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segunda-feira, julho 01, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Noite Escura, de João Canijo




Antes do sucesso marcante de SANGUE DO MEU SANGUE (2011), NOITE ESCURA foi o mais importante filme de João Canijo e um dos mais brutais retratos de um Portugal sujo, sórdido, retrógrado e, para a maior parte de nós, escondido. A vida nas casas de alterne, cujo realizador pesquisou abundantemente, participando no filme algumas das alternadeiras que Canijo conheceu no processo, é concomitante com o Portugal retratado nos média, mas parece aqui um outro mundo, de violência e morte, de sordidez e redenção, de uma sobrevivência terrível e incestuosa em tons de vermelho escuro. Inspirado na Efigénia em Aulis de Eurípides, toda a sua ambiência de pesadelo é sustentada pelo aspecto lúgubre da casa de alterne, pela coexistência visual e sonora de campo e contracampo, pelos relatos reais que perpassam as cenas, pela interacção entre os tons de vermelho e negro e por um final exímio nos processos de catarse e pathos típicos da tragédia grega.

Coadjuvado pelo seu leque de actores tradicionais (Rita Blanco, Fernando Luís, Clélia Almeida), o mais parecido que temos com um grupo de actores à Fassbinder ou à Almodòvar, marca também o zénite, até ao momento, da carreira cinematográfica dessa fabulosa actriz que é Beatriz Batarda, aqui responsável por uma transfiguração que raras vezes (nunca?) vimos no cinema português. NOITE ESCURA era suposto ser o primeiro de uma trilogia de filmes sobre o Portugal profundo inspirada por tragédias gregas. Se o segundo filme foi em frente e redundou em MAL NASCIDA (2007), o terceiro, ao que se sabe sobre a máfia nacional, ficou por fazer, alegadamente por motivos orçamentais. Sobrou-nos este grande filme, dos melhores que Portugal viu na década passada.

por Miguel Domingues (Café e Cigarros, À Pala de Walsh e Letra 1).

Elenco
. Beatriz Batarda (Carla Pinto), Fernando Luís (Nelson Pinto), Rita Blanco (Celeste Pinto), Cleia Almeida (Sónia Pinto), Natalya Simakova (Irka), José Raposo (Nicolau)


Palmarés
. Globos de Ouro Portugal: Melhor Filme, Melhor Actriz (Beatriz Batarda)


Sobre João Canijo

Um dos cineastas portugueses mais versáteis da actualidade, a sua obra tem sido dedicada à observação das contingências sociais e psicológicas nacionais — o ênfase nas heroínas de FILHA DA MÃE (1990) e SANGUE DO MEU SANGUE (2011) —, com um olhar profundo sobre o passado — no documentário FANTASIA LUSITANA (2010) — e as vivências dos portugueses na diáspora — GANHAR A VIDA (2001).



quarta-feira, maio 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Vai e Vem, de João César Monteiro




O último filme de João César Monteiro antes da sua morte, e o único por ele realizado nos anos 2000, é um perfeito compêndio de toda a sua carreira. A exibição de um feroz anti-clericalismo, a sensualidade rítmica e sonora da língua portuguesa, a atitude peculiar expressa em exercícios de jocosa pantomima, a veneração romântica e física pela figura da jovem mulher e a observação do estado do mundo através de diálogos repletos de "sabedoria e escárnio popular" são as marcas de um autor, no contexto cinematográfico europeu, sem paralelo, e estão fulgurosamente presentes em VAI E VEM.

Assumindo o corpo e alma de João Vuvu — "descendente directo" do seu alter-ego João de Deus (RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA, A COMÉDIA DE DEUS e AS BODAS DE DEUS são onde se presenciou às suas manifestações anteriores) —, VAI E VEM é uma aparente obra fílmica sem acção nem história lineares. Entre a busca do protagonista pela mulher-a-dias ideal e a sua vivência que parece decorrer, maioritariamente, no interior dos autocarros da Carris, o filme detalha, retirando assim a sua essência, uma série de encontros (alguns deliciosamente surreais) entre João Vuvu e os sucessivos diálogos que empreende com fugazes personagens secundárias. O poder da palavra sobressai ao ritmo do argumento com princípio, meio e fim, na total confluência com o estilo que sempre distinguiu João César Monteiro.

