terça-feira, 29 de setembro de 2020

O Ano Um da Minha Liberdade

 

Se escrevo livremente, caio, invariável, na infância. Portanto, em deliberada escolha, vou cingir-me a uma fase da juventude: o ano um da minha liberdade, que corresponde ao meu segundo ano de trabalho.

Começou mal. Foi o cabo dos trabalhos para concorrer. Mas, ao invés da juventude actual que concorre e não acerta, era o tempo em que ser admitida a concurso era igual a ter emprego. Não sabíamos onde, mas em algum lado havia uma escola e crianças à nossa espera. Quando recebi em casa a comunicação do lugar, fiquei contentíssima mas sem ideia da posição geográfica da escola que ia ser a minha. Pelo mapa, sabendo o concelho, pensei que lá chegaria com certeza. No dia em que me apresentei na delegação escolar chovia torrencialmente e, na viagem de ida, o primo que me transportava foi obrigado a parar sob a copa de uns pinheiros. Engolida pela violência da água, a estrada desaparecera. Mas nada beliscava o meu entusiasmo. Resolvida a hospedagem e já na posse da chave da escola, fui conhecê-la. Parecia-me impossível ter um quadro preto, giz, carteiras, armários, tudo nosso, para mim e  alunos. Eu era uma temporária dona da escola, tinha a chave. Verifiquei que distava três a quatro quilómetros da vila onde pagara o quarto. Não esmoreci, tinha boas pernas, faria as viagens a pé (ausência de autocarro a horas convenientes).

No primeiro dia, resolvida a cronometrar a viagem para acertar horários e desconhecendo a velocidade das pernas, levantei-me cedíssimo. Quando começaram a chegar vindos dos montes, uns mais distantes que outros, olhavam-me desconfiados e em silêncio respeitoso. Só um, depois das apresentações, arriscou, a senhora fica cá o ano todo? Garanti que sim. Ninguém tugiu. Mais tarde, entendi que os alunos gostaram de mim à primeira.

Depois que acertei o passo com o relógio, passei a fazer parte do caminho acompanhada, íamo-nos juntando estrada fora; como lhes ensinava canções, cantávamos. Além disso, pediam-me para cantar as que ouviam no rádio e contavam-me histórias de sua casa, vacas que tinham parido, borregos que adoeciam, avós que iam para o hospital com maleitas que nunca sabiam explicar, etc. Naquele tempo tudo me parecia natural (tendência que não perdi completamente), hoje julgo que me espreitavam e saltavam à estrada no momento certo. Em Novembro, meu pai deu-me uma acelera sensacional que os deixou estarrecidos de prazer no primeiro dia em que aparecemos na escola e atrás da qual os atrasados corriam esbaforidos (eu desacelerava para me poderem acompanhar). E iniciámos o ritual. Chegava e o portão da escola estava aberto de par em par. Entrava e apontava ao pátio traseiro enquanto eles corriam na minha frente a apostrofarem e empurrarem-se uns aos outros, sai, sai, deixa a senhora passar. As luvas de pele não eram protecção suficiente, as mãos enregelavam e não conseguia pará-la e pô-la no descanso. Mas eles à minha volta num afã, quem é hoje minha senhora, quem é hoje. E eu, do alto da minha importância, designava. Tiravam-me a chave e abriam a porta, levavam-me a pasta dos livros. Foi um ano extraordinário. Já não sei qualquer nome e nem eles saberão o meu, têm dez a quinze anos menos que eu e o tempo aproximou-nos. Mas tenho a certeza que todos lembramos quem fomos durante aquele ano lectivo.

domingo, 27 de setembro de 2020

Apologia do Corpo

 

Do corpo eu sei que me pertence sem que sempre me obedeça. Portanto, somos companheiros numa relação biunívoca que muitas vezes transvasa. De umas vezes transgrido eu e paga também ele; de outras, é ele o transgressor e voltamos a pagar os dois. É assim o uso em relações biunívocas quando são apenas bi. Ó meus amigos, o que eu agradeço que ele não me fuja completamente. Sim, sim, a idade tem destas coisas, há partes que vão deixando de estar, não nomeio que elas podem ofender-se e depois ainda é pior. Outras existem em que não há anti oxidante que as salve, emperram sem remédio, caruncham artríticas, incham, doem e sei lá que mais. Mas há queixas mais salientes e não vale chover no molhado.

Portanto, fechado o capítulo das maleitas triviais, fico ciente de que nos pertencemos mutuamente (eu e o corpo), nem sempre queremos o mesmo, mas, passados tantos anos, afirmo em honestidade que nos gostamos. Não consigo imaginar-me sem ele e não acredito que se atreva a fazer alguma coisa sem mim. Ai dele. Prefiro sofrer-lhe os desvarios.

Bom. Há a imagem, não é. Os outros conhecem-me e reconhecem-me pelo corpo e seus sinais, que isto de sermos matéria, tem que se lhe diga. E depois, se alguém me beija, abraça, dá um murro, um empurrão, uma pisadela, cai tudo no corpo. É um saco de pancada (dizia minha avó que meu irmão era saco de pancada nas nossas mãos). Mas não só. Que isso de prazeres da alma é no corpo que se sentem (da alma, está bem está). E os da carne, idem. E suponho que toda a gente foi feita para gozar dos dois ou o corpo não teria os apetrechos. Portanto, ele que não se faça de vítima que a vida dá-lhe sempre – em geral – para os dois lados.

