Se leio as crónicas de Dulce Maria Cardoso, concluo que não existem duas vidas iguais e que, mesmo as semelhanças, somos nós, peregrinos solitários em busca da comunicação, a repará-las. Esta semana conheci-lhe o mapa de aniversários, delimitando o tempo que considerava férias, e o facto do términus lhe vir com o êxodo dos amigos que rumavam ao Algarve e demais lugares de veraneio. E da fúria de leitura que a assaltava em solitário Agosto, na pausa de amizades a banhos. Os amigos regressados traziam as histórias de férias. E contavam dos amores de verão, ainda gritos de sol, a saudade escaldando por todo o corpo. Adolescente de curta história, era nos amores dos outros que Dulce se recreava e espraiava a mente. Vou deixar de lado Os cavalos de Tarquínia que não me lembro de ter lido e mais o modo como a escritora misturava o romance com a vida. E contraponho a minha versão.
Eu adorava a escola e não me lembro de gostar das férias. A escola era-me simpática. Senão vejamos. Minha mãe, do primeiro ao último dia de colégio, manteve o menu do almoço e que, sem acaso, era o meu preferido. Seguia num termo para estar mais ou menos quente, arrumado em saco que carregava no suporte da bicicleta juntamente com o dos livros. É certo que as batatas fritas estavam de orelha derrubada; que a carne fugia um tanto ao gosto original; e que ao ovo estrelado faltava o molho – estava recozido ou vagava pelo fundo do termo, tingindo o que lhe fosse próximo. Mas continuava a ser o meu almoço de eleição. Por outro lado, as férias impediam-me de ver a única amiga. Ficava-me a cinco quilómetros de distância e, com o calor, parecia esquecer-me. Não respondia a cartas e eu inventava que vivia outra vida. Impressionava-me o desmazelo afectivo a que me julgava votada. Em mim ela era uma Sempre-Viva e lamentava não poder contar-lhe as curtas novidades que me chegavam ou eu imaginava. Contudo, a meio do verão, em tarde embezerrada, chegava-me pontual, o pai ao volante a desembrulhar recomendações e cuidados que, a serem cumpridos, nos apartavam todo o prazer. Nessa tarde, os ponteiros enlouqueciam nos mostradores dos nossos relógios minúsculos e logo logo nos surpreendia a buzina do automóvel que a roubava de mim. Fora deste contacto, havia o trabalho e os livros que lia amiúde, esticando os bocadinhos livres ou inventando-os, enquanto iludia as tarefas. Se, por azar, me perdia num romance e distraía da motorizada de meu pai, saía uma chuva de queixas, ordens e ralhos fortes, setas que me eram dirigidas e a minha mãe - eu porque lia, ela por não me retirar os livros e pedir mais trabalho. Lembro a rega ao nascer do sol, o acordar estremunhado, meu pai no corredor em voz de comando, Beatriz levanta-te que tens de vir regar. Era trabalho em jejum e que requeria paciência e alguma habilidade a manejar os canos da água. Meu pai desorientava breve, sabe Deus com o quê de mim, os gritos baralhavam - ainda mais - a minha inépcia, virava para a esquerda em vez da direita – e vice versa – e ele tornava-se apoplético. Nesse purgatório, o caso evoluindo de mal a pior, temia umas porradas. Bicho amedrontado, desejava apenas o fim da função. Meu pai devia considerar que existia uma idade própria para os ajudantes da rega já que todos os rebentos da família, incluindo meu primo, o menos temeroso e mais paciente, por lá passaram à vez. O meu alívio quando o nome passou a ser outro, foi bem redondo. Hoje recordamos dias de aspereza matinal e de que rimos, cada um contando a parte que lhe coube e a forma como a enfrentou.
(cont.)