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terça-feira, junho 16, 2026

"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."


A frase que escolhi para título deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender uma bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, abril 05, 2026

A Páscoa, as tradições e a arte


A Páscoa e o Natal, apesar da "invenção" das amêndoas e do pai natal, continuam a ser marcos fortes do cristianismo.

Nota-se isso através das tradições religiosas que se mantêm, ano após ano, com a realização de inúmeras procissões em várias regiões do país, que recordam os últimos dias de Jesus de Nazaré, na sexta-feira Santa (de forma diversa), assim como as festividades do domingo de Páscoa, em que se aviva e festeja a ressureição de Cristo.

Também na arte, Jesus surge representado de inúmeras maneiras, seja na Última Ceia com os seus apóstolos, seja crucificado (cujas reproduções mais populares fizeram parte da decoração de muitos lares, durante o século vinte...).

Não fazia ideia de que Pablo Picasso também tinha pintado o seu "Cristo Crucificado", ainda no século dezanove (1897), com que ilustramos estas palavras.


quarta-feira, outubro 22, 2025

As escolhas que fazemos, com mais ou menos fé...


Enquanto ouvia a senhora que viajava no mesmo cacilheiro que eu, pensava que havia algo contraditório nas suas palavras, como se por ela ser crente, não pudesse lamentar a sua triste vida...

Não demorei muito tempo a sentir que estava errado, que uma coisa era a vidinha, outra era a fé. E mal de quem as confunde e não consegue reagir aos dramas que fazem parte do dia a dia de todos nós.

Embora continue a ser uma frase forte, "felizes daqueles que acreditam", não pode servir esconder a realidade ou fazer com que as pessoas aceitem de bom grado o seu "triste fado". E era isso que a senhora fazia. Estava longe de se ficar com o "seu destino"...

Quem não tem um Deus, ou vários Deuses, à partida é mais livre na forma como vive e aceita a vida. O que não quer dizer que não ande por aí mais perdido, que todos aqueles que são capazes de se agarrar a qualquer religião e sentir que têm ali alguém, que os pode valer nas horas difíceis.

Há demasiados coisas que acontecem à nossa volta, que escapam ao nosso entendimento. É também por isso que há quem procure respostas nos muitos templos que pululam por aí, que peça ajuda a um Deus maior, sempre que tropeça numa pedra...

E depois há os outros, que  acreditam no seu "livre arbítrio", que  gostam de sentir-se livres, até mesmo de deuses...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


sexta-feira, maio 16, 2025

A frase "felizes os que acreditam" e as habituais "faltas de comparência" de Deus...


A única pessoa com quem falo do tal Deus, que só quem tem fé, consegue abraçar e seguir, é o Chico (e claro, a minha Mãe...). Ele além de ser um excelente ser humano, é um homem de fé. Ainda bem para ele. Não duvido que é mais feliz que todos nós...

Normalmente não se fala destes temas nas mesas de café. Acho mesmo que ele é a única excepção no meu grupo de amigos, que aborda qualquer tema religioso, inclusive o espiritismo. Na nossa "Tertúlia do Bacalhau com Grão", quando ainda cá estavam os nossos queridos amigos Carlos Guilherme e Orlando, era um fartote de riso no nosso canto, e nem mesmo assim ele desistia, embora com humor nos chamasse "hereges" e dissesse, que quando fossemos "lá para cima", logo descobriríamos a verdade...

A tal verdade continua a ser um mistério. Mas o Chico por vezes diz que tanto o Orlando como o Carlos agora "já acreditam", já sabem como é o "mundo de lá". Raramente uso  do meu cepticismo para o contrariar, embora lhe recorde muitas vezes a realidade (cada vez mais cinzenta) e as "faltas de comparência" de Deus aqui e ali, para lhe fazer perceber que não é a "fé" que muda o mundo.  

Mesmo que não duvide da quase palavra de ordem religiosa: "felizes dos que acreditam"...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


segunda-feira, abril 21, 2025

Deixou-nos hoje o maior exemplo de humanismo, nestes tempos estranhos...


Nem de propósito...

Ligo a televisão e a primeira notícia que nos é dada, é do falecimento do Papa Francisco.