Ora se há coisa a que seja grata é ao corpo, incluo o de Deus que nos dá um feriado nacional. Mas, perdoe-se o sopro egoísta, sou especialmente grata ao meu. E também ao dos outros que o meu, por si só, não é grande coisa nem a punir nem a recompensar. O que nele me fascina é a multiplicidade funcional, apesar de alguns descarrilamentos por uso, má gestão e acaso (genético ou não). Máquina mais perfeita não existe e nenhuma me é mais próxima, não distingo se é meu se é eu. Explicitando, a sua perfeição imperfeita releva de parecer máquina e não o ser apenas. Todos conhecem e vivem em si esta verdade axiomática. Prostro-me  pois à evidência, sem o corpo não existo. Se, para lá da existência, alguma coisa houver, quero crer que será participante discreto já que a nada de mim foi alheio e não me sei sem ele.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Situações Difíceis

 

 

Situações difíceis são as horas aziagas, a malapata de cada um. Toda a gente tem o seu Gólgota e só não morre por um triz, que, por dentro, tudo estilhaça, o ar falta e, metido ao barulho, o coração avisa esfacelado, subindo de intensidade, não respondo por mim. Portanto, pedir que situações difíceis sejam causa de gratidão obriga a deixar cair um molho delas. Caem. Mas não esquecem. São quadros que incandescem na mente, carne viva de dor ou humilhação maior, e mais depressa nos esqueceríamos de nós, que deles. Quem disse que tudo esquece, pouco sabe da dificuldade de viver, o crescimento nunca é indolor. Não se trata de aprender com os erros, mas da convicção de que a provação nos tempera o carácter e confere sabedoria. Erros humanos, com excepções cabeludas, são de repetir. Dizem que a prática leva a errar melhor, não sabendo eu se “errar melhor” consiste em errar menos, ou em errar com mais estilo.

Ontem como hoje, fujo de confrontos. Não me assusta o trabalho; sofro as doenças sem muito agastamento; tolero as manias de cada um. Mas os confrontos matam-me os interiores de lés a lés. A primeira vez que fui obrigada a confrontar-me com alguém tinha onze anos, gozava as férias grandes e, julgava eu, tinha todas as razões para ser feliz: ia para o colégio em Outubro. Não fazia ideia do que seria um colégio, mas sabia de fonte segura que era uma escola. Ora eu e mais duas garotas tínhamos feito o primeiro ano (hoje 5º) no ensino particular com uma senhora assistente social que por qualquer razão engraçara connosco e achava piada a, no seu lugar de emprego, nos dar aulas de tudo. Os nossos pais, face à escassez reinante, agradeceram. Mas o ano divagou.  Havia os efectivos dias de aula cheios de gritos e maus modos; os de, ao jeito das antigas criadas de servir, fazermos a limpeza na casa da dita senhora como forma do pagamento que não havia; os de descansar porque a ela, recém casada, lhe apetecia namorar e nos aparecia (ela ou ele) de roupão dizendo-se doente; aqueles em que os pombinhos arrufavam e ela desalvorava por dias e não queria saber de nós; os de rumar ao Norte sem aviso a visitar os parentes. De modos que nós três levávamos dias e dias sem aulas apesar de sermos pontuais e às nove horas em ponto estarmos sentadinhas à mesa esperando a mestra.  Embora sem críticas, notava que minha mãe, senhora de poucas falas e muito juízo, não apreciava o modelo de escolaridade nem o temperamento da senhora. Abreviando: certo dia, minha mãe encarregou-me de ir participar à mestra que no ano seguinte iria para o colégio. Desatei num pranto. Bem adiantei que minha mãe é que devia ir e não eu. Sem explicações, reiterou segura, não, tu é que lá vais. Eu, e digo o quê, ela vai ficar zangada, se calhar bate-me (batia bastante numa das colegas). Mãe eu não vou, eu não quero ir, eu não sou capaz de dizer; mas por que é que não vai lá a mãe. A dada altura, minha mãe que lavava a loiça do almoço, tirou as mãos do alguidar e vi o caso mal parado. Pára já com isso. Lava a cara e vai-te vestir. Vais lá e é agora. Fiz o que me mandava  a choramingar, tenho medo de lá ir, não sei como hei-de dizer, vou-me atrapalhar e de certeza choro. E mais parvidades. Já estava vestida e não arredava pé, eu não quero ir sozinha, ó mãe vá comigo. Minha mãe tirou a minha irmã mais nova do berço e pôs-ma nos braços, toma, leva a tua irmã, ela não te vai bater com a bebé ao colo. Saí com o coração aos pulos e quase me deu um baque quando bati à porta. Como eu previa, ia dando um fanico à senhora quando eu com a voz a tremelicar lhe disse que me ia embora para o colégio. Exaltou-se, disse cobras e lagartos e eu quase a chorar, aparando golpes com  a inocência risonha, poderoso escudo que me resvalava braços abaixo. Cheguei a casa derreada mas liberta, a dona armada em professora particular, já ficara para trás.

