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terça-feira, julho 21, 2026

Olhar pela janela o mundo que está lá fora...


Lá acabei mais uma aventura do inspector Maigret (gosto mais que comissário).

Há sempre pequenas coisas que ficam.

Reparei que tal como o inspector, uma das coisas que gosto, é de olhar para o exterior no lado de dentro das casas, ver o mundo lá fora.

Mas não tem nada que ver com as razões que Georges Simenon invocou nas páginas de "A Defesa de Maigret":

«No seu gabinete, tal como no Boulevard Richard-Lenoir, Maigret tinha o costume de postar-se à janela, olhando para fora, fosse o que fosse: as janelas fronteiras, as árvores, o Sena, os transeuntes. Talvez isso fosse um sinal de claustrofobia. Por todo o lado procurava um contacto com o exterior.»

Eu sei que no meu caso não é claustrofobia. Ganhei este hábito na infância. Ainda recordo com alguma melancolia quando ficava preso à janela da sala, em especial no Inverno, a olhar para a rua e a ver as pessoas a pé, de motorizada ou de bicicleta (carro menos, havia poucos...), a passarem, a desviarem-se ou a andar a saltitar, para fugir às poças de água castanha, porque o alcatrão só  chegaria algum tempo depois ao bairro. E quando passava um carro, era banho certo para quem se deslocava a pé... Para uma criança era um espectáculo digno de se ver.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, julho 14, 2026

A gente pequenina dos vales de 10 cêntimos e a nossa facilidade em deitar fora oportunidades...


Não fazia ideia que havia tanta gente, no mínimo estranha (não me estou a referir aos sem abrigo, como é óbvio), que embora andem nas ruas limpinhos e bem vestidos (as pessoas com quem me tenho cruzado são quase sempre homens e mulheres reformados que talvez não tenham mais nada de "útil" que fazer nas suas vidas, além de coleccionarem "inutilidades com preço"...), andam por aí à procura de um "novo lixo". 

Percorrem durante o dia os pequenos caixotes distribuídos cidade, munidos de sacos de plástico, em busca de garrafas e latas vazias, para trocarem nas máquinas de marca "volta". Pensam que são discretos, quando olham para o lado, a tentar perceber se estão a ser observados. Como vêm a maior parte dos transeuntes presos aos "smartphones", enfiam as mãos nos pequenos caixotes rente às paragens de transportes, como quem não quer a coisa... e de vez enquanto "ficam mais ricos".

Já me cruzei com mais de uma dúzia deles pelas ruas de Almada. Apetece-me quase sempre dizer alguma coisa, mas acabo por ficar em silêncio, limitando-me a abanar a cabeça...

Não sei se são estas mesmas pessoas que assim que o dia escurece, saltitam de contentor em contentor, desta vez com muito menos cuidado, ao ponto de revirarem o lixo e deixarem atrás de si um rasto de imundice por onde passam, pela merda de um vale de dez cêntimos. Provavelmente não, porque não olham para a noite como sua companheira...

Acredito que quem teve esta ideia pretendia mesmo que se fizesse um melhor aproveitamento da reciclagem e que as ruas ficassem mais limpas. Mas o ser humano é o que é... e bem podem meter a viola do saco, porque o resultado parece ser exactamente o contrário do pretendido.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, abril 19, 2026

Abril também pode ser um sorriso (daqueles que ficam cravados na memória)...


No meu último livro falo sobre o Abril que descobri aos dezoito anos na Capital, na festa que foi desfilar pela primeira vez na Avenida da Liberdade (não sei quantas cidades do mundo se podem gabar de ter uma Avenida que tem o nome de Liberdade e é tão larga e comprida, ao ponto de dar a sensação que cabem lá todos os amantes de Abril...

Muito ao de leve falo de uma miúda amorosa, que conheci nesse dia 25 de 1981. Digo apenas: «E depois desci a Avenida da Liberdade de mão dada com uma miúda gira, a Esmeralda, que ainda gostava mais de liberdade que eu.»

Se hoje continuo tímido, com dezoito anos, era muito mais...

Lembro-me apenas de termos trocado um sorriso e de nos termos aproximado, de estarmos ao lado um do outro e de nos tocarmos, quase empurrados pela multidão.

E depois desfilámos os dois de mão dada. Sei que dissemos muitas vezes, "Abril Sempre! Fascismo nunca mais!"...