VAI E VEM é, igualmente, um dos "filmes-requiem" mais notáveis da História do Cinema. Sem esconder a percepção, no momento das rodagens, da sua iminente finitude, Monteiro aborda aqui a mortalidade de modo totalmente inusitado — excepto no humor que obtém desse processo. Inesperada será, ainda, a compaixão e ternura desarmantes que demonstra, perto da conclusão do filme, na conversa que troca com um jovem acordeonista:

«Que idade tens?»
«Vou fazer 11 anos.»
«Talvez faças, talvez não; por mim, fazias.»

Reconciliado ou não com a Humanidade, certo é que João César Monteiro não deixou de, até ao fim, fruir todos os prazeres da vida, de arrasar por inteiro o politicamente correcto, de sucumbir às fraquezas do corpo, de alinhar em qualquer gládio verbal. E despede-se do mundo (tal como o longo e estático plano final de VAI E VEM comprova) enfrentando directamente, e olhos nos olhos, o seu próprio espectador.

por Samuel Andrade.

Elenco
. João César Monteiro (João Vuvu), Rita Pereira Marques (Adriana / Urraca), Joaquina Chicau (Custódia), Manuela de Freitas (Fausta), Ligia Soares (Narcisa), José Mora Ramos (Senhor Zé Aniceto), Rita Durão (Jacinta)


Palmarés
. Festival Internacional de São Paulo: Prémio Perspectivas (João César Monteiro)


Sobre João César Monteiro

Uma das figuras mais indeléveis e controversas do Cinema Português, a sua obra, guiada por uma estética arcaica de profundo ateísmo e imaginação simultaneamente cosmopolita e provinciana, tem sido alvo de diversas reflexões com a constante afirmação do estatuto artístico único de João César Monteiro. Da sua filmografia, destacam-se QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO (1971), SILVESTRE (1982), RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989), A COMÉDIA DE DEUS (1995), AS BODAS DE DEUS (1999) e BRANCA DE NEVE (2000).



domingo, março 10, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Vou Para Casa, de Manoel de Oliveira




VOU PARA CASA poderia representar o perfeito "canto do cisne" para Manoel de Oliveira (pontificava 93 anos quando este filme estreou) caso ponderasse, alguma vez, colocar um ponto final na sua carreira. Puro engano — e à altura da composição deste texto, podemos continuar a usufruir da regularidade do cineasta. Mas também não restam dúvidas de que este pequeno filme, quase perfeito e irrepreensivelmente interpretado (um imenso Michel Piccoli!), é uma das obras mais pessoais de Oliveira, um conto moral sobre mágoa, envelhecimento e a contínua busca humana por conforto e reconhecimento.

Gilbert Valence (Piccoli), veterano actor de teatro e cinema, é informado de que a sua família inteira, com excepção do neto, faleceu num acidente de viação. O seu luto posterior denota, simultaneamente, resiliência e indecisão, seja na compra de um novo par de sapatos de luxo ou em aceitar um salário atractivo para protagonizar um banal filme de acção. Gradualmente, sobretudo após uma apelativa escolha de carreira que se revelará desastrosa, descobre que o conforto desejado reside naquilo (a sua casa) e naqueles (o neto) que lhe são mais familiares.

No idiossincrático e só aparentemente anacrónico estilo visual de Manoel de Oliveira, VOU PARA CASA é uma das obras maiores do cinema europeu dos anos 2000 por conseguir reunir tantos registos (com humor, tragédia e absurdo em plano de destaque) num formato de produção tão pequeno e simples como este, sem apresentar quaisquer sinais de cabotinismo ou presunção. Passamos da extensa representação do último acto do «Le Roi se meurt» de Eugène Ionesco (e muitas correspondências poderiam ser traçadas entre as duas histórias...) para aquela sequência em que a melhor mesa de um café parisiense é disputada pelos clientes com a mesma naturalidade. Pequenas peças, cada uma cuidadosamente encenada e em prol de uma mensagem maior, que fazem, definitivamente, as marcas de um dos grandes autores da contemporaneidade.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Michel Piccoli (Gilbert Valence), Catherine Deneuve (Marguerite), John Malkovich (John Crawford), Antoine Chappey (George), Leonor Baldaque (Sylvia), Leonor Silveira (Marie), Isabel Ruth (a leiteira)


