Explicação
Porto de abrigo
de naus carregadas de tristeza
vindas das índias longínquas
do coração negro
banham-me ondas
feitas de desejo e pranto
e trazem-me as brisas
os cantares de homens gemendo
sob o peso da angústia.
Por isso
não demoro meus olhos
sobre as belezas do mundo
seus pores-de-sol
montanhas azuladas
seus mares bonançosos.
Que me importa
o perfume das rosas
os lirismos da vida
se meus irmãos têm fome?
Todo o meu ser se debruça
ante o drama da História
que nos legou
esta alma triste
de submissão e sofrimento
Todo o meu ser
vive
o querer dos homens sem norte
à procura
de Certeza
Agostinho Neto
Canção de Embalar Meninos Pretos
Foto de "Angola em Fotos"
“Para ser cantado por um macio coro de anjinhos com um fundo
de música de violino e órgão litúrgico, muito suave. Às vezes
ouve-se um soluço, mas isso não é da partitura...”
O negro já não é fera
Nem curiosidade de feira...
O negro já não assusta
Nem diverte
As grandes crianças brancas...
(Pelo menos de pele branca...)
O negro hoje é bom,
E é sério,
Não ri...
O negro, hoje, trabalha,
Calado e certo como uma máquina...
Sai à pesca do atum
E às vezes morre no mar...
(E é uma maçada,
Porque os contratados são poucos...)
E corta o céu de lado a lado com a enxada...
E às vezes leva pancada...
Agostinho Neto
Nas curtas horas
Nas curtas horas realmente longas
cada minuto um porquê da tua ausência
cada instante o desejo visceral da tua presença
Nas curtas horas realmente longas
ao afagar o sussurro da tua voz suave
ela ribomba como o trovão
como ondas iradas sob tempestade
aos ouvidos impacientes da ânsia.
Ânsia de rasgar o ventre grávido da fera
de arrebatar das mãos do medo
o germe implacável da semente portentosa
da chegada
Nas curtas horas realmente longas
a jornada insana das lutas vitoriosas
o grito no caminho firme para a vida
o meu grito na tua voz
o meu desejo nos teus olhos
Agostinho Neto
Kalumba
Foto de Angola em fotos
Ela veio do mato
e confundiu
as estrelas com as luzes da cidade
Na cidade
os seus olhos eram duas estrelas
E no coração de muitos homens
não brilhou outro sol
se não a linda filha de soba
que viera das terras da Lunda
e morava no muceque Sambizanga
Mas os seus olhos confusos
descobriram na cidade
um mundo diferente
onde a sua alma era aferrolhada
nos navios que levaram do Congo
os homens sobre o mar
Kalunga! Morte
Aquela cidade era um mar
era a sua morte
E na cidade brilhante
que é um mundo, um mar
Kalunga!
onde em cada rua partem navios
para longe de cada homem
perdeu duas estrelas –
Os olhos
da linda filha dum soba da Lunda.
Agostinho Neto
Passei a Vida…
Passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.
Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio
Meu mundo
meu inferno.
E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer
Agostinho Neto
Declaração
As aves, como voam livremente
num voar de desafio!
Eu te escrevo, meu amor,
num escrever de libertação.
Tantas, tantas coisas comigo
adentro do coração
que só escrevendo as liberto
destas grades sem limitação.
Que não se frustre o sentimento
de o guardar em segredo
como liones, correm as águas do rio!
corram límpidos amores sem medo.
Ei-lo que to apresento
puro e simples – o amor
que vive e cresce ao momento
em que fecunda cada flor.
O meu escrever-te é
realização de cada instante
germine a semente, e rompa o fruto
da Mãe-Terra fertilizante.
Agostinho Neto
A renúncia impossível
Negação
Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser
Quero destruir-me
atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas
Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo
quero que o não-eu
se aposse de mim
Mais do que um simples suicídio
Quero que esta minha morte
seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
se em vez de valor negativo
eu fosse zero
Quero ascender
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer
Deixai-me desaparecer!
Mas antes vou gritar
Com toda a força dos meus pulmões
Para que o mundo oiça:
- Fui eu quem renunciou a Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
Vós os que mo roubastes
Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada
Não sou Nunca fui
Renuncio-me
Atingi o Zero
E agora
vivei cantai chorai
casai-vos matai-vos embriagai-vos
dai esmolas aos pobres
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero
Não contem comigo
para vos servir as refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de algodão e café
não contem com amas
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao vosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias noturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender milho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral
Não contem comigo
Renuncio-me
Eu atngi o Zero
E agora podeis queimar
os letreiros medrosos
que às portas de bares hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoismo
nas frases “SÓ PARA BRANCOS” ou COLOURED MEN ONLY”
Negros aqui brancos acolá
E agora podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem colour lines
sem terdes que dizer aos frequeses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença
Dissolvei o Ku-Klux-Klan
que já não há negros para linchar!
