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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

da leitura

A leitura de Proust, de Blanchot, de Kafka, de Artaud não me deu vontade de escrever sobre estes autores (nem sequer, acrescento, como eles), mas sim de escrever. Nessa perspectiva, a leitura é verdadeiramente uma produção: não já de imagens interiores, de projecções, de fantasmas, mas, à letra, de trabalho: o produto (consumido) é transformado em produção, em promessa, em desejo de produção, e a cadeia engendra, até o infinito.

Roland Barthes in: O rumor da língua. Edições 70, p. 36.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

da leitura

(...) a leitura é condutora do Desejo de escrever (temos agora a certeza de que existe uma fruição da escrita, embora seja ainda muito enigmática); não é, de modo algum, desejarmos forçosamente escrever como o autor cuja leitura nos agrada...

Roland Barthes in: O rumor da língua. Edições 70, p. 36.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

condição de sobrevivência

O ausente

3. Acontece-me, por vezes, suportar bem a ausência. Estou então "normal": oriento a minha atitude pela de "toda a gente" que sofre a partida de uma "pessoa querida"; obedeço com habilidade ao treino que, desde muito cedo, me acostumou a estar separado da minha mãe - o que, no entanto, não deixou ao princípio de ser doloroso (para não dizer: de enlouquecer). Comporto-me como um sujeito bem desmamado: sei alimentar-me, enquanto espero, de outras coisas além do seio materno.
Essa ausência bem suportada não é senão o esquecimento. Sou, por intermitências, infiel. É a condição da minha sobrevivência; pois, se não esquecesse, morreria.

(Roland Barthes in: Fragmentos de um Discurso Amoroso)

Imagem: Ilse Bing.

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

a única coisa que conta é o próprio transporte



"O desejo não faz acepção de objeto. Quando um prostituto olhava Abou Nowas, Abou Nowas lia em seu olhar não o desejo de dinheiro, mas simplesmente o desejo - e isso o emocionava. Que isto sirva de apólogo a toda a ciência do deslocamento: pouco importa o sentido transportado, pouco importam os termos do trajeto: a única coisa que conta - e fundamenta a metáfora - é o próprio transporte."

(Roland Barthes por Roland Barthes. Ed. Cultrix, p. 132-133)

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do que interessa na infância, Barthes


"Do passado, é minha infância que mais me fascina; somente ela, quando a olho, não me traz o pesar do tempo abolido. Pois não é o irreversível que nela descubro, é o irredutível: tudo o que ainda está em mim, por acessos; na criança, leio a corpo descoberto o avesso negro de mim mesmo, o tédio, a vulnerabilidade, a aptidão aos desesperos (felizmente plurais), a emoção interna, cortada, para sua infelicidade, de toda expressão."

(Roland Barthes por Roland Barthes. Ed. Cultrix, p. 28)

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terça-feira, 23 de abril de 2013

dos fantasmas



"(...) o fantasma ajuda a passar qualquer tempo de vigília ou de insônia; é um romancinho de bolso que a gente leva sempre consigo e que se pode abrir em qualquer lugar, sem que ninguém dê por isso, no trem, no café, esperando um encontro."

(Roland Barthes por Roland Barthes. Ed. Cultrix, p. 94)

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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Ele nada tem de solene. É exatamente a doçura.



Me abismo, sucumbo...

Assim, às vezes, a infelicidade ou a alegria desabem sobre mim, sem nenhum tumulto posterior: nenhum ou sofrimento: estou disposto, e não em pedaços; caio, escorro, derreto. Este pensamento levemente tocado, experimentado, tateado (como se tateia a água com o pé) pode voltar. Ele nada tem de solene. É exatamente a doçura.

Werther: “Nestes pensamentos, me abismo, sucumbo, sob a força dessas magníficas visões” (4). Eu a velei (...) Tudo sim, tudo desaparece diante dessa perspectiva, como tragado por um abismo”.

BARTHES, Roland in: Fragmentos de um discurso amoroso.

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quinta-feira, 14 de março de 2013

cai para sempre, insubstituível


"Antigamente um bonde branco fazia o trajeto de Baiona a Biarritz, engatava-se a ele um vagão aberto, em teto... (...) Hoje, nem o vagante nem o bonde existem mais, e a viagem de Biarritz é uma chatice. Isto não é para embelezar miticamente o passado, nem para dizer a saudade de uma juventude perdida, fingindo-se de saudade de um bonde. Isto não é para dizer que a arte de viver não tem história: ela não evolui: o prazer que cai, cai para sempre, insubstituível. Outros prazeres vêm, que não substituem nada. Não há progresso nos prazeres, apenas mutações."

(Roland Barthes por roland barthes. Ed. Cultrix, p. 56)

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sábado, 29 de dezembro de 2012

a Imagem que


Adorável

"Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável! (...)

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos casos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um enigma do qual nunca terei solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que eu desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo?"

(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. P. 12-15.Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1977.)

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

da pele, das palavras


A conversa

"1-A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, coloca em evidencia um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.

(...)

2-A pulsão do comentário se desloca, toma o caminho da substituições. De início é para o outro que eu discorro sobre a relação; mas pode ser também diante do confidente: de você passo a ele. E depois, de ele passo a nós; elaboro um discurso abstrato sobre o amor, uma filosofia da coisa, que seria apenas, em suma, um blá-blá-blá generalizado. Refazendo a partir daí o caminho inverso poder-se-ia dizer que todo dito que tem por objeto o amor (seja o que for que se queira destaca) comporta fatalmente uma alocução secreta (me dirijo a alguém, que vocês não sabem, mas que está lá na extremidade das minhas máximas). No Banquete, essa alocução talvez exista: seria Ágaton que Alcibíades interpelaria e desejaria sob a escuta de um analista, Sócrates.

