussão, à popularidade magnetizante de Eliseu e Zé Castro, os verdadeiros embaixadores do perfume de futebol português. Alguns dirão que será por causa de um tal de Mourinho e desse garoto, o Cristóvão Ronaldo, mas não vos iludais. Os espanhóis gostam de coisas genuínas e não de produtos de marketing. Os sinais da paixão castelhana pela essência do futebol luso estão aqui, um pouco por todo o lado, da Plaza Mayor até às Ventas.
Na verdade, já em tempos demonstrámos o fascínio particular de que Vado goza junto de nuestros hermanos. É verdade; não há sinal de estacionamento proibido que se preze que não preste culto a Vado, como que a dizer, “se prevaricares, caro condutor, ficai sabendo que Vado vê tudo e não perdoará”. Está tudo nos versículos de Autuori, XVI-4, conforme referido por João Catatau na sua Grande Bíblia dos Sinais de Trânsito.

Vado consegue ser tão omnipresente que alguns sinais mais fundamentalistas advogam mesmo “Vado Permanente”. E se a moda pegasse? E se outros jogadores do nosso campeonato começassem a servir de complemento a sinais de estacionamento proibido? Será que iríamos parar para pensar? Será que cederíamos à tentação de ficar mesmo ali em vez de dar mais uma volta pelo quarteirão?

Talvez sim. Talvez esse seja só um mérito atribuível a Vado. Mas há uma coisa que Vado não consegue nesta cidade e que Secretário, de forma fantástica, chama a si com todas as forças: estar entalado entre Roberto Carlos e Seedorf na galeria de jogadores que ostentaram a camisola do Real Madrid, no respectivo museu.

E assim, Secretário saboreia oficialmente toda a glória que Beto bem almejou sem nunca conseguir. E, com a sorte de Beto, o mais provável era ele acabar entalado não entre dois nomes de dimensão mundial, mas entre personalidades da gama de Balboa ou de Totti. Disse Totti? Desculpem, eu queria era dizer “Tote”, esse delicioso avançado que fez escola como porta-coletes nos treinos no Estádio da Luz. Se Secretário pode, porque não Tote?

Mas o Real Madrid, magnânimo, tem coração suficientemente majestático para albergar mais individualidades do futebol indígena. Por exemplo, aqui é possível ver Zeferino, no canto superior esquerdo, defendendo as cores da Guiné no museu do Real Madrid, ao lado de Beckham, Puskas e novamente Seedorf. Nem nos mais distorcidos jogos de Football Manager seria possível imaginar semelhante combinação.

E há mais. Nesta parede, é possível captar-se parte do nome da formiga atómica que foi César Prates, o homem de passo galopante e calções curtos; a foto fugidia do companheiro PALOP de Zeferino, o cabo-verdiano Tinaia, outra promessa que ficou para cumprir num destes dias, provavelmente quando Portugal voltar a ser um país com excedente orçamental; e os portugueses, que incluem um tipo que perdeu o título de “next big thing” para Simão aos pontos, Edgar, indiciando que até o Real Madrid acredita em novos Eusébios de vez em quando. O Pepe não foi considerado nem como Brasileiro nem como Português, mas sim como uma “Máquina de Destruição em Movimento”, e foi colocado no espaço junto à máquina de café e à trituradora de papel.
De todos eles, Secretário é o nome que mais perplexidade gera nos madrilenos e facilmente constatámos isso. No museu, quando apontámos para Secretário, todos encolheram os ombros, entre algumas risotas do género “isto é para os apanhados?”, e houve mesmo quem julgasse que havíamos vandalizado o museu com aquela fotografia – para nosso azar, era o segurança e acabámos expulsos e a fugir da polícia pela Castellana abaixo. Não desistimos e vogámos pela cidade à procura de respostas, passando pela Plaza de Cibeles, onde já se aglutinava uma pequena multidão para comemorar mais um cabeceamento ao primeiro poste de Zé Castro ou um espectacular pontapé de canto de Eliseu. No meio de tanta celebração, tinha de haver alguém em Madrid que soubesse quem era o Secretário.


