terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 29, 2026

Quando capitalista rima com vigarista...


Embora estivesse longe de ser uma exclusividade nossa, era impossível negar que capitalista rimava vezes de mais com vigarista, mesmo que fossem palavras demasiado compridas para caber em qualquer poema-canção, mesmo de intervenção.

Mas a realidade é o que é.

Há mais de cem anos já havia quem pensasse dessa maneira, mesmo que usasse palavras diferentes. Era um tempo em que não se usavam muito as palavras acabadas em "ismo", desde comunismo, passando por capitalismo e acabando em fascismo...

Voltando à actualidade, naquele caso particular tratava-se apenas de um negócio, em que alguém, por avançar com a totalidade do dinheiro, queria ficar com 90% das acções e dos lucros da empresa, mesmo que para isso não precisasse de "mexer uma palha" em relação ao negócio...

Como o protagonista da história estava longe de ser alguém desesperado ou sem trabalho, pôde dizer ao fulano com alma de "agiota", para escolher outro "otário".

Claro que sabíamos que não havia nada a fazer. Este é um exemplo, simples e cru de um adepto do capitalismo selvagem, que tenta sempre usar, explorar, enganar, e até escravizar o outro, para maximizar o seu lucro...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


sexta-feira, agosto 28, 2026

A chamada "lei de retorno" e o nosso habitual assobiar para o ar...


É normal que cidades como Lisboa ou o Porto, ao duplicarem (sei que são mais...) o seu número de habitantes - mesmo que estes sejam apenas de ocasião - passem também a registar o dobro de crimes, com a tendência de que estes se tornem mais violentos, se os bandidos perceberem que existe uma forte possibilidade de escaparem impunes.

É que isto de se receber todos os dias dezenas de milhares de turistas, não significa apenas mais receitas em taxas turísticas ou mais gente a largar dinheiro nos monumentos, nas lojas, nos cafés ou nos restaurantes... há também a chamada "lei de retorno", que inclui sempre algumas chatices, como a apetência para o "gamanço" dos "amigos do alheio" (alguns parece que também chegam de fora...).

E por isso mesmo devia existir um reforço policial condizente com o aumento de pessoas nas ruas. Reforço que tem sido constantemente adiado.

Isso explica que no percurso que fiz ontem a meio da tarde, entre o Cais Sodré e o Rossio, só me tenha cruzado com uma agente da polícia, e já nesta praça larga, povoada de gente.

Por muito que nos agarremos à estatística e que continuemos a assobiar para o ar, é óbvio que o Governo não está a levar a sério a questão da segurança nas duas principais cidades do país. 

É provavelmente o único ponto em que o "alcaide calimero" da Capital, sempre estridente, tem razão. 

A presença de mais polícia nas ruas, além de transmitir segurança às pessoas, faz com que alguns larápios pensem duas vezes, antes de "atacarem"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 27, 2026

Um "mundo perfeito", com pessoas constantemente em saldo (e patos, claro)...


Uma das coisas mais curiosas do mercado de trabalho actual, é estarmos a viver um dos períodos em que existe mais emprego e também a época em que se pagam ordenados mais baixos aos trabalhadores.

Esta prática, além de contrariar toda a lógica social, consegue virar de "pernas para o ar" a relação normal que devia existir entre a oferta e a procura. 

Mas os absurdos não se ficam por aí. Basta ler os jornais para se saber que tanto os patrões (CIP) como o Governo (através da ministra do Trabalho), continuam apostados, não só  em criar uma nova Lei Laboral, como também em alterar as regras da Segurança Social...

Para esta gente um "mundo perfeito", é povoado com pessoas curvadas e constantemente em saldo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


terça-feira, agosto 25, 2026

«Como é que se contraria a versão humana, do "desde que não me chateiem, está tudo bem"?»


A pergunta fazia todo o sentido e teria uma boa resposta, quase moderna, fazer-se uma "actualização" da tal versão humana, menos egoísta e com mais sentido cívico e colectivo.

Foi o Rui que colocou a questão, por perceber que o seu prédio está prestes a ser "tomado de assalto", por uma empresa que já gere a maior parte dos edifícios da sua rua. Ninguém se quer dar ao trabalho de administrar o condomínio e estão pouco preocupados se o valor da prestação mensal passe a ser o dobro num futuro próximo...

As colectividades que conhecemos também vieram à baila, por serem dirigidas há anos e anos pelas mesmas pessoas, devido ao desinteresse dos seus associados, sobretudo pela forma que elas passaram a ser geridas, onde o interesse particular se passou a sobrepor ao de todos.