Parece ficção, mas aconteceu mesmo. Aos dezoito anos quase tudo nos é permitido.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 18, 2026

Abril com Arte e Liberdade nas paredes de Almada


Tinha lido que iriam ser colados cartazes feitos por alunos num dos muros exteriores da Casa da Cerca, em Abril, mas só quando me dirigia para a inauguração da exposição de pintura, "Os Amigos" (na sede da SCALA) é que reparei numa quase multidão que enchia a rua, na tarde de hoje.


Depois de ver a exposição passei por lá e percebi que se estava a montar a tal outra exposição de Abril, cheia de cartazes com palavras, rostos, memórias, história, arte e liberdade, a céu aberto.

E sim Abril é tudo aquilo... 

E que nunca tenhamos medo de festejar a Liberdade, a Democracia, a Igualdade, a Fraternidade, em Almada, nas Caldas da Rainha ou em Albufeira...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 15, 2026

Isto de gostar de olhar para aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga...


A minha filha assim que entrou em casa avisou-me logo para ter cuidado, porque houve um "passeador de cães" que deixou o seu "mais que tudo" a "libertar o prisioneiro" mesmo à nossa porta (ainda apanhou a grade-tapete da entrada...).

Como a minha Sofia sabe que olho para todo o lado menos para o chão, e que sou um tipo "cheio de sorte" (houve alguém que inventou esta patranha, de que pisar "merda" dá sorte...), fez com que pensasse logo que: "isto de gostar de olhar para  aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga..."

O mais curioso, é que nem me apetece catalogar a personagem que "educa" o seu "bebé" a preferir a pedra da calçada do passeio ao espaço verde meio abandonado que fica a menos vinte metros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 10, 2026

As pessoas com quem me cruzo nas ruas de Almada...


A cidade não está deserta, muito menos despovoada. Está apenas diferente, porque tem habitantes diferentes.

Pessoas que chegaram de fora, que trazem normalmente os seus hábitos e as suas culturas coladas à pele. Muitos deles, se não forem pessoas curiosas, ficarão a saber poucas coisas da nossa história e cultura. Nem tão pouco  irão alterar muitos dos seus hábitos, por viverem fechados nas suas comunidades. 

Acredito que as mudanças só acontecerão com os seus filhos e netos, que ficarem... e que se sintam ligeiramente portugueses. 

Se forem bem integrados (o que nem sempre acontece, porque as crianças estão longe de ser "a melhor coisa do mundo" e nem sempre tratam bem outras crianças... E se seguirem os maus exemplos dos adultos lá de casa, tudo piora...), poderão ser parte do nosso futuro...

Apesar de termos sido "colonizadores" diferentes dos ingleses, franceses ou holandeses, não foi por isso que fomos menos racistas que eles.

Nem sei se algum dia deixaremos de ser "racistas" ou outras coisas com esta terminologia... porque mesmo entre nós - a gente de pele cor de rosa -, nunca irão acabar as pessoas que pensam que "têm mais direitos e mais importância", que o vizinho do lado. Não lhes basta ter um carro ou uma casa melhor, querem sempre mais e mais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 25, 2026

Tanta coisa que não sei...


Não sei a certo se as aulas de Cidadania, alteravam o nosso comportamento, muito menos se a escola é o lugar certo para nos tornarmos melhores pessoas (claro que sei que tudo começa e acaba em casa, mas a escola podia dar uma ajuda...).

Pensei nestas coisas depois de passar por um homem de uns quarenta anos, que acabara de estacionar o carro e quando saiu, gritou alguns dos nomes feios que conhecia para outro condutor, que entretanto já dera a curva e caminhava para outro planeta e lhe apitara segundos antes.

Provavelmente apitara com razão, o que não faltam nas estradas é gente que não faz uso dos sinais luminosos do carro quando muda de direcção ou estaciona.

O meu lado mais moralista teve vontade de perguntar ao homem, se ficara mais feliz depois de encher a rua de nomes feios. Sabia que se o fizesse, acabaria por sobrar para mim, qualquer coisa ainda mais feia que um "mete-te na tua vida"...

Também pensei que talvez hoje estejamos mais malucos que ontem, e a tendência seja continuarmos a piorar, dia após dia, ignorando algumas palavras calmas, da família do civismo...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


sábado, março 07, 2026

A quase "arte" de mostrar e esconder as nossas fragilidades...