Reparámos naquele senhor que se dirigia para o portão do Palácio Real e questionámo-lo sobre Secretário. Ele era austríaco, achámos nós, e o máximo que aconteceu foi ele mostrar-nos a foto da filha que mantém numa cave há 15 anos alimentada a marmelada e a croissants aos quais o Pedro Barbosa só comeu o fiambre e deixou o queijo. Ou há 50 anos, percebemos mal alemão com sotaque. Depois abordámos aquele senhor vestido de azul que descansava junto às grades e que parecia muito sábio. Ele disse que sim senhor, lembrava-se perfeitamente do Edgar e nutria uma enorme devoção pelo Vado, mas Secretário nada. Estávamos prontos para falar com toda a gente desta praça até que a pessoa mais à direita ouviu as nossas preocupações, veio ter connosco e nos disse que sim, que sabia quem era Secretário e nos pediu educadamente para pararmos com estas perguntas, que era assunto sensível e tal. Essa pessoa pediu-nos anonimato, mas depois fomos beber uma caña de cerveza e comer uma tapa com ela no Mercado de S. Miguel e ficámos a saber que era uma tipa chamada Paula e que era muito boa na organização de eventos para grupos numerosos.

A Paula perguntou-nos se conhecíamos alguém que gostasse muito de brincadeira e nós recomendámos-lhe o Abiodun. Ela ficou agradada, embora nos tenha confidenciado que preferiria o Bodunha. Nós dissemos-lhe que também preferiríamos o Bodunha, porque compreende a ética kantiana como mais nenhum outro lateral, mas só o Abiodun é que tinha e-mail, porque o Bodunha ainda anda às voltas com o MS-DOS. Gravámos o contacto dele num presunto ibérico e oferecemo-lo à Paula, mas achamos ela não vai ter sorte, porque o Abiodun, para além de não saber parar uma bola, detesta spam e não costuma abrir attachments de gente que não conhece.
Antes de nos virmos embora, passámos ainda pelo estádio do Atlético. É um estádio esquisito, que tem uma via rápida a passar sob uma bancada, o que, no caso dos Super Dragões, daria um jeitaço enorme, porque podiam mandar simultaneamente bolas de golfe para os jogadores dentro do estádio e para o autocarro do Benfica na estrada.
E foi lá que pudemos ver o outro português que fez história nesta cidade, Paulo Futre. Estava lá com as maluquices dele, a fintar os automóveis junto ao estádio com o seu fabuloso pé esquerdo, concentradíssimo como sempre. Vale.

sábado, agosto 14, 2010

A Quadratura do Círculo

A geometria está em todo o lado nos nossos campos de futebol.
E não falo do mais óbvio que são as marcações do rectângulo, o grande círculo, a meia-lua, etc.
Nem sequer estou a falar do losango do Paulo Bento, ou do "losângulo", se vos soa melhor; nem do Angulo, nem tampouco do Ciel, que parece que cai redondo com frequência à porta dos bares.
E é possível dar aplicações muito peculiares à geometria do futebol.



Eu estou a falar de Mbesuma.

























A Zâmbia polvilha-nos de quando em vez com saborosos pedaços de fauna fuebolística. Como essa pepita chamada Kalaba. E, claro, Mbesuma. Este tímido, mas disforme, zambiano que passeou o seu vistoso crânio pelo Funchal era como que um milagre geométrico que teria certamente deslumbrado os antigos egípcios, tão excepcional era o formato da sua cabeça.


Peguemos então num círculo...















... adicionemos o quadrado humano que era a cabeça do Mbesuma...























... e o que temos?
























Exacto, a Quadratura do Círculo.
Esse programa tão ilustre. Que parece estar tão longe do Mbesuma e no entanto está tão perto.
E, coisa disforme por coisa disforme, talvez o Mbesuma já pudesse substituir o Pacheco Pereira.
Aposto que não passaria tão despercebido como passou nos relvados.
































































































































































































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