Palmarés
. Festival Internacional de São Paulo: Prémio da Crítica


Sobre Manoel de Oliveira

A carreira do "realizador mais velho do mundo ainda em actividade" é não só marcada pela longevidade mas, acima de tudo, por uma variedade de registos, abordagens e colaboradores que nunca se cingiu apenas a um tema ou origem geográfica. Da sua extensa filmografia, destacam-se ANIKI-BOBÓ (1942), ACTO DA PRIMAVERA (1963), O PASSADO E O PRESENTE (1972), VIAGEM AO PRINCÍPIO DO MUNDO (1997), BELLE TOUJOURS (2006) e O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA (2010).



segunda-feira, dezembro 10, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

DEPORTADO (2012), de Nathalie Mansoux



Em 2011, os EUA deportaram cerca de 400 mil pessoas, atingindo um recorde histórico. São maioritariamente imigrantes ilegais oriundos dos países da América Central que são detidos na fronteira com o México. No entanto, há um conjunto de imigrantes deportados que são residentes legais de longa duração: é o caso dos muitos açorianos que, devido a penas criminais, todos os anos, são obrigados a regressar à sua terra natal, os Açores, um arquipélago português de 9 ilhas situado no Atlântico norte. São sobretudo homens que partiram ainda crianças com os seus pais à procura de uma vida melhor, que cresceram e viveram nos EUA e que, quando regressam, já não sabem falar a língua nem têm qualquer ligação com a ilha onde nasceram. Sem expectativas de encontrar uma casa, um trabalho, uma companheira, vão-se deixando desanimar em centros de acolhimento.

Entre recordações longínquas, esperanças abandonadas e a distância das pessoas queridas, a ilha paradisíaca vai-se transformando, lentamente, numa prisão a céu aberto.

[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

domingo, outubro 28, 2012

VISÕES DE MADREDEUS (2012), de Edgar Pêra



Cine-diários dos Madredeus, de 1987 a 2006, da Europa ao Oriente. — Doclisboa 2012.



Documentário poético e experimental, VISÕES DE MADREDEUS extravasa os cânones do género do filme-concerto através do olhar sempre irrequieto e invulgar de Edgar Pêra e, acima de tudo, do que só um longo processo de maturação (afinal de contas, este é o produto de quase vinte anos a filmar os Madredeus) poderia ajudar a consolidar.



Do Teatro Ibérico até à "conquista" de Tóquio, com recursos que vão do Super 8 ao videotape, esta visão íntima do agrupamento musical fundado por Pedro Ayres de Magalhães é construída sem qualquer carácter biográfico directo — a evolução de Teresa Salgueiro, desde a tímida adolescência até ao seu "bailante" desprendimento em palco, a transformação da ambição e sucesso dos Madredeus, etc., apresentam-se subtilmente, sem legendas nem abundante voz-off. Apenas as imagens (mais ou menos nítidas), os sons (dos diegéticos aos totalmente distorcidos) e os acordes de O Pastor, Vaca de Fogo, Vem (Além de Toda a Solidão) e Haja o Que Houver configurados sob a égide criativa do cineasta português esteticamente mais inconformado da actualidade.

A experiência sensorial final é fresca, única e revigorante. Poderá não ser do agrado de todos, mas merece toda a exposição pública que lhe concederem.

terça-feira, setembro 11, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

AMOR É CEGO (2012), de Sudip Chattopadhyaya



Henrique procura uma imagem no rolo de uma película velha na igreja que aparecia no seu sonho. Maria envolve-se na futilidade de conectar-se através de uma chamada telefónica e rende-se à experiência do amor não correspondido de Salomé por João Baptista. Manuel, na verdadeira visão da sua cegueira, encontra a imagem do santo sagrado que Henrique havia finalmente encontrado.

As três personagens encontram-se numa igreja onde os anjos cegos são os únicos espectadores das suas narrativas interiores.

AMOR É CEGO é um filme sobre a cegueira de conhecimento e a fé de uma visão, as comunicações falhadas, o amor divino e o despertar de uma espiritualidade interior.

Trata-se de um filme dentro de um filme, uma peregrinação de uma religião ritualizada da arte de fazer filmes para o domínio de imagens livres do YouTube onde o realizador coloca a questão ao seu público: "O que é que tu queres ver?"

Uma ode digital à película.

