Há
sempre alguém especial na vida de cada um,
a solidão total não é suportável. Imaginário ou real, o entrave à
libertação final do suicida existe. E se há muito suicídio, o número dos
suicidas ainda é maior (alguns, para bem ou mal deles, fracassam). Porém, se
tal desejo se apossa de mente que o abraça, nada pode impedir a concretização.
Nada. Mais tarde ou mais cedo, atenta com êxito. Liberta-se. E é meu entendimento que, neste caso, o desejo
se ultrapassa a si mesmo e torna fixação, obsessiva doença da alma que arrebata
a vontade só para si, contamina a vida e a torna insustentável punição. Afirmar
que todos os suicídios têm como causa única os estímulos – ou a sua falta – do
meio humano e natural é redutor, há muito de psicologia individual no suicida, não
é de justiça descarregar no meio todo o peso. Neste caso, como em tantos, os
itens conjugam e concorrem para um mesmo fim. Isto sem querer tirar peso a
condições do meio e situações específicas que, em plano inclinado, só param no
obscuro desejo de morte. Quando certezas e hipóteses desinteressam, a aspiração
ao nada toma-se por solução de tudo.
Mas
voltemos ao tema “alguém especial”. Na juventude e na adultícia, muitos sonhos
ainda intactos, impõe-se a tendência para cingir o termo “alguém” ao lado
romântico. A expressão suscita imediato relâmpago a iluminar aquele ou aquela
que resplende e subsume todos os alguéns de quem dependemos e somos herdeiros.
Mesmo que seja alguém sonhado, é ele/a e não outro/a. Existindo realmente, conhece-se
entre mil ou mais, releva de todos os terráqueos. Único e feito por medida.
Para nós (inocência mais terna e enganadora). Não se sabe por que benéfico
acaso se cruzaram os caminhos, mas a esperança chama-se para sempre. Desejava Vinicius
que o amor seja infinito enquanto dure. Vinicius a propor a intensidade. E
porque ninguém suporta largo tempo a rubra intensidade, olha, lá terá que vir
outro amor (nos intervalos, Vinicius descansava).
Porém,
à medida que a pele engelha e carcome, a coluna cria casca grossa (em osso,
claro) e os movimentos perdem graciosidade e ganham respeito, artilharia e
cautela; à medida que nos vamos assemelhando uns aos outros; à medida de tanta mutação, os
sentimentos expandem. Amam-se os filhos e netos em atenta ternura desvelada, cada
vez mais silenciosa se não a apreciam ou os notamos coibidos face às nossas explosões
de bem querer; gosta-se do vizinho do lado ou daquela senhora da outra rua que
nos mostra a casa com orgulho ou passeia o cão ao fim da tarde e pára para um
dedo de conversa; gosta-se até do padeiro que não vemos, mas passa cedinho e
nos pendura o trigo na porta de entrada; e até temos uma quedinha por aquela
menina do super que espera sorridente pelas nossas mãos cada vez mais inábeis a
empacotar víveres. E o alguém especial? Pois
por vezes é só memória do que foi. Morreu-nos de vez. Ou está morto e não sabe
ou não lhe dá jeito saber. E há uma saudade do que foi. Portanto, em muito
caso, acabou-se-lhes a especialidade. Ao par. Ou só a um elemento. Existe
conhecimento profundo do outro, sabem-se gostos e perrices. Nada é novo, mas os
defeitos, sendo do mesmo tamanho, crescem. Vive-se de camaradagem, companhia e
muito tacto. São anos e anos lado a lado, filhos e netos comuns. E depois? Bom,
depois existem aqueles seres de carácter abençoado que serão até ao fim do
modelo dois em um. Serão sempre especiais um para o outro. E isto só causa
problema quando e se não lhes calhou viver juntos, quando repetem um pouco
aquele poema de Florbela “alguém que veio ao mundo para me ver e nunca na vida
me encontrou”.
Acredito que essa pessoa especial é mesmo aquilo que dá sentido à vida e que, por vezes, salva certas pessoas do destino cruel do suicídio.
ResponderEliminarBeijinhos
Blog: Life of Cherry
Também acredito nisso, o amor é força que puxa para a vida e nela nos enraiza, embora, julgo eu, devamos viver também por nós, pelo gosto de viver e estar no mundo. Quando e se, apenas a pessoa especial nos prende, o perigo mantém-se. E se ela falha, se nos falha. Mas, se a morte vira obsessão, é raro haver volta. Não sei se a pessoa especial deixa de o ser se é suplantada por esse desejo extremo de negar a vida mudada em sofrimento insuportável. Nada mais importa, o suicida quer descansar do tormento e só vê um caminho, vive tão cego como os burros que puxavam a nora andando em círculo, mas supondo que o faziam em frente.
EliminarO problema muitas vezes é ter pressa em encontrar essa pessoa especial.
