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quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 08, 2026

Um café com palavras e telenovelas...


As pessoas que se cruzam comigo e são capazes de dizer mais que bom dia ou boa tarde numa esplanada qualquer, são quase sempre actrizes. Não é nada de muito estranho, se há coisa que a vida ensina as meninas desde cedo é a serem actrizes, em serem "outra pessoa"...

Não fiz muitas perguntas (acho que já nem sei fazer entrevistas...), como de costume. Prefiro que as pessoas digam o que quiserem, desde que se sintam bem na pele que vestem.

Pensei que fazia parte do grupo de teatro amador do bairro, mas não, entrava em telenovelas e tudo. Talvez fosse verdade, mas ver estas "tragédias" portuguesas estava longe de ser o meu passatempo preferido. Ainda por cima ela trabalhava para o canal que menos contribuímos para a "guerra" das audiências, lá por casa.

Foi capaz de dizer que nunca fizera nenhum papel principal, talvez para dar mais autenticidade à sua história. 

Expliquei-lhe que conhecia pouca gente do meio, tirando um ou outro figurante que entravam em algumas cenas, que  passavam por lá, sem que se lhe conhecesse a voz. 

Ela sorriu e disse-me que também começara assim... 

Foi quase uma deixa para eu pagar os dois cafés e fazer-me à vidinha, no palco onde cabemos todos, sem termos direito a aplausos ou patadas.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 07, 2026

O parque que é campo e arte no centro da cidade...


O Parque D. Carlos das Caldas é um lugar já secular, de beleza única, pelo seu ordenamento que nos parece natural, ao qual nem falta um lago, onde é possível passear de barco e fazer a estreia a remar, quase a sério (não é a brincar como fizeram os noruegueses no Mundial de futebol...), durante 30 ou 60 minutos.

Foi o que aconteceu comigo. Foi naquelas águas demasiado verdes que remei pela primeira vez, no começo da adolescência, quando fazíamos "batalhas navais" com amigos que se disfarçavam de inimigos por meia-hora...

E depois existe a parte artística, com estátuas espalhadas por quase todo o Parque, que aumentam quando nos aproximamos do Museu José Malhoa, quase a piscarem-nos o olho e a fazerem-nos um convite para entrarmos naquele espaço, que aposta sobretudo na pintura naturalista de Malhoa e amigos, embora também possua muitas esculturas, e até uma original "Via Sacra", criada por Rafael Bordalo Pinheiro, com figuras de barro pintadas, em tamanho real.

Não tenho qualquer dúvida de que é um dos lugares mais agradáveis das Caldas, com árvores, relva, sombras e muitos bancos de jardim... sobretudo num Verão farto como o que estamos a viver.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, maio 26, 2026

Algumas palavras para Miles Davis


Estive indeciso se devia escrever algo sobre o genial Miles Davis, que tornou o jazz ainda mais criativo e expontâneo, com o seu trompete, tal como Charlie Parker, John Coltrane ou Sonny Rollins (que nos deixou por estes dias), entre outras dezenas músicos, que deram outra cor musical ao  século XX.

É graças a eles que o Free Jazz se tornou verdadeiramente revolucionário e  nunca mais deixou de inspirar músicos de todas as cores e credos, por este mundo fora.

Não podemos nem devemos desligar este gosto pela liberdade à sua cor de pele, onde quebraram muitas barreiras, fazendo perceber que o seu génio e a sua liberdade artística não tinham cor, ao mesmo tempo que tentavam dar passos em direcção à sociedade onde viviam, demasiado clara e desigual...

Escolhi esta conhecida fotografia de Irving Penn, pela sua força e pelo seu simbolismo, no dia em que Miles faz cem anos. 


sexta-feira, maio 22, 2026

Bom dia ingratidão...


Há mais de um ano que não encontrava um amigo.

Sabia que a maior parte do tempo iria falar dos seus problemas de saúde, das suas viagens aos hospitais, da recuperação e menos de livros ou de desenhos.

