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domingo, 8 de maio de 2016

Aceitas o convite para a Festa?

O Pai que perdoa, Frank Wesley, 1998.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.'
Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' 

E a festa principiou.

Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 
Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' 
Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. 
Respondendo ao pai, disse-lhe: 'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.'

O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.' 

(Lucas 15, 20-32 )

«O evangelho desvela o verdadeiro rosto do Pai – um rosto materno – e a sua incurável debilidade diante do filho “pecador” arrependido. 

O filho mais velho, ainda que não tivesse deixado a casa paterna, está distante da ternura do Pai. Sua fidelidade é puramente formal; sua obediência está privada de alegria e de amor; o seu coração é mesquinho e ele recusa-se a abandonar os seus esquemas rígidos.

A verdadeira traição é a daquele que permanece sem dar o passo decisivo: ultrapassar a soleira da porta e penetrar no centro da casa onde está o coração do Pai. Este coração, que recupera o filho por meio da nostalgia, do desejo, da espera vigilante: “Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”. 

Somos convidados a participar da festa final, caso contrário, faremos como o filho mais velho que com o seu coração ressequido interrompe a festa, os bailes, a música e o banquete. Como um diligente executor de ordens, não suporta a alegria e azeda a vida de todos os que estão disponíveis para a alegria e a ternura. Ele desafina a partitura paterna da sinfonia da misericórdia com uma nota que tem o poder de estragar a sua harmonia e suspender a sua execução. A música só voltará a tocar se ele, o distante, passar pela soleira da porta e entrar na festa.

Será que terá esta magnanimidade?»

Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts 
Pe. Eduardo Spiller, mts 
Adaptado de: http://matersol.blogspot.pt/2013/09/o-caminho-da-beleza-43-xxiv-domingo-do.html

quinta-feira, 31 de março de 2016

Renascemos na Misericórdia de Deus

Imagem: O Retorno do Filho Pródigo.
Séc. XVII. Por Rembrandt, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

No "Regresso do Filho Pródigo - Meditações sobre um quadro de Rembrandt" Henri Nouwen, conta-nos a história de um pai e dos seus dois filhos (que encontramos no capítulo 15 do Evangelho de Lucas) a partir dum quadro de Rembrandt, um pintor flamengo do século XVII. 

O primeiro encontro de Henri Nouwen com este quadro de Rembrandt marca o início de uma fascinante aventura espiritual, em que aquela imagem do pai terno e misericordioso , será uma presença constante e fonte de belas e profundas reflexões, ao ponto de ele se referir ao quadro da seguinte forma: «Contém todo o Evangelho. Nele está toda a minha vida e a dos meus amigos. Este quadro converteu-se numa misteriosa janela através da qual posso pôr um pé no Reino de Deus»

Fruto de contemplações demoradas e pacientes, o autor partilha as suas impressões, pensamentos e sentimentos sobre detalhes específicos do quadro. Por exemplo, sobre a imagem dos braços e das mãos do Pai, escreveu: 

«É neste Deus que quero acreditar: um Pai que, desde o princípio da criação, abre os braços numa bênção cheia de misericórdia, sem forçar ninguém, mas esperando sempre; sem deixar cair os braços, e esperando sempre que os filhos regressem para lhes poder falar com palavras de amor e para deixar que os braços cansados repousem nos seus ombros. O seu único desejo é abençoar

O pai quer simplesmente que saibam que o amor de que andaram à procura pelas mais variadas vias, esteve, está e sempre estará presente para eles. 

O núcleo do quadro de Rembrandt são as mãos do pai... Nelas, a misericórdia faz-se carne; nelas se reúnem o perdão, a reconciliação e a cura e, por meio delas, encontram descanso não só o filho cansado, mas também o ancião-pai. »

Uma das mais belas passagens do livro acontece quando Henri Nouwen medita mais profundamente sobre o significado da imagem do manto vermelho: «Com a sua cor cálida e a forma curva oferece um lugar de acolhimento onde dá gosto estar. Sugere as asas protetoras de um passarinho-mãe. Lembrava-me das palavras de Jesus sobre o amor materno de Deus: «Ó Jerusalém, Jerusalém... Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintainhos sob as suas asas, e tu não quiseste!» (Mateus 23, 37-38).