Não sei bem o que aprendi, repeti a fita vezes sem conta. Somos cada vez mais os mesmos

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Prazenteiras Tarefas

 

De entre os meus afazeres, destaco os que me aportam prazer, ler, escrever e, manhãzinha, encontrar a Violeta e a Lili. O resto é rotina sem qualificativo, pertence ao mundo da necessidade, um limbo a que prazer e agravo são alheios. No pré-covid entretinha-me a apalavrar uns doces ao fogão e visitava gente mais velha que eu. Umas porque nos liga afecto do bom, outras pela solidão desconchavada a que estão votadas; aquelas porque lhes devo bons momentos e, em tempos, se aproximaram desinteressadas e amigas.  A minha dívida é permanente. Não que pague alguma coisa, ou elas sequer o sonhem. Apenas um mimo e um naco de companhia. Viúvas. Por mesas e arredores, as fotos da descendência que prolifera com mais rapidez do que sou capaz de assimilar. E, na ponta da língua, histórias contadas e recontadas, a foto preferida vista e revista, as doenças apontadas no caderninho da memória esquecido que me doutorou no assunto.

Nada disto acontece com a minha velhinha afectuosa. Desloca-se com dificuldade e, se perguntamos, responde conformada à proximidade dos noventa, o pior são as pernas, já nem posso ir ali à frente beber o cafezinho; mas o que se há-de fazer, é a idade, o médico diz que tenho de aguentar. E muda de assunto como que a acrescentar, para quê falar do que não tem remédio. Em sua casa, as fotos de filhos e netos não estão ao alcance de quaisquer. Se eu quiser vê-los, abre uma porta e aí está a família a sorrir-me das molduras. Será o santuário das fotos. As pernas doentes custam a segurá-la, já quase não prepara as refeições, não posso estar de pé ao fogão, as pernas falham-me e caio. Mas, ainda assim, inquire, não queres um chá, tu gostas dos meus chás. E eu gosto dos seus chás de ervas fervidas. Eram únicos e ficou-me na memória a transpiração em nuvem olorosa da cafeteira de alumínio onde, de quando em quando, ela inseria uma colher a apaziguar o fervor das ervas. Passaram. Jamais lhe ouvi queixas familiares e nem de outra gente além de desabafos sobre a sogra que conheci, bonita, maldosa, intriguista. Soube enegrecer-lhe o estar. Conversamos sobre a família próxima e distante, conto histórias de outros tempos onde os que já partiram ainda não sabiam de sofrimento maior e viviam descuidados, imersos no presente que voou (vivemos sempre descuidados do futuro, até se pensamos o contrário); tagarelo novidades que a deixam contente e vou-a poupando aos desastres e nuvens negras que persistem, já teve a sua conta. É sempre uma alegre tarefa poder revê-la e uma graça a pertença mútua que sentimos e reavivamos. Um dia destes marimbo-me no covid, atiro-me ao fogão e visito-a. Vai-nos fazer bem.

O resto é a Violeta a correr para mim ofegante e as manhãs a valerem a pena. Nunca eu pensei levantar-me da cama por mor de uma cadela. Que a caminhada, lá diz a anedota, deve ser por amor que a faço, interesse não lhe acho nenhum. Ao que uma pessoa chega😊!

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Vidas Especiais

 

Há sempre alguém especial na vida de cada um,  a solidão total não é suportável. Imaginário ou real, o entrave à libertação final do suicida existe. E se há muito suicídio, o número dos suicidas ainda é maior (alguns, para bem ou mal deles, fracassam). Porém, se tal desejo se apossa de mente que o abraça, nada pode impedir a concretização. Nada. Mais tarde ou mais cedo, atenta com êxito. Liberta-se.  E é meu entendimento que, neste caso, o desejo se ultrapassa a si mesmo e torna fixação, obsessiva doença da alma que arrebata a vontade só para si, contamina a vida e a torna insustentável punição. Afirmar que todos os suicídios têm como causa única os estímulos – ou a sua falta – do meio humano e natural é redutor, há muito de psicologia individual no suicida, não é de justiça descarregar no meio todo o peso. Neste caso, como em tantos, os itens conjugam e concorrem para um mesmo fim. Isto sem querer tirar peso a condições do meio e situações específicas que, em plano inclinado, só param no obscuro desejo de morte. Quando certezas e hipóteses desinteressam, a aspiração ao nada toma-se por solução de tudo.

Mas voltemos ao tema “alguém especial”. Na juventude e na adultícia, muitos sonhos ainda intactos, impõe-se a tendência para cingir o termo “alguém” ao lado romântico. A expressão suscita imediato relâmpago a iluminar aquele ou aquela que resplende e subsume todos os alguéns de quem dependemos e somos herdeiros. Mesmo que seja alguém sonhado, é ele/a e não outro/a. Existindo realmente, conhece-se entre mil ou mais, releva de todos os terráqueos. Único e feito por medida. Para nós (inocência mais terna e enganadora). Não se sabe por que benéfico acaso se cruzaram os caminhos, mas a esperança chama-se para sempre. Desejava Vinicius que o amor seja infinito enquanto dure. Vinicius a propor a intensidade. E porque ninguém suporta largo tempo a rubra intensidade, olha, lá terá que vir outro amor (nos intervalos, Vinicius descansava).   