(...) Há sempre no discurso sobre o amor uma pessoa a quem se dirige, mesmo que essa pessoa tivesse passado ao estado de fantasma ou de criatura a vir. Ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém.)”

(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. P. 64-65. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1977.)

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sábado, 27 de outubro de 2012

Não escrevo, não me fecho para escrever o enorme romance do tempo reencontrado


"Esse teatro do tempo é exatamente o oposto da procura do tempo perdido; porque me lembro pateticamente, pontualmente, e não filosoficamente, discursivamente: me lembro para ser infeliz/feliz - não para compreender. Não escrevo, não me fecho para escrever o enorme romance do tempo reencontrado."

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso. *Lembrança* Ed. Francisco Alves, p. 141)

Imagem: Carta a uma mulher desconhecida

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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Não pensamos palavras, pensamos somente frases

Valéry dizia: “Não pensamos palavras, pensamos somente frases”. Dizia isso porque era escritos. É chamado escritor, não aquele que exprime seu pensamento, sua paixão ou sua imaginação por meio de frases, mas aquele que pensa frases: um Pensa-Frase (quer dizer: não inteiramente um pensador e nem inteiramente um fraseador).

(BARTHES, 2008, p.60-61)

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

da leitura - R. Barthes

Que há de desejo na leitura? O Desejo não pode ser nomeado, nem sequer (ao contrário do Pedido) dito. No entanto, não há dúvida de que existe um erotismo da leitura (na leitura, o desejo está ali com o sei objecto, o que é a definição do erotismo). (...) A leitura aparece assim marcada por dois traços fundamentais. Ao fechar-se para ler, ao fazer da leitura um estado absolutamente separado, clandestino, no qual o mundo inteiro é abolido, o leitor – o lente – identifica-se com os dois outros sujeitos humanos – para dizer a verdade bem próximos um do outro – cujo estado requer igualmente uma reparação violenta: o sujeito amoroso e o sujeito místico. (p. 34-35)

(BARTHES, Roland. O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, 1984.)

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domingo, 26 de agosto de 2012

dos escritores - R. Barthes

"Nenhum objeto está numa relação constante com o prazer (Lacan, a propósito de Sade). Entretanto, para o escritor, esse objeto existe; não é a linguagem, é a língua, a língua materna. O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe (remeto a Pleynet, sobre Lautréamont e sobre Matisse): para o glorificar, para o embelezar, ou para o despedaçar, para o levar ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido: eu iria a ponto de desfrutar de uma desfiguração da língua, e a opinião pública soltaria grandes gritos, pois ela não quer que se “desfigure a natureza”.

(BARTHES in: O prazer do texto. Ed. Perspectiva, 2008, p.46)

**Imagem: filme Nostalghia, direção de Andrei Tarkovski.**

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sábado, 23 de junho de 2012

dos motivos

"Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz."

(Roland Barthes in: O prazer do texto. Ed. Perspectiva, p. 47)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Isso não pode continuar

"No final do romance, numa palavra que precipitará o suicídio de Werther, Chartlotte (que também tem seus problemas) acaba por constatar que “isso não pode continuar assim”. O próprio Werther poderia ter dito isso, e muito cedo, pois é próprio da situação amorosa ser imediatamente intolerável, passado o deslumbramento do encontro. Um demônio nega o tempo. o amadurecimento, a dialética e diz a cada instante: isso não pode durar!

Entretanto, isso dura, senão para sempre, pelo menos durante muito tempo. A paciência amorosa tem pois como ponto de partida sua própria denegação; ela não se origina nem de uma espera. Nem de um domínio, nem de um artifício, nem de uma coragem; é uma infelicidade que não fica gasta, na proporção da sua acuidade; uma serie de investidas, a repetição (cômica?) do gesto pelo qual eu me significo que decidi – corajosamente! – acabar com a repetição; a paciência de uma impaciência.
(Sentimento razoável: tudo tem jeito – mas nada dura. Sentimento amoroso: nada tem jeito – e no entanto dura.)"

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso. P. 132)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O que quer dizer “pensar em alguém”? Quer dizer: esquecê-lo

"Capítulo: A carta de amor

Freud
O que quer dizer “pensar em alguém”? Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas te trazem para o meu discurso. “Pensar em você” não que dizer nada mais que esta metonímia. Porque, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso; simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que esqueço). É essa forma (esse ritmo) que chamo de “pensamento”: nada tenho para te dizer, a não ser que esse nada, é para você que digo:

Goethe
“Porque recorri novamente à escritura?
Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente,
Porque, na verdade, nada tenho para te dizer;
Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel.”

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso. P. 29)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A linguagem é uma pele - Barthes

“A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, coloca em evidencia um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.”

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso. P. 64)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um pontinho no nariz

500 days of Summer
"Rusbrock [personagem de Dostoievski] está enterrado há cinco anos; é desenterrado; seu corpo está intacto e puro (pudera! Senão não haveria história); mas: ‘havia apenas um pontinho no nariz que tinha um leve traço de decomposição’.
Sobre a figura perfeita e como embalsamada do outro (que tanto me fascina), percebo de repente um pouco de decomposição. É um ponto mínimo: um gesto, uma palavra, um objeto, uma roupa, alguma coisa insólita que surge (que aponta) de uma região de que eu nunca havia suspeitado antes, e devolve bruscamente o objeto amado a um mundo medíocre.
Fico alarmado: ouço um contra-rimo: algo como um síncope na lida frase do ser amado, o ruído de um rasgo no invólucro liso da Imagem".

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

por ser agressivo, por ser louco e por ser comum

Un amour de Swann
"Como ciumento sofro quatro vezes: porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade; sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum".

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso)