sábado, 30 de julho de 2022

Sem Gaivotas ou Cavalos a fazer sombra no Mar

 

Se leio as crónicas de Dulce Maria Cardoso, concluo que não existem duas vidas iguais e que, mesmo as semelhanças, somos nós, peregrinos solitários em busca da comunicação, a repará-las. Esta semana conheci-lhe o mapa de aniversários, delimitando o tempo que considerava férias, e o facto do términus lhe vir com o êxodo dos amigos que rumavam ao Algarve e demais lugares de veraneio. E da fúria de leitura que a assaltava em solitário Agosto, na pausa de amizades a banhos. Os amigos regressados traziam as histórias de férias. E contavam dos amores de verão, ainda gritos de sol, a saudade escaldando por todo o corpo. Adolescente de curta história, era nos amores dos outros que Dulce se recreava e espraiava a mente.  Vou deixar de lado Os cavalos de Tarquínia que não me lembro de ter lido e mais o modo como a escritora misturava o romance com a vida. E contraponho a minha versão.

         Eu adorava a escola e não me lembro de gostar das férias. A escola era-me simpática. Senão vejamos. Minha mãe, do primeiro ao último dia de colégio,  manteve o menu do almoço e que, sem acaso, era o meu preferido. Seguia num termo para estar mais ou menos quente, arrumado em saco que carregava no suporte da bicicleta juntamente com o dos livros. É certo que as batatas fritas estavam de orelha derrubada; que a carne fugia um tanto ao gosto original; e que ao ovo estrelado faltava o molho – estava recozido ou vagava  pelo fundo do termo, tingindo o que lhe fosse próximo. Mas continuava a ser o meu almoço de eleição. Por outro lado, as férias impediam-me de ver a única amiga.  Ficava-me a cinco quilómetros de distância e, com o calor, parecia esquecer-me. Não respondia a cartas e eu inventava que vivia outra vida. Impressionava-me o desmazelo afectivo a que me julgava votada. Em mim ela era uma Sempre-Viva e lamentava não poder contar-lhe as curtas novidades que me chegavam ou eu imaginava.   Contudo, a meio do verão, em tarde embezerrada, chegava-me pontual, o pai ao volante a desembrulhar recomendações e cuidados que, a serem cumpridos, nos apartavam todo o prazer. Nessa tarde, os ponteiros enlouqueciam nos mostradores dos nossos relógios minúsculos e logo logo nos surpreendia a buzina do automóvel que a roubava de mim. Fora deste contacto, havia o trabalho e os livros que lia amiúde, esticando os bocadinhos livres ou inventando-os, enquanto iludia as tarefas. Se, por azar, me perdia num romance e distraía da motorizada de meu pai, saía uma chuva de queixas, ordens e ralhos fortes, setas que me eram dirigidas e a minha mãe -  eu porque lia, ela por não me retirar os livros e pedir mais trabalho. Lembro a rega ao nascer do sol, o acordar estremunhado, meu pai no corredor em voz de comando, Beatriz levanta-te que tens de vir regar. Era trabalho em jejum e que requeria paciência e alguma habilidade a manejar os canos da água. Meu pai desorientava breve, sabe Deus com o quê de mim, os gritos baralhavam - ainda mais - a minha inépcia, virava para a esquerda em vez da direita – e vice versa – e ele tornava-se apoplético.   Nesse purgatório, o caso evoluindo de mal a pior, temia umas porradas. Bicho amedrontado, desejava apenas o fim  da função. Meu pai devia considerar que existia uma idade própria para os ajudantes da rega já que todos os rebentos da família, incluindo meu primo, o menos temeroso e mais paciente, por lá passaram à vez. O meu alívio quando o nome passou a ser outro, foi bem redondo.  Hoje recordamos dias de aspereza matinal e de que rimos, cada um contando a parte que lhe coube e a forma como a enfrentou. 