Porém, à medida que a pele engelha e carcome, a coluna cria casca grossa (em osso, claro) e os movimentos perdem graciosidade e ganham respeito, artilharia e cautela; à medida que nos vamos assemelhando  uns aos outros; à medida de tanta mutação, os sentimentos expandem. Amam-se os filhos e netos em atenta ternura desvelada, cada vez mais silenciosa se não a apreciam ou os notamos coibidos face às nossas explosões de bem querer; gosta-se do vizinho do lado ou daquela senhora da outra rua que nos mostra a casa com orgulho ou passeia o cão ao fim da tarde e pára para um dedo de conversa; gosta-se até do padeiro que não vemos, mas passa cedinho e nos pendura o trigo na porta de entrada; e até temos uma quedinha por aquela menina do super que espera sorridente pelas nossas mãos cada vez mais inábeis a empacotar víveres. E o alguém especial?  Pois por vezes é só memória do que foi. Morreu-nos de vez. Ou está morto e não sabe ou não lhe dá jeito saber. E há uma saudade do que foi. Portanto, em muito caso, acabou-se-lhes a especialidade. Ao par. Ou só a um elemento. Existe conhecimento profundo do outro, sabem-se gostos e perrices. Nada é novo, mas os defeitos, sendo do mesmo tamanho, crescem. Vive-se de camaradagem, companhia e muito tacto. São anos e anos lado a lado, filhos e netos comuns. E depois? Bom, depois existem aqueles seres de carácter abençoado que serão até ao fim do modelo dois em um. Serão sempre especiais um para o outro. E isto só causa problema quando e se não lhes calhou viver juntos, quando repetem um pouco aquele poema de Florbela “alguém que veio ao mundo para me ver e nunca na vida me encontrou”.  

domingo, 20 de setembro de 2020

Música


Cresci sem bandas ou canções e amores por elas. Na minha casa de infância quase não havia música a preceito, as pilhas do rádio guardavam-se para o romance da noite na Emissora Nacional, “A vida aventurosa e ardente de Ricardo Wagner”. Tínhamos os pássaros, o miado dos gatos com o janeiro, o importuno ladrar dos cães ecoando no silêncio nocturno. E havia o rumorejo do vento na copa do montado ali tão perto. Às vezes, o espadanar da roupa na água do tanque, o impo de força quando a enxada se lança à terra e o som cavo da ferida da lâmina. Pela noitinha, o balir das ovelhas que regressam ao curral, o fecho de janelas, as duas voltas de chave na porta da rua, a vida que se encerra entre quatro paredes. E a algaraviada de crianças que só o sono interrompia. Aos domingos, o gorjeio de minha mãe na igreja, pássaro triste que trazia preso na garganta e voava pela abóbada. O orgulho que tínhamos na sua voz. Nesse tempo, a música morava nela, na voz de meu tio e na telefonia dos vizinhos onde aprendia frases dispersas do carimambo, “tudo é carimambo”, que cantava sentada nos joelhos de um coronel Sousa de que nunca mais tive notícia.

Adolesci com “Quando o telefone toca” e mais a adivinhar a canção que se seguia do que a ouvi-la. Apreciava a Melodia do desespero, disco muito pedido e que minha mãe detestava. Mas, a ventura desse tempo foi a descoberta das mãos no piano, a entusiasmante sabedoria de arrancar música das teclas.

Na juventude, enquanto outros compravam gira discos e se entusiasmavam com os discos dos beatles e demais bandas da época, eu ganhei o rádio que me acompanhou até morrer de velho. Então, perdia-me de amores por Joan Baez e o belga Jacques Brel que julgava francês.

Mas se de alguma coisa me lembro, é de cantar. Cantava sem destino e em todo o lugar. Cantava. Cantei até tarde, o carro cheio de crianças a caminho da praia e todos, “somos filhos da madrugada/ pelas praias do mar nos vamos/ à procura de quem nos traga/ verde oliva de flor nos ramos/navegamos de vaga em vaga…”.

 

Uma História Comum

 

Lembro-me deles na escola. Todos nos lembramos deles nesse tempo e do tamanho do desejo que os possuía junto ao muro de entrada, ao rés de uma coluna, em qualquer canto onde, mais à vontade, os corpos se procuravam desregrados.  Era uma ânsia de mãos a tropeçar em roupa, um esgotamento de beijos que impressionava quem via, colegas papalvos e solitários em excitação invejosa e olhos de grude, gente mais velha numa certa inveja do que já não lhes vinha, que pouca vergonha. Conhecia-o de berço, criança bonita e sorridente que  adolescia em beleza e hormonas. Passava por eles como toda a gente e reconhecia os acessos, vira-os assim noutros pares e num específico há bem pouco tempo. E também sabia os resultados da cura. Quando eles mais calmos, a garota apareceu grávida, e, obrigada a crescer num repente, abandonou a escola. Como se fosse possível saltar estádios de crescimento sem dano. Portanto, passava por aquele par tão bonito - os pares escolares são sempre esmerados - em prece mental, oxalá usem preservativo, são tão jovens, que não obstruam a juventude que lhes pertence. A história dos dois não foi a gravidez, decerto tiveram seus cuidados. Apoiados por pais e demais gente saíram da escola. Casaram. Passados poucos anos, um filho, casa própria. Pensavam-se livres e senhores de si, mas pisavam na senda de pais e avós, vida traçada desde o início. Deixei de vê-los. Soube há pouco do falatório, ele encontrou outro amor. Dizem as más línguas que muito diferente, que estilo peixeira sem recato e educação. Foi tudo ao ar: ardor adolescente, nariz empinado da sua ex-menina, bem estar do filho universitário, casa, emprego. Mudou de cidade, de mulher, de vida. Todos lhe vaticinam ruim futuro. Admito que também ele o pense. Mas errar por conta própria faz diferença.

