
Terminada a 19ª da Festa do Cinema Italiano, em Lisboa, “Gioia Mia”, de Margherita Spampinato, foi o grande vencedor, com Menção Honrosa da secção Competitiva a ser atribuída a “Ultimo Schiaffo”, de Matteo Oleotto.
O Prémio do Público foi conquistado em ex-aequo por “La Vita da Grandi”, de Greta Scarano, e “White Lies”, de Alba Zari. Já o Prémio Cinemax de Melhor Curta-Metragem foi atribuído a “Festa in famiglia”, de Nadir Taji.
Eis os pequenos textos que com acompanhámos o evento deste ano.

La grazia (Paolo Sorrentino, 2025)
Com Toni Servillo brilhante na pele de um fictício Presidente da República Italiana em final de mandato, Paolo Sorrentino, de um jeito mais pessoal e introspectivo do que no anterior “Parthenope”, questiona a coragem de tomar decisões, o peso da memória, a mudança dos tempos e a importância da verdade. Com a sua conhecida elegância e idiossincrasias visuais (presentes, mas aqui mais controladas), Sorrentino traz-nos ternura, enquanto olha para a própria mortalidade, numa história em que “Graça” é trocadilho para indulto presidencial e um muito procurado estado de beatitude interna no momento de fazer contas com a vida de um homem que todos conhecem, mas nunca ninguém verdadeiramente conheceu.

Portuali (Perla Sardella, 2024)
Portuali é o nome dado aos estivadores, e é através deles, das suas conversas, reuniões e acções que assistimos a um episódio que decorreu entre 2019 e 2023, quando as lutas por melhores condições no porto de Génova levaram a uma greve contra os “navios das armas”, que transportavam material de guerra para o Médio Oriente. Documentário feito de diversas fontes, desde imagens captadas pelos estivadores até reuniões na União Europeia, o filme analisa de forma dura e directa a formação do sindicato independente C.A.L.P. (Collettivo Autonomo Lavoratori Portuali di Genova) e a sua luta contra a hipocrisia de todos os agentes políticos.

Napoli – New York (Gabriele Salvatores, 2024)
Épico do oscarizado Gabriele Salvatores sobre a diáspora italiana no pós-guerra, “Napoli – New York” segue a história de duas crianças, numa estrutura de infindáveis peripécias em estilo telenovelesco. Entre sorrisos e lágrimas, o filme vive do modo como os sucessivos contratempos nos fazem comover com as crianças, não deixando de ser um interessante documento sobre uma parte da história italiana. O esperado final feliz é uma piscadela de olho bem directa a uma mais universal história de migração, hoje bem actual e importante.

Fuori (Mario Martone, 2025)
Ensaio sobre a figura de Goliarda Sapienza, escritora italiana mais valorizada em morte que em vida, pessoa de uma vida conturbada que incluiu depressões, tentativas de suicídio, e uma passagem pela prisão. É essa prisão que dá título ao filme onde “fora” é um conceito subjectivo num conjunto de mulheres que encontraram mais paz e comunhão quando estavam “dentro” com quem as compreendia. Vivendo das interpretações de Valeria Golino e Matilda De Angelis, o filme transporta-nos no modo caótico interior da protagonista por relações de sentimentos e comportamentos ora catárticos ora destrutivos, espelhando em parte a obra da escritora sobre um controverso modo de se ser mulher.

Gioia mia (Margherita Spampinato, 2025)
Confronto entre o mundo moderno de um jovem pré-adolescente e a sociedade “arcaica” da tia com quem ele vai passar férias, sem wifi nem outras distracções tecnológicas. “Gioia mia” — primeira longa-metragem de Margherita Spampinato — é um lento e doce desfilar de memórias de infância num mundo aparentemente já desaparecido feito de avós, histórias antigas, brincadeiras de rua e tradições ancestrais.