ResponderEliminarpois é. Mas sem pressa também pode dar mal. A união entre duas pessoas que só o amor une é sem dúvida bonita, mas, pela mesma razão, do mais periclitante. O alicerce amoroso exige muito do par. Se há desnível periga; se não se alimenta, idem; se a descoberta do outro vai matando todo o sonho, não sobra o que imaginar; se.
ResponderEliminarContudo, julgo que o século XX trouxe a hipótese de casamentos e pessoas realizados e até de uniões duradouras e felizes que, noutros séculos, não constituía aspiração.
Grande crónica Bea, em extensão, conteúdo e qualidade. Voltando à música, diria que fez os arranjos dum concerto tocando vários instrumentos, ao qual nem Vinícius faltou. E, da minha parte, eu que tantas vezes lhe pedi para escrever sobre a problemática do amor, ou melhor dizendo, sobre as suas facetas e relações (ou serão ralações?), parece-me que me foge o tapete debaixo dos pés, porque, quer no texto, quer nos comentários, está tanto dito que acrescentar algo só pode estragar. Contudo… arrisco.
ResponderEliminarPegando no que escreveu Florbela, o desencontro sempre me atormentou; mais o de duas pessoas que nunca se cruzaram na vida e que poderiam ter sido almas gémeas, do que de duas pessoas que não se corresponderam em sentimentos, porque, como alguém observou, aquele que amou sempre foi mais feliz. Indesculpável mesmo é alguém mentir e dizer que ama.
Associada ao desencontro, para aqueles em que a vida romântica é o mais importante, está também a sensação de que se desperdiçou a vida, que Afrodite e Vênus lhes viraram as costas e, por mais carpe diem que lhes encham os ouvidos, sempre ficarão com a amargura de que não foram bafejados pelo destino – o destino assim quis. Mas poderemos nós alterar o nosso próprio destino ou contribuirmos para que se altere? O movimento existencialista diz que sim, contudo não deixam de ser teorias e a prática ensina-nos que as pedras e os obstáculos são muitos. O próprio Vinícius (lá voltamos a ele), que casou nove vezes e teve cinco filhos, terminou dizendo: “Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo”.
Destino, palavra de que tanto gosto e cuja inevitabilidade nos parece esmagar, leva-me, porém, a acreditar que em parte, nem que seja uma pequena parte, o posso forjar. É um pensamento que me faz sentir bem…
PS: sobre temática afim, deixo uma sugestão no blog Tempo Contado de J. Rentes de Carvalho de 15 de Setembro – Um caso do dia.
A escrita também é como as cerejas, Joaquim. Gente desorganizada como eu começa com um fito e vai-o permeando de temas que entretanto surgem.
EliminarJá pensou que o desencontro de Florbela e outra gente é apenas o sonho de que se não desiste? O "alguém" que nunca na vida a encontrou", pode ser refúgio e até desculpa para a sua teimosia na perfeição imaginada. Mas também acredito em desencontros.
Não há nada completamente indesculpável, Joaquim. O perdão não se nega ao arrependido. E há excepções e mentiras necessárias.
À medida que vou vivendo creio que sim, que alteramos algumas coisas na nossa vida, não sei se posso chamar a isso alteração ao destino porque na minha óptica a vida vai-se fazendo com a nossa ajuda; acaso ou não, temos sempre de dar resposta ao que nos acontece. Que o que nos acontece por vezes só nos limita e as respostas são de fraca liberdade, também é vero. Portanto, chamemos como quisermos que, mais ou menos condicionados, respondemos. Havendo destino, há-de ser como aquele célebre encontro com a morte em Samarcanda: não tem fuga, mas é no uso da nossa finita liberdade que o realizamos.
Frequento o blog de Rentes de Carvalho:). E lembro-me desse texto, não há ali ponta de infinito.
A infinitude amorosa de que fala Vinicius é muito bonita posta em verso. É como se o poeta diga, pois, é efémero mas em contrapartida é infinito gosto. Ora os infinitos dão muito trabalho, gastam-nos e gastam-se. Como se viu.
Bea... pessoa especial num dado momento tenho encontrado num abraço sincero, numa palavra aconchegante ou num sorriso travesso!
ResponderEliminar...
Quanto àquele recanto conimbricense sem café... é apenas um espaço a céu aberto anexo ao shoping onde se relaxa, cada um a seu jeito!
Bj
Obrigada, Gracinha.
ResponderEliminarUm abracinho
Enquanto te lia pensava em um ou dois amigos, curiosamente não tomei como "especiais" os cá de casa. Talvez porque somos os quatro e não nos imaginamos de outra forma. Estamos aqui para a vida!
ResponderEliminarEsses outros especiais, são refugios, são irmãos (não de sangue), não me imagino sem eles para me ajudarem a pensar(-me). São poucos, muito poucos, os especiais.
mas são esteio na nossa vida, Boop.
ResponderEliminarBom dia.