Cresci
sem bandas ou canções e amores por elas. Na minha casa de infância quase não
havia música a preceito, as pilhas do rádio guardavam-se para o romance da
noite na Emissora Nacional, “A vida aventurosa e ardente de Ricardo Wagner”. Tínhamos os
pássaros, o miado dos gatos com o janeiro, o importuno ladrar dos cães ecoando
no silêncio nocturno. E havia o rumorejo do vento na copa do montado ali tão
perto. Às vezes, o espadanar da roupa na água do tanque, o impo de força quando
a enxada se lança à terra e o som cavo da ferida da lâmina. Pela noitinha, o
balir das ovelhas que regressam ao curral, o fecho de janelas, as duas voltas de
chave na porta da rua, a vida que se encerra entre quatro paredes. E a
algaraviada de crianças que só o sono interrompia. Aos domingos, o gorjeio de
minha mãe na igreja, pássaro triste que trazia preso na garganta e voava pela
abóbada. O orgulho que tínhamos na sua voz. Nesse tempo, a música morava nela, na
voz de meu tio e na telefonia dos vizinhos onde aprendia frases dispersas do
carimambo, “tudo é carimambo”, que cantava sentada nos joelhos de um coronel
Sousa de que nunca mais tive notícia.
Adolesci
com “Quando o telefone toca” e mais a adivinhar a canção que se seguia do que a
ouvi-la. Apreciava a Melodia do desespero, disco muito pedido e que minha mãe
detestava. Mas, a ventura desse tempo foi a descoberta das mãos no piano, a entusiasmante
sabedoria de arrancar música das teclas.
Na
juventude, enquanto outros compravam gira discos e se entusiasmavam com os
discos dos beatles e demais bandas da época, eu ganhei o rádio que me
acompanhou até morrer de velho. Então, perdia-me de amores por Joan Baez e o
belga Jacques Brel que julgava francês.
Mas
se de alguma coisa me lembro, é de cantar. Cantava sem destino e em todo o
lugar. Cantava. Cantei até tarde, o carro cheio de crianças a caminho da praia e
todos, “somos filhos da madrugada/ pelas praias do mar nos vamos/ à
procura de quem nos traga/ verde oliva de flor nos ramos/navegamos de vaga em
vaga…”.
Fantástico texto onde me encontrei em quase cada palavra.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Obrigada, Graça. Teremos tido princípios semelhantes:).
EliminarBoa semana.
Tanta memória. Até eu comecei a pensar nos meus tempos de mais jovem =)
ResponderEliminarBeijocas
é que não tenho uma canção preferida, Cláudia, agradeço a música em geral.
EliminarA minha memória dos sons é diferente, começa com a telefonia em casa de minha avó, depois continua por minha tia que tinha um pequeno rádio transistor portátil que levava para a praia e que religiosamente ano após ano ia, creio, à Emissora Nacional pagar a respectiva licença. Essa mesma tia que me levou pela primeira vez à Gulbenkian, devia de ter uns 15 anos, para assistir ao bailado do Quebra-nozes. Lá voltei e sempre senti que aquele lugar me transportava para uma dimensão onde a vida do espírito se unia à vida dos sentidos. A música tem esse efeito, há algo de divino que entra em nós, que nós acolhemos como se sempre nos pertencesse numa linguagem que a razão não compreende.
ResponderEliminarBea, e não havia cante alentejano?
ResponderEliminarNem aqueles bailes de fim de semana?
🌿🌼
Por vários motivos, nem cante - que ainda não há - nem bailes. As minhas memórias saem uma nica do comum.
EliminarVi o Quebra-nozes, como todos os bailados, já tinha mais de cinquenta. Não me lembro quando entrei pela primeira vez na sala de concertos da Gulbenkian - já não apanhei o corpo de bailado da Fundação -, mas foi decerto também depois dos cinquenta. Sei que me comovi imenso e que ouvi a missa de Beethoven. A música une-nos ao que há de melhor em nós e nos outros. Mas este maldito vírus até isso me tira. Porque embora a Gulbenkian tenha disponibilizado concertos (certamente repete se cancelar os espectáculos), não é a mesma coisa. E nem fiz aquisições para a próxima temporada.
ResponderEliminarRecuei no tempo Bea!
ResponderEliminarMeu pai tinha sempre o rádio ligado e a música faz parte da minha vida!
Ainda hoje... mantenho viva essa memória com o rádio quase sempre sintonizado!
Discos e cassetes continuam a ter um lugar privilegiado em nossa casa!
Boa noite e gosto muito do texto!!!
Muito embora pertencendo ao hoje e gozando dos seus benefícios, vimos de longe, Gracinha.
EliminarBonito texto.
ResponderEliminarExcelentes referências, Baez, Brel e o nosso Zeca.
Os dois primeiros deu-mos a rádio; o Zeca , o 25 de Abril.
ResponderEliminarBoa noite, Magui.
A rádio sempre foi, e ainda é, uma companhia essencial.
ResponderEliminarAté na casa de banho!!
Hoje oiço muito menos. Deixou de ser essencial. Gosto cada vez mais do silêncio. Estou a tornar-me eremita sem deserto. Ou com:).
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