Red Tales (Posts tagged poema original)

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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

Poema lido pela Ana Sofia. Obrigado.

lentamente.

passos,

     passos,

            passos, morte.

sem adeus.

                   passos,

                          passos, morte.

para que serve o caminho?

                                   passos, morte.

lentamente.

passos.

passos.

não!

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Poema lido pela Ana Sofia. Obrigado.

RUMOR DE FOGO

como um fio de lâmina,
onde o prazer aprende a caminhar descalço —
onde cada passo acende um rumor de fogo
entre a rendição do corpo
e a fome selvagem;
há portas que só o incêndio abre
e sóis que nascem da cinza:
o sangue abre rosas no escuro
e o prazer bebe-lhes o perfume.
a dor chega vestida de seda curta e escura,
semeando brasas na curva do silêncio —
o prazer reconhece-lhe os passos,
como quem regressa a uma casa antiga
construída entre espinhos e esperma.

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a violência de um pássaro ausente

*2004

depois, por vezes, surgiam homens vestidos de sombra
e o beijo da escolha tornava-se demasiado pesado,
a violência de um pássaro ausente fazia-se medo e silêncio,
a roda gigante, no topo do parque, parava e eu não queria lá estar,
mas, no final do verão, as aves seguem sempre o mesmo caminho
e nem o cheiro a carne putrefacta me desviava dos trilhos marcados,
nem essas estradas há muito desenhadas me pareciam as minhas.

era então quase como que fugir amar o delírio dos outros,
fechar-me nesse sedento mundo de mentiras, que alguém inventou,
para que pudesse eu nesses dias de eclipse inventar-me de novo.
como se cada página fosse um nascer imaginário do sol,
fazia meus os sorrisos lá inscritos e, às lágrimas, ignorava-as,
como se afogá-las no sangue ferrugento de velhos fantasmas,
fosse como censurar as noites escritas a vermelho pelas dúvidas.

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tenho na língua um deserto cruel de palavras,
um áspero e vazio sabor a ferro vermelho
e a pedaços de árvores queimadas pela noite.

vejo nitidamente o nascer de novas estrelas
para além dos limites das três mil galáxias,
mas não consigo ouvir-me no universo local.

enquanto o medo das reticências canta elegias,

(o mesmo poema infinito que cantam os átomos
no momento da rotura dos músculos de mozart),

o barómetro vai indicando o silêncio máximo
e o iodo acumula-se nas feridas sem as tapar.

pouco importam os leitos secos e o leite derramado:
já não sei se sou eu que não falo ou tu que não ouves,
já não sei se quero ficar ou ir para nenhum lado.


in Insónia

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O cantarolar do sal que prolonga a insónia

nem sempre o fumo e a luz demasiado velha
conseguem transformar o silêncio em sono
mas com a regularidade ambígua das dunas
o cantarolar do sal que prolonga a insónia
para além dos limites da carne e do sol
faz crescer a água secreta das palavras
até que um ciclone de sangue enfurecido
varra as memórias para onde não podem sê-lo.


in Insónia

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