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terça-feira, 11 de junho de 2019



Quando eu morrer quero tuas mãos sobre os meus olhos:
que a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passem uma vez mais sobre mim seu frescor:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas, que eu, a dormir, espero-te;
que teus ouvidos continuem a escutar o vento,
que cheires o aroma do mar que amamos juntos
e continues a pisar a areia que pisamos.

Quero que o que amo continue bem vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso continua a florescer, florida,

para que alcances tudo o que o meu amor te ordena,
para que a minha sombra passeie em teu cabelo,
para que assim conheçam a razão do meu canto.
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  Neruda, Pablo. Antologia. Lisboa, Relógio D' Água Editores, 1998, p 385 (Tradução de José Bento).
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segunda-feira, 10 de junho de 2019


     Ode ao olor da lenha


Tarde, com as estrelas
entreabertas no frio
abri a porta.
                  O mar
galopava
na noite.

Qual mão
da casa escura
saiu o aroma
intenso
da lenha guardada,

O aroma era visível
como
se a árvore
estivesse viva.
Como se ainda palpitasse.

Visível
como um vestido.
Visível
como um ramo quebrado.

Andei
dentro
da casa
rodeado
por aquela balsâmica
escuridão.

Fora
as pontas
do céu cintilavam
como pedras magnéticas
e o olor da lenha
tocava-me
o coração
como uns dedos,
como um jasmim,
como algumas lembranças.

Não era o olor agudo
dos pinheiros,
não,
não era
a ruptura na pele
do eucalipto,
não eram
tão-pouco
os perfumes verdes
das vinhas,
mas
algo mais secreto,
porque aquela fragrância
uma única,
uma única
vez existia,
e ali, de tudo o que vi no mundo,
na minha própria
casa, de noite, junto ao mar de Inverno,
esperava-me ali
o olor
da rosa mais profunda,
do coração cortado da terra,
algo
que me invadiu como uma onda
desprendida
do tempo
e se perdeu em mim
quando eu abri a porta
da noite.
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 Neruda, Pablo. Antologia. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 1998, pp 329-333 (Tradução de José Bento).
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sexta-feira, 7 de junho de 2019


    Não há esquecimento
    (Sonata)


Se me perguntais onde estive,
devo dizer "Acontece".
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?
Se me perguntais de onde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem a pomba amarelenta que no esquecimento dorme,
mas sim faces com lágrimas,
dedos na garganta,
e o que se desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões-de-visita de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura,

Mas não penetremos para além desses dentes
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram já beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.
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 Neruda, Pablo. Antologia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1998, pp 125-127 (Tradução de José Bento).
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