Este tempo em que se vive entre o oito e o oitenta como se estas oscilações fossem o normal, faz com que por vezes se pare e se tenham conversas mais intimas e com menos leveza. Estranhamos sempre que se contem coisas que devem passar a vida escondidas em qualquer parte do nosso cérebro, a parte do corpo onde cabe quase tudo das nossas vidas.

Depois entrei no metro, cheio de gente (devem andar a espaçar os horários, para que as pessoas fiquem mais "unidas"...) e fiquei por ali a pensar, até porque entretanto passou um ceguinho com garrafa de plástico numa das mãos, cortada ao meio, a pedir moedas ou notas.

Para conseguir sobreviver neste mundo, tinha de andar nos transportes e nas ruas a expor a sua fragilidade maior, em busca de almas sensíveis, que lhe enchessem a bolsa que trazia a tiracolo de moedas...

A ideia que se colou a mim, foi a aparente dualidade que surge em quase tudo, quando queremos simplificar demasiado as coisas: branco, preto, verdade, mentira, gordo, magro, alto, baixo, triste, alegre, e poderia continuar, quase numa lengalenga, sem aprofundar qualquer questão.

Muitas vezes escondemos as nossas fragilidades, porque queremos mostrar que somos pessoas iguais às outras, preparadas para andar por aí, nas "batalhas urbanas". Ou seja, somos o contrário dos "coitadinhos", que se alimentam das suas aparentes dificuldades (muitas vezes postiças, a televisão hoje vive muito disso...). 

Claro que não estou a meter neste plano o ceguinho, que para comer uma sopa, tem de andar de mão esticada, porque sei que as coisas nunca são assim tão simples, com apenas dois lados, como as moedas...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


sábado, fevereiro 28, 2026

O Olho de Boi ficou mais longe...


A tempestade também andou por Almada. Felizmente, com menos dramas humanos que na Costa de Caparica ou Porto Brandão.

Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.


Desta vez a Autarquia não esperou um mês (foram apenas umas três semanas...) para retirar a lama, a terra e os restos de árvores caídos, abrindo de novo a estrada aos moradores e turistas, que tanto gostam deste lado do Tejo. 

Ontem vi uma máquina e um camião a retirar tudo o que resolveu descer da encosta (ou arriba...) e torna ainda mais visíveis as nossas fragilidades naturais, quase sempre olhadas de forma desatenta pelos governos e governantes...

(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)


terça-feira, fevereiro 03, 2026

«Ó pai vai chover o ano inteiro?»


Vinha a subir a Emília Pomar e cruzei-me com um pai e uma filha que vinham da Escola dos Cata Ventos e entretanto começaram a cair uns pingos a convidarem-me a acelerar a marcha até casa.

Ainda tive tempo de ouvir a miúda de cinco ou seis anos perguntar ao pai: «Ó pai vai chover o ano inteiro?»

Ele não disse nada. Estava entretido a abrir o chapéu e farto de chuva, como todos nós...

Pensei que a minha filha era mais de fazer perguntas que o meu filho. E sempre foi assim pela vida fora. Talvez seja essa a norma, as mulheres são mais curiosas e gostam mais de perguntar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, dezembro 08, 2025

«Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens»


Bastou a passagem de dois polícias pela rua para que todos os "comerciantes sem licença" pegassem nas trouxas e escapassem para outros lugares.

Poucos minutos depois uma mulher com mais de setenta anos de idade sentou-se na mesa ao lado da nossa e pediu um galão. Trazia consigo dois sacos grandes de plástico, cheios de camisas, meias, lençóis, etc. Percebia-se que pertencia ao grupo de vendedores sazonais que andavam a tentar aproveitar a onda dos presentes de Natal, que só passava pela baixa, uma vez por ano.

Pouco tempo depois apareceu outra, mulher mais jovem, que tanto podia ser filha, sobrinha ou simplesmente amiga ou vizinha. Também estava carregada com sacos de material para vender, a piscar o olho à boa vontade das pessoas com os preços baratos dos seus produtos. Um minuto depois apareceu um homem, que quase que apenas entrou e saiu. Deu um recado de ouvido, à mulher mais nova, que já dobrara os quarenta há uma meia dúzia de anos, que a deixou impaciente.

