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sábado, 2 de maio de 2020


   O passado pode ser ou não um país estrangeiro. Pode se transformar ou permanecer o mesmo, mas sua capital vai ser o Arrependimento, e o que flui ao longo dela é um canal de desejos não concretizados que correm em direção a um arquipélago de pequenas possibilidades que nunca aconteceram de verdade, mas não são irreais por não terem acontecido e talvez ainda possam acontecer embora tenhamos medo de que nunca aconteçam. E pensei no Velho Inglês guardando tantas coisas, como todos guardamos quando olhamos para trás e vemos que as estradas que abandonamos ou que não pegamos desapareceram. O arrependimento é o modo como esperamos voltar para nossas vidas reais assim que encontramos a determinação, o impulso cego e a coragem de trocar a vida que nos foi dada pela vida que tem nosso nome e nenhum outro. O arrependimento é o modo como ansiamos por coisas que perdemos, mas nunca tivemos de verdade. O arrependimento é a esperança sem convicção, eu disse. Estamos divididos entre o arrependimento, que é o preço que pagamos pelas coisas que não fizemos, e o remorso, que é o preço que pagamos por fazê-las. Entre um e outro, o tempo se diverte com seus convidativos truques.
   - Os gregos nunca tiveram um deus do arrependimento - observou o marido de modo imperioso, para se exibir ou desviar uma conversa que claramente não era só sobre o Velho Inglês.
   - Os gregos eram brilhantes. Usavam uma única palavra tanto para o arrependimento quanto para o remorso. Como Maquiavel.
(...) Quando saímos do restaurante, ela e eu caminhamos na frente juntos, enquanto Manfred e o marido seguiam atrás.
   - Mas você está feliz? - perguntei.
(...)
   - Porque meu coração está acelerado agora e faz tempo. Todos aqueles anos, e isso não vai embora - confessei.
   Comecei a lembrar as palavras dela sobre amar alguém sem estar apaixonado (...) E, quanto mais eu pensava nisso, mais me rasgava por dentro. Perdemos anos de nossas vidas, eu queria dizer. Então disse.
   - Perdemos anos de nossas vidas... estamos vivendo a vida errada, você e eu. Tudo em nós está errado.
   - Isso não é justo. Nunca estivemos errados. Você e eu somos a única coisa certa em nossa vida... todo o restante é que está errado.
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 Aciman, André. Variações Enigma. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018, pp 240-243.
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terça-feira, 21 de abril de 2020


- E aí?
- Estou mais interessada no que ele tem a dizer sobre a Sicília do que no que ele sabe de pesquisas sobre câncer.
- Vocês vão se encontrar de novo?
- Acho que não. Passei três horas com ele hoje. É suficiente. Pamela pediu que eu o encontrasse, e foi o que fiz.
   Maud quer dispensá-lo. Porque tem medo dele. Tem medo porque está atraída. Síndrome clássica.
- Mas vocês dois estavam se divertindo esta noite.- Ah, ele é uma graça. Mas bebe... você precisava ter visto no almoço.
   Eu o vi no almoço!
   Maud parece muito indiferente e imprecisa, demonstrando um leve ar de cansaço, que é como evita os assuntos que não quer debater. O cansaço é sempre um bom disfarce para ela, como a histeria para Tamar. Ela está se esquivando, porque sabe que estou cutucando.
   Mas, jogada no banco, Maud parece mesmo cansada. A aparência ousada e perigosa de quando ela usa batom escuro desapareceu de seu rosto.
(...)
. Mas você gosta dele?
- Gosto.
Absorvo a resposta, reflito, não digo nada de início.
- Por um instante achei que havia alguma coisa?
- Entre nós dois, você quer dizer?
- Ah, não sei, talvez.
- Seria engraçado. Nunca passou pela minha cabeça, e posso garantir que também não passou pela dele.
- Por que engraçado?
- Por quê? Eu poderia pensar uma centena de motivos.
- Diga um.
- Quer dizer que você não percebeu? (...) Por que acha que ele perguntou se estamos apaixonados?- Indaga Maud.
- Por quê? Porque bebeu demais? Porque estava interessado em você?
- Não, querido. Em você.
Tento parecer perplexo. Mas sei que ela percebe.
- Então, alguma novidade?- pergunto.
- Nenhuma, acho.
   E de repente sei que estou dizendo alguma coisa, não só sobre Gabi, ou sobre os homens, mas sobre mim.
(...)
Não precisamos dizer mais nada, mas sei que neste momento, no táxi, de nós dois, fui eu, não ela, que atravessou para o outro lado.
- Vou perder você? - pergunta ela, então faz uma pausa, como quem se pergunta se eu não estou mais prestando atenção. - Porque não quero perder você.
   Não digo nada, Mas não sei se o que estou prestes a dizer é a verdade.
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 Aciman, André. Variações Enigma. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018, pp 150-155.
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terça-feira, 14 de abril de 2020



   Ainda assim, minha vida começou ali e parou ali em um verão distante, naquela casa, que não existe mais, naquela década que passou tão rápido (...) Aonde quer que eu vá, todas as pessoas que vejo e desejo acabam sendo mensuradas pelo brilho da sua luz. Se minha vida fosse um barco, você seria aquele que subiu a bordo, ligou as luzes de navegação e nunca mais voltou. Tudo isso pode ser coisa da minha cabeça, e na minha cabeça ficará. Mas eu vivi e amei pela sua luz e mais nada. Em um ônibus, em uma rua movimentada, na sala de aula, em uma casa de shows lotada, uma ou duas vezes por ano, seja ou homem ou mulher, meu coração ainda acelera quando avisto alguém que parece você. Amamos apenas uma vez na vida, disse meu pai, às vezes cedo demais, às vezes tarde demos; as outras vezes são sempre um pouco ponderadas..
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  Aciman, André. Variações Enigma. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018, pp 77-78.
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