[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar. Entrada livre.]

sexta-feira, julho 13, 2012

terça-feira, junho 26, 2012

Agenda Cinematográfica (actualizada)

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

[Devido a problemas técnicos relacionados com o sistema de som da sala, a sessão de ontem foi cancelada.

Resolvido que está o problema verificado, exibiremos o filme hoje (dia 26) pelas 21h30.

A todos os que ontem se deslocaram ao Cineclube um pedido de desculpas e um agradecimento pela compreensão. Até logo.]

O QUE HÁ DE NOVO NO AMOR? (2011), de Hugo Alves, Hugo Martins, Mónica Santana Baptista, Patrícia Raposo, Rui Santos e Tiago Nunes.



Seis histórias de amor — cada uma realizada por um realizador diferente — de seis amigos que têm uma banda e todas as noites se encontram numa cave para fazer música.

O João faz canções, a Rita escreve letras e toca baixo, o Marco toca guitarra, o Edu toca bateria, o Samuel toca órgão e a Inês é a vocalista. Mas se à noite na garagem é possível ensaiar cada canção as vezes sem fim, durante o dia, na vida, não há ensaios. Cada tentativa deixa marcas.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

segunda-feira, junho 11, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

ALÉM DE TI (2011), de João Marco



Tomás e Sofia são casados há cinco anos. Ele é cartoonista no jornal local. Ela trabalha num hotel.

Tomás tem o sonho de ser artista plástico, mas falta-lhe a força interior para sê-lo. Raul, o seu melhor amigo e "anjo-da-guarda", insiste na qualidade maior das suas pinturas. Mas quando tudo parece renascer, Tomás entra numa crise emocional que o afasta de Sofia, a ponto de ela não o reconhecer.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

segunda-feira, junho 04, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

3 POEMAS FÍLMICOS (1977/1978/1985), de Barbara Spielmann



. LA SUBSTANTIFIQUE

Cantos gregorianos, catedral de Milão.
Da necessidade de chegar à medula, à substância, à essência da substância (la substantifique moëlle) segundo Rabelais.

. AUTODAPHNÉ

Perseguida por Apolo, a ninfa Daphné, atemorizada, transfigurou-se num loureiro.

. ANDACHT

Do alemão. Postura interior. Recolhimento, meditação, atenção permanente (vigilância).

(Baseado na apresentação de Carlos Fernandes para a Tertúlia Cinéfila: Filmes de Barbara Spielmann)

+

LUZ TEIMOSA (2010), de Luís Alves de Matos



O mundo de Fernando Lemos é um mundo ferozmente despojado de qualquer lógica externa, dizia Jorge de Sena. O seu multifacetado gesto artístico confunde-se com a própria existência onde o princípio poético está antes de tudo.

Este filme é uma aventura, uma jornada surrealista que se realiza no acaso da procura de uma mulher numa fotografia tirada há 50 anos ou numa divertida partida de cartas onde se pratica o prazer do jogo sobre a identidade de se ser português e brasileiro.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

quinta-feira, maio 31, 2012

Agenda Cinematográfica

:: ESPAÇO NIMAS ::

CICLO: Lisboa - A Cidade no Cinema



O Espaço Nimas, incontornável na cultura cinéfila da cidade de Lisboa, tem primado pela abertura das suas portas a novas iniciativas e programações, fomentando uma relação criativa e permanente com o quotidiano da cidade. Desta vez, o Espaço Nimas associa-se às FESTAS DE LISBOA 2012 para uma programação especial que destaca o apelo cinematográfico que a capital portuguesa exerceu ao longo dos anos junto dos realizadores nacionais e internacionais.

Percorrendo filmes de autores como José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Fernando Lopes, Alain Tanner, Raúl Ruiz ou Wim Wenders, este ciclo imperdível inicia-se a 1 de Junho e prolonga-se durante três fins-de-semana até 17 de Junho.

Detalhes da programação aqui.

quarta-feira, maio 30, 2012

O BARÃO (2011), de Edgar Pêra



Baseado na novela homónima de Branquinho da Fonseca e no conto "O Involuntário", do mesmo autor, O BARÃO retrata a vida de um barão, ditador e caciquista, arrogante e controlador, misógino e cruel, uma personagem draculesca raramente vista no cinema português.