Foi quando começaram a falar das suas vidas, sem se preocuparem com quem estava à volta. Não era preciso ser muito esperto, para perceber que ambas tinham passado parte das suas vidas, nas ruas, em busca de clientes. A meio da conversa a mulher mais madura, aconselhou-a a mudar de homem, para não voltar a cair na armadilha das ruas.

Com a sabedoria dos seus cabelos brancos disse que os últimos anos tinham sido os mais felizes da sua vida e que o melhor que lhe acontecera, fora livrar-se dos homens.

Isto antes de me oferecer a melhor frase do dia, quando confessou: «Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens. Chegou, já não tenho energia nem vontade para isso.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, novembro 04, 2025

A forma como julgamos os outros...


Julgamos tantas vezes os outros, partindo apenas das nossas convicções e da nossa experiência de vida...

Pensei nisso depois de ouvir um desconhecido a divulgar, alto e bom som, numa rua movimentada de Lisboa (o senhor queria muito ser ouvido por quem passava por ali, naquela "encenação"...), que «podia haver igual, mas mais honesto que ele, não havia ninguém na terra». 

Sorri sem parar e sem perceber muito bem se o alcance daquele "terra" era mesmo planetário. Provavelmente era...

Nunca fui capaz de dizer algo do género, talvez por ter sido educado a nunca dizer algo do género. São conclusões que devem ser tiradas por terceiros e nunca por nós próprios.

Lembrei-me logo de duas pessoas: um primeiro-ministro, que transformou o país de uma forma miserável (continuamos a pagar por isso, sobretudo na forma egoísta como olhamos para o dinheiro e para as coisas do mundo...), que se vangloriou que "estava para nascer a pessoa mais séria que ele", mesmo que tivesse atrás de si, pelo menos dois ou três rabos de palha... A outra personagem que me veio à cabeça foi  João Noronha Lopes. Quando o vi na televisão a mostrar publicamente as suas declarações de rendimentos e a gabar-se dos milhões que ganhara como empresário, deixei de sentir confiança nele, deixou de ser o tal "candidato da mudança"...

É possível que exista algum preconceito nesta forma de olhar e julgar os outros. Mas somos o que somos, muito pelo que nos ensinaram e pelo que vivemos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 10, 2025

A moda de governar para "ganhar eleições"...


Nem se pode dizer que a moda de governar para ganhar eleições, tenha começado com o PSD.

António Costa, por exemplo, foi bom a governar desta forma. Embora fosse menos descarado que o "conde monteverde", foi desta forma que se conseguiu manter tanto tempo no poder...

Olhando para a actualidade, os reformados são o "público-alvo" das maiores atenções do primeiro-ministro, que se habituou a criar, um mês ou dois antes das eleições, um qualquer suplemento que faz as delicias dos mais idosos. Acredita que, mesmo que a memória já não seja a mesma, eles não o esquecem quando vão votar. 

Foi por isso que voltou a repetir a façanha, agora, mesmo que estas eleições não o elejam, sejam apenas para as autarquias. Revela-se um bom amigo dos autarcas sociais democratas, mesmo que estes (e os outros, como os socialistas em Almada...) também insistam em colocar novos tapetes de alcatrão, para tapar os buracos de quatro anos, na semana das eleições...

Mas as benesses não se ficam por aqui, até se corta a erva dos jardins, o que nos faz pensar muitas vezes que não era má ideia existirem eleições anuais nos lugares onde habitamos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Nem sempre temos noção "do que é sofrer"...


Ainda não me tinha acontecido uma coisa parecida, nas ruas, uma senhora chamar-me e pedir-me o braço.

Voltei atrás, sem perceber muito bem o que ela queria. 

A senhora só queria chegar a casa e devia estar com alguma dificuldade, embora morasse apenas a setenta, oitenta metros daquela esquina. 

Dei-lhe o braço de uma forma desajeitada, ela disse-me para deixar o braço normal e depois agarrou a manga do meu casaco e seguimos na direcção da sua casa. Para me descansar e perceber que não morava no fim da avenida, disse que ficava ao lado dos "Pinto's (barbearia)".