Há muito tempo que não tínhamos um Papa tão próximo das pessoas, tão cheio de humanismo. Simples nos gestos e nas palavras, nunca se escondeu atrás de nada, nunca teve medo de denunciar as grandes atrocidades do nosso tempo e de apelar à Paz, muito menos de enfrentar os "poderes ocultos" que sempre dominaram o Vaticano, abordando temáticas como a homossexualidade ou a participação da mulher na Igreja, sem o uso de subterfúgios.

A história diz-nos que nunca se sabe ao certo que nos irá trazer o "fumo branco"...

O ideal é que o Cardeal escolhido para substituir o Papa Francisco, partilhe o seu amor pelo próximo e tenha a coragem de dizer o que pensa, sem medo de qualquer poder, reforçando o seu legado pela Paz, pela Liberdade e pelo Amor.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, abril 20, 2025

O pouco peso da religiosidade nas nossas vidas...


Ano após ano, sente-se que o peso da religiosidade vai diminuindo nas nossas vidas.

O mais importante dos dias memoráveis já não é o seu simbolismo religioso e a história, mas a sua transformação em datas meramente festivas. Pouco interessa que o Natal festeje o nascimento de Jesus da Nazaré, e agora aa Páscoa, a sua ressureição, o importante é estas datas se terem transformado nas grandes referências do consumismo. Usa-se e abusa-se do poder económico e também da gastronomia.

Não deixa de ser curioso, que tanto o Pai Natal como os Coelhos e os Ovos, sejam hoje mais populares e festejados que Jesus...

Claro que é apenas mais um registo do nosso retrocesso civilizacional, da deturpação que se faz da própria história.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, abril 17, 2025

Deuses que nos vão abandonando, desiludidos, e um tanto ou quanto, "descrentes"...


Embora nos últimos anos nos tenhamos tornado uma "miscelânia humana", há um povo, os judeus, que parece permanecer cada vez mais anónimo. Isso acontece, por razões que todos conseguimos entender.

A tentativa do governo de Israel acabar com um povo e com uma nação que vive ao seu lado, envergonha qualquer ser humano, com um mínimo de dignidade e de respeito pelo próximo, mesmo que seja israelita.

A maioria permanece em silêncio. 

Tem sido assim nos últimos setenta anos. 

Escritores como Amos Oz são a excepção que confirma a regra. Se ele ainda estivesse entre nós, não esconderia a revolta e a vergonha por ter como líder político, um assassino.

É um silêncio ensurdecedor, que entre outras coisas, nos afasta cada vez mais do território dos deuses.

Deuses que nos vão abandonando, desiludidos, e um tanto ou quanto, "descrentes" ...

(Fotografia de Luís Eme - S. Martinho do Porto)


sexta-feira, dezembro 27, 2024

Clamar aos deuses apenas porque sim...


A igreja do líder do Chega e de outros instigadores de ódio que andam por aí, sem esquecer os muitos padres (que se guiam sobretudo pela frase célebre e cada vez mais seguida: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço") poderá ter por lá algum deus menor, mas Jesus de Nazaré, não terá com toda a certeza.

Por muitos padres nossos, avés marias ou credos que saibam dizer, alto ou baixinho, de certeza que não chegam ao tal mundo dos justos e dos iguais, que dizem ser o paraíso.

Provavelmente, isso pouco lhes importa. Querem é andar por cá de barriguinha e bolsos cheios, a satisfazer os seus caprichos. No fundo, talvez acreditem que quando fecharem os olhos acaba tudo, por muito que olhem para o céu e clamem aos deuses...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, dezembro 22, 2024

O Natal já foi outra coisa...


Nunca percebi como é que a igreja (se calhar devia escrever "igrejas"...) entrou neste "logro" que é o Natal do senhor das barbas brancas e das roupas vermelhas, que não deixa de ser uma boa história vinda da Lapónia, mesmo que esteja muito longe de se aproximar, quanto mais de suplantar, a que todos conhecemos sobre o nascimento de Jesus de Nazaré. 

Mas em termos práticos, suplantou. E há já uns anos valentes. 

Na minha infância ainda existia o Menino Jesus e o célebre sapatinho, que se colocava na chaminé. Não me recordo se já existia a "parceria" com o Pai Natal (talvez já fosse uma espécie de funcionário de Deus, ou de Jesus, também com superpoderes...), que com o seu carro e as suas renas chegava a todo lado. E embora fosse anafado, conseguia encolher o corpo e descer por todas as chaminés e deixar os presentes...