sábado, 19 de setembro de 2020

Rituais e Tradições

 

Sou de rituais, hábitos, tradições. Fazem-me bem à aura. Não que os traga de berço,  os rituais de meu pai desagradavam-me e minha mãe, enovelada em trabalho, cingia-se a dois, ambos de natureza religiosa: a missa de domingo  de que nunca desistiu, e ajoelhar em prece antes de dormir. Contudo, criou em nós o ritual do sapatinho na chaminé em noite de consoada; não sei se o leu em história ou romance, se o observou em casa mais afortunada. Soube-nos bem por anos e anos e passámo-lo aos filhos. Talvez inspirados nesse tempo em que um gatinho de chocolate nos bastava para sermos felizes, cada um criou os seus rituais.

Contudo, existem dois rituais familiares que, espero, sejam mais tarde continuados por nossos filhos em seu núcleo próprio, ainda que tudo indique não serem os meus filhos a continuá-lo:  festejar o Natal em família – pais, irmãos, sobrinhos; e posar para a foto de família. Um dia que está perto, os sobrinhos casam e arredondam outro clã. Mas a raiz há-de permanecer em algum. Se não, vale enquanto existe. É um ritual que, indiscutivelmente,  nos faz bem, nota-se na expansão contente  de corpo  e rosto.

Depois, bom depois há os meus pequenos rituais diários. Tomar o pequeno almoço cedo e a sós, não adormecer sem uma voltinha no portátil. E há rituais litúrgicos e sazonais, ir à praia; ou apenas sazonais, ver tv no verão ou estar meia hora a tricotar e a ouvir conversas de rádio no inverno. E há o ritual natalício de enviar cartões artesanais a quem mais gosto, aos que, estando longe nunca saem do meu coração. Nem sempre encontro os lápis ou as tintas que desejo, mas é o mesmo amor e atenção a tecê-los em malha de inexperiência. Ano a ano os vou rabiscando. Eu, que, dito pela própria, só tinha dez a desenho porque a professora não dava negativas. Neste ritual, como em tanta coisa da vida, conta a intenção.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Milagres Tecnológicos

 

Eu sei, os telemóveis são imprescindíveis. Certo. A gente dantes vivia sem telefone, mas hoje prolonga-nos, é uma espécie de braço inteligente que se estende para o mundo. Porque tem de se dizer isto e aquilo, enviar sms a perguntar e contar ninharias, botar likes sei lá bem onde (desalinho nessa coisa de likes). Depois, os dados móveis dão acesso a tudo, notícias, youtube, google maps e o mais, que o sabichão mister google sabe tudo que se queira (não é bem assim),  e sei lá quantas redes sociais, e jogos, e etc. E temos de estar sempre a mandar palpites e a cuscar este e mais aquele. Pois. É verdade, também ando de telemóvel na mochila, já quase tive vício de sms e números de telefone infinitos que pensei ter apagado, deu-me um trabalhão estar a avaliar um a um  e agora, sei lá porquê (será a páscoa  dos endereços), ressuscitaram todos, todinhos. Pois não senhor, o telemóvel não me é imprescindível. Mas sou-lhe grata, ainda que o maroto se ausente sem licença.

A tecnologia a que sou mais grata é mesmo o portátil. Curiosamente, foi a ferramenta que mais temi, aquela a que me habituei com maior dificuldade - fiz um curso onde não aprendi quase nada por razões que um dia, se me apeteça, hei-de contar - e levei anos a afirmar que só me servia para o trabalho. Começou por ser obrigação laboral. Mas evoluí. Bem devagar. Ainda desconheço várias funções e aborrece-me perder tempo com máquinas (todas). Uso-o com parcimónia e muito respeito. Lavo-lhe a cara de vez em quando e só não o penteio porque, enfim, não tenho como. É o objecto que sempre levo comigo se durmo fora e tenho cuidados com ele que não se imaginam. Sei sempre onde está e entristeço grandemente se ameaça ter um achaque, qualquer ponta de febre me apavora alma e bolsa. O mundo do portátil  partilha a minha rotina.  Não posso dizer que o levo a todo o lugar, mas afirmo que me (a)guarda em todos os quartos de pernoita. Já frisei em vários posts a razão do nosso entendimento. Gosto de escrever e o teclado é-me mais propício que o papel; o mundo dos blogues põe-me em contacto com pessoas que não conheço senão daqui. Comparando com a alegoria de Platão, diria que é um mundo de sombras que escrevem, não dão muito trabalho e são pessoas na mesma; além disso, posso escolhê-las e elas idem e nunca é amor à primeira vista porque, nos primeiros tempos, visto-me de cautelas que disfarço de simpatia. E se laços existem, são muito livres, cada um anda por onde quer, nas horas que pode, e escreve o que bem entende. Os comentários dão-me a ilusão de conversa e companhia. Mas não são. São outra coisa. Mas outra coisa também faz falta e nos acrescenta.

A vida corre e vai-nos dando lições. Comecei por detestar o objecto em causa, disse mal dele aos quatro ventos, prometi que nunca perdia tempo com tal aborrecida máquina. E acabei prazeirosa utilizadora. Sou forçada a reconhecer: hoje, o portátil é o meu suplemento alimentar, remédio de venda livre que prescinde receita médica e ida à farmácia. Viva!!!