Porque hesitais agora!
ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade
Podeis inventar uma nova história
inclusivamente podeis inventar uma nova mística
direis por exemplo: No princípio nós criamos o mundo
Tudo foi feito por NÓS
E isso nada me interessa
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade
Nunca houve negros!
A África foi construida só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca houve beijos de negros sobre faces brancas
nem um negro foi linchado
nunca matastes pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuirdes as mulheres
nunca estorquistes propriedades a pretos
não tendes nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral!
Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestígio a superioridade e o estômago
dos vossos filhos
Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos
Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-histórico
eu no início dos tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!
Não há nas ruas de Luanda
negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
Em Lourenço Marques
em New York em Leopoldville
em Cape Town
gritam pelas ruas
fogueteando alegrias nos ares
- Não há negros nas ruas!
Nunca houve
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida
Viva a poesia da vida!
Viva!
Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?
Os salões enchem-se de Debussy Strauss Korsakoff
que não há selvagens na terra
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides a perturbar-lhe a estética!
Viva!
Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo
O que é a colonização?
O que são os massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece
A história está errada
Nunca houve escravatura
Nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força
Acabei com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo o mundo
sobre a terra só há cristãos
VÓS sois todos cristãos
Não há infiéis por converter
Escusais de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
repugnantes actos de barbarismo
Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem nos bairros de negros
Nunca houve mahamba
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar
Acabai com os missionários
os seus sofismas
os seus milagres
inventados para justificar ambições e vaidades
Possuis tudo TUDO
e sois todos irmãos
Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democráticas
isso é convosco
Explorai o proletariado
matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização de homens
privilegiados
E agora
homens irmãos
daí-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da terra
Eu artingi o Zero
Isto significa extraordinariamente a vossa ética
Ao menos
não percais a ocasião para serdes honestos
Se houver terramotos
calamidades cheias ou epidemias
ou terras a defender da evasão das águas
ou motores parados em lamas africanas
raios vos partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir as vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias
Ide para o diabo!
Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi
Atingi o Zero
o Nada
Abençoada a hora
do meu super-suicídio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades
O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
nem ocupações da África
Como até a história
se transforma num tratado de moral
sem necessidade de arranjos apressados!
Os pretos dos cais não existem
Nunca foram ouvidos cantos dolentes
misturados com a chiadeira do guindaste
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregadores com sem quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas
Ó pretos submissos humildes ou tímidos
sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
dançarinos com a alma poisada no sinal menos
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
Sabeis que subistes todos de valor
atingistes o Zero sois Nada
e salvastes o homem
Acabou-se o ódio
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado de meninos de olhos azuis
e as extorções e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e medos de revolta
e as complicadas demarches políticas
para iludir as almas simples
Acabaram-se as complicações sociais!
Atingi o Zero
Cheguei à hora do início do mundo
e resolvi não existir
Cheguei ao Zero-Espaço
ao Nada-Tempo
ao eu coincidente com vós-Tudo
E o que é mais importante:
Salvei o mundo!
Agostinho Neto
(1949)
Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência
O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...
Lembras-te?
Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia
à tua força
que transforma os destinos dos homens
A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida
E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes
Não era isto
o que nós queríamos, bem sei
Mas no espírito e na inteligência
nós somos!
Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos
Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho
No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos
O ió kalunga ua mu bangele...
Nós somos!
Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”
Havemos de Voltar
Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar
ÀS nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar
Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar
Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar
À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
Agostinho Neto
in "Sagrada Esperança"
Mãos Esculturais
Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África
Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam
Além África dos atrasos seculares
em corações tristes
Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que constrói
sob o peso do que fabrica para se destruir
Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo
Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.
Agostinho Neto
In "Sagrada Esperança"
Civilização ocidental
Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa
Os farrapos completam
a paisagem íntima
O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante
Depois as doze horas de trabalho
Escravo
Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra
A velhice vem cedo
Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.
Agostinho Neto
Consciencialização
Medo no ar!
Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma
A historia está a ser contada
de novo
Medo no ar!
Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.
Agostinho Neto
In “Sagrada esperança”
Quitandeira
A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Compra laranja doce
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
- Compra laranjas!