Estas histórias estão sempre repletas da palavra "talvez"... E insistindo nela, talvez o Papa e os seus conselheiros tenham achado graça à figura e achassem que podiam utilizá-la, para proveito próprio (mesmo que acabassem por perder o "fio à meada", a meio do caminho)...

Vejam lá, que até fiquei a pensar, que, talvez tenha sido também por causa do Pai Natal que o Salazar, proibiu a "coca-cola" no nosso país. Ele, como qualquer ditador que se prezasse,  era "muito religioso" e não embarcava muito em "americanices"...


domingo, dezembro 08, 2024

A Europa não é o Oriente...


Há uma questão da qual nunca se fala, quando nos referimos às diferenças sociais, atribuídas às crenças e credos religiosos.

Estava a ver duas mães rodeadas dos filhos, a pescarem, rente ao Tejo, ainda em Cacilhas, no começo do Ginjal, com o rosto tapado com as suas "burkas" e fiquei a pensar nas crianças que as rodeavam.

Por muito que os pais insistam em "viver numa ilha", eles com toda a certeza, andam na escola, até porque é decisivo que aprendam português, para serem cidadãos como nós, para conhecerem melhor este mundo diferente que os cerca.

Será que eles acham graça a este "baile de máscaras" protagonizado diariamente pelas suas mães (sei que ainda há uma pergunta a fazer antes desta, é se estas mulheres se sentem confortáveis, quando circulam de rosto escondido, nas nossas ruas...)?

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, novembro 17, 2024

"Vinde a mim, pobrezinhos do mundo..."


Os dias disto e daquilo, sobrepõem-se cada vez mais. Hoje era  dia mundial de pelo menos três coisas diferentes. Apenas vou falar de uma delas, por esta continuar a ser um dos nossos maiores flagelos sociais: a pobreza.

Depois dos tristes anos da "troika" (com o nosso Governo a ir ainda mais longe que essa gente...), o fosso entre ricos e pobres, em vez de diminuir, foi aumentando. Haverá várias explicações para isso acontecer, mas hoje nem me quero focar muito no "capitalismo selvagem" ou nas "más políticas sociais" de um partido, que de socialista só tem o nome, muito menos do seu sucedâneo, que nunca escondeu ao que vem.

Quero falar sim de toda uma indústria que tem florescido em volta dos "pobrezinhos" (sem meter no mesmo saco as associações de voluntários que tentam mesmo ajudar as pessoas...), que gosta de "coitadinhos" e se esforça para roubar a dignidade ao ser humano. 

Indústria que tem a seu lado uma igreja quase moribunda, que também sempre fez a sua "luta" em redor dos "pobrezinhos", e claro, as grandes famílias do poder, que sempre gostaram de distribuir esmolas. Com algumas "esposas do regime" a voltarem a ter a sua "corte de pobrezinhos" a quem dão "pão e agasalhos", e claro, a fazerem o respectivo sorteio, para terem um "pobrezinho" na mesa de Natal...

É por estas pequenas grandes coisas, que se percebe que crescemos muito pouco, como seres humanos. Tenho cada vez mais vergonha de viver numa sociedade que se alimenta e alimenta este "mundo dos coitadinhos", que prefere dar esmolas em vez do pagamento justo pelo trabalho.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, novembro 01, 2024

O Dia da Procissão de Cacilhas (sem procissão...)


Desci até Cacilhas com o objectivo de carregar o passe e acabei por me cruzar com os primeiros preparativos para a habitual procissão anual, que devia sair daí a minutos da Igreja da Localidade Ribeirinha.

A Fanfarra dos Bombeiros desfilava e animava a Rua Cândido dos Reis com a sua música. Já quase no seu final os vários vendedores de castanhas e de farturas, preparavam-se para satisfazer as gentes que daí a nada iriam encher a rua e o largo...

Foi quando caíram os primeiros pingos, sem que o Sol fugisse ou quisesse dar tréguas ao mau tempo. O costume era haver uma pausa do mau tempo, enquanto a procissão passava pelas ruas de Cacilhas.