(cont.)

domingo, 24 de julho de 2022

Ralenti

 

Atacou-me a silly season. À mente só me vêm alinhavos, coisa descosida ou a descoser, babugem. A última história repousa inconclusa, resistindo como pode ao amontoado de outras. Diz-me que não o quer. Reverbera que não é de bom tom abandonar as personagens ao deus dará, sem carta que as oriente, mapa por onde se guiem nesta via palavrosa. Afirma convicta que criei suficientes enredos entre as que fui deixando impreparadas para o convívio e que, em vagaroso súbito, deram por si num contacto íntimo com o desconhecido. Parece que criei involuntária babel entre arabescos. Assim como assim, elas que se aguentem. Façam pausa nas escaramuças. Ou tercem armas. Eu é que não estou para as aturar. O corpo pede-me praia e a mente entretém-se a pensar nas visitas que me chegam nesta época e a quem acarinho como posso e sei. Com boa vontade e trabalho, digamos.

Beneficia este post de suave brisa marítima, algumas gotas salgadas, uma cadeira virada ao sol e um ror de água viva, límpida e fresca como ela só. E posto que o espírito estival ganhou assento, as leituras tornaram-se menos densas e nos intervalos dos dias, tenho andado a fazer praia na companhia de Elisabeth Strout. A senhora é de escrita fácil sem ser palerma, lê-se bem em lugares de devaneio ou apenas descontracção. Além do mais - para mim conta -, o  papel do livro dá gosto e a letra é de bom tamanho. Acresce ser a Alfaguara uma das editoras que prefiro, a escritora saber da poda e  nos envolver. Não é maçadora. Tem um único contra, de cada vez que vou à praia, leio um livro. Portanto, já aviei nova receita.

Hei-de postar de vez em quando (sem fugir do hábito), não desisto facilmente de escrever as parvidades que me vêm à tola.  Entretanto, desejo que as minhas histórias não se sintam enxovalhadas com o abandono. E faço votos (fazer votos tem o seu quê, não tem) para que o período de repouso profissional corra bem e o caminho vos surpreenda  agradavelmente.

 Bons encontros! E façam o favor de ser felizes. Ou tentar.

 

domingo, 17 de julho de 2022

Raízes em Trança

 

Imersa nos estudos que me obrigavam a madrugar, não tive notícia acerca das tranças de minhas irmãs.  Ignoro se lhes atrasavam o horário escolar, e pouco as vi com elas desfeitas. Em compensação, única entrançada na escola,  recordo a alegria das colegas se uma das tranças perdia a amarra.  Erguiam os dedos em pente e, cabelo abaixo, desmanchavam-nas por completo, encantadas nas ondas certas daquele mar capiloso aos esses por ombros e braços. E, como lhe teciam elogios, uma vez ou outra eu puxava as linhas à unha e chegava a casa qual Madalena sem arrependimento, voz fingindo contrariedade, “desmancharam-se”. Não havia espelhos em minha casa e nem na escola, portanto, restava-me acreditar na opinião das outras garotas. Ora, elas falavam de cabelo bonito e todo às ondas. Aquilo, verdade seja dita, era incómodo, tapava-me a vista e não era fácil escrever e, em simultâneo, desviar a densidade do manto. Mas desejava ficar bonita. E as tranças desfeitas só terminaram quando a mãe ameaçou bater-me. Então, pensei em rabos de cavalo e pedia-os a minha mãe. Quando, por uma vez, ela anuiu a um rabo de cavalo no cocuruto, causou-me dor de pescoço e de cabeça e desisti de modas, voltei às tranças.

Certo dia em que fomos à vila, vi uma garota luzindo apenas uma trança. Achei lindo. De imediato, pedi uma igual. A mãe não me pareceu muito agradada com a ideia, mas, no dia seguinte, fez-me a vontade. Pois, digo-vos que, daquela como de outras vezes, a cópia foi bastante pior que o original. A trança da outra garota caía-lhe suavemente pelas costas, enquanto a minha, apertada até mais não, era uma corda grossa a puxar-me o pescoço para trás e nem parecia nascer de mim. As mulheres com quem me cruzei no caminho da escola, em deplorada admiração, chiiii! Olhem bem este disparate de cabelo. Ó rapariga, isso até te tira a força. Era mais que visto, não conseguia ficar bonita. Fiz apenas mais uma tentativa, pedi uns laços na ponta das tranças. Minha mãe murmurou sei lá quantas desculpas, mas, algum tempo passado sobre o pedido, num entardecer igual a outros,  trouxe do trabalho uma fita de seda branca que fez os meus encantos. Cortou-a em duas e aparou-lhe as pontas de forma a fazerem bico. Achei aquilo bonito demais e pus-me a ensejar a manhã imaginando a sensação de entrar na escola com dois laços nas tranças. Não me importei com levantar mais cedo e nem houve queixas dos repelões no penteado. Minha mãe esmerou-se nos laços, mas foi logo avisando, tem cuidado ainda assim não caiam, tu não estás habituada a usá-los. E eu impando a novidade. Pois garanto que, quando cheguei à escola, a professora a mandar entrar, já só tinha um laço. Ainda pensei voltar atrás a buscar o perdido, mas, perante a hipótese dos olhos da mestra fixos em mim e eu perdida no tapete, andei em frente. Quando contei a história no recreio, logo um primo garantiu que fazia o caminho por mim e mo trazia num ai, a professora nem ia dar por falta dele. Mas voltou sem nada. Eram tempos aziagos e uma fita de seda caída no chão, não se desperdiçava. Deus sabe quanto custou a minha mãe.  Devo ter feito cara de choro porque as coleguinhas me puxaram para um jogo ou uma roda. Do que me lembro é que perdi o outro laço e, quando fui por ele, estava amassado a um canto do pátio, já sujo e pisoteado. Nem parecia ele. Apanhei-o e escondi-o no bolso da bata. Pensei na assisada resistência de minha mãe, eu não tinha cabelo para tranças de laço. Cada um é como é.

Desse tempo entrançado conservo duas fotos tipo passe, ambas tiradas para documentação. A primeira exibe os mesmos olhos crédulos e risonhos da foto com a mão na floreira. Na segunda, nota-se uma incompreensível puberdade a despontar, olhos sérios. E a evidência de duas tranças grossas a que não se vê fim. Mirando a foto recém chegada, meu pai com seu sentido de oportunidade, bolas, pareces o Quim do Chico Zé.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Raízes em Trança

 

