Mostrar mensagens com a etiqueta poemas d'outros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poemas d'outros. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de agosto de 2016

"Cá fora à luz sem véu do dia duro"



Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Um poema para o 1.º de Maio



ELOGIO DA DIALÉCTICA

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é
apenas o começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes.
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

BERTOLT BRECHT (1898-1956)
(do livro «Beltolt Brecht – Poemas», Editorial Presença, Janeiro de 1976)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Café e pastel de nata



1.
um café de distância
de saudade doce.
eu bebi. bebeste-me.
e enquanto bebia
bebi-a.
agora acabou.
o café?... 

2.
vai-vem de espuma
creme do índico
travo de águas
e canela.
vem vem na espuma
de sabor profundo
ondas do café
na maresia


Autor do poema: João S. Martins
Fotografia: além do café, temos o pastel de nata com pepitas de chocolate, uma especialidade do Chá de Histórias, na Rua Cândido dos Reis, em Cacilhas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Pedras no caminho



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver

apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e

se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar

um oásis no recôndito da sua alma .

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um 'não'.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo...


Imagem: retirada algures por AQUI

terça-feira, 29 de março de 2011

Poema de agradecimento à corja

Obrigado, excelências.

Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.

Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar

de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.

Obrigado por nos roubarem.

Por não nos perguntarem nada.

Por não nos darem explicações.

Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos

e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono.

E a tranquilidade.

E a alegria.

Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.

Obrigado pela vossa mediocridade.

E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.

Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.

Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.

Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias

um dia menos interessante que o anterior.

Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.

Obrigado por nos darem em troca quase nada.

Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.

Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade

e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.

E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,

o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.

Obrigado por serem o que são.

Obrigado por serem como são.

Para que não sejamos também assim.

E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poesia Incompleta


Acabei de receber um e-mail com este "apelo" singular. Obviamente que não poderia deixar de o divulgar...
«Actualmente existe, em Lisboa, uma livraria absolutamente única no país: uma livraria integralmente dedicada à poesia.

Sucede, contudo, que, apesar de fantástica, ela encontra-se com alguma dificuldade em sobreviver. O que não se compreende: tem à sua frente um jovem livreiro que, além de extremamente eficiente, como verão, possui um total conhecimento do que está a vender: conhece os autores, as edições, tudo.

A livraria de que vos falo chama-se Poesia Incompleta, fica na Rua Cecílio de Sousa nº 11 (Príncipe Real) e vai com certeza ser uma revelação para quem a visitar.

Abrange todas as épocas e o que não tem, o Mário, o dito livreiro, obtém, normalmente - e com uma brevidade que, no mínimo, surpreende.

Peço-vos - a vós que sois leitores - que façam uma visitinha a este sitio, que não pode de maneira nenhuma fechar e que, pela sua qualidade, vai-se tornar, mais tarde ou mais cedo, como aliás disse Vasco Graça Moura, num local de culto.

Isto, claro, se não fechar, coisa que, passando a palavra e recomendando a amigos este tão singular espaço, poderemos evitar.

Abraço,

JG»
E não é tarde nem é cedo, faço contas de passar por lá hoje mesmo. Ou não fosse eu uma fã incondicional da Poesia.
Imagem: "emprestada" do blogue Livraria Poesia Incompleta.

sábado, 22 de maio de 2010

Mil faces

Mil léguas de distância percorreste,
em mil espelhos enfrentaste
a imagem de que fugias,
mas em tua alma vias
mil cores que te abraçavam
que em mil danças te lançavam.
Contra mil lobos lutavas,
Mil vidas tu tiravas.

Sobre mil mares navegaste
em mil mundos procuraste
as mil faces que vestiste
sobre a face que não viste.

Em mil sonhos que não sonhaste
foi-se a vida que perdeste!