E assim, sob a figura de um velho patriarca judeu, emerge também um Deus maternal que recebe o seu filho em casa.

Agora, quando olho de novo para o ancião de Rembrandt inclinado para o filho recém-chegado e que lhe toca nos ombros com as mãos, começo a ver que não é só o pai que «aperta o filho nos braços», mas a mãe que acaricia o seu menino, o envolve com o calor do seu corpo, o aperta contra o ventre de onde saiu. Assim, «o regresso do filho pródigo» transforma-se no regresso ao ventre de Deus, no regresso às próprias origens do ser e volta a fazer-se eco da exortação de Jesus a Nicodemos: tens que nascer de novo.»

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Deus Procura-te


Este post surge na continuação dos posts que tenho publicado com base em transcrições do livro "O regresso do filho pródigo" de Henri Nouwen. A passagem que passarei a transcrever a seguir reflecte em parte o que tem sido a minha busca espiritual e o meu desejo insaciável por conhecer Deus e a verdade.


Ao longo de toda a minha vida tenho lutado por encontrar Deus, por conhecer Deus, por amar a Deus; procurei seguir as directrizes da vida espiritual - orar constantemente, trabalhar pelos outros, ler as Escrituras - e evitei muitas tentações de arranjar desculpas. Falhei muitas vezes, mas voltei sempre a tentar, mesmo quando estive à beira do desespero.

Agora pergunto se durante todo este tempo tive ou não suficiente consciência de que Deus andou a procurar encontrar-me, conhecer-me e amar-me. A questão não é «Como hei-de encontrar Deus?», mas: «Como hei-de deixar que Deus me encontre?». A questão não é «Como posso conhecer Deus?» , mas: «Como posso deixar que Deus me conheça?». Finalmente, a questão não é: «Como vou amar a Deus?», mas: «Como vou deixar-me amar por Deus?». Deus anda por longe à minha procura, tratando de me encontrar e desejando levar-me para casa.

Nas três parábolas em que Jesus responde à pergunta: porque come com os pecadores? , põe a tónica na iniciativa de Deus. Deus é o pastor que vai à procura da ovelha perdida. Deus é a mulher que acende uma candeia, varre a casa e procura por todo o lado até encontrar a moeda perdida. Deus é o pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa.

Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele. Deus não é o patriarca que fica em casa, imóvel, à espera que os filhos voltem para ao pé dele, à espera que peçam desculpa pelo seu comportamento, que peçam perdão e prometam emendar-se. Pelo contrário, abandona a casa sem fazer caso da sua dignidade, corre à procura deles, não quer saber de desculpas e promessas de emenda, e condu-los à mesa magnificamente preparada.


Henri Nouwen - "O regresso do filho pródigo"

sexta-feira, 1 de junho de 2007

O Regresso do Filho Pródigo IV


Um Convite à alegria

...o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se. - Lucas 15, 22-24

A celebração faz parte do reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, mas quer dar todas essas iguarias aos que estiverem presentes, como prova da sua alegria. Nas três parábolas em que Jesus explica porque se senta à mesa com os pecadores, Deus alegra-Se e convida outros a que se alegrem com Ele. «Alegrai-vos comigo», diz o pastor, «encontrei a ovelha que se tinha perdido». «Alegrai-vos comigo», diz a mulher, «encontrei a dracma que tinha perdido». «Alegrai-vos», diz o pai, «este meu filho estava perdido e foi encontrado».

Deus alegra-Se. Não por terem sido resolvidos os problemas do mundo, não por se terem acabado a tristeza e o sofrimento humanos, não porque milhares de pessoas se tenham convertido e estejam agora a dar-Lhe graças pela sua bondade. Não. Deus alegra-Se porque um dos seus filhos se tinha perdido e foi encontrado.O pai do filho pródigo entrega-se totalmente à alegria que lhe dá o facto de o filho ter voltado. Tenho de aprender a ser assim. Tenho de aprender a «captar» toda a alegria que houver para «captar» e fazê-la ver aos outros(...) Isto exige disciplina. Exige optar pela luz, mesmo que haja muita escuridão que me faça medo, optar pela vida mesmo que as forças da morte estejam tão à mostra, e optar pela verdade mesmo que esteja rodeado de mentiras. Tenho tanta tendência para me impressionar com a tristeza inata da condição humana, que já não conto com a alegria que se manifesta em moldes muito pequenos, mas autênticos(...)A alegria não nega a tristeza, mas transforma-a numa terra fértil para cultivar mais alegria.

Tal como o filho de Deus que regressou e que vive agora na casa do Pai, também eu posso fazer minha a alegria de Deus. Quando creio de verdade que já cheguei e que o meu pai me vestiu uma túnica, me pôs um anel e umas sandálias, então tiro a máscara de tristeza do meu coração e faço desaparecer a mentira que me fala do meu próprio eu; então descubro a verdade, com a liberdade interior de filho de Deus.


Henri Nouwen - O regresso do filho pródigo

sábado, 26 de maio de 2007

O Regresso do Filho Pródigo III

Um Regresso Atribulado

Poucos dias depois, o filho mais novo ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se com um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados. Levantou-se, pois, e foi para seu pai. - Lucas 15, 13-20



Num dos seus livros mais conhecidos e aclamados - O regresso do filho pródigo - Henri Nouwen escreveu: "O regresso do filho pródigo está cheio de ambiguidades. Segue viagem pelo caminho certo , mas que confusão! Admite ser incapaz de o percorrer por si mesmo e reconhece que seria mais bem tratado como escravo em casa do seu pai do que como pária numa terra estranha; no entanto, está longe de se fiar no amor do pai. Sabe que continua a ser filho, mas diz de si para si que perdeu a dignidade de ser chamado «filho»; prepara-se para aceitar a condição de «jornaleiro» e assim conseguir ao menos sobreviver. Há arrependimento, mas não um arrependimento à luz do imenso amor de um Deus que perdoa. É um arrependimento interesseiro que lhe proporciona a possiblidade de sobreviver. É como quem diz: «Bem, não sou capaz sozinho, tenho de reconhecer que Deus é o único recurso que me resta. Irei ter com Ele, pedir- Lhe- ei que me perdoe e me permita sobreviver fazendo trabalhos forçados». Deus continua a ser visto como um Deus severo, um Deus justiceiro. É este Deus que faz que me sinta culpado, preocupado e que ecoem no meu interior todas estas desculpas. A submissão a um Deus assim não confere a verdadeira liberdade interior; apenas consegue alimentar a amargura e o ressentimento.

Um dos grandes desafios da vida espiritual é receber o perdão de Deus. Há qualquer coisa em nós, seres humanos, que nos faz ficar presos aos nossos pecados e nos impede de deixar Deus apagar o nosso passado e oferecer-nos um recomeço completamente novo. Ás vezes parece que quero provar a Deus que a minha escuridão é grande demais para ser superada. Enquanto Ele quer devolver-me toda a dignidade da minha condição de seu filho, eu continuo a afirmar que me contentaria com ser um empregado.

Mas quererei realmente que me seja devolvida toda a responsabilidade de filho? Desejarei de facto ser totalmente perdoado e que me seja possível viver de outra forma? Terei fé suficiente em mim mesmo e numa emenda tão radical? Desejarei acabar com a rebelião contra Deus, tão arraigada em mim, e render-me ao seu amor tão absoluto que pode fazer surgir em mim uma pessoa nova? Receber o perdão implica vontade de deixar Deus ser Deus e de O deixar realizar toda a acção de cura, restauro e renovação da minha pessoa. Sempre que me esforço por o fazer sozinho, e só em parte, acabo por me conformar com soluções do tipo «converter-me em empregado». Sendo empregado, posso continuar à distância, posso continuar rebelde ou queixar-me do salário. Mas se for filho amado, tenho que reclamar a minha dignidade e começar a preparar-me para vir a ser pai."



Henri Nouwen, o regresso do filho pródigo

O Regresso do Filho Pródigo II


Confissões de um Sacerdote


Já partilhei alguns trechos do livro de Henri Nouwen - "O Regresso do Filho Pródigo" num post recente. Nessa altura, ainda estava a iniciar a leitura do livro. Agora, que eu estou praticamente no fim, estou plenamente convicto que é um dos melhores livros que li até hoje.

Vou continuar a partilhar alguns trechos desta obra inspirada nas observações/contemplações de um quadro famoso do pintor holandês - Rembrandt.



Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. - Mateus 23, 2-7


Os escribas e os fariseus criticavam frequentemente Jesus por se associar com pessoas que eles consideravam pecadoras. Numa dessas ocasiões, em que esses pecadores se reuniram para escutar Jesus, e os escribas e fariseus estavam presentes, Jesus conta uma série de parábolas, entre as quais a do Filho Pródigo, na qual os escribas e fariseus se encontram representados pelo filho mais velho.


Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou o teu irmão; e o teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos;vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu;era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. - Lucas 15, 25-32


Henri Nouwen escreveu:" Para mim, pessoalmente, é de crucial importância a possível conversão do filho mais velho. Dentro de mim há muito de comum com o grupo frente ao qual Jesus é tão crítico: os fariseus e os escribas. Estudei os livros, conheço as leis, e com frequência apresento-me como tendo autoridade em matéria de religião. As pessoas testemunham-me muito respeito e até me tratam por «reverendo». Tenho tido compensações em cumprimentos e louvores, dinheiro, prémios e aplausos. Fui muito crítico para com alguns comportamentos e emiti muitas vezes juízos contra outros.

Assim, quando Jesus conta a parábola do filho pródigo, devo escutá-la consciente de estar mais próximo daqueles que, ao ouvi-lo, comentavam: «Este acolhe os pecadores e come com eles». Resta-me alguma possibilidade de voltar para o Pai e de me sentir acolhido em sua casa? Ou estou tão enredado nas minhas queixas farisaicas que estou condenado, contra vontade, a ficar fora de casa, revolvendo-me na ira e no ressentimento?

Jesus diz: «Felizes os pobres... felizes os que agora tendes fome... felizes os que agora chorais...»(Lucas 6, 20-21); mas eu não sou pobre, nem tenho fome, nem choro. Jesus diz: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes» (Lucas 10,21). E é precisamente a este grupo - o dos sábios e entendidos - que eu pertenço.

Jesus mostra preferência pelos marginais da sociedade - os pobres, doentes, os pecadores- e eu não sou, por certo, nenhum marginal. A dolorosa pergunta que me ocorre, baseada no Evangelho, é esta: «Terei já recebido a minha recompensa?». Jesus é muito crítico para com os que rezam « de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens» (Mateus 6, 5); e diz acerca deles: «Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa». Considerando tudo quanto escrevi e disse sobre a oração e quão conhecido sou, sinto-me na obrigação de perguntar se estas palavras me são dirigidas.

De facto, estão no Evangelho. Mas a história do filho mais velho lança uma nova luz sobre todas essas perguntas; mostra que Deus não ama o filho mais novo mais do que o mais velho. Na história, o pai sai a receber o filho mais velho como fez ao mais novo, anima-o a entrar e diz-lhe: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu».

É a estas palavras que devo prestar atenção, deixando-as penetrar até ao centro de mim mesmo."


Henri Nouwen, O regresso do filho pródigo

domingo, 20 de maio de 2007

O Regresso do Filho Pródigo


Comecei há pouco dias a ler um livro de Henri Nouwen - "O regresso do filho pródigo". A escrita deste livro tem origem num encontro do autor com um quadro. Um encontro significativo e marcante. Nouwen descreve-o:" Um encontro aparentemente insignificante com um cartaz em que se via em pormenor de O Regresso do Filho Pródigo de Rembrant, foi para mim o início de uma longa aventura espiritual que me levaria a entender melhor a minha vocação e a cobrar novas forças para viver. Os protagonistas desta aventura são: um quadro do século XVII e o seu autor, uma parábola do séc. I e o seu autor, e um homem do séc. XX à procura do sentido da vida."

Vou partilhar alguns trechos do livro, que está a ser uma leitura muito interessante e proveitosa.
«Quanto mais falava sobre O Filho Pródigo, mais o considerava como se fosse a minha própria obra: um quadro que encerra, não só o essencial da história que Deus quer que eu conte, mas também o que eu próprio quero contar a Deus e aos homens e mulheres de Deus. Nele está todo o Evangelho. Nele está toda a minha vida e a dos meus amigos. Este quadro converteu-se numa misteriosa janela através da qual posso pôr um pé no Reino de Deus»
A Parábola do Filho Pródigo está registada na Bíblia, em Lucas 15, 11-32. Jesus conta a história de um pai com dois filhos. O filho mais novo reclama a herança do pai ainda vivo e abandona o lar, partindo para uma «terra longínqua» para ali desperdiçar a sua herança através de uma vida mundana e dissoluta. O que significa o abandono do lar no contexto desta parábola?~
Nouwen diz:« Deixar o lar(...) é muito mais que um simples acontecimento que tenha a ver com um lugar e um momento determinados. É a negação da realidade espiritual de que pertenço a Deus com todo o meu ser, de que Deus me tem a salvo num abraço eterno, de que estou gravado nas palmas das mãos de Deus e coberto pela sua sombra. Deixar o lar significa ignorar a verdade de que Deus me formou em segredo, na terra mais profunda, e me teceu no seio da minha mãe( Salmos 139, 13-15). Deixar o lar significa viver como se não tivesse casa e me visse obrigado a andar de um lado para o outro à procura de alguma.
O lar é o centro do meu ser, o centro onde posso ouvir a voz que diz: "Tu és o meu filho muito amado; em Ti pus todo o meu enlevo" - a mesma voz que deu vida ao primeiro Adão e falou a Jesus, o segundo Adão; a mesma voz que fala a todos os filhos de Deus e os livra de ter de viver num mundo de trevas, fazendo que permaneçam na luz. Eu ouvi essa voz. Falou-me, no passado, e continua ainda agora a falar-me. É a voz do amor que não cessa de chamar, que fala desde a eternidade e que dá vida e amor onde quer que seja escutada. Quando a oiço, sei que estou em casa com Deus e que não preciso de ter medo de nada(...)
A verdadeira voz do amor é uma voz muito suave que me fala dos pontos mais recônditos do meu ser. Não é uma voz ruidosa que se imponha e exija atenção. É a voz do pai quase cego que muito chorou e muitos combates travou. É a voz que só pode ser escutada por aqueles que se deixam tocar(...)
Mas há muitas outras vozes, vozes fortes, vozes cheias de promessas muito sedutoras. Estas vozes dizem: "Sai e mostra o que vales". Pouco depois de escutar a voz que o chamava "meu filho muito amado", Jesus foi conduzido ao deserto para que ouvisse aquelas outras vozes. Disseram- Lhe que provasse que merecia ser amado, que merecia ter êxito, fama e poder. Estas vozes não me são desconhecidas. Estão sempre presentes e sempre atingem o mais íntimo de mim mesmo, o ponto onde me interrogo sobre a minha bondade e duvido do meu valor. Sugerem-me que, por meio de uma série de esforços e de um trabalho muito duro, alcance o direito de ser amado. Querem que me prove a mim mesmo e aos outros, que mereço que me queiram, e impelem-me a que faça todo o possível por ser aceite. Negam que o amor seja um dom completamente gratuito(...)
Observando de novo a pintura do regresso do filho mais novo, vejo agora que há muito mais que um simples gesto compassivo para com um filho caprichoso. O grande acontecimento que diviso é o fim da grande rebelião. É perdoada, assim, a grande rebelião de Adão e de todos os seus descendentes, é restabelecida a bênção original pela qual Adão recebeu a vida eterna.
Agora, parece-me que estas mãos sempre estiveram abertas - inclusivelmente quando não havia ombros sobre os quais as colocar. Deus nunca retirou as suas mãos, nunca negou a sua bênção, jamais deixou de ter em conta o seu filho muito amado.
Mas o Pai não podia obrigá-lo a ficar em casa. Não podia forçar o seu amor. Tinha que o deixar partir em liberdade, sabendo inclusivelmente a dor que tal facto causaria a ambos. Foi precisamente o amor que o impediu de reter o filho a todo o custo. Foi o amor que lhe permitiu deixar o filho encontrar a sua própria vida, mesmo correndo o risco de a perder.»

Henri Nouwen, O Regresso do Filho Pródigo

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...