É muito palerma da minha parte iniciar um texto lembrando as tranças. As minhas. As de minhas irmãs. Todas usámos tranças. As minhas foram as de maior longevidade - dos cinco ou seis anos, até aos doze. É recordação meio palerma, mas veio-me o apetite. Quero dizer que a crónica de Dulce Maria Cardoso mas fez lembrar. As nossas vigorosas  tranças, apertadas como cordas de caldeiro e atadas com linha preta de coser e que a minha mãe finalizava  partindo o fio com os dentes, o final da trança beirando a boca e os dedos manietando o ramo de cabelo rebelde, ainda assim não escapasse. E depois os nós; ela, põe aqui o dedo. Por vezes, uma das duas afrouxava a pressão e lá ia a linha para o maneta. Entretanto, ansioso por  liberdade, o cabelo desencabrestava  e deslaçava feliz, qual rio que chegou à foz. Penso hoje que, se fora eu a progenitora – os meus rapazes preteriram as tranças -, saía-me de imediato um palavrão (não dos piores). Minha mãe, o ser mais doce e paciente que conheci, fazia apenas um trejeito, soltava a desfastio um “ora bolas” muito neutro, e recomeçava a apertar e refazer a trança do ponto em que ela resolvera parar. Entretanto, eu choramingava que ia chegar atrasada à escola. Um possível atraso na hora de entrada era-me por demais confrangedor. A escola, lugar quase sempre grato, desapetecia. Portanto, em dia de atraso por via disto ou daquilo - em geral, o fazer das tranças -, desatava num berreiro e pedia encarecidamente que me levasse à escola. Isto tudo incluía abundância de fluidos que só não eram sangue porque não calhava.  Claro que ela, sensata, o fez da primeira vez e não tornou. E, porque se negava, vinha a súplica: havia que ensinar-me os termos da desculpa perante a professora. Caminho fora, seguia a memorizar o discurso. Porém, mal via surgir por detrás do vidro a cabeça do aluno que me abria a porta de entrada, começava a baralhação.  Chegava muda ao tapete que existia à porta da sala. Ficava ali a fingir que limpava os pés, enquanto puxava de todas as forças para um quase inaudível, minha senhora dá licença. Esgazeada de todo, colava no tapete e dava-me uma branca total. Fazia umas tentativas ao acaso e balbuciava sei lá o quê que de certeza não tinha a ver. Hoje chego mesmo a pensar que, na aflição que me assaltava, sou bem capaz de ter inventado motivos fáceis e de pouca palavra, estilo, doía-me a cabeça. Contudo, a professora não era alheia ao meu estado. A meio da incoerência, mandava-me sentar sabendo-se desistente creditada de incentivos do género, fala mais alto. Devo-lhe isso e as abençoadas Fagulhas que sempre pôs à minha disposição e que, entre outras coisas, falavam da Mocidade Portuguesa, estados de alma e físico  (ambicionava apenas  o físico) que, de acordo com imagens e texto, se anunciavam altamente desejáveis, garotas e garotos com farda e boné, todos limpos, roupa nova. Lindos. 

Ainda hoje não entendo até às extremidades que a justificação do atraso proviesse de minha mãe. Estaria convicta que as suas palavras eram melhores que as minhas e isso me ajudava a sacudir o torpor estupidificante.  Estava fartinha de ouvir justificações e desculpas de crianças atrasadas, bastaria copiá-las. Mas, o que verdadeiramente me tolhia era o olhar da professora enquanto aguardava e ouvia a minha justificação. Era-me insuportável pensar em tantos olhos pregados em mim. Custava-me os dias da vida imaginar a professora a trespassar-me, sem distracção, atenção concentrada na minha pessoa.  E, maldade pura, nesses momentos intragáveis, tinha eu de articular o discurso de que me sabia incapaz. Quanto desejava ser anónima,  poder sentar-me sossegadamente no lugar e começar a tirar as coisas da mala para iniciar o dia de trabalho.

É claro que me atrasava ainda mais pelo tempo que gastava a chorar em casa, exigindo que minha mãe me acompanhasse e desse, ela mesma, a justificação, cuja não me importava o que fosse, pensava apenas que, durante o tempo em que ela se mantivesse a falar com a professora, eu, desapercebida, escapulia para o meu lugar. Uma vez ali, cessava a paralisia aterrorizante provocada pela atenção do todo sobre mim.

(cont.)

domingo, 10 de julho de 2022

Voltar

 

Tardou, mas aconteceu. Ontem, de armas e bagagens, apresentei-me na praia. Aproveitei a boleia e o caminho pareceu-me outro, escondido de si (ou fui eu a esconder-me dele?). Não tenho memória dos resquícios de inverno, não vi o esqueleto de árvores mortas beirando o caminho. Os meus olhos não vaguearam pelas zonas de arbustos marítimos aglutinados em bosque cerrado e onde imagino lagartos, aranhas peludas e outros bichos a que faço má cara. Deixei no passado a traição das areias na berma do alcatrão, veículos e condutores incautos afundados e a patinar. Faltaram os olhos de poesia que me existem em viagens solitárias.  Foi uma viagem diferente.