Mas cada vez percebemos menos o tempo (a tragédia do Sul de Espanha, é um bom exemplo...). E, apesar de todos os preparativos, a procissão não saiu mesmo à rua... 

Até tivemos direito a uns trovões e tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas - ainda com Sol...)


sábado, agosto 17, 2024

Os Homens, os Deuses e as Religiões...


Tinha ido falar com aquele Padre, por razões que passavam ligeiramente ao lado da religião. Era a história que me interessava, saber mais coisas sobre um acontecimento, ao mesmo tempo que aproveitava para conhecer melhor duas ou três pessoas. 

Claro que não me pude afastar do caminho de Deus, até porque se diz que ele está em toda a parte (é nesta parte que quase todos pensamos que anda distraído, basta olharmos para o que acontece em Gaza...).

Foi uma conversa muito útil, e não só em termos históricos. No campo religioso, não estava à espera de tanta abertura e lucidez.

Foi ele que disse que andamos errados há quase dois mil anos, de parte a parte. Tanto de quem diz ter "procuração de Deus" como de quem "frequenta os templos". Eu estava ali, como se não pertencesse a nenhum desses dois mundos. Era um "perdido"... Mas percebi a mensagem.

Quando vinha a caminho de casa (não apanho logo transportes públicos, faço sempre alguns quilómetros a pé, onde tenho espaço e tempo para reflectir sobre as coisas...), vi tudo com mais clareza. 

Não sei se haverá um tempo em que as religiões deixem de funcionar como "capas" ou "toldos" de protecção (estas foram duas das palavras, simples, usadas pelo "homem de Deus"...), que usamos sobretudo para ficarmos mais resguardados e protegidos, e não para nos tornarmos melhores pessoas.

Voltei a sorrir, tal como tinha feito na parte final da nossa conversa, quando ele disse que não há nenhuma religião que nos ensine a fazer o mal ao próximo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, junho 16, 2024

O mundo com "coitadinhos" e com a "gente que só tem direitos"...


Nunca percebi muito bem a quem é que interessa um estado exageradamente assistencialista, como é cada vez mais o nosso. O problema é que à medida que vou procurando respostas, vou descobrindo interesses onde não esperava. Mas a vida é isso...

Sei que quanto mais nos viramos para a direita (a mais clássica, não a liberal...), mais se faz sentir a filosofia de um mundo com "coitadinhos", como se o mundo fosse mais bonito com pobrezinhos e estropiados. Também sei que os socialistas contribuíram para "este estado de coisas", ao evitarem resolver alguns problemas sociais que careciam de alguma urgência, roubando a dignidade a cada vez mais pessoas...

E também se mantém a ligação ao catolicismo mais conservador, que gosta que exista a "esmola", quase como instituição, alimentando a fábula de que os ricos à medida que vão distribuindo umas moeditas aos pobres, "compram" o seu espaço no céu...

Normalmente quem recebe rendimentos mínimos e afins, são as franjas que cresceram (e habitam...) em meios mais pobres, muitos, mesmo jovens, nunca chegaram a terminar o secundário. O mais curioso é a sua filosofia de vida: fazer o mínimo possível e sacar o mais possível ao estado, à igreja ou seja a quem for (fazem da pedincha um modo de vida e são capazes de ir buscas alimentos ao máximo de instituições que puderem, muitas vezes para os venderem, obrigando a que sejam criados sistemas burocráticos, que não permitam estes abusos completamente egoístas). Ou seja, fazem da "esperteza" um modo de vida (só que nós não somos todos estúpidos, como eles pensam...).

E por muito que queiramos proteger ou ajudar esta gente, rapidamente percebemos que não pertencemos a este mundo, onde as pessoas, por serem "pobrezinhas" (às vezes até parece que gostam deste estatuto...), pensam que só têm direitos e nada de deveres...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, abril 09, 2024

Abril lembra-nos que a Liberdade é outra coisa...


Ontem visitei um amigo, que quase que não sai de casa, que é das pessoas mais honestas e autênticas que conheço. Tem um defeito e uma qualidade (depende sempre do ponto de vista...), que é ser comunista.

Mas antes de ser comunista, é um Amigo, e dos melhores...

Apesar da sua "ortodoxia" (é daqueles que será Comunista até ao fim dos seus dias), nunca achou piada às "cassetes" e ao quase "coro das velhas", ditados pelo Partido, como se todos fossem obrigados a dizer e a pensar as mesmas coisas.