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Objectos de Uso Diário

 

São os mesmos há muito ano. Colocados em lugar fixo, que me desarruma a vida mudá-los e conforta-me saber o que encontro se estenda a mão de olhos fechados. Escrevo sobre objectos diários. Meus com todas as letras. Meus porque só eu os uso e disponho. E também porque vivem comigo mais horas: todas as horas de sono e preguiça, os momentos de sonho, o tempo de ler e até de escrever, os desânimos e cansaços que não sei como a cama aguenta sem se espatifar, as alegrias que imagino me fazem leve. E eles ali, a postos sem solenidade. Escrevo pois, sobre os objectos do meu quarto. Sobretudo os que me rodeiam a cabeceira, na expectativa de que me guardem os sonhos, os façam pesados e revigorantes. Portanto, há autores de quem sou íntima, dormimos juntos. E amo certo candeeiro turco de luz azul que me foi oferecido há anos. Deambulou por minha casa sem rumo fixo, que os objectos têm suas preferências e não lhes serve qualquer lugar. Quando chegou ao meu quarto, ficou. Gosto dele e de quem mo deu. E gosto mais, se imagino a chatice que foi carregar um candeeiro com globo de vidro todo colado de missangas ou sei lá, em tonalidades de azul. Descansa-me o azulado fraco da luz, o desenho iluminado do globo, a intimidade que acontece ao clique do interruptor. Imerso nesta luz celeste, o anjo que me guarda sobre a cómoda, branqueja de asa aberta e incentiva, dorme. Mas, apesar deste céu de electricidade e cores vidradas, preciso situar a noite. Melhor, situar-me nela. Na mesa do outro lado, brilham a vermelho incansável horas e minutos digitais. A um lado tenho intimidade e sonho e, no outro, move-se a realidade temporal dos relógios, sequência de horas, distância entre dia e noite. Olhei vezes sem conta aqueles números. Algumas vezes querendo que não passem, a maioria delas apenas constatando quão lentas são as horas nocturnas. Constatação sem mágoa é aceitação do irreversível; o tempo faz-se maior à medida que encurta e menos nos resta por viver. Duram mais os momentos e as horas. Acontece. Pode ser do relógio. Ou de mim.

Os livros? Bom, os livros estão na mesa do relógio, que o candeeeiro turco é totalitário.

E é isto.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Talvez um Toque Especial

 

         Tudo que me acontece é pequeno. Que me lembre, em tamanho gigante, só um ou outro desgosto. E a pandemia  veio desacelerar ainda mais as “pequenas alegrias”. Quase nada acontece fora das invariáveis mudanças naturais. De modos que vou ser sucinta, não tenho memória de qualquer pequeno acontecimento a que esteja grata além do meu encontro diário com a Violeta e a Lili. Mas posso talvez falar de um autor(escritor) que me aconteceu nesta vida parada. É espanhol, assina Jaume Cabré e não o conhecia. O primeiro livro que li, “As vozes do rio Pamano”, foi-me emprestado e aborda a vida de um professor primário durante o franquismo. Ao longo da obra, Jaume escreve sobre muito assunto e muita gente, a vida do professor é só o eixo da história, mas se fora só ela, já o livro valeria. É narrativa que me apraz e noto-lhe leve travo de humor que incentiva a leitura, tem muita folha e nenhuma em vão. Amo histórias bem contadas.

 De viva voz, manifestei o meu apreço, teci-lhe elogios, senti-me grata por mo darem a conhecer. O reforço deste pequeno fait divers surgiu uns meses depois sob a forma de prenda, novo livro do autor. Novo para mim, não é publicação recente. Alguém se lembrou de mo procurar. Ainda o não terminei e o título “Eu confesso” diz pouco acerca do intrincado de gente e situações, de presente e passados - recua imenso no tempo, chega à Idade Média e aos cátaros. Uma constante nas duas obras é a existência de alguém que pertence ao tempo da escrita e cuja situação se relaciona de alguma forma com a maior parte da história virada a um passado mais distante. No caso de “Eu confesso” há uma predominância da dimensão religiosa em todas as épocas e do sofrimento judeu durante e após a segunda guerra mundial. Podemos dizer que há inúmeras histórias encadeadas no tempo e um violino de que vamos tendo notícia desde as árvores e as pessoas que o fizeram nascer até ao que eu suponho ser a morte do instrumento (que ainda não li), as mãos por que passou e os sentimentos torpes ou belos que gerou ao longo do caminho. Acresce que este livro tem uma novidade formal em relação ao anterior: a narração passa de súbito da primeira para a terceira pessoa. E “de súbito” é, por vezes, a meio da frase ou depois de uma vírgula ou de um ponto final que não é parágrafo. O narrador é eu e é ele no mesmo parágrafo. Mas lê-se sem dificuldade. E perpassa na escrita o mesmo fio de fino humor. Há ali muita sabedoria. Ou/e trabalho de pesquisa.

    Muito grata, Jaume. Por que razão os portugueses te lêem pouco, juro que não sei. Desculpa-os, são eles os perdedores.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Amigas

 

Uma vénia aos meus amigos. E, ao debruçar-me, lhes beijo mãos e pés. Não sei de forma mais simples e verdadeira para o reconhecimento. Pertencemo-nos. De coração. E mais tudo que é eu.  