Mas é o mesmo prazer. A mesma alegria. Igual sentimento de pertença. Do alto da escadaria, olho o imenso azul esverdeado desta praia tão minha. Alguma coisa me tolhe voz e pernas. Talvez seja a beleza. Ou aquela pequena euforia de rever o que ou quem se quer bem, a saudade sumindo como água no ralo e um halo de frescura benfazeja a desanuviar-me a mente. Paro e agradeço ao Deus que criou o mundo e me plantou de molde a poder ainda visitá-la. Pode ser um Deus-acaso, mas é divino o criador de tanta beleza e poder aquoso. Exalo gratidão pela dádiva; pelo que, a breve trecho, a água me reserva. Estreio o bom humor do sol e a brisa com leve acento de mar – não aprecio o forte odor marítimo; lembra peixe esventrado e abundância de escamas –, e enterro os pés que a areia macia e tépida festeja em abraço dócil. Miro-a, oxalá nunca eu lhe seja pesada.

Depois,  sem clepsidra, as horas escorrem rápidas. E nada me existe mais do que o abraço da água. Rodeia-me. E, no seu estar em todo o lado de mim, há uma espécie de carinho líquido, a ternura suave de quem recebe e aceita. De quem murmura, enfim, chegaste.

domingo, 3 de julho de 2022

Memórias da Foto Fantasma

 

Sem vestido, eu despreocupava. Isenta de invejas. Andava ocupada, isso sim, a decorar incompreensíveis actos de contrição, apavorava-me a ideia de me confessar (tinha medo de não ouvir o padre, coisas assim) e atardava-me a passar a tinta branca do frasquinho no único par de esfolados sapatos que me haviam de levar ao altar. É bem provável que meu pai se tenha desentendido do acontecimento (não garanto que sem gritaria), assuntos de igreja não lhe existiam. Já minha mãe era o inverso. Não sei o que fez, mas terá conversado com o padre porque, no dia das confissões, ele me passou um saco plástico com o recado de o levar a minha mãe. A essa altura do campeonato, já a costureira tinha vários vestidos prontos e dava os últimos retoques noutros; havia garotas que luxavam os vestidos de noiva das mães transformados em adamascados vestidinhos; rapazes com fatos de crescido, ufanos de usar casaco pela primeira vez e desimportados de calças com bainhas de metro, camisas de colarinho largo que franziam com a gravata, mangas a que se virava o punho uma enormidade de vezes, o cinto bem apertado a salvar as calças da queda. Por entre os atavios, espreitavam os nossos pequenos receios: se me engano e como durante as três horas de jejum; se faço algum pecado entre a confissão e a comunhão; se a hóstia não cola na língua e cai; se se pega ao céu da boca e não se desfaz.

 Voltando ao meu assunto. Minha mãe retirou o conteúdo do saco e pareceu-me algo desolada. Sem entender aquela trapagem, perguntei. E à resposta, é a tua roupa de comunhão, fui olhar melhor: uma saia e uma blusa e o resto não entendi. Não havia laços, rendas, e o tecido era feio, áspero. Saiu-me o murmúrio, isto não é um vestido branco. E minha mãe em tristura indisfarçável, é um fato de pastorinha, o da Jacinta. Achei aquilo estranhíssimo e inquiri num receio, posso fazer a comunhão com isto vestido? Minha mãe assentiu e não liguei mais ao assunto.