Sentir o toque do mar imenso
inundar o espírito,
purificar o ser,
como se de água fosse feita a alma.
Descer às profundezas
de um abismo de cor,
deixar de pensar,
exorcizar a dor,
deslizar lentamente
sobre um céu de mil prantos
e ser um só com o mar.
Este foi o primeiro poema do meu amigo António Boieiro que tive o privilégio de o ouvir declamar. Não sei explicar porquê, mas identifiquei-me, de imediato, com estas palavras e, confesso, emocionei-me tanto que até as lágrimas espreitaram dos meus olhos.
Com votos de um resto de bom fim-de-semana, aqui fica o poema Mil faces. A imagem é de uma obra de arte pública numa rua de Aveiro.

domingo, 25 de abril de 2010

Faz hoje 36 anos




Democracia

Democracia é um bem em Liberdade
Que faz parte da humanidade
Do berço até ao caixão
Olhando os frutos crescer
É um orgulho poder ver
Seu pouso de mão em mão

Quanto a mim só faz sentido
Se for um bem adquirido
Através de votação
Se um povo assim decidir
A democracia pode servir
Pró bem-estar duma Nação

Mas se este bem adquirido
For por alguém destruído
E a democracia ameaçada
Ouve-se um grito lá na frente
É o grito da nossa gente
Dizendo que foi roubada

Meu povo, ninguém controla
Nem com mordaça, ou pistola
Nem masmorra ao deus dará
Povo Luso sem rival
És Abril em Portugal
Cravo que não murchará.

Poema da minha amiga ROSA DIAS, escrito em Março de 2009 para a colectânea Almad'Abril editada pelso Poetas Almadenses.
Imagem: retirada DAQUI.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Desabafo poético...




Escrevo o que revisita a minha imaginação,
O teatro cabarético modernista português,
As adversidades politicas e odisseias submissas,
E toda a árdua tarefa a enfrentar…
Falo-vos daquilo que é colectivo,
E de todos começam a perder a vontade,
E não do meu individualismo,
Que é cómico, dramático e poético…!
Nesta geração, quem somos,
E em que sonhamos?
O que queremos ser,
E poder vir a ter?

As tortura mútuas sociopolíticas,
Ou novas obras inéditas musicais?
Respiro a atmosfera socrática pesada
Trago à cena a comédia sobre o desespero
O que não posso acreditar,
É não conseguir perceber
Como a maioria do povo português,
Votou, para mal poder viver.
Pedro Alves Fernandes

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Obrigada Vanessa!

Foi com imensa e grata surpresa que, no passado domingo (dia das eleições autárquicas) recebi uma inesperada prenda, à hora do fecho das secções de voto, quando estava à espera que fossem afixados os editais com os resultados, em Cacilhas.

E quando, em casa, a abri, fiquei deveras admirada. Era um belo livro de poesia acompanhado de uma simples nota que muito me emocionou…

Os resultados eleitorais eram o foco da minha atenção, mas aquelas palavras deixaram-me de lágrima ao canto do olho, confesso.



Desconhecia que aquela jovem tivesse dotes tão geniais (ela tem, de facto, um dom… sabe expressar-se de forma sublime e envolvente, podem crer!) e, por isso, aquele seu gesto tão simples de me oferecer o seu primeiro livro de poesia naquele domingo deixou-me, francamente, espantada ao ponto de nem sequer conseguir encontrar as palavras certas para lhe agradecer. Aliás, quaisquer palavras que possa utilizar são insuficientes para descrever o quanto fiquei emocionada.

Dos poemas que já li, um pouco ao acaso, como gosto sempre de fazer numa primeira abordagem de qualquer livro de poesia, deixaram-me deveras surpreendida pela densidade da sua mensagem e pela força que emana de cada sílaba e nos envolve de volúpia numa empatia perfeita entre autor e leitor pouco usual em poesia daquele estilo (falo por mim que sou leiga nestas matérias... costumo dizer que olho a poesia com os "olhos do coração", pois sou geógrafa e pouco ou nada sei do ofício de analisar a escrita poética dos outros... apenas amo a poesia e por tanto dela gostar acho que os nossos poetas precisam de ser divulgados tantos são os talentos que andam por aí desperdiçados).

