Se escrevo
livremente, caio, invariável, na infância. Portanto, em deliberada escolha, vou
cingir-me a uma fase da juventude: o ano um da minha liberdade, que corresponde
ao meu segundo ano de trabalho.
Começou
mal. Foi o cabo dos trabalhos para concorrer. Mas, ao invés da juventude actual
que concorre e não acerta, era o tempo em que ser admitida a concurso era igual
a ter emprego. Não sabíamos onde, mas em algum lado havia uma escola e crianças
à nossa espera. Quando recebi em casa a comunicação do lugar, fiquei contentíssima
mas sem ideia da posição geográfica da escola que ia ser a minha. Pelo mapa,
sabendo o concelho, pensei que lá chegaria com certeza. No dia em que me
apresentei na delegação escolar chovia torrencialmente e, na viagem de ida, o
primo que me transportava foi obrigado a parar sob a copa de uns pinheiros. Engolida
pela violência da água, a estrada desaparecera. Mas nada beliscava o meu
entusiasmo. Resolvida a hospedagem e já na posse da chave da escola, fui conhecê-la.
Parecia-me impossível ter um quadro preto, giz, carteiras, armários, tudo nosso, para
mim e alunos. Eu era uma temporária dona da escola, tinha a chave. Verifiquei
que distava três a quatro quilómetros da vila onde pagara o quarto. Não
esmoreci, tinha boas pernas, faria as viagens a pé (ausência de autocarro
a horas convenientes).
No
primeiro dia, resolvida a cronometrar a viagem para acertar horários e desconhecendo
a velocidade das pernas, levantei-me cedíssimo. Quando começaram a chegar
vindos dos montes, uns mais distantes que outros, olhavam-me desconfiados e em
silêncio respeitoso. Só um, depois das apresentações, arriscou, a senhora fica
cá o ano todo? Garanti que sim. Ninguém tugiu. Mais tarde, entendi que
os alunos gostaram de mim à primeira.
Depois
que acertei o passo com o relógio, passei a fazer parte do caminho acompanhada, íamo-nos juntando estrada fora; como lhes ensinava
canções, cantávamos. Além disso, pediam-me para cantar as que ouviam no rádio e
contavam-me histórias de sua casa, vacas que tinham parido, borregos que
adoeciam, avós que iam para o hospital com maleitas que nunca sabiam explicar, etc. Naquele tempo tudo me parecia natural (tendência que não perdi
completamente), hoje julgo que me espreitavam e saltavam à estrada no momento certo.
Em Novembro, meu pai deu-me uma acelera sensacional que os deixou estarrecidos de prazer no primeiro dia em que aparecemos na escola e atrás da qual os atrasados
corriam esbaforidos (eu desacelerava para me poderem acompanhar). E iniciámos o ritual. Chegava e o portão da escola estava aberto de
par em par. Entrava e apontava ao pátio traseiro enquanto eles corriam na minha
frente a apostrofarem e empurrarem-se uns aos outros, sai, sai, deixa a senhora
passar. As luvas de pele não eram protecção suficiente, as mãos enregelavam e não conseguia pará-la e pô-la no descanso. Mas eles à minha volta num afã,
quem é hoje minha senhora, quem é hoje. E eu, do alto da minha importância,
designava. Tiravam-me a chave e abriam a porta, levavam-me a pasta dos livros. Foi um ano extraordinário. Já não sei qualquer nome e nem eles
saberão o meu, têm dez a quinze anos menos que eu e o tempo aproximou-nos. Mas tenho a certeza que todos lembramos quem fomos durante aquele ano lectivo.