Bom, só vos digo que tenho infinda pena pela fotografia que não houve. Eu estava, de certeza, espectacular. Imaginem uma franzinela pequenina vestida de pastora, com o elástico da saia dobrado muitas vezes para não tropeçar, uma camisa de folho na cintura sobrepondo à saia e um avental de laço atrás que quase me dava a volta ao corpo; cume dos cumes, um lenço na cabeça, de pontas atadas no cocuruto. E, a fechar, o saquito de pano pendurado no braço. Ponham esta figura junto aos fatinhos dos rapazes, todos penteadinhos – de mim, nem as tranças assomavam, abençoada franja – e de laço na manga da camisa; aos vestidos brancos e vaporosos; às duas ou três noivas fingidas e adamascadas, inchadas da boa figura. E observem o resultado. Vista do longe dos anos, eu era uma anedota, o patinho feio no meio de pintainhos ternurentos. Contudo, julgo que o impacto da imagem foi maior entre os adultos que nas crianças. À parte o meu desconcerto inicial e o riso escarninho de meu pai quando me viu, descontando a surpresa de garotos e garotas quando me aproximei, não tenho memória de me sentir preterida. Houve mesmo uma garota ou outra que se interessou pelo saquinho de pano que me oscilava no braço. Bom, invejei um bocadinho as meninas-noiva de véu comprido. Pareciam umas Nossas Senhoras em miniatura, estavam lindas.

Facto curioso, não tenho memória da cerimónia.

sábado, 2 de julho de 2022

Memórias da Foto Fantasma

 

Gosto da escrita de Dulce Maria Cardoso e vou, medianamente, seguindo - que é como quem diz, lendo - os seus romances. Portanto, também acompanho a Biografia não Autorizada que vai cronicando na Visão. De quando em  vez, acontece ficar a matutar no contraponto pessoal do que leio na dita Biografia. Mas como a senhora escreve para uma revista e eu escrevo para nada, como tem prazos a cumprir e eu estou dentro do mais rotundo zero, raro é moldar palavras cantando a minha história. Que o meu contraponto é, por comparação, sombreado sem força, não é nem deixa de ser.  Desta vez, por ser assunto até hoje de todo esquecido, junto a intenção à acção.

Entre outras coisas, Dulce descreve, como só ela sabe, uma foto da primeira comunhão. Foi aí que me passou um relâmpago pela mente e que só não me cegou por não existir nela o que cegar. A minha primeira comunhão…suponho tê-la feito na primeira ou segunda classe, hoje primeiro e segundo anos do ensino básico. Ou, talvez, no uso tão vezeiro de mudanças radicais só de nome, se chamem já outra coisa.

            A foto da Dulce mostra-a junto ao pai com vestido alusivo ao dia e que a escritora descreve com os pormenores de quem, à mão, faz primorosas casas de botão. É trabalho todo artesanal, de pontas finamente rematadas. Nada a mais; e nem a menos. Mas eu, que, na metrópole, também vivia num deserto empoeirado, dito Areias Gordas pelos mais velhos, não tive direito a fotografia na comunhão. Não houve, ao longo dos quatro anos de ensino básico a que então chamávamos a escola primária, uma única foto. Nunca a sombra de um fotógrafo à porta da escola. A nossa pobreza afugentava-os. Porque, imaginando que por lá se perdessem, ninguém adquiria a chapa. Fotografias eram adereços de rico. Para mim, os fotógrafos eram senhores muito simpáticos e nossos amigos. Não me apercebi que, na primeira foto, tirada em estúdio e com pose, por necessidade do Bilhete de Identidade  – uma garota de tranças bem presas com linha preta -, minha mãe lhe pagava. De modos que os pensava cheios de inéditas qualidades.

 Portanto, comparar-me com a Dulce não é muito assisado. Foto, nem pensar. Além do mais, meu pai nunca posaria comigo numa foto de primeira comunhão. Aí concordávamos, era situação que não agradava a nenhum dos dois. Também não sei se alguma vez me pôs a mão no ombro. Alguma vez na vida, quero dizer.

E o fato? Aqueles vestidos airosos de que fala a Dulce e de que se ufanavam as garotas quando, nos intervalos da escola,  empavoavam a esmiuçar feitios e adereços no vestido branco a estrear. Eram pobres adereços, um folhinho na manga de balão e uma rendinha a rematar, a fita de cetim na cintura, o esmero de um lacito de veludo branco preso com alfinete sobre o coração. Coisas assim, de pouca monta e muita onda, que a costureira ia avultando.

(cont.)