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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Glicínia
















Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/


é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho

por mais que eu aprofunde essa vereda

e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera

mal deflagrou o pólen nos espaços

emaranhou-se ao muro  uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela

na tua vez floriu em mil sorrisos

e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul

queria eternizar a primavera

e ser a tua rua para sempre

Anthero Monteiro

Canto de Encantos e Desencantos


quarta-feira, 8 de maio de 2013

poesia ao natural










Foto
A.M.




escoou-se a manhã

do alto da eternidade
o sol riu-se de mim que meço o tempo
fez murchar as horas
e não floriu em mim um só poema

entretanto
mal o sol rompera
desabrolhou uma corola
no vaso da varanda
subreptícias mais outra
e outra
e outra

e muito antes da primeira meia-hora
já a flor tinha escrito um poema
inimitável

Anthero Monteiro

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Traição

o senhor vento
violento
passou no jardim
deixou prostradas
as rosas

o jardineiro
que só tinha olhos
e mãos
para as flores
debruça-se
para erguê-las

mas no atalho
sobranceiro
passeia uma sombra
o seu perfume

o homem detém o gesto
e fica a olhar
até desaparecer
aquela mulher
desconhecida

e às rosas perfeitas
mas impacientes
pareceram longas horas os instantes
em que ficaram vergadas
ao peso da vergonha
e do ciúme

à espera dos olhos traiçoeiros
à espera daquelas mãos tardias

Anthero Monteiro
Santa Maria da Feira, 3 de Novembro 2003