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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

las puentes de moscú

Ler as histórias de Alfonso Zapico sempre implica em um envolvimento emocional, como se ele apostasse em uma ligação afetiva para comunicar ideias e reflexões sobre assuntos nem sempre fáceis. Percebe-se isso em "Café Budapest", no qual ele trata do conflito árabe-israelense; em "El otro mar", em que fala da conquista espanhola das Américas; em "Cuadernos d'Itaca", que discute a experiência do quase exílio, de um estrangeiro como ele vivendo entre franceses e viajando pelo mundo, saudoso de sua Espanha e de seu asturiano fundamental. Nos seus volumes dedicados a obra de James Joyce ("Dublinés" e "La ruta Joyce"), esse mesmo registro afetivo é utilizado para descrever como ele se envolveu um um tema complexo, difícil de classificar e reduzir-se à forma de Graphic Novel. Enfim, em suas próprias palavras ele se considera "um dibujante de conflictos". "Los puentes de Moscú" é seu livro mais recente. Não se trata das pontes da Moscou russa, mas sim das pontes metafóricas de uma praça em Irún, Guipúzcoa, no país basco espanhol, conhecida como praça vermelha. Zapico desenha e adapta para o formato de história gráfica um encontro que teve em Guipúzcoa com dois amigos, Eduardo Madina e Fermin Muguruza. Madina é um político espanhol de origem basca, foi secretário geral do partido socialista, sofreu um atentado do grupo terrorista e independentista ETA e atualmente é professor universitário. Muguruza é cantor, instrumentista e produtor musical basco, muito respeitado em sua região e que mantém colaboração com músicos de todo o mundo. É também um sujeito comprometido (a seu modo) com o projeto independentista do País Vasco. Zapico e Madina são quase da mesma idade (quase quarenta ou quarenta e poucos, respectivamente), Muguruza um pouco mais velho (tem cinquenta e cinco anos). Zapico registra os vários encontros entre eles, conta suas biografias, os feitos mais decisivos de cada um, as controvérsias e polêmicas nas quais se envolveram, momentos tristes e também alegres de suas vidas. Das conversas, sempre ao redor de mesas de bar, de café, vinho ou pratos típicos bascos, brotam reflexões sobre um conflito que é difícil de compreender e mais difícil ainda de explicar. Não há conclusão possível. O que Zapico propõe é estabelecer pontes entre os indivíduos, discutir como cada um pode contribuir para esse complexo debate. Afinal, o tempo continua fluindo, como as águas dos rios que seguem para o mar próximo a Irún, as vidas seguem sendo vividas, e algum convívio pacífico entre membros de cada grupo (os nacionalistas e os idependentistas) possível. Vale! 
Registro #1303 (graphic novel #70) 
[início: 21/05/2018 - fim: 23/05/2018]
"Los pontes de Moscú", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 17x24 cm., 200 págs., ISBN: 978-84-96815-51-5