Uma das melhores provas de amizade que me deu foi a minha defesa que fez numa reunião partidária (nunca falámos sobre isso, foi uma terceira pessoa que me contou o que aconteceu...), quando numa homenagem pública a um grande almadense (o professor Alberto de Araújo), as pessoas que estavam na mesa, quiseram trasnformá-la um comício político do PCP. E no final, levantaram-se todas e ergueram o punho fechado e começaram a gritar: "PCP, PCP, PCP" (a excepção fui eu e uma jovem jornalista que estava a meu lado, ficámos ambos sentados, em silêncio, a olhar um para o outro...).

Nem se pode falar de um acto de coragem (embora nunca fosse uma "maria vai com as outras"). Fui de tal forma surpreendido por aquela reacção colectiva, que me senti a mais naquele filme... e fiquei sentado. E ainda bem que o fiz (algumas pessoas podem ter começado a olhar-me de lado na rua, mas sai dali sem qualquer problema de consciência).

Como devem calcular, houve até quem quase me chamasse "fascista" nessa reunião. Foi por me conhecer bem, que este Amigo fez a minha defesa. O seu argumento mais contundente foi: "Se ele não pertence ao Partido, por que razão é que se deveria ter levantado?" E conseguiu silenciar alguns dos meus "inimigos de estimação"...

Mas onde eu queria chegar, é ao ponto que mais me afasta do PCP. Curiosamente, é o mesmo que me afasta da Igreja Católica: o seu tom de superioridade em relação ao resto da sociedade, agirem como se eles fosse os "bons" e os outros fossem "os maus" (em quase tudo...). 

Quem ama a Liberdade e conhece o Mundo, sabe que isso não existe, sabe que há gente boa e má por todo o lado, e ainda bem.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, março 26, 2024

O bem e o mal (dentro e fora dos filmes), com e sem triunfos...


Se a vida cada vez é mais estranha, não se deve esperar que os filmes ou as peças de teatro, sejam muito diferentes. Mas nem é sobre isso que vou escrever.

Estou a deitar jornais fora e fixo a frase do realizador Victor Erice: «Reivindico o cinema da minha infância, que acabava com o triunfo do bem e do castigo do mal.» 

Fico a pensar na realidade e sinto que nunca foi bem assim. O mundo foi quase sempre dominado pelo "mal", mesmo que este se gostasse de disfarçar de "bom rapaz", durante séculos.

Quando leio a separação das coisas, entre o bem e o mal, a primeira coisa em que penso é nas religiões. Não consigo fugir dos homens das "igrejas", que faziam exactamente o contrário do que pregavam, sem se darem ao trabalho de dizerem para "olharmos" para o que eles diziam e não para o que faziam... 

Mesmo sem entrar nas suas práticas mais pecaminosas e reprováveis, ficando-me apenas pela sua postura em relação aos poderes (especialmente o político), que abraçavam com deleite, por defenderem ambos a sua opulência, a ignorância do povo e a existência de um "mundo com milagres", fico sempre de "pé atrás". 

Desconfio sempre de coisas que falam do triunfo do bem e do castigo do mal, especialmente das da minha infância...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, novembro 03, 2023

Os interesses económicos e políticos e a falta de respeito pelas questões culturais e religiosas...


A única explicação que encontro para  a existência de posições tão contraditórias - dos políticos dos principais países da Europa e do  Mundo -, são os habituais interesses económicos e políticos, que costumam passar por cima de tudo, inclusive da história, da religião e da cultura das nações.

Só assim é que se compreende que países democráticos sejam capazes de fingir que algumas ditaduras são democracias e que os direitos humanos não são iguais para todos, nos cinco continentes.

Claro que a discriminação das minorias do Oriente está, e sempre esteve bem presente no Ocidente, independentemente das alianças que se foram fazendo ao longo dos tempos. 

Isso acontece porque, de parte a parte, nunca se respeitaram as tradições, os costumes, os credos e até a própria história das nações e dos seus povos. Nunca se criaram condições para que fosse possível viver em comum, respeitando as diferenças, tanto no Ocidente como no Oriente.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, setembro 05, 2023

A gargalhada rara do "rei dos azares"...