White Lies (Alba Zari, 2025)
Documentário narrado na primeira pessoa por Alba Zari, que retrata a história da sua avó e mãe, que se deixaram envolver pela seita “Filhos de Deus”, deixando a família e vivendo num culto que usava a promiscuidade sexual como técnica de recrutamento. Hoje, em Itália, Alba usou este exercício de oito anos para saber quem é, de onde veio, o que moveu mãe e avó e quem foi o seu pai. De um hiper-realismo doloroso, difícil de ver e ainda mais de ser partilhado, o filme coloca ainda a velha questão dos limites do voyeurismo e do quanto a coragem da partilha da dor e intimidade familiar pode ser também um um exibicionismo manipulador.

Fiume o Morte! (Igor Bezinović, 2025)
Em 1919, o poeta, militar e político italiano Gabriele D’Annunzio decide, num acesso nacionalista, tomar a cidade de Fiume (actual Rijeka) num território que várias vezes mudou de mãos entre o Império Austro-húngaro e a Itália. Aquilo que por muito tempo pareceu uma aventura surreal e que gerou um incidente internacional de um ano e pouco, é aqui narrado pelo croata Igor Bezinović, num documentário que dá voz a habitantes contemporâneos de Rijeka, que recriam e encenam momentos históricos e fotos de arquivo, numa enorme irreverência e original transgressão de formatos que faz de uma história pouco conhecida uma experiência absolutamente entusiasmante de ver.

L’uomo in più de (Paolo Sorrentino, 2001)
E porque um festival de cinema pode ser também uma oportunidade para olhar para trás, a Festa do Cinema Italiano dá-nos alguns filmes de Paolo Sorrentino, entre eles a sua primeira longa-metragem “L’uomo in Più”, que não teve estreia comercial em Portugal. Com Toni Servillo como protagonista, ele que já participou em seis filmes de Sorrentino. É curioso, à distância, ver como tantos dos temas se Sorrentino estão já este filme: as formas excessivas de lidar com o sucesso e o declínio, a solidão e a mortalidade. Tudo sob o olhar da sua Nápoles e de uma Itália que já parece dada a corrupção e superficialidade.

As Provadoras de Hitler (Le assaggiatrici, Silvio Soldini, 2025)
Filmes sobre pessoas a viver sob o domínio nazi durante a Segunda Guerra Mundial, no medo de serem descobertas, denunciadas, presas, deportadas, etc. são já um clássico. Este filme de Silvio Soldini é mais um, referindo-se à história pouco conhecida das mulheres que provavam a comida de Hitler para prevenir envenenamentos. Com a tensão inerente ao contexto, o filme é uma espécie de thriller, mas esgota-se no tema e título, a partir do qual pouco mais acontece. Lá está, se calhar o excesso de filmes destes vai banalizando histórias que deviam ser extraordinárias.

Ultimo schiaffo (Matteo Oleotto, 2025)
Imaginem os irmãos Coen a filmar no nordeste italiano, nas montanhas perdidas entre Itália, Eslovénia e Áustria, lá onde ninguém se lembra que mora gente. Imaginem uma história de dois irmãos dispostos a tudo para ganharem dinheiro e saírem dali, mas sem terem jeito para nada daquilo a que se propõem, e ainda por cima a ter sempre azar com todas as coincidências. Ou se quiserem, imaginem o mais despropositado conto de Natal. É essa a comédia negra de Matteo Oleotto, entre o thriller rocambolesco e o humor dos azares de pessoas que não nasceram para este mundo.

Gli occhi degli altri (Andrea De Sica, 2025)
Com Jasmine Trinca e Filippo Timi a protagonizarem um romance escaldante de aventuras clandestinas e exuberância visual, Andrea De Sica mostra-se mais devedor de Hitchcock ou Polanski que do avô Vittorio. Com uma ilha de um milionário como cenário único de decadência e personagens parecem irreais, estamos num Olimpo de desejo, paixão, posse e ciúme, de onde os mortais são corridos a tiro, e onde Trinca é uma ninfa e Timi é Zeus. Mas apesar das tantas leituras literárias que aqui se possam fazer, ao contrário dos ensinamentos de Hitchcock, De Sica privilegia a surpresa do choque ao invés da construção lenta do suspense.