Obrigada Vanessa (Melusine de Mattos), deixaste-me mesmo sem jeito (e sem palavras)… Por isso este meu agradecimento público.
Tu mereces. Pela beleza dos teus poemas mas, principalmente, pelo que simboliza este teu gesto que identifica bem a nobreza do teu carácter.

Quer saber mais sobre a autora? Então clique AQUI.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Poesia para começar as férias...

Praia da Zambujeira do Mar. Imagem tirada DAQUI.

Acabei de receber hoje mesmo, vindo de outro continente, depois de atravessar o oceano Atlântico, no meu primeiro dia de férias, este extraordinário convite, que quero partilhar convosco... Não vou para estas bandas, o meu destino é mais a sul, mas não me importava de ficar já aqui.

(acho que esta semana de férias me vai correr muito bem. Com este começo, só podia ser, não acham?):
«Preciosos amigos
Esta semana convido-os para um passeio virtual até à Costa Vicentinae imaginariamente se deleitarem nesta magnificente praia da Zambujeira onde estive recentemente e acredito ser uma PÉROLA DO ALENTEJO.
Veja e ouça este tema em poema da semana ou aqui neste link:
Euclides Cavaco
Venha tomar comigo um cálice de poesia...
Entre por aqui na minha sala de visitas:

Obrigada amigo. A poesia é, de facto, um grande laço de união.
Saudações poéticas para todos.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril na poesia da Liberdade


A MENTE NÃO MENTE

Semente a semente
na árida terra
doloridamente amarela
de suspeição,
de verdade adubada
fatalmente caiu
das calosas mãos
que tateiam futuro.
Se mente, não germina
a semente,
estiola no meio da gente
desejosa de verdade
mesmo que enclausurada
mas na mente não mente:
a semente germina
virtualmente
e o cravo habilmente
apossa-se da aterradora terra
e fecunda-a com amor.
Surpreendentemente
em Abril
floresce o cravo
que a mente sorrateiramente plantara
na sequiosa terra da verdade
e emoldura a paisagem
agora
vermelha de alegria.
Não mente,
germina
irrompe no meio da gente
vigorada pela verdade
libertada.
E canta
gloriosamente
no peito e na mente
pois sabe que futuramente
construirá completamente
um país de felicidade.
Pétala a pétala
na cansada terra
desgraçadamente
iludida de promessas
desfolha-se tristemente o cravo;
mas logo magicamente
se refaz na mente
que virtualmente
o futuro gera.

Alexandre Castanheira
Almad'Abril, edição comemorativa do 25 de Abril, edição Poetas Almadenses, 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A importância da luz

Ontem, coube-me fazer a apresentação da obra A Importância da Luz, vencedora do prémio de poesia e ficção de Almada 2006.

Foi uma intervenção necessariamente breve porque o importante não era a minha modesta opinião (uma leiga na matéria e tão só uma amante da poesia, que a aprecia com os “olhos do coração” e não como uma especialista em literatura poética), mas sim a obra em si.

Se por um lado vos pode parecer óbvia a minha apreciação, por ser amiga pessoal do autor, é decerto essa condição que me permitiu criar o necessário envolvimento para perceber as várias mensagens que o Isidoro nos dá o privilégio de conhecer através das suas palavras.

A Importância da Luz é um retrato multifacetado de sentimentos e memórias dispersas.

Da esquerda para a direita: Ermelinda Toscano (Poetas Almadenses), Isidoro Augusto (o autor) e Armando Correia (Director da Biblioteca Municipal Romeu Correia).

Cada verso contém preciosos fragmentos de afectividade, sentida e profunda, onde as sílabas expressam um amor óbvio à vida, mas quase sempre com um mais ou menos leve toque de doce nostalgia.


Este livro contém um conjunto vasto de emoções, definidas de uma forma subtil, mesmo quando o poeta pretende exprimir mágoa, revolta e raiva.