Não lhe sei explicar o porquê, nem tenho vontade. Acho que ninguém sabe.

Mas ele insiste em ser o "rei dos azares". Tudo de mal que está a acontecer no mundo (em dimensões reduzidas, claro), espera-o à porta.

Quanto menos dinheiro tem, mais complicações lhe aparecem na vida. Entre outras coisas, diz que quando o carro "morrer" não volta a ter outro. Em relação à casa e aos problemas domésticos que todos enfrentamos, já o ouvi um dia falar da "sorte" dos sem abrigo, que não pagam renda, água, luz, muito menos arranjos aos "vigaristas" dos canalizadores ou electricistas.

Não lhe disse, por saber que não ia mudar nada. Mas sei que se ele tivesse uma perspectiva mais optimista em relação à vida,  alguns problemas eram capazes de se deixar de colar à sua pele.

O único conselho que lhe dei, foi que devia mudar-se para uma aldeia, daquelas que ainda têm um prior, capaz de curar todos os males do mundo. De certeza que ele benzia-o, assim como ao carro e à casa. O único senão era ter de rezar algumas centenas de vezes a "Avé-maria" e o "Padre-nosso". 

Estranhamente soltou uma gargalhada das grandes, coisa rara nele. E depois mandou-me ir "encher de pulgas".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 04, 2023

Os "seres cantantes" e os "velhos de cacilhas"...


Passam por nós seres cantantes, um ou outro embrulhado em bandeiras que identificam as suas origens, que alegra estes dias quentes, repletos de santidade.

Não me embalo nem me incomodo com estas cantorias e alegria alheia.

A "velha do restelo" que me acompanha diz, «que pena na segunda-feira voltar a ser tudo como era...» 

Há mais ironia que vontade de parar este tempo que, entre outras coisas, deu férias aos ministros e secretários de estado que adoram enfiar os pés nos buracos das estradas...

Eu sei que ela tem razão mas mantenho-me em silêncio, a olhar esta multidão quase jovem, que junta a calma e a alegria ao ruído, sem fazer tremer as calçadas.

Antes de subirmos à cidade, assistimos ao embarque  lento de uma multidão de gente de todas as cores e raças no cacilheiro.

Penso que agora sim, imitamos os "velhos do restelo", mesmo que sejamos apenas "velhos de Cacilhas", cativos no cais, à espera dos dias normais de Agosto nas cidades. 

Ao contrário das calçadas, o cacilheiro, sim, deve abanar com tanta gente e tanta canção por metro quadrado...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, agosto 01, 2023

Cristão, sim, Católico, não...


Hoje cruzei-me com dezenas de peregrinos pelas ruas de Almada. Não foi muito difícil de perceber que não pertenço aquele mundo.

Enquanto regressava a casa fui visualizando a minha caminhada lenta de afastamento da religião católica, desde a adolescência. Senti desde cedo que não fazia qualquer sentido pertencer a uma religião que por muito que falasse dos "pobrezinhos", preferia a companhia dos ricos e poderosos.

Mas não deixa de ser curioso, que o episódio que ditou o meu "divórcio", tenha tido a intervenção directa de um padre... 

Mais por tradição (e alguma pressão dos avós...) que por outra coisa, os meus dois filhos foram baptizados. Na preparação do baptismo do meu filho mais velho, o padre fez uma coisa ligeiramente rasteira, disse que só baptizava o meu filho se eu e a minha esposa casássemos pela Igreja. Eu não me fiquei e respondi-lhe à letra, dizendo que era eu e a minha esposa que decidíamos se devíamos ou não casar pela igreja, não era ele. E acrescentei que se não quisesse baptizar o meu filho, havia mais igrejas e mais padres no Concelho.  

Esta conversa foi "remédio santo". O padre não voltou a falar em "casamento" e o baptizado realizou-se sem qualquer incidente na Igreja de Cacilhas. Mas eu percebi, de uma forma que considero definitiva, que não tinha nada a ver com aquele credo.

Poderá parecer estranho, mas continuo a sentir-me Cristão. Continuo a olhar para Jesus Cristo como o maior exemplo de humanismo no nosso Planeta. Ao contrário da Religião Católica, Ele, na sua curta passagem terrestre, esteve sempre ao lado dos mais pobres, dos mais fracos e desprotegidos...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)