Agostinho Neto
Assim clamava esgotado
Não direi nada
nunca fiz nada contra a vossa pátria
mas vós apunhalastes a nossa
nunca conspirei nunca falei com amigos
nem com as estrelas nem com os deuses
nunca sonhei
durmo como pedra lançada ao poço
e sou estúpido como as carnificinas vingativas
nunca pensei estou inocente
não direi nada
não sei nada
mesmo que me espanquem
não direi nada
mesmo que me ofereçam riquezas
não diréi nada
mesmo que a palmatória me esborrache os dedos
não direi nada
mesmo que me ofereçam a liberdade
não direi nada
mesmo que me apertem a mão
não direi nada
mesmo que me ameacem de morte
Ah!
a morte
Morreu alguém no meu lar
No meu lar havia uma filhinha
estrela brilhante no céu da minha pobreza
ela morreu
Vejo a grinalda branca da sua inocência
arrastada nas águas sobre o seu corpo
Ofélia negra neste rio podre da escravatura.
Agostinho Neto
Aqui no cárcere
Aquí no cárcere
eu repetiria Hikmet
se pensasse em ti Marina
e naquela casa com uma avó e um menino
Aquí no cárcere
eu repetiria os heróis
se alegremente cantasse
as canções guerreiras
com que a nosso povo esmaga a escravidão
Aquí no cárcere
eu repetiria os santos
se lhes perdoasse
as sevícias e as mentiras
com que nos estralhaçam a felicidade
Aquí no cárcere
a raiva contida no peito
espero pacientemente
o acumular das nuvens
ao sopro da História
Agostinho Neto
Antigamente era
Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Agostinho Neto
O caminho das estrelas
Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade
Simples nota musical
Indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano
Preciso e inevitável
como o inevitável passado escrevo
através das consciências
como o presente
Não abstracto
incolor
entre ideias sem cor
sem ritmo
entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
de troncos sem raiz
Mas concreto
vestido do verde
do cheiro novo das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança
A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos,
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais
violentados
harmonia espiritual de vozes tam-tam
num ritmo claro de África
Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.
Agostinho Neto
O caminho das estrelas
Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade
Simples nota musical
Indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano
Preciso e inevitável
como o inevitável passado escrevo
através das consciências
como o presente
Não abstracto
incolor
entre ideias sem cor
sem ritmo
entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
de troncos sem raiz
Mas concreto
vestido do verde
do cheiro novo das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança
A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos,
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais
violentados
harmonia espiritual de vozes tam-tam
num ritmo claro de África
Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.
Agostinho Neto
Sim em qualquer poema
Apetece-me escrever um poema.
Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser entendido
pela canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do Sol
e pelo caráter íntegro dos homens.
Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de invernos chuvosos e frios
e seja lume para acolher gazelas
que pastam inseguras
nos aolhedores campos da imensa vida;
amizade para corações odientos
motor impelindo o impossível
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.
Um poema
(ah! quem comparou a África a uma interrogação cujo ponto é Madagascar?)
Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha reta da afirmação;
e a beleza das florestas virgens,
a precisão da engrenagem da existênicia
o som fantástico do trovejar sobre pedras,
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire,
o claro arrebol dos olhos dos homens.
Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços esguios da podridão;
esculpido no amor
que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas do quissange ao luar;
e as gargalhadas infantis para a minha amada;
com o calor simpático
do corpo sangrento dos homens.
Um poema fechado
- longo e imperceptível
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
de outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear da máquina de escrever,
grito aflito no vácuo
debatendo-se para encontrar vibração de matéria
e a aspiração dos homens.
Mas não escreverei o poema
Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
ó caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilômetros intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?
Não escreverei o poema.
Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referiste à Primavera.
Sonharei contigo.
E com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado
ao Sol, - uma praia furiosa lá ao longe.
E ficará dentro de mim
a amargura de não escrever o poema.
Nele há tantas amarguras!
Não escreverei o poema.
Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
como a força da harmonia dos braços
como a esperança nos corações dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e o terror transmitido dos abismos.
Direi simplesmente
Sim!
Sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores
ao odor inesquecível da natureza
que apaga os possíveis cheiros amargos.
Sim!
à interrogação mágica de Talamugongo
do Cunene ao Maiombe;
ao sonoro cântico do ritmo subterrâneo
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando para o fio da ancestralidade
esbatido além;
ao ponto interrogativo de Madagascar.
Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas;
às expressões magníficas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do imbondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.
Sim!
à África terra, à África-humana.
Direi sim
em qualquer poema.
E esperamos que a chuva pare
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem
e o desejo de escrever um poema.
Isso passa.
Agostinho Neto