Red Tales

1.5M ratings
277k ratings

See, that’s what the app is perfect for.

Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

Memórias 1: parte 8 de

Quando cheguei a Vila Praia de Âncora, a primeira coisa que fiz não foi admirar a paisagem. Foi confirmar que nenhuma aranha tinha decidido acompanhar a viagem. Só depois comecei, finalmente, a olhar em volta.

O mar estava logo ali, completamente indiferente à lama, às teias e à paranoia que eu ainda trazia comigo. O cheiro a maresia parecia terapêutico.

Estacionei e decidi dar um passeio pela marginal, seguindo o calçadão que acompanhava a praia.

Não faço ideia de quantos metros depois, havia umas dunas e a praia estava quase deserta. Pela minha cabeça desfilou uma série de pensamentos que acabaria por me levar a fazer praia. Ou, como se diz em Esperança Baixa, a «praiar»: estou de calções; não são de praia; são calções, ninguém vai estranhar; eu nem gosto de praia; sozinho deve ser diferente.

E era.

Sem a componente social, a praia torna-se outra coisa. Deixa de ser um sítio para estar com os outros e passa a ser um sítio para estar connosco. O mar ganha outro perfume, a areia deixa de incomodar e até o vento parece abrandar.

Instalei-me numa duna e fiquei simplesmente a olhar o mar. Pela primeira vez em muitas horas, a minha cabeça ficou em silêncio.

As ondas chegavam umas atrás das outras, sempre iguais e sempre diferentes. Não pediam atenção, não faziam perguntas, não esperavam nada de ninguém. Limitavam-se a existir.

Vida perfeita.

Talvez a diferença entre alguns de nós e as ondas seja essa: elas não precisam de se exibir. São.

Fiquei largos minutos a observar pequenos pormenores que, noutra altura, provavelmente me teriam passado despercebidos: a espuma a desaparecer entre os grãos de areia; uma gaivota imóvel, sustentada pelo vento; o brilho do sol a partir-se em milhares de reflexos sobre a água. Era uma paisagem onde nada acontecia. Talvez por isso acontecesse tanto.


(continua — eventualmente)

Ps: apaguei o “continua daqui”. Dava muito trabalho. Vou antes fazer uma ligação ao índice. Procurem a parte das Memórias.

minha prosa memórias memórias - Vilar de Mouros

Memórias 1: parte 7 de

Durante o pequeno-almoço já tinha decidido o que faria até regressar ao recinto. Encontrar o carro fazia parte do plano. O que não fazia era encontrá-lo coberto por teias e habitado por um número pouco tranquilizador de aranhas. Pequenas. Pretas. Peludas. Centenas delas.

Tinha planeado conhecer Vila Praia de Âncora, mas naquele momento a cultura, a paisagem e a gastronomia podiam esperar. Primeiro tinha de convencer centenas de aranhas de que aquele carro continuava a ser meu.

Subitamente, como se algo, percetível apenas por elas, as tivesse chamado, iniciou-se uma autêntica debandada. Atropelando-se umas às outras, desapareceram entre a vegetação. Em poucos segundos, o carro voltou a ser só um carro.  Meu.

Ainda arrepiado e movendo-me com uma lentidão quase cirúrgica, abri a porta do carro e sentei-me com os pés de fora. Bati um no outro para limpar a lama e fazer algum barulho. Na minha cabeça, o ruído faria fugir qualquer aranha que ainda ali tivesse ficado.

Esperei mais alguns segundos. Como nenhuma aranha deu sinais de querer recuperar o carro, fechei a porta, liguei o motor e segui para Vila Praia de Âncora. Foram quinze quilómetros de muita comichão.

(continua — eventualmente)

Ps: apaguei o “continua daqui”. Dava muito trabalho. Vou antes fazer uma ligação ao índice. Procurem a parte das Memórias.

minha prosa memórias memórias - Vilar de Mouros

Memórias 1: parte 6 de

Continua daqui

Há memórias que resistem uma vida inteira. Outras nem chegam ao pequeno-almoço.
Depois de uma noite em que o cansaço derrotou até a adrenalina, acordei sem fazer ideia de onde tinha deixado o carro. Na realidade, mal me recordava do exterior da pensão, quanto mais do sítio onde tinha estacionado o carro. Se bem me lembro, a esperança era que a pensão servisse um bom pequeno-almoço e que a energia extra revitalizasse a minha memória. Não aconteceu. Apesar do excelente pequeno-almoço — que de pequeno não tinha nada — a memória recusou-se a colaborar. Pelos vistos, já havia setores avariados.
Só quando saí da pensão percebi porque é que não me lembrava onde tinha deixado o carro. Ao lado do edifício havia um enorme descampado, com cerca de metade do tamanho de um campo de futebol. Duvido que servisse de parque de estacionamento. No estado em que cheguei na noite anterior, porém, deve ter-me parecido o local ideal. Sozinho, perdido no meio daquele descampado e longe de qualquer coisa que se pudesse chamar caminho, estava o meu carro.
É curioso como o cérebro consegue guardar durante décadas conversas sem importância e, ao mesmo tempo, apagar por completo o sítio onde deixámos um carro poucas horas antes. A memória sempre teve um estranho sentido de prioridades.
Senti-me um verdadeiro explorador quando, de solas enterradas na lama, caminhei em direção ao carro. A lama parecia saber mais sobre a noite anterior do que eu.