Claro que arranja-se sempre uns minutos para falarmos de arte (da sua e da dos outros) e também de exposições e de associações...

Foi graças ao último iten, que fiquei a saber da tentativa de "golpe de estado", que fizeram na sua colectividade, por quererem substituir a mulher, que tanto dera de si nos últimos anos aos outros (que preferem sempre a primeira fila dos bitaites à mesa de trabalho, onde é preciso arregaçar as mangas).

Ela não precisou de golpe de estado nenhum. De certa forma, estava à espera de um pretexto para se desligar daquele tempo em que tinha de ser uma "faz tudo".

Olhei para trás no tempo e vi-me no mesmo filme... Onde também não precisei de ser empurrado, sai pelos próprios pés da colectividade, que já começava a ser odiada pela minha mulher e pelos meus filhos...

Não só percebi o que ela sentiu, como sei que não existe volta a dar, neste e noutros filmes idênticos (a não ser que estejamos "colados aos lugares", o que nunca foi o caso...). 

A ingratidão vem sempre ao de cima. A memória das pessoas é sempre mais selectiva, do que deveria...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, maio 08, 2026

Uma semana com exposições...


Esta semana visitei três exposições (uma delas era três...), diferentes. Uma de fotografia, uma de pintura e outra documental, na Capital.

Apetece-me falar das fotografias de Gérard Castello Lopes ("Fotografias 1956-2005"), Georges Dussaud ("De Lisboa para Ti") e Rita Barros ("Hyperosmia"), cada uma com o seu espaço e a sua narrativa, que estão nas paredes do Arquivo Municipal à espera de visitantes.

Claro que me identifico mais com o Gérard e com o Georges que com a Rita, o objecto da sua arte. Faz-me confusão nós sermos o centro da nossa forma de nos expressarmos artísticamente, como acontece com a Rita, que se especializou nos "auto-retratos", tal como Jorge Molder e antes Helena Almeida. Poderá ser falta de sensibilidade minha para a coisa...

Quando sai do Arquivo (Rua da Palma) vinha agradado com o que vira. Ainda antes de chegar ao Martim Moniz pensei que se havia duas pessoas ligadas a fotografia, que gostaria de ter conhecido, eram Gérard Castello Lopes e Augusto Cabrita, por razões diferentes. 

Sei que aprendia algumas coisas com eles (já aprendo bastante só quando olho as suas fotografias...), porque me identifico com o seu trabalho e também por gostar de comparar tempos...

Fala-se muito de censura, da escrita durante as ditaduras salazarista e marcelista, mas fala-se pouco da imagem, de como ela era recebida, tanto pelas pessoas (especialmente nas ruas), como pelos poderes, nesses tempos com poucas cores...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 24, 2026

sábado, abril 18, 2026

Abril com Arte e Liberdade nas paredes de Almada


Tinha lido que iriam ser colados cartazes feitos por alunos num dos muros exteriores da Casa da Cerca, em Abril, mas só quando me dirigia para a inauguração da exposição de pintura, "Os Amigos" (na sede da SCALA) é que reparei numa quase multidão que enchia a rua, na tarde de hoje.


Depois de ver a exposição passei por lá e percebi que se estava a montar a tal outra exposição de Abril, cheia de cartazes com palavras, rostos, memórias, história, arte e liberdade, a céu aberto.

E sim Abril é tudo aquilo... 

E que nunca tenhamos medo de festejar a Liberdade, a Democracia, a Igualdade, a Fraternidade, em Almada, nas Caldas da Rainha ou em Albufeira...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, abril 05, 2026

A Páscoa, as tradições e a arte


A Páscoa e o Natal, apesar da "invenção" das amêndoas e do pai natal, continuam a ser marcos fortes do cristianismo.

Nota-se isso através das tradições religiosas que se mantêm, ano após ano, com a realização de inúmeras procissões em várias regiões do país, que recordam os últimos dias de Jesus de Nazaré, na sexta-feira Santa (de forma diversa), assim