Visto que este é um filme (e em 2D!) de Edgar Pêra, O BARÃO é 90% atmosfera e 10% história. E que extravagante atmosfera! Revelando-se moderno pelo seu visual retro (muito mérito para a fotografia de Luís Branquinho e a direcção artística de Fernando Areal), é impossível descrever o filme sem realçar as influências que exibe — de Jean Cocteau a David Lynch, de F.W. Murnau a Guy Maddin, de Jean Epstein a E. Elias Merhige —, salientar a diversidade de técnicas aplicadas — planos de câmara expressionistas, dissolves, overlaps, distorções de imagem, a criativa legendagem dos diálogos em Inglês e a permanente dúvida de ter sido filmado em película — e evidenciar como se trata de uma experiência cinematográfica única. E não só no panorama nacional.

Denotando apelo universal para qualquer espectador interessado em cinema experimental, a narrativa de O BARÃO, pouco preocupada em coerência e linearidade mas mormente equilibrada neste contexto imagético, é intrinsecamente portuguesa. Pela sua fonte literária, a metáfora ao cinzentismo e repressão salazaristas são imediatamente apreensíveis e a abundância de referências (religiosas, supersticiosas, os "senhores doutores" de Coimbra, etc.) a paradigmas nacionais demonstram que estamos perante algo definitivamente luso.

Destaque obrigatório para o protagonista. Num registo que mistura o Klaus Kinski de NOSFERATU, O FANTASMA DA NOITE (1979, Werner Herzog) com Gary Oldman em DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992, Francis Ford Coppola), este Barão pertence definitivamente a Nuno Melo: pela forma cavernosa como debita as deixas mais emblemáticas do filme, pelos esgares vampirescos que nunca se assemelham a overacting, na sua omnipresença mesmo quando não ocupa tempo de ecrã, o actor conquista aqui a sua imortalidade na História do Cinema Português.

De visualização muito recomendada.

segunda-feira, maio 28, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

O BARÃO (2011), de Edgar Pêra



Baseado na novela homónima de Branquinho da Fonseca e no conto "O Involuntário", do mesmo autor, O BARÃO retrata a vida de um barão, ditador e caciquista, arrogante e controlador, misógino e cruel, uma personagem draculesca raramente vista no cinema português.

«Tão simples e, ao mesmo tempo, tão diferente do que se pode esperar. Um argumento que nos faz recuar para os tempos da ditadura; diálogos simples, mas sempre com um duplo sentido, recheados de um humor subtil e mordaz; frases que ficam na cabeça ("Aqui quem manda sou eu", "A vida é devorar"...), tudo isto, O Barão tem.»
Inês Moreira Santos, in Espalha Factos.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

quarta-feira, maio 23, 2012

TABU (2012), de Miguel Gomes



Uma idosa temperamental (Laura Soveral), a sua empregada cabo-verdiana (Isabel Cardoso) e uma vizinha (Teresa Madruga) dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.



Vencedor dos Prémios Alfred Bauer (atribuído a obras de particular inovação) e FIPRESCI no último Festival de Berlim e nomeado como (desnecessário?) representante de um Cinema Português galardoado que não encontra eco nem simpatia junto do poder legislativo, TABU não só se insere, sem dificuldade, na revisitação contemporânea que a Sétima Arte tem prestado a si mesma (basta recordar os fenómenos recentes de O ARTISTA ou A INVENÇÃO DE HUGO), como revela-se obra cinematográfica universal, única e quase visionária.

Nas suas imagens de monocromático e baixo contraste, assistimos ao desenrolar das consequências de uma desventura amorosa em dois arcos temporais distintos, mas intimamente ligados, quase somente, através das emoções dos protagonistas.

Pelos sons e imagens com que Miguel Gomes nos brinda, de forma poética, impressionista e quase etérea — sobretudo na segunda parte do filme, potenciada pelo registo da paisagem africana em película de 16mm, esse formato capaz de transmitir tanta grandeza num espaço tão pequeno de fotograma —, TABU é, narrativamente, um melodrama por excelência (paixão avassaladora, proibida e fatal) e, nas intenções, homenagem singela e original ao género de cinema — cada vez mais escasso — que nos obriga a considerar os olhares, gestos, trejeitos faciais e enquadramento de cenas sem que uma única palavra seja escutada para daí extrairmos o seu predicado. Aquela sequência, apenas acompanhada do som diegético da natureza da savana moçambicana, de um decisivo encontro entre os jovens Aurora (Ana Moreira) e Ventura (Carloto Cotta), em que a imediata atracção entre os dois é "visualmente palpável", é disso prova cabal.

Embora o filme não evite mostrar-se, por vezes, "enlevado" pelo seu próprio exercício de estilo, os prazeres cinéfilos de TABU são intermináveis e merecedores de não ficarem presos a sentimentos de insondabilidade por parte do espectador. Assim, observar o filme duas, três ou quatro vezes só contribuirá para a devida e profunda apreensão da sua riqueza filmíca. Obrigatório.

segunda-feira, maio 21, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

TABU (2012), de Miguel Gomes



Uma idosa temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

segunda-feira, maio 14, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

RAFA (2012), de João Salaviza



Às seis da manhã, Rafa descobre que a mãe está detida pela Polícia. Na mota de um amigo, cruza a ponte e vai a uma esquadra no centro de Lisboa para visitá-la e esperar pela sua libertação. As horas passam. E Rafa não quer voltar para casa sozinho.

Urso de Ouro (Curta-Metragem), Festival de Berlim 2012.



+

NANA (2011), de Valérie Massadian



Nana tem quatro anos e vive numa casa de pedra perto da floresta. Um dia, ao regressar da escola, encontra apenas silêncio em casa. Uma viagem à noite da sua infância. O mundo à sua altura.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

sexta-feira, maio 11, 2012

Dia Internacional do Público e do Cineclubismo



[Texto da intervenção proferida ontem à noite, no 9500 Cineclube de Ponta Delgada, a propósito da homenagem (com exibição de EM CÂMARA LENTA, o seu último filme) prestada ao cineasta Fernando Lopes no Dia Internacional do Público e do Cineclubismo.]

O 9500 Cineclube assinala o Dia Internacional do Público e do Cineclubismo com a exibição do filme EM CÂMARA LENTA, a última obra do cineasta Fernando Lopes, recentemente falecido, e cuja marca permanente na História moderna do cinema português é assim homenageada.

O percurso e o nome de Fernando Lopes estão indelevelmente ligados ao movimento que ficou conhecido como Novo Cinema Português. Todavia, e se me é permitida a ousadia histórica, diria mesmo que Lopes foi o seu principal e mais influente representante. Passo a explicar.

As suas obras anteriores ao 25 de Abril de 1974 demonstram uma absoluta e radical rejeição formal e temática ao cinema patrocinado pelo Estado Novo como nenhum filme havia feito até àquela altura.

DOM ROBERTO (1962, Ernesto de Sousa) ou OS VERDES ANOS (1963, Paulo Rocha) são comummente considerados os percursores do Novo Cinema. No entanto, sou tentado a apontar BELARMINO (1964) como o filme que realmente alterou o paradigma — nos seus propósitos estéticos, nas suas motivações morais, na experiência total que conjuga, assistiu-se a uma reinvenção e desconstrução cinematográficas sem paralelo na história da cinematografia portuguesa.

Desconstrução... Eis uma palavra que resumiria, quase na perfeição, o trabalho de Fernando Lopes. Mas a súmula dos assuntos abordados pelo cineasta são tão ou mais interessantes quanto a análise formal da sua carreira.

Atentando aos três filmes que, de forma mais cativante, reuniram essas duas perspectivas — BELARMINO, UMA ABELHA NA CHUVA (1971) e MATAR SAUDADES (1988) — é possível deferir que Fernando Lopes foi um "cineasta de memórias".

BELARMINO alia o olhar documental a uma estética de cinema directo para salientar episódios de vida de um boxeur e engraxador de sapatos lisboeta. A glória passada de Belarmino Fragoso é constantemente invocada — memórias estilhaçadas e exploradas pelo vil dinheiro — e o protagonista deste documentário (é preciso não esquecer que o filme é uma exposição de realidade) apresenta-se aos nossos olhos quase como o anti-herói de uma ficção trágica.

A exploração da memória humana converte-se em experiência sensorial para o espectador em UMA ABELHA NA CHUVA, certamente um dos grandes filmes produzidos no nosso país.

A temporalidade de UMA ABELHA NA CHUVA é definida pela ausência de linearidade narrativa, por assincronias, nas sobreposições paralelas de imagens, sons e acções. E o tempo indefinido em que se situa o filme é quase análogo ao nosso próprio processo de memorização — aqui, torna-se significativa a relação entre momentos, imagens, sinais, visões, locais, sons, palavras, consequências. Ou, como escreveu Leonor Areal, «tudo aquilo que é a matéria do cinema e que a memória trabalha livremente»1.

O confronto entre traumas de um passado colonial bélico e a mudança de valores de um país em construção democrática dominam o argumento de MATAR SAUDADES. Por outras palavras, estamos novamente perante a contenda entre a opaca substância da memória e a áspera feição da realidade.

Não será por acaso que a sequência-chave de MATAR SAUDADES é aquela em que o protagonista, intepretado por Rogério Samora, invoca junto do irmão mais novo os acontecimentos em torno da morte trágica do pai de ambos. Nenhum espectador conseguirá fugir ao seu rigor formal, às palavras debitadas com amargura, a todas as emoções ali reunidas...

Do filme que vamos ver esta noite, apenas conheço o trailer. Mas nos seus singelos dois minutos de duração, é possível entender que Fernando Lopes assumiu o estatuto de "cineasta de memórias" bem até ao fim. Naquela peça promocional, a personagem de João Reis traceja de memória, e num bloco de notas, uma série de relações interpessoais.

É o tal exercício de invocação do passado, sempre presente...

O cinema de Fernando Lopes não era alegre. Os "fracassos" estéticos de NÓS POR CÁ TODOS BEM (1978) e CRÓNICA DOS BONS MALANDROS (1984), provam-no de certo modo2. Contudo, todos os que, a propósito do seu falecimento, recordaram o cineasta, falam de um indivíduo sincero, emocional, de charme contagioso.

Tanto por isso, e pelo conjunto da sua obra, não existe cineasta mais influente para o cinema português contemporâneo como Fernando Lopes. Se, agora, se premeiam abundantemente "sangues do nosso sangue", "tabus" e "rafas", tal deve-se em grande medida ao legado de Fernando Lopes.

Termino esta intervenção com as palavras do realizador Fernando Matos Silva: «Aquilo que um espectador espera dos nossos filmes é que aconteça uma verdade contagiante que os leve a pensar e a viver. E isso acontece no cinema de Fernando Lopes. Podemos jogar na vida como no cinema, com a condição de sermos sinceros. Sem ideias, o cinema não existe. É essa a mensagem de Fernando Lopes, para todos nós. Compreendermos que o cinema existe por todo o lado, à nossa volta, e que fazer filmes é também vivê-los. E a vida continua, e os filmes também.»3

Samuel Andrade.

Notas:
. 1 in CINEMA PORTUGUÊS: UM PAÍS IMAGINADO VOL. 1 — ANTES DE 1974, 2011, Edições 70.
. 2 in FERNANDO LOPES POR CÁ, capítulo FERDINAND por Seixas Santos, p. 16, 1996, Edição Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema.
. 3 in FERNANDO LOPES POR CÁ, capítulo A CIDADE-REFÚGIO por Fernando Matos Silva, p. 19, 1996, Edição Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema.

quinta-feira, maio 10, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

Hoje, dia 10 de Maio, celebra-se o Dia Internacional do Público e do Cineclubismo.

O 9500 Cineclube não podia alhear-se da data que celebra os dois aspectos mais importantes do cinema: um público e um filme. Sem um, o outro não faria sentido.

É uma verdade que se aplica tanto a uma sala comercial como a uma projecção particular ou a um cineclube. A importância da celebração baseia-se no que há de particular neste meio de estar e mostrar cinema, o cineclube, e o seu particular dinamismo através da interacção com o seu público.

O movimento cineclubista nasceu em França nos anos 20 do passado século e aos poucos foi-se espalhando por todo o lado em que existisse um público disposto a olhar para mais longe que a distribuição comercial permitia. O caso português é paradigmático. Hipólito de Carvalho funda o Cine-clube do Porto, em 1945, que servirá de modelo para os posteriores cineclubes. Contudo, o grande nome do cineclubismo português foi o de Ernesto de Sousa, homem de múltiplos talentos, a cuja acção tanto deve o chamado novo cinema português que nos anos 60 começa a tomar forma.