(continua — eventualmente)

minha prosa memórias memórias - Vilar de Mouros

Memórias 9: parte 3 de

Continua daqui

Quando comecei a escrever este capítulo, queria contar tudo o que aconteceu naquela descida. Desisti rapidamente. Aconteceu tanta coisa que isto se transformaria numa interminável sequência de pequenas aventuras. Vou limitar-me a contar mais uma ou duas peripécias antes de chegar ao destino final. O resto fica para outra ocasião. Acreditem ou não, estou a deixar de fora uma quantidade quase inverosímil de histórias. Com a minha memória, até me parece boa ideia.

Metros depois da clareira, numa zona onde o mato já rareava, mas as árvores continuavam suficientemente densas para manter a escuridão, descobrimos uma estrutura de betão, com quatro ou cinco metros de altura, apoiada na encosta. Tinha o aspeto de um canal de drenagem: paredes inclinadas, fundo plano e largura suficiente para escoar um grande caudal de água. Estava completamente seco.  

A estrutura prolongava-se encosta acima, perdendo-se na copa das árvores. No fundo do canal, acompanhando todo o seu comprimento, havia uma corda grossa, pousada sobre o betão. Parecia antiga, mas inteira.

Aproximei-me e dei-lhe um puxão cauteloso. A corda esticou sem revelar qualquer folga suspeita. O T., sempre desconfiado, agarrou-a e deu-lhe dois ou três esticões vigorosos. Do outro extremo não veio qualquer resposta, apenas a tensão firme da corda. O E. fez o mesmo, chegando a suspender parte do peso do corpo sobre ela. Nada cedeu.

Depois daqueles testes improvisados, concluímos que a corda estava bem presa. Não sabíamos onde terminava nem quem a tinha colocado ali, mas inspirava confiança suficiente para a usarmos.

(continua — eventualmente)

minha prosa memórias ponte 25 de abril

Poema lido pela Ana Sofia. Obrigado.

lentamente.

passos,

     passos,

            passos, morte.

sem adeus.

                   passos,

                          passos, morte.

para que serve o caminho?

                                   passos, morte.

lentamente.

passos.

passos.

não!

poema poesia poesia em português poema original asa leitura

Memórias 9: parte 2 de


Continua daqui

Caminhávamos em fila indiana. A cada passo, o trilho estreitava-se. O mato fechava-se à nossa volta. O silêncio crescia e a curiosidade também — enquanto o bom senso ia ficando para trás. À medida que avançávamos, o trilho tornava-se cada vez mais ténue, até ser apenas a intuição a indicar-nos o caminho. De vez em quando, um pirilampo riscava a escuridão com um voo trapalhão e um breve lampejo, como se também ele andasse à descoberta.

Subitamente, já completamente engolidos pelo mato, pela escuridão e por um medo disfarçado de coragem, o F. desatou aos gritos. Dizia que tinha uma cobra enrolada nos pés.

Observámos, assustados, mas rapidamente percebemos que não passava de um galho que alguém vinha arrastando e que, ao libertar-se, chicoteou e enrolou-se numa das canelas do F.

Rimo-nos e gozámos com o F. durante alguns minutos.  Ele  jurava que tinha sentido a cobra a mexer-se, mas, se bem me lembro, isso só alimentou ainda mais o gozo.

Depois de recuperarmos o fôlego, seguimos caminho. Ninguém admitia, mas todos olhávamos agora com alguma desconfiança para cada galho, cada sombra e cada pedra. A curiosidade continuava a ganhar ao bom senso, embora o placard indicasse agora  um resultado bem mais equilibrado.

Agora relendo e com as devidas diferenças, fiquei com a sensação de estar a ler uma qualquer aventura d’Os Cinco.

O trilho fez mais uma curva e, de repente, o mato abriu-se. À nossa frente surgiu uma pequena clareira. Pela primeira vez desde que saltáramos o muro, conseguíamos voltar a ver o céu. A única coisa que nos separava da continuação do trilho era uma poça de lama.

Falámos entre todos e concluímos que, apesar do risco, a melhor solução seria saltar da clareira, por cima da poça e aterrar no trilho do outro lado. Não sei bem porquê, mas decidimos que primeiro saltariam os rapazes.

O salto não era propriamente tranquilo: o trilho era estreito e corria junto ao topo de uma ravina, cujas encostas estavam escondidas por vegetação tão densa que nem se lhe via o fundo.

O T. — o mais corajoso ou o mais inconsciente — faria o primeiro salto. Aproveitou toda a extensão da clareira para ganhar balanço, saltou por cima da poça e aterrou no trilho com uma facilidade irritante.  Irritar os outros, sem fazer nada por isso, era-lhe natural.

Era a vez do E. Imitou todo o movimento do T., mas, ao aterrar no trilho, desequilibrou-se, escorregou e só não caiu pela ravina abaixo porque no último instante conseguiu agarrar-se a um arbusto. Ficou suspenso durante um ou dois segundos, que nos pareceram muito mais. O T. virou-se de imediato, agarrou-o pelo braço e puxou-o de volta ao trilho. Só então uma gargalhada geral disfarçou o nervosismo de todos.

(continua — eventualmente)

minha prosa memórias ponte 25 de abril