Acontece que tenho uma amiga desde a idade dos sonhos, os meus eternos dezoito, dezanove anos. Época memorável. Esta amizade apanhou-me numa curva difícil e  a sua ternura alegre e atenta foi panaceia e abrigo. Semi-internas numa casa religiosa, demos algum trabalho às freirinhas que nos recebiam. Nesse tempo em que eu não pregava olho, ela tornou-se evidente pela preocupação convicta. Depois de mezinhas e medicação infrutíferas, noites e dias insones, pusemo-nos as duas a estudar o problema que resolvemos sem médico ou fármaco. Mas o seu desvelo. Manhãzinha, subia a escada e perguntava, dormiste?, e descia contente e a saltar degraus, na posse da minha afirmativa. Tanto sonhámos juntas. Tínhamos nossos derriços e era uma felicidade e um acelerar de coração intuir um possível encontro a caminho da escola. Ou, quem sabe, dávamos uma fugidinha ao jardim e cirandávamos de mão dada, perdidos em prazer inocente e um pouco orgulhosos. Cruzámo-nos algumas vezes, um arzinho tão de felicidade no rosto dela que ainda me comove recordá-lo. Não fomos o futuro uns dos outros. Perdemos o enleio das mãos, as palavras, os silêncios cheios de pássaros e clorofila, eu cantando brasileiradas a um rapaz que possivelmente as não apreciava. Depois, atravessámos a juventude por correspondência, confidências dobradas em quatro, envelopes opados. Juntávamo-nos em férias e, à boca do Inverno, ela enviava-me uma saca de castanhas que assávamos ao borralho de Dezembro.

Casou e passou por nossa casa em lua de mel. Para me apresentar o respectivo: simpático, charmoso.  E, no meu à vontade, não tardei a visitá-los. Ela feliz, dona de sua gravidez moderna e desempoeirada. Tive a absoluta certeza que conservávamos o essencial. E também que avançava destemida por sector que eu desconhecia. Havia uma alínea da vida que partilhava talvez com familiares ou gente do mesmo rumo. Nada nos afectou. Perseverámos nas missivas feitas de novidade, queixas, desabafos. Visitava-a com frequência. Vi-lhe crescer os filhos e, quando me resolvi a enfrentar a dita alínea, enfim, eis-nos juntas em casa uma da outra. Mas as cartas. Ah, as cartas que eu ainda lhe envio; e as que  me escreve: novidades, queixas, leituras, pequenos nadas que só contamos a quem. Já tentámos o mail, mas queixa-se que o digital lhe come as ideias. Sobram as cartas.

Quanto sonho não se fez verdade, e quanta verdade incómoda nos cresceu fora do sonho. Mas o nosso milagre enraizou, é verbo irregular que conjuga no presente. Adaptando Régio, “se não fora tê-la assim/ sempre à beirinha de mim/ eu já teria morrido/ ou já teria fugido/ ou já teria bebido/ algum tinteiro de tinta”.

 


domingo, 13 de setembro de 2020

Aquele Parente Especial

 

Calha-me a muita sorte de ter vários parentes especiais. Gratíssima pela dádiva, portanto. A uns, admiro a suave delicadeza no vagar de mãos gretadas e envelhecidas; a outros, a calma digna com que absorvem os dias, imóveis em sua cadeira de rodas, sozinhos no meio dos mais como eles; àqueles, admiro a conversa fácil e a textura suavemente pícara em imitação de voz, entoação e termos que desgarram da sua mesma inocência, “a minha filha anda a fazer um tratamento muito grande e agora vai ter um bebé profeta”; a estes, invejo os olhos desvanecidos pousando no precioso bem do jardim, corolas e corolas abrindo à soalheira e, regador na mão, são incansáveis  possuidores da primavera floral. Mas, que querem, o “especial” corre-me directo do coração, é coisa de esquentar veias, artérias e demais vida em dias escurecidos e noites de candeio. Tenho um tio especial.  É pessoa bem disposta, assisada e tem, ele sim, um talento especial para lidar com crianças e ser feliz com elas. Os netos – todos, sem excepção – adoram-no e passam a maior parte do período pré escolar e de férias em casa dos avós e brincando com o avô. Ou seja, em sua casa há um albergue da juventude que, neste caso, acontece desde a idade de meses e há-de terminar não se sabe quando, que a mais velha já está à beira da universidade. Gostava de ser neta do meu tio. No entanto, os nove anos que nos separam também garantiram proximidade de ama. Partilhou comigo muito do seu tempo livre lendo histórias, mostrando a banda desenhada a que eu não dava importância, excepto no caso de Rip Kirby por ter uma secretária de deslumbrantes óculos avant garde; diga-se que ainda hoje adquiro óculos sem destino (baratos, claro) na tentativa de me tornar assim um bocadinho insinuante e ficando apenas esquisita. Depois, havia o príncipe Valente que tinha uma mulher linda, creio que se chamava princesa Alexa e usava lassas tranças loiras sem o sufoco das nossas cordas de caldeiro; das tranças de Alexa (nome mais exótico) não saíam cabelos espetados como agulhas (havia um trio de tranças agulhentas em nossa casa), nem eram atadas com linha de coser, antes rematavam com lacinhos impecáveis - o mundo de papel é uma perfeição. Meu tio secou-me birras e rios de desgosto feito lágrimas, inventou jogos só nossos, deixou-me brincar com o loto dos animais, levou-me às cavalitas em voltas ao monte, a relinchar e a trote, eu a, a, a, a, a, toda entrecortada por via dos saltos. Para além disso, beijava-me e era carinhoso. Sobretudo, dava-me abraços com muita força e a meu pedido até que, já chega, já chega, ai, ai, ai, ai. Aí, minha avó dava o alerta, deixa a gaiata em paz. Mas a melga teimava, outra vez, tio. Jamais esqueço a tristeza dos seus dezasseis, dezassete anos quando, em força de vaso comunicante, respondi à sua voz embargada e olhos rasos com a abundância de desgosto infantil alheio a comportas.

 Tal como os netos, todos os sobrinhos o gostam de forma especial. Devo-lhe muitas coisas boas que não cabe aqui desvendar. Mesmo muitas. Algumas, relacionadas com o meu futuro escolar por que sempre lutou. Irmão caçula de minha mãe, também ela lhe reconhecia a unicidade. Vejo-o pouco. Vale-me a memória que o releva. Exclusivo e íntimo. 

Obrigada, tio.

sábado, 12 de setembro de 2020

Talento e Habilidade

 

 Nota prévia: pela primeira vez um desafio. Porque sim.

 

Pois, meus amigos, inicio com o tema 1 (tão original). É o primeiro em dificuldade e fico já despachada. Daqui a um bocadinho, pufff, enxugo o suor da mente e já está, descanso. É que ontem andei o dia inteiro à pesca de um talento, uma habilidadezinha mesmo que pequenina e nada. Nadica de nada. Pois se sou conhecida em família pelo rol de desabilidades que tenho vindo a desenvolver ao longo da vida, onde é que desencanto qualquer coisinha de jeito. Ora bolas para mim. Ou para o Criador distraído na hora dos talentos de je.

Portanto, restam-me as desabilidades. E aí, ó pá, é só desbobinar. Porque desde fazer nós sem querer e ser incapaz de os desfazer (nós de corda, que nos outros ainda sou mais audaz e é melhor nem começar), às caricatas situações em que não entendo o que os outros dizem - lerdice mental, ingenuidade congénita e simplicidade que ronda a idiotia -, pois tudo isso me aponta - e conta - para o rol de habilidades e talentos. No sentido inverso. Gosto da contramão, que se há-de fazer. O meu problema neste momento é como agradecer estes dons ao contrário. Bom, é certo que me trazem situações inesperadas. Fico fechada nas casas de banho públicas, acredito piamente no, “vai lá a casa” e depois desagrada-me notar a contrariedade involuntária ao abrir da porta; idem para o sentido figurado do “apareçam para almoçar” , mas com mais ênfase. Isto, descontando a minha crença total e literal nas palavras dos outros: a maior pêta assenta-me como verdade. Por mais que eu mesma diga e saiba que as aparências iludem, tenho um infeliz véu mental que mas faz ver reais. E assim vou caminhando alegremente pela vida. Sem emenda. Sou isto. Portanto, tenho de ser grata por viver em tal desconcerto. Afinal, tenho gags sem conta, risos inúmeros, conheci pessoas dentro deles que talvez não ousasse em circunstâncias para os outros ditas normais e que pouco me acontecem. Porque, como já entenderam, em tudo passo o meu involuntário véu de anormalidade. A minha vida é sui generis desde sempre. Yupiiii.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Setembro

 Setembro e as folhas mortas. É ainda verão, mas já elas tremelicam nos ramos, soltando-se na brisa da tarde e nos improvisos apetecidos do vento. Bucólico Setembro, obtusa luz que amarela e mais cedo desaparece no prenúncio dos dias pequenos. O Outono insinua-se por frestas de tempo quente e alerta o sangue dos velhos. Setembro é verão que adoece. 

Mas a pele ainda cheia de sol, cabelo em desmaio de cor, crianças que espigaram e precisam roupa nova. Juvenis amores de verão foram envolvidos em celofane de promessas a não cumprir e entram em asfixia; ou, envolvidos em papel de seda, sofrem as agruras da separação.  E podem os corações doentes não o saber, mas hão-de tornar-se leves, memória grata do verão x. Resta a vibração das sensações, aquele momento de sintonia extasiada, o uníssono desengalgado do desejo. Mais nada. A vida segue, e o coração de férias morre depressa.

Setembro são os livreiros respondendo a papelinhos incisivos, pescados em mala de mão ou bolso de calças, soletrados em fidelidade; são as encomendas de livros pela net e as contas que para tantos este ano são mais bicudas, os progenitores olhando as pilhas de livros e duvidando da capacidade dos rebentos que, dizem à boca cheia, podem ser muito distraídos, faladores, teimosos, preguiçosos. Mas pouco inteligentes, isso é que não.

Em Setembro, o meu plácido mar arranca do fundo da alma uma raiva barulhenta costurada a suspeitosas ondas bravias, e muda de feição.  Em conluiu, as gaivotas chegam cada dia mais cedo. Primeiro, como que distraídas, uma ou outra desenhando patas no areal. Depois, o ritual de círculos rasantes que antecede a imobilidade nocturna em bando pela areia. O mundo ajusta-se ao suave fechamento do Outono.

Há uma eternidade, Setembro era o último mês das férias grandes.  Eu mesma sou Setembro.