E depois nunca mais parou de falar. Fiquei a saber que estava cega de uma vista e da outra tinha um glaucoma e outro problema qualquer, ou seja devia ver pouco mais que sombras... Também me falou de um tratamento inovador, que usava o seu próprio sangue. Fiz-lhe poucas perguntas, uma delas foi se vivia sozinha. Disse-me que vivia com uma senhora de 93 anos. Quase que me silenciou...

E depois chegámos à sua porta. Tinha um carrinho de compras, tentei ajudá-la, foi quando percebi que estava carregado. Ela disse-me que não era preciso, acrescentando que o carro era a sua "bengala".

Deixei-a e fiquei a pensar que nos queixamos de mais, e que nem sempre temos noção "do que é sofrer"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, fevereiro 17, 2025

Estar perto e longe da minha vista...


Às vezes acontecem-nos coisas quase surrealistas, daquelas fáceis de explicar e difíceis de entender.

Estávamos à distância da largura da rua, demasiado movimentada, para se passar para o outro lado, sem esperar pela mudança do sinal.

Ligaste-me a dizer que precisavas de falar comigo e enquanto íamos conversando vi que uma mesa do café tinha ficado vaga e coloquei as minhas coisas numa das cadeiras, a marcar lugar. Quando olhei para fora, já não estavas. Ainda estávamos a falar como os maluquinhos que andam por aí, quando peguei nas minhas coisas e vim até à rua e não havia qualquer sinal de ti.

Não podias estar longe. Devias ter contornado a esquina mais próxima e ficaste longe da vista. Entretanto um de nós desligara o telemóvel (devo ter sido eu, que com a minha surdez natural, ouvia  mais os ruídos urbanos que a tua voz...).

Atravessei a rua mas acabei por seguir na direcção contrária, ou seja, em vez de me aproximar, estava a afastar-me de ti. Foi quando o telemóvel voltou a tocar. Disseste que estavas sentada na esplanada rente à igreja, à minha espera.

Foi quando percebi o que tinha acontecido. E sim, tinhas razão, era um lugar mais sossegado para se conversar. Além de haver sempre mesas à espera de pessoas, os clientes habituais era gente que bem sequer conhecíamos de vista...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Uma boa conversa sobre a falta de "planícies" nas cidades...


Estava quase a entrar no quintal, quando vi um homem sentado no degrau do portão, a fumar um cigarro.

Normalmente encontrava uma ou outra mulher ali sentada, a descansar, a meio da subida, demasiado íngreme e longa, com o saco das compras ao lado. Desviava-me para entrar, dizendo-lhes para continuarem sentadas a descansar, quando se preparavam para seguir viagem.

O fumador fez-me lembrar um tio emprestado, que também esteve ali sentado a fumar um cigarro "às escondidas" (a mulher e o médico diziam que lhe fazia mal, só que como lhe sabia bem, nunca deixou o vício...), a quem fiz companhia. 

Estivemos por ali a conversar, há uns bons vinte anos. O tempo é aquela coisa que todos sabemos...

Ele era uma pessoa divertida e entre outras coisas, depois da passagem de algumas pessoas de idade, por nós, disse-me que todos aqueles que tivessem mais de sessenta anos deviam ser proibidos de passar por aquela rua, a pé, tanto a descer como a subir. E acrescentou, que com o passar dos anos, descer tornava-se mais penoso que subir, por causa dos joelhos. E quem tenha jogado à bola, como ele, ainda pior...

Mas o melhor estava ainda para vir, quando ele quis quase sustentar a tese sobre "proibição" de uma forma alegre: «Esta descida é tão vertiginosa, que ainda aparece aqui alguém com dores nos joelhos que cai na tentação de, em vez de descer a rua, normalmente, começa a rebolar até lá baixo.»

Soltámos ambos uma gargalhada, que fez com as mulheres da casa viessem à janela e ele tivesse de apagar o cigarro à pressa, sem escapar de ouvir boas da esposa, enquanto me piscava o olho, quase a querer dizer-me: "deixa-as falar, ninguém me tira o prazer de uma boa cigarrada"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, fevereiro 02, 2025

As coisas que não se explicam...


Evito passar pela nossa rua.

Até porque quando olho para a janela da sala, que abríamos de par em par e onde dizíamos bom dia, boa tarde e boa noite à cidade, fico a pensar que ando a imaginar coisas.