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

cuadernos d'itaca

De todos os bons trabalhos que já li de Alfonso Zapico esse é o mais pessoal, mais intimista, mais especial. São onze histórias curtas, onde ele faz uma espécie de balanço ou ajuste de contas, tanto de sua vida, sua história pessoal, quanto de seu ofício, sua arte. "Cuadernos d'Itaca" está escrito em asturiano, língua que alguém que entenda o português de Portugal e algo do espanhol da Espanha acaba entendendo também, com um justo e necessário esforço. Abundam os "X" galegos e os "LL" catalães (mas só mesmo um linguista para me ensinar como se deve ler essa língua). De qualquer forma aprendi que pelo menos 400 mil pessoas a dominam bem, ao menos como segunda língua. Como vasto é o mundo. Bueno. Vivendo há muitos anos na França Zapico retorna de férias a sua Astúrias natal e sente-se um estrangeiro. Ele se inspira nas viagens de Ulysses pelo mar Egeu para descrever algo de sua "Señardá" (quem diz a palavra que descreve saudade só existe em português não conhece asturiano). Umas gaivotas lhe mostram o caminho. O inspiram a recolher de seu caderno de rascunhos as histórias que contem algo de sua terra. Zapico escreve sobre seu tio Milio, que perdeu o emprego em uma fábrica estatal de equipamentos bélicos; sobre sua decisão de emigrar ao norte, à França; sobre sua casa editorial (a Astiberri), como se fossem uns piratas no mar revolto da edição de livros; faz uma sociologia selvagens dos hábitos franceses; descreve as dificuldades de uma mulher espanhola em conseguir cargos de comando num mundo europeu machista; fala do fechamento das minas asturianas de carvão e o impacto disto na sociedade local; filosofa sobre os tempos modernos, do feroz neoliberalismo que compromete o futuro de uma sociedade que se imaginava sempre ser possível prosperar; conta a história de uma senhora de quase cem anos que emigrou como ele para a França nos tempos da guerra civil espanhola; fala da experiência de viver uns dias na Polônia, num evento literário, um país tão complexo como o seu (afinal, como ele diz, parafrasendo Tolstói "todos os países que parecem felizes são iguais, mas todos os países infelizes o são cada um à sua maneira". Há que se respeitar um autor que usa sua arte para interpretar honestamente o mundo e o tempo que vive (não há um pingo de autoindulgência, comprometimento ideológico ou partidário, cabotinismo ou hipocrisia em suas histórias - cousa que muitos escritores brasileiros se aferram em fazer, imaginando que todos seus eventuais leitores são incapazes de pensar por conta própria). Enfim, como já nos ensinou Auden (traduzido por José Paulo Paes e certamente lido pelo Zapico), todos nós em algum momento nos perguntamos: "Para onde aponta esta jornada, que o vigia do cais, / Parado sob a sua má estrela, inveja tão amargamente, / Enquanto as montanhas nadam para longe em braçadas lentas, calmas, / E as gaivotas abdicam seu vôo? Promete acaso uma vida mais justa?”. Evoé Zapico, evoé. 
[início: 18/08/2016 - fim: 25/09/2016]
"Cuadernos d'Itaca", Alfonso Zapico Fernández, Oviedo/Espanha: Ediciones Trabe, 1a. edição (2014), capa-dura 24x30 cm., 89 págs., ISBN: 978-84-8053-747-6

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

café budapest

Do asturiano Alfonso Zapico já havia lido dois livros divertidos dedicados a James Joyce ("Dublinés" e "La ruta Joyce") e um outro em que ele conta a vida de Nuñez de Balboa, um explorador espanhol do século XVI. Em "Café Budapest" o tom é amargo, sombrio, sem esperança, afinal não é possível falar do conflito árabe-israelense com otimismo. A história de Zapico começa logo após o final da segunda grande guerra. Yechezkel Damjanich (Chaskel), um jovem violonista que vive com sua mãe em Budapest, na Hungria, entra em contato com um tio, irmão de sua mãe, Yosef, que havia emigrado para a Palestina, onde era dono de um café, no bairro antigo de Jerusalém. Nessa época a Palestina estava sob administração inglesa. O tio os convida para viverem com ele e se afastarem da opressora influência soviética sobre a Hungria. Irmão e irmã não se falavam há anos e evitam explicar a Chaskel as razões de sua animosidade (o sujeito é basicamente um anarquista, um anti-comunista ferrenho, e ela uma sobrevivente dos campos de concentração nazistas). A Jerusalém que mãe e filho encontram ainda é uma cidade onde convivem razoavelmente bem judeus, cristãos, árabes e palestinos, mas se percebe que há tensões e que aquele equilíbrio é precário. Zapico conta a história de amor entre Chaskel e uma garota árabe (Yaiza). Em paralelo fala dos desdobramentos terríveis da partição da Palestina entre árabes e judeus e a criação do estado de Israel, em 19 novembro de 1947 (Zapico cita o brasileiro Osvaldo Aranha, que nesse dia presidia a Assembléia das Nações Unidas). O Café Budapest continua por algum tempo um oásis em meio ao caos e a barbárie que dominam a cidade. Após a saída dos ingleses da Palestina, em março de 1948, sangrentos combates entre árabes e judeus irrompem, velhas amizades são contaminadas pelo ódio. Yosef e Chaskel (acompanhado por Yaiza, grávida) optam por emigrar de volta para Budapest, acreditando que a paz breve voltaria a Jerusalém (mas já sabemos que isso não acontecerá tão cedo) e que o Café Budapest poderia ser reaberto. Zapico alcança produzir um registro imparcial, identificando os excessos dos dois lados em conflito. A felicidade humana não está inscrita em nosso DNA. O destino dos indivíduos sempre são um detalhe quando começam as hostilidades entre povos e nações. E o Brasil, que teve um papel relevante na criação do estado de Israel, hoje parece mesmo um irresponsável anão diplomático, mas deixemos o censo das muitas desgraças que experimentamos em nosso país para um outro dia. Vale.
[ínicio: 14/12/2015 - fim: 20/12/2015]
"Café Budapest", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri Ediciones, 4a. edição (2014), brochura 17x24 cm., 164 págs., ISBN: 978-84-96815-62-9

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

el otro mar

De Alfonso Zapico já havia lido seus dois livros dedicados a James Joyce ("La ruta Joyce" e "Dublinés"). A exemplo desses dois "El otro mar" é uma biografia literária, um perfil na forma de novela gráfica. Trata-se portanto de uma versão em quadrinhos da vida de Vasco Nuñez de Balboa, sujeito conhecido por ter sido o primeiro europeu a encontrar a margem oriental do Oceano Pacífico (na região onde hoje é o Panamá, num 29 de setembro, o de 1513). Foi também o primeiro a fundar uma cidade em terras continentais nas Américas ("Santa María del Darién", em 1510 - sem considerar-se obviamente centenas de cidades pré-colombianas e um par de outras fundadas por europeus que não duraram muito tempo). Claro que não se trata de um sujeito moral ou edificante, exemplar ou heróico. Genuíno representante de seu tempo, em nome do Reino de Castilla y Léon Nuñez de Balboa trapaceou, mentiu, roubou, matou e mandou matar centenas de pessoas, sobretudo entre indígenas que encontrou pelo caminho. Zapico descreve um aventureiro sem escrúpulos, mas também um homem complexo, sonhador, que em certa medida sabia que estava condenado a uma morte violenta e que sua memória sempre estaria associada aos assassinatos que cometeu. Vale.
[início: 13/01/2015 - fim: 16/01/2015]
"El otro mar", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri ediciones (Colección CMYK), 1a. edição (2013), capa-dura 22,5x29,5 cm, 54 págs., ISBN: 978-84-15685-38-8

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

la ruta joyce

Junto com a "Dublinés", biografia desenhada de James Joyce, encomendei de Alfonso Zapico essa sua outra graphic novel, "La ruta Joyce". Apesar de brotar da vida e da obra de Joyce esse livro tem um outro propósito, descrever a gênese e desenvolvimento de um projeto, aquele que tornou-se o "Dublinés" que conhecemos. Para isso Zapico fez, entre setembro de 2008 a junho de 2011, um conjunto de viagens que todo joyceano e/ou admirador da obra de Joyce gostaria de fazer. Ele sai de Angoulême, na França, onde vive, com seu caderno de esboços, mochila e câmera fotográfica, as vezes sozinho, outras vezes com sua mulher, Manuela, primeiro para Dublin, depois, refazendo basicamente os caminhos que o próprio Joyce fez ao longo da vida, indo a Trieste, Paris e Zürich. Em uma das viagens a Dublin ele participa ativamente de um Bloomsday, a festa literária que é comemorada todo 16 de junho em homenagem a Joyce. As viagens são espaçadas, ele volta sempre a Angoulême, discute seu projeto com os colegas da Maison des Auteurs d'Angoulême, participa de eventos literários, congressos dedicados a obra de Joyce, encontra pesquisadores e especialistas em sua obra. Mas são suas descrições das cidades aquilo que prende o leitor ao livro. Ele é mesmo um grande observador e sabe pontuar os dados factuais relacionados à Joyce com suas impressões sobre a política, economia e cultura européia de hoje, num contraste que torna o livro mais que apenas um exercício de estilo. O livro serve a vários propósitos. Pode ser consultado como um bom guia de viagens (as informações dele sobre os horários impossiveis de alguns museus ou a penúria de alguns, verdadeiros caça-níqueis que somente usam o nome de Joyce, sem de fato servirem como fonte de informação ou prazer, são excelentes). Pode ser consultado como uma separata de seu portfólio, um recorte sentimental de seu livro anterior. Os projetos humanos sempre tem algo de errático. É razoável que aquilo que planejamos e aquilo que finalmente podemos apresentar como resultados sejam diferentes (as vezes substancialmente diferentes). Pois "La ruta Joyce" chega ao fim nos apresentando esse sentimento, como se Zapico nos desse um presente mais, compartilhando conosco a impressão de ter aprendido mais do que pode apenas registrar em livro e nos convidando a experimentar, nós também, esses caminhos, essas rotas. Deve ter mesmo sido uma experiência seminal essa a dele.
[início: 13/01/2013 - fim: 19/01/2013]
"La ruta Joyce: Dublín - Trieste - París - Zúrich", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri ediciones, 1a. edição (2011), brochura 15x21 cm, 206 págs., ISBN: 978-84-15163-42-8