A Carla deu a mão à palmatória, por ter tornado a filha mais "responsável", afastando-a dos grupos de jovens que defendem o clima de forma mais radical, ao ponto de já terem dado um banho de tinta verde ao primeiro-ministro.

Sim, todos sabemos que não vamos lá com "paninhos quentes", e o mais curioso, é estarmos sem soluções, mesmo à mesa do café... 

Talvez outro tipo de jornalismo, de políticas e de redes sociais, conseguisse combater esta quase "anestesia geral" por tudo o que cheire a colectivismos (e a chatices...). 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


segunda-feira, agosto 24, 2026

Mudamos sempre, mesmo sem nos apercebermos...


O espelho diz-nos muitas vezes que estamos diferentes. Muitas vezes apetece-nos "não ver", "não olhar", especialmente quando não achamos muita piada às mudanças.

Mais problemático é quando passamos ao lado daquelas mudanças, que nenhum espelho detecta... Sim, quando passamos a olhar para as coisas de uma forma diferente e fingimos não o perceber. Talvez aconteça por aqui o mesmo que a sempre útil Sabedoria Popular nos diz sobre o que o tempo faz ao "bom vinho": se for bom ganha qualidade, se for mauzito, tem tendência para azedar... 

Sessenta e poucos anos de vida são suficientes para percebermos, que sim, somos exactamente como o bom vinho. De uma forma simplista, percebemos que todos os "filhos da puta" se tornam piores com o passar dos anos, ao passo que as pessoas mais bem formadas, têm tendência a relativizar tudo aquilo que se passa à sua volta...

Onde se nota muito estas diferenças é no comentário político. Os casos de Pacheco Pereira ou de António Barreto, são paradigmáticos, ambos foram ganhando racionalidade, ao mesmo tempo que se iam curando da "febre ideológica". Algo que com toda a certeza nunca acontecerá com João Miguel Tavares, tal como nunca aconteceu com Vasco Pulido Valente, e muito menos acontecerá com Cavaco ou Sócrates...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 22, 2026

"o mesmo bilhete de ida e volta"


o mesmo bilhete
de ida e de volta
  
quando parti
sabia que tinha tirado
um bilhete de ida e de volta
ia ficar e ia voltar
ainda era um rapaz novo
estava longe de pensar
nas voltas que a vida dá
de como o tempo
nos pode transformar…
 
soube sempre que
aquele não era o meu país
era apenas o lugar possível
onde se podia acreditar
na palavra futuro e
pensar num final feliz
 
os anos foram passando
e já a dois sentimos
que nada é como sonhamos
a vida é sempre outra coisa
 
mesmo assim nunca desistimos
de voltar ao nosso ponto de partida
fingimos não perceber a factura
que no final teríamos de saldar
 
num tempo não muito distante
uma parte de nós, “ia ficar”…
talvez a mais importante.
 
Isso dizia-nos que iriamos continuar
a usar o mesmo bilhete
vezes sem conta
a ir e a voltar
porque quando o coração
está no sítio certo
ninguém consegue vencer o verbo amar
 
percebemos e aceitámos
que o nosso bilhete
nunca seria diferente
 
era o nosso
bilhete de ida e de volta
de sempre…
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema para os meus tios, Zé e Lurdes, que emigraram para Alemanha no começo dos anos setenta, onde nasceram os seus dois filhos. Filhos que se sentem, naturalmente, mais alemães que portugueses. O que faz com que os pais, embora tenham voltado para Portugal, para gozar a reforma, acabem por voltar, sempre que as saudades apertam, para estarem com os filhos e com os netos... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 21, 2026

«Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo seu primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»


Quem tem mais de cinquenta anos, ainda conheceu o país em que um simples licenciado de qualquer coisa, colava a palavra doutor antes do seu primeiro nome, mesmo que estivesse a falsear os seus cartões de identificação.

A chamada "pobreza franciscana" tinha destas coisas, gente que queria ser "importante à força" e que foi sempre muito bem caracterizada pela sabedoria popular, que gostava de dizer que um doutor, não passava de um "burro carregado de livros"...

Embora a mediocridade nunca se tenha afastado muito dos poderes, foi graças ao Sócrates e ao Relvas e aos seus diplomas domingueiros, que algumas pessoas começaram a ter vergonha de serem do clube dos "doutores da mula russa"...

Apesar de muitas coisas estarem a voltar atrás no tempo, esta é daquelas que dificilmente voltará a ser usada como sobranceria social, porque hoje deve existir um grande equilíbrio entre os jovens que tiram um curso superior e os que ficam pelo caminho.

E isso explica a memória das palavras do bom do Orlando: «Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)