Construções poéticas extraordinárias, simples na aparência mas de uma riqueza linguística e semântica incrível que nos seduzem em cada página como estes tão belos quanto curtos poemas, aos quais o autor nem título deu e que não posso deixar de transcrever:

nem sempre as águas me levam

ao saber

eterno

calmas são as margens

do que sinto e do que vejo

tão branco é o que escrevo

Alexandre Castanheira

tóxica a palavra

da salvação

intrusa errática atmosférica

castradora ameaça

sanguínea fogueira

um verdadeiro muro


Helena Peixinho

teríamos sido

se a noite assim deixasse

escorrer o verbo

e os sentidos

assim tão explícitos


Vista geral da sala Pablo Neruda, local onde decorreu a sessão de lançamento.
Faltam-me aqui, tal como ontem, as palavras para vos continuar a guiar por esta que foi a minha leitura de um livro que eu considero, simplesmente, magnífico.

É que o Isidoro tem o dom de nos fazer reinterpretar cada poema nas sucessivas visitas que ao seu livro sentimos necessidade de fazer, pois aquilo que diz nas entrelinhas é muito mais do que o conteúdo aparente das vestes com que nos apresenta cada verso.

Imagens de: Manuel Barão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O último verso

Imagem retirada DAQUI


Tudo está preso por um fio
Não sei se é já amanhã que quebra
Como não sei se é de seda ou pedra
Ou se de alguma Força anda ao arrepio.

Se quebrar, que seja noite fora
E que eu não esteja a dormir
Não para não ter tempo de fugir
Mas para ver tudo como agora.

Haja o que houver, estarei lá
De pé, mesmo sozinha, nessa arena
E cantando o último dos versos.

Na segunda linha, clave de fá,
Escrita a azul com delicada pena
Pauta de muitos sons dispersos.

Almerinda Teixeira, em A solfa no sótão, Multinova – União Livreira e Cultural S. A., 1ª edição, Novembro de 2008

Nota da minha amiga (a autora) que a acrescentou em complemento do seu bonito soneto que hoje aqui vos deixo:

Poema escrito há cerca de 3 anos, mas na minha mente já desde "os loucos anos 90" que ele andava por lá.
Não percebo: muito se dorme, parece que a crise foi de geração espontânea, que caiu entre os pingos da chuva tendo-se formado de repente.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Flauta & Violino


Carlota (flauta) e Matilde (violino) durante a sessão de lançamento do livro de poesia de sua avó, a minha amiga Almerinda Teixeira, A Solfa no Sótão, que aconteceu no passado dia 29 de Novembro na Escola Secundária Cacilhas - Tejo.


Por um lado vinha e por outro ia

Hoje estou no mar amanhã na serra

Direi um dia adeus à cor, à terra

Mas nunca adeus direi à poesia.

Nem à música. Esta vai com ela.

(Almerinda Teixeira, A Solfa no Sótão)

domingo, 26 de outubro de 2008

Orçamento de Estado 2009

Primeiramente foi a pen
Andou p’rà frente e p’ra trás
E o coitado do Orçamento
Lá foi saindo aos bochechos.

Terá sido neste vaivém
Que ele foi acrescentado?
Andava um bit perdido
Nos céus cinzentos de chumbo
Que, por fim, num interstício,
Conseguiu direito à luz.

Terá sido por causa dele
Que o gajo ia morrendo
De asfixia à nascença?

Ninguém sabe, como sempre,
Quem enfiou o tal bit
Esse sim, como uma pena.
A doença é genética.

Desceu como o Espírito Santo
Só que:
Em vez de falar mil línguas
Veio calado, saiu mudo.

Mas mesmo sem o tal bit
É papelada aos molhões
Como sempre especializada.

A puta que pariu tal filho
Sempre conseguiu, lá por fim,
Oferecê-lo, dá-lo à luz.

(Aqui é parêntese para mudar de assunto:
mãe-filho
filho-mãe
puta?
?
Oh minha gente, a língua…)

Querem enganar-nos. Porquê?
Dizem que isto vai bem.
Mas a nossa pobre vida
Como mãe, parindo um filho,
Rebola-se com muitas dores…
Com tantas eleições p’ró ano
O bit, o bit, meus amigos,
Aquilo é q vai ser
Convertido em megabites.