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

dublinés

No último 12 de janeiro, véspera do dia em que celebravamos os 72 anos da morte de James Joyce, recebi três livros que tratam de sua obra. "Dublinés", o primeiro deles que li, é uma graphic novel, muito bem editada pela Astiberri, excelente editora sediada no País Basco. O autor é um jovem e premiado asturiano, Alfonso Zapico, que nos últimos anos vive e trabalha na cidade francesa de Angoulême, conhecida por sediar anualmente um grande festival de quadrinhos. O tema dificilmente não poderia ser mais caro a mim: uma biografia de James Joyce. O resultado é muito bom. O livro é confessadamente inspirado na robusta biografia de Joyce assinada por Richard Ellmann, mas usa também informações de uma outra história em quadrinhos, o engraçado Joyce para principiantes (de David Norris e Carl Flint), além de dois outros bons livros repletos de ilustrações (James Joyce's Ireland, de David Pierce, e Faithful Departed, de Kieran Hickey). O livro de Zapico oferece ao leitor um panorama bastante rico e detalhado sobre a vida e a obra de Joyce. Dublinés (que em português é dublinense, no singular, gentílico que Zapico adota provisoriamente para escrever e desenhar sua história) é bem dividido em seis capítulos temáticos, onde descreve cronologicamente (i) a vida familiar e os antepassados de Joyce; (ii) sua infância e juventude em Dublin; (iii) seu encontro com Nora Barnacle e saída da Irlanda; (iv) os tempos de exílio e pobreza em Trieste; (v) os anos em que viveu em Paris, até a publicação do Ulysses e (vi) os conturbados anos onde alcança grande reconhecimento, divide-se entre a produção do Finnegans Wake e a esquizofrenia de sua filha Lúcia. Certamente um leitor interessado em conhecer algo sobre James Joyce encontrará informações valiosas neste livro. Só encontrei um erro realmente importante, aquele em que Zapico grafa como 02 de dezembro de 1921 o dia em que Joyce recebeu o primeiro exemplar do Ulysses (quando a data certa é o dia de aniversário de Joyce, 02 de fevereiro de 1922). Mas esse é um detalhe besta. O livro reúne um número significativo dos causos que frequentemente são associados à Joyce, com leveza e um tanto de ironia. Não se trata de um compêncido de datas e fatos, mas uma reflexão realmente particular sobre o universo joyceano. O traço de Zapico é agradável, nada poluído ou pesado, parece que ele usa sempre sutis efeitos de aquarela nas ilustrações. Haverá muito mais James Joyce por aqui. E isso é muito bom.
[início: 13/01/2013 - fim 16/01/2013]
"Dublinés", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri ediciones, 1a. edição (2011), capa-dura 18x24,5 cm, 232 págs., ISBN: 978-84-15163-04-6