Apeteceu-me telefonar-te e perguntar se ainda tocas viola e cantas as canções dos "comunas", mesmo que todos soubéssemos que o Zeca fosse o seu próprio "comité central" e o Adriano continuasse a ser o gigante, que era amigo do tio Zé, ambos de outras esquerdas. 

Foi quando me lembrei que não tenho o teu número actualizado. 

Pois foi, passou tanto tempo. 

O engraçado da coisa, é que as coisas pioram quando viro costas. O prédio que agora é cor de rosa volta à nossa cor. Sim, os nossos amigos de então sabiam que vivíamos no terceiro andar direito, da "casa amarela"...

Claro que não olho para trás. Não preciso de confirmar, que o nosso prédio é amarelo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, janeiro 12, 2025

A liberdade nunca foi fazermos e dizermos o que nos dá na "real gana" (um)


Acho que os grandes problemas da sociedade actual são a forma como se entende a liberdade, seja em casa, na escola ou na rua.

E devo dizer, desde já, que nesse aspecto as redes sociais não têm grande coisa a ver com o assunto.

Houve mudanças enormes nos últimos cinquenta anos no nosso país, mas nem todas foram bem definidas, reguladas e aceites pelo comum dos mortais. 

A necessidade de mudança foi tal, que levantou logo outras questões (ainda durante o PREC...), que foram agravadas pela falta de cultura democrática, normal, para quem tinha vivido quase meio século em ditadura. Além do poder repressivo, abusava-se do "respeitinho", imposto pela generalidade das autoridades e das instituições.

Infelizmente, tanto no seio da família, como na escola ou na vida em comunidade, nunca se conseguiu encontrar o caminho certo para a tal liberdade, que se alimenta tanto de direitos como de deveres. Foi bom abolirmos o "respeitinho", mas foi muito mau deixarmos de respeitar o outro, como alguém igual a nós, nos tais direitos e deveres, que quando cumpridos, são a grande marca das sociedades mais bem sucedidas, social e economicamente.

Facilitou-se demasiado o caminho e chegámos a um tempo em que tudo parece "estar em crise". Mas é uma crise que parece interminável e dura há praticamente duas décadas e se tem agudizado (aí sim, com o apoio das redes sociais, onde tudo parece ser permitido...)...

Mas eu continuo a pensar que tudo começa e acaba no uso que damos à boa da Liberdade.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



sexta-feira, novembro 08, 2024

A única estatística que tenho é o meu olhar, mas...


Embora não tenha nenhum dado estatístico sobre qual é o animal doméstico mais popular na actualidade em Almada, noto um grande crescimento de cães. E isso acontece desde a pandemia.

Antes, o que se via mais em Almada, eram gatos. Muitos deles "vadios", mas como tinham sempre várias distribuidoras de comida e de água, pelas ruas da Cidade, sobreviviam sem grandes dificuldades.

Depois veio a pandemia e quase que se deu ouvidos à sabedoria popular (sempre ela...), e quem "tinha medo", acabou mesmo por comprar um cão, nem que fosse para ter uma desculpa para andar na rua, nesses tempos de quase reclusão...

Alguns deles devem-se ter afeiçoado aos animais, outros habituaram-se a estes passeios, como momentos de evasão familiar, outros mais estranhos, perceberam que os cães nunca refilam com os donos, nem quando levam um ou outro pontapé...

A única coisa de que tenho a certeza, é que nunca vi tanto cão a passear na cidade, atrelado a seres humanos...

Também sei que antes da pandemia, havia mais humanidade pelas ruas. Claro que se há alguém que não tem nenhuma culpa disso, são os cães e os gatos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, outubro 27, 2024

O medo no uso das palavras...


Cada vez se fala mais em surdina nas ruas, especialmente quando se utilizam as "palavras proibidas", de uma lista cada vez mais longa, numa sociedade cheia de tiques repressivos e de falsos pudores.

Onde parece que tudo é possível, é nas redes sociais. Se excluirmos o "censor oficial", continua a valer tudo, até tirar olhos.

Continuo a pensar que, podemos e devemos falar de racismo, fascismo, xenofobismo ou machismo, em qualquer lado, porque eles estão presentes no nosso dia a dia. 

É tão negativo entrarmos em negação como generalizarmos o uso e a prática destas palavras. Só nos torna uma sociedade ainda mais fechada e desigual.

Não devemos ter medo de usar as palavras, todas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)