Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Godinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Godinho. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de abril de 2010

O Porto aqui tão perto



Foto in
www.portugal
-tchat.com









Vá comboio meu comboio
carrega na velocidade
pára só quando chegarmos
à cidade

Olá cidade do Porto
a lágrima ao canto do olho
estava fechada há que tempos
com um ferrolho

Custou tanto a chegar
mil e uma peripécias
quando menos se espera
o diabo tece-as

Ai eu estive quase morto
no deserto
e o Porto
aqui tão perto

Mal chegado vislumbrei
dois amigos do alheio
vasculhando a minha caixa
do correio

Ah tratantes apanhei-vos
com a boca na botija
com certeza não esperam
que eu transija

Não é nada do que pensas
viemos trazer-te um recado
que nos foi entregue
por um embuçado

Ai eu estive quase morto
no deserto
e o Porto
aqui tão perto

Sérgio Godinho

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

É terça-feira



É terça feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
da madrugada

E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte para a guerra
com os olhos na paz

É terça feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada

E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria
e todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega

Sérgio Godinho (letra e música)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Hoje é o primeiro dia...










A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A noite passada











A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho, in Noites Passadas (audio CD)