Camilleri 100 (Francesco Zippel, 2005)
Para celebrar o centenário do nascimento do escritor italiano Andrea Camilleri, Francesco Zippel e a RAI construíram um documentário que percorre a obra deste que é o segundo autor mais vendido de sempre no mundo (só depois de Dante Alighieri… que leva um certo avanço temporal, como se diz jocosamente). Com um foco na sua série Comissário Montalbano (da escrita à televisão), aprendemos que Camilleri começou no teatro, como encenador, passando à televisão onde foi produtor delegado e realizador. Com o mérito de todo o documentário ser contado pelas pessoas que o conheceram e com muitos excertos de entrevistas com o próprio, ficamos com um olhar mais íntimo sobre a pessoa que esteve por trás de uma obra tão vasta, tão única e hoje tão apreciada internacionalmente.

Testa o croce? (Alessio Rigo de Righi, Matteo Zoppis, 2025)
O país do Western Spaghetti dá-nos em 2025 um novo western que não o é exactamente. Ambientado na Itália do século XIX, com a mitologia do Oeste americano como base — não faltando a presença de um Buffalo Bill, interpretado por John C. Reilly —, o filme é uma aventura histórica na Itália pós-unificação, em simultâneo história de emancipação no feminino, com pistolas, cavalos, caminhos de ferro, explosões, caçadores de cabeças e uma homenagem aos vaqueiros italianos da Toscânia, os Butteri, famosos por terem derrotado os cowboys de Buffalo Bill numa exibição em 1890. Exercício que diz mais sobre o século XXI que sobre o XIX, não deixa de ser um entretenimento interessante com uma boa dose de macabro.

Le città di pianura (Francesco Sossai, 2025)
Reportando-se à planície do Vêneto, o filme de Francesco Sossai — que traz na bagagem a aclamação em Cannes — é um road movie onde, sob o pretexto de beber “a última, para o caminho” dois amigos revisitam a sua vida, agora que chegaram a uma encruzilhada onde nada de esperançoso têm. Passeio pelo Vêneto, viagem nostálgica, iniciação do jovem estudante que recrutam quase à força, o filme fala-nos da passagem do tempo, oportunidades perdidas, sonhos esfumados, sempre com as mudanças na paisagem como indicadores daquilo que já não volta. Com tudo para dar errado — dois bêbedos de meia idade e um jovem peixe fora de água num carro sem objectivo — o filme atinge um brilho inesperado, que nos arrasta como para aquela verdade definitiva, que depois já não nos lembramos qual era.

Cinco Segundos (Cinque secondi, Paolo Virzì, 2025)
Com Valerio Mastrandrea como protagonista, o novo filme de Paolo Virzì conta uma história de culpa, expiação e redenção, na figura de um advogado caído em desgraça e cujo novo percurso o leva a contactar um grupo de jovens que fazem agricultura biológica. Entre irritações, desavenças e incompreensões, nascem amizades e cumplicidades improváveis, numa drama de sentimentos recalcados, dores não ditas e verdades escondidas até ao último segundo, atravessando dilemas de paternidade e o simbolismo do renascimento.

Três Vezes Adeus (Tre ciotole, Isabel Coixet, 2026)
Se ter Alba Rohrwacher no elenco é meio caminho andado para o sucesso, a realizadora espanhola Isabel Coixet acrescentou a outra metade num drama que começa com uma separação, para depois nos mostrar que há tragédias maiores na vida de uma pessoa. Mas e se essas tragédias ensinam a reparar mais nos outros, a perder a timidez que tanto nos tolhe, a apreciar mais a vida, de um gelado caído ao voo dos estorninhos? Cheio de poesia e delicadeza, “Três Vezes Adeus” (no original “três tijelas”) comove com serenidade e dá esperança para essa coisa estranha que é a dor de viver.
A Festa do Cinema Italiano continua em mais cidades de Portugal. O calendário pode ser consultado em festadocinemaitaliano.com.