O cineclube mostra cinema, promove, discute, debate, publica, ensina e aprende, serve de resistência a uma ditadura avessa a tudo o que fosse novo e lhe fugisse da alçada estranguladora. Hoje, felizmente, os cineclubes já não são objecto da polícia política mas continuam a ter um papel relevante na dinamização cultural. Bem-hajam.

O filme escolhido para a comemoração é um filme-homenagem a um dos grandes criadores portugueses, Fernando Lopes, que morreu no passado dia 2, facto que não queríamos deixar de assinalar. Também a sua experiência no cinema começa no encontro com o cineclubismo e sua marca notável para o cinema português está em filmes como BELARMINO e UMA ABELHA NA CHUVA, entre outros. Mas não se deve reduzir a sua notável presença apenas ao cinema. Na RTP 2 criou um verdadeiro canal alternativo que o poder tratou de destruir. É de realçar ainda o seu papel como professor na Escola Superior de Cinema.

O Keyzer Soze terá o prazer de fazer uma breve apresentação ao filme, recordando os títulos e os temas que preencheram a rica carreira deste cineasta português.

Fernando Lopes para sempre!

EM CÂMARA LENTA (2012), de Fernando Lopes



Um longo mergulho no mar transforma-se numa intensa travessia pela vida de Santiago e pelas suas relações. A paixão por Constança. O casamento com Laurence. A cumplicidade do amigo Salvador. O filme do realizador Fernando Lopes abre-nos a porta para uma intrincada teia de relacionamentos. Ao inevitável "quem eu sou?", as personagens de EM CÂMARA LENTA respondem com "não sei quem tu és."



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

terça-feira, maio 08, 2012

A VINGANÇA DE UMA MULHER (2012), de Rita Azevedo Gomes



Roberto (Fernando Rodrigues), um dandy que começa a sentir profundo tédio face aos prazeres e encantos da vida, deixa-se tentar, certa noite, por uma mulher (Rita Durão) que o intriga e lhe conta o suplício da sua vida.



Adaptação literal de um conto de Barbey D'Aurevilly, A VINGANÇA DE UMA MULHER apresenta-se como obra densa, pejada de uma plasticidade cénica estática e pouco envolvente (a fotografia de Acácio de Almeida, não obstante a competência a que já nos habituou, é estranhamente unidimensional e quase "asséptica"), numa constante e desesperada busca, em cada plano, pela marca autoral que fique retida na memória impressiva do espectador. Mas o principal "problema" do filme nem reside no seu formalismo. Rita Azevedo Gomes infunde os vários planos-sequência da película com monólogos de natureza intrinsecamente teatral, que se arrasta na referência a brasões reais, intrigas palacianas e profundas mas redundantes descrições da descensão espiritual da protagonista, entrevendo um texto relativamente inadequado para transposição cinematográfica.

Rita Durão acaba por ser o melhor motivo para observar A VINGANÇA DE UMA MULHER. Extrapolando os floreados de vocabulário que lhe foram atribuídos com uma interpretação física e psicologicamente despojada, a actriz confirma todos os positivos indícios de talento revelados em títulos como AS BODAS DE DEUS (1999, João César Monteiro) e QUARESMA (2003, José Álvaro Morais).

Recomendado ao espectador disposto à arrítmica exposição psicológica de uma mulher em busca de vingança. Encontrará aqui inúmeros pontos de interesse.

segunda-feira, maio 07, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

A VINGANÇA DE UMA MULHER (2012), de Rita Azevedo Gomes



Roberto é um dandy! É um ser impassível, indecifrável e daí, enigmático. Goza do prazer aristocrático de causar espanto. Das mulheres, que conhece em todas as variedades da sua espécie e raça, já nada o pode espantar. A verdade é que Roberto sente o profundo tédio de quem esgotou todos os prazeres e encantos desta vida. No entanto...

Uma certa noite, deixa-se tentar por uma mulher que o intriga e lhe lembra alguém... Nessa noite, de descida aos céus e de subida aos infernos, essa mulher escancara-lhe o suplício da vida que é agora a sua. E, no meio de terríveis prazeres, Roberto entrevê o sublime do horror em que, obstinadamente, aquela mulher mergulhou. Sai dali fechado sobre si mesmo, marcado pela visão de um certo amor que, afinal de contas, ele nunca chegou a viver.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

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