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domingo, 24 de maio de 2009

vária, ao correr das teclas


O equilíbrio afectivo das pessoas depende muito de uma variedade de factores contingentes, mas é muito importante que na constituição da subjectividade haja sempre um programa ou projecto pessoal não utópico, isto é, algo a que a pessoa se vá "fazendo a" (como o pegador "se faz" ao touro), no sentido de dominar as forças que tendem a arrasar o sujeito.
A afeição em excesso prestada aos nossos animais de companhia, que estão sujeitos a doenças e a uma vida muito mais curta do que a nossa (em princípio), é, mais cedo ou mais tarde, uma tremenda fonte de sofrimento quando transferimos para eles a frustração inerente ao próprio viver, a esta convivência com o vazio e a solidão que é a vida.
Zizek disse algures que a(o) companheira(o) ideal é aquela(e) que nos permite viver a nossa inabalável solidão.
Disse também que um casal, que uma união afectiva estável entre duas pessoas só se realiza quando, para além do "amor" (?!) exista um projecto comum. Sem esse projecto comum, que nada tem a ver com afeições amorosas, tudo o resto não se aguenta. Na impossibilidade, para muitos casais, de construirem esse algo em comum que escape à inescapável rotina está, ou estava, parece-me, a necessidade de preenchimento do vazio a que correspondia a quase obrigação social e institucional de um casal ter filhos. Prendendo o casal a uma responsabilidade que era produto do próprio acasalamento, os filhos eram, por assim dizer, o álibi ideal, socialmente encarecido, para o casal se manter, mesmo na hipocrisia da maior ou menor indiferença mútua (da inexistência de um "projecto" partilhado, alvo de constante disputa, mas partilhado) e da correspondente infidelidade escondida. O importante era o aspecto institucional da família. Mas a própria passagem da sociedade disciplinar a uma sociedade de controlo (muito mais disciplina sob a fachada hedonista da tolerância hipócrita) a família tradicional tendeu a tornar-se um escolho tão grande ao capitalismo como outrora as fronteiras regionais anteriores aos estados nação. Hoje, a palavra de ordem é fluir e fruir. Fruir quem pode e enquanto pode, e fluirem para fora dos empregos cada vez mais pessoas todos os dias. Que se amanhem. As pessoas, reduzidas a mão de obra, tornaram-se agora excedentárias para o sistema liberal que tomou conta do mundo até mais ver.
Foi todo um equilíbrio precário que se rompeu, não se sabendo que formas dominantes (e muito variadas) vão assumir as relações de vida íntima em comum... entretanto, as pessoas têm todas cada vez mais "pets"... e sofrimentos inevitáveis aquando do seu desaparecimento. E cada uma vai fazendo o luto como pode... o sofrimento, a culpa interiorizaram-se, requintaram-se.
Quanto aos jovens, com felizardas excepções (há sempre sobreviventes das piores catástrofes, até agora) estão noutra: conscientes do desequilíbrio geral (não só da "economia" estrita, mas da economia libidinal a ela ligada, ou seja, da total obscenidade da sociedade que os produziu - precisamente, já não é uma sociedade, já não é uma comunidade, mas um conjunto de tribos à deriva, de sujeitos vazios) entraram numa de indiferença e de "curtição do instante", numa espécie de resistência passiva a uma sociedade louca, para evitarem a loucura. Compreendo-os, compreendo-os muito bem, eu que ainda sou do tempo em que podíamos ter ilusões de forjar consistentemente a ilusão de um programa de vida.
Hoje li ("Actual" do Expresso de ontem) que o escritor light Paulo Coelho (creio que o autor mais vendido no mundo, o que nos diz bem o que é o "mundo") tem agora uma biografia que ele confiou a um indivíduo que, a priori, não iria incensá-lo. Manobra esperta. Porque se viesse uma biografia morna, ou aduladora, seria mais um "livro paulo coelho", mais do mesmo, que é já muito. Não. Parece que é uma obra (com a qual desde já confesso não pensar perder mais tempo do que nesta referência) que mostrando a acidentada vida do autor, e como ele, apesar disso tudo, conseguiu ser o que é (rico, famoso, conhecido, lido), acabará por se tornar, quase de certeza, mais um "best seller", a acrescentar aos muitos do biografado, dando-lhe uma apreciável mais-valia. E assim vai o mundo...(que remate tão pouco imaginativo... bem, deixa-me voltar ao Zizek).


domingo, 3 de maio de 2009

Alguns comentários a este blogue...

... são por vezes feitas por pessoas a cujo perfil não tenho acesso.
Se eu dou aqui a cara, também gosto que os meus interlocutores façam o mesmo.
Por isso rejeito alguns comentários, sejam eles elogiosos ou pelo contrário, pois não é isso que me importa: são questões substanciais. Essas, se não tiveram conteúdo ofensivo, publicá-las-ei, e em última análise, se tiverem realmente interesse, mesmo que sejam anónimas...
Não estou neste blogue para ser elogiado ou enaltecido.
Estou por gosto e por vontade de partilha. É o meu recreio e o meu bloco-notas, sem grandes pretensões.
Infelizmente com muito pouco tempo neste momento para desenvolver ideias por escrito, aqui publicáveis. Estou numa fase de leitura, como já disse.
Bom fim de domingo...



domingo, 28 de dezembro de 2008

soltando o "texto"...

Há nas culturas que "falam alemão"qualquer coisa de desmedido e de prodigioso que intriga um ignorante delas como eu. Basta lembrar Hegel, Nietzsche, Marx, Freud, J. S. Bach e tantos milhares de outros grandes vultos da cultura europeia, muitos espalhados pelo mundo pela sua fuga ao nazismo.
Uma pessoa pergunta-se então como é que numa "terra" de cultura como a que fala alemão (falo assim para não me restringir à realidade política de um estado-nação em concreto, nem cair nas armadilhas essencialistas dos "espíritos dos povos", e tomando como principio óbvio que uma língua formata um pensamento/comportamento e que estabelece um campo de comunicação que ao mesmo tempo congrega e isola de outras línguas) pôde gerar uma monstruosidade como o nazismo? Sei bem como esta pergunta é vulgar e como tantas pessoas bem preparadas lhe têm tentado responder.
Naturalmente que o nazismo, bem como outros fascismos contemporâneos (ainda nem imaginamos quantos e quão requintados se estão a gerar, mas já imaginamos a sua conformação através de certos usos das "novas tecnologias", por exemplo) está em gérmen na democracia, em qualquer democracia. É aqui que entra a questão do "estado de excepção" tratada por Giorgio Agamben, que, tal como Derrida (no seu livro "Políticas da Amizade"), vai beber muita inspiração a um reaccionário extremamente inteligente como foi Carl Schmitt. Há uma interrogação política a ser feita sobre a política, o poder, o Estado, a soberania,correlacionada com as investigações teológicas de Agamben e com um dos autores que o inspirou, Foucault, quando este mostra como passámos de uma sociedade disciplinar a uma sociedade de controlo (uma interiorização e sofisticação da disciplina).
Cada um dos três grandes mundos europeus de cultura na contemporaneidade (alemão, francês, inglês) tem formas particulares de exprimir e de institucionalizar as condições da sua criatividade. Hoje essas distinções esbatem-se um pouco devido aos meios de comunicação e à proliferação de traduções. Mas, será a mesma coisa ler Heidegger ou Nietzsche em alemão, ou em outra língua? Claro que não. O pensamento reflexivo, nomeadamente quando atinge formas aforístico-poéticas como as de Nietzsche, é intraduzível.Tal como acontece na poesia. É impossível ser-se filósofo ser saber grego e alemão profundamente, pelo menos. A poesia e a filosofia quando atingem níveis sublimes quase se confundem, têm algo de musical e de performativo, de estético. Ora, é possível traduzir uma obra musical, ou a interpretação de uma obra musical, noutra? Não é.
A questão põe-se para a imagem icónica, também. Qualquer texto sobre uma imagem é sempre um comentário pobre. Fazer uma texto para dialogar com uma imagem, sim. Mas se uma pessoa não se acautela, tirada a imagem, o texto morre. Porém, estamos na sociedade da imagem, na sociedade em que a maior parte das pessoas não tem nem tempo nem vontade de ler um livro, quanto mais de investigar ou de estudar longamente qualquer coisa como acontecia de facto dantes... há um apelo da instantaneidade, do espectáculo, do efeito, em que todos estamos mergulhados e de que todos somos voluntários, desejosos cúmplices. Um blogue é um bom exemplo disso. Como se pode usar as chamadas "novas tecnologias" para, fazendo novo, fazê-lo bem, quer dizer, agora e sempre, prolongar uma tradição? De que modo as novas tecnologias, fazendo de nós seres diferentes do que fôramos, nos vêm colocar a radical necessidade de nos transmutarmos num espaço de tempo que nunca a história de antes conheceu?...a esteticização geral do mundo é fascinante, abre possibilidades a um campo novo, que é o do cinema, da fotografia, etc, não já feitas por mediações complicadas, mas por métodos, digamos, artesanais, em casa (o artesanato foi sempre uma arte do pormenor sofisticado).O próprio "pensamento", nas aulas, passado para power point, é o mesmo do que transmitido através da oralidade e da escrita? E o modo de relacionamento formador-formandos, a própria arquitectura da sala de aula, não teriam de mudar radicalmente, instalando-se numa base mais realista, mais pragmática, de reformulação das hierarquias? Claro que sim... mas a maior parte dos professores não está de facto preparada, nem o sistema os estimula para a sua missão, que, para ser bem cumprida, seria muito cara e anti-massificante.
Tantas questões à deriva...
Muitas vezes penso - e já pus essa questão a colegas arqueólogos alemães - por que é que na pátria, por assim dizer, da grande filosofia, a arqueologia permaneceu tão aferrada a positivismos e a realismos ingénuos que tanto influenciaram a arqueologia ibérica, por exemplo? Serão os nossos colegas alemães, na sua generalidade, menos inteligentes do que outros? Por certo que não! Não é uma questão de medida de quantidade (mais ou menos inteligência), não é uma questão simples, é um problema, mais uma vez, mais estrutural e profundo. Os colegas alemães aceitam uma divisão disciplinar, nunca lá tiveram um Maio 68... E por seu turno a tolerância dos colegas britânicos, muito liberais, e que também nunca conheceram algo de semelhante a uma revolução francesa, baseia-se por sua vez numa velha filosofia prática, pragmática, que é o inverso da obsessão legislativa, por exemplo, que caracteriza países como Portugal: as leis, as regras são para se cumprir, mas tem de se deixar sempre uma porta aberta, em última instância, para a negociação, para a vida, da qual a lei está ao serviço, e não o contrário...
Enfim, vou jantar.Vantagem de um blogue, interrompe quando quer, como Lacan fazia com as suas sessões analíticas, que paravam quando o "paciente" menos esperava...se me é permitida tão presunçosa comparação.