Viva a República do Espeto de Pau!
Almerinda Teixeira
Cacilhas, 2008.10.24
Imagem tirada daqui.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Apareçam logo à noite

Irão declamar poesia, entre outros poetas almadenses: Alexandre Castanheira (o mentor da iniciativa), Gertrudes Novais e António Boieiro.
Venha conviver connosco, comer/beber um aperitivo, ouvir e/ou dizer poesia de Armindo Rodrigues e ver a exposição bio-bibliográfica sobre este autor.
Esperamos por si...

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Hortas da Costa de Caparica

De uma amiga, publico hoje um texto e poema alusivo, sobre um problema que está na ordem do dia aqui em Almada: Imagem tirada DAQUI
Da Aroeira para a Costa de Caparica está projectada uma estrada (cujas obras já terão começado às escondidas!?)...
Ao que parece, actualmente, a Câmara Municipal e o Instituto de Conservação da Natureza estão de acordo quanto à implementação do projecto.
Todavia, há uns poucos anos atrás a situação era diferente tendo-se vencido a guerra contra tal crime ambiental.
Mas, agora, aí estão de novo os olhões da especulação imobiliária... Ávidos, como sempre.
Alinda-se a frente de mar da Costa de Caparica com o POLIS, contudo, a seu coberto destrói-se uma das mais importantes áreas verdes da Área Metropolitana de Lisboa...
Não teremos de, mais uma vez, dizer NÃO? Não temos tempo a perder.

Assim vai o mundo!
HORTAS DA COSTA DE CAPARICA

“Polas hortas d´Enxobregas”
Nos falaste, ó Miranda,
De “rousinos asoviadores”. (1)

E pelas hortas da Costa
Eu te gido, Maria Emília,
(E a muitos outros),
Que não vai passar a pista
Que desejas, na tua visão,
De desenvolvimento sustentado.

Não, não vai ficar parado,
Isso te garanto eu,
O pessoal acordou.

Por lá não há rouxinóis
Mas há outra bicharada.
E couves, cenouras e nabos
E muitas outras plantinhas:
Umas já domesticadas
Outras reles, daninhas,
Que tu nem sequer conheces.

Mas eu à beira delas nasci. E cresci.
Mais longe, não foi por aqui.

Enquanto houver uma só cana ao vento
Não dormes, Maria Emília, em sossego.
Também nós não dormiremos:
Muitos já bem acordados,
Daremos as mãos, te asseguro,
Contra ventos e marés.

Não, não vais ganhar esta guerra.
Que vai ser dura, muito dura,
Mas não penses que ela vai ser
Como a do MST. (2)

A pista nem é largota
E é obra do (des)Governo.
Mas não vais estar ao lado
De qualquer pândego corta-fitas
Batendo palmas, contente,
Com o desenvolvimento sustentado.

Não vai haver infiltrados
Para estragar o estrugido
Nem outros feitos patetas.
Porque, se aparecer algum,
Logo será reconhecido.
E mandamo-lo assobiar
Como os rouxinóis de Enxobregas.

Rouxinóis de Enxobregas
Peço-vos, a sério, perdão,
Porque os vossos assobios
Nada têm de comum
Com os dos rouxinóis dos patetas.

Não, ninguém vai fugir de medo.

Meditando a pensar a perda e o ganho
Com o tempo acabamos por descobrir
Que valeu a pena não fugir:
Tu… aos trambolhões; eu… cá me amanho.

Amem.


Almerinda Teixeira
Costa da Caparica, praia da Cabana do Pescador, 21 de Julho de 2008


(1) Sá de Miranda – Carta a António Pereira, senhor de Basto, quando partiu para a corte.
Enxobregas: Xabregas, pois claro.
(2) Metropolitano ligeiro da margem sul do Tejo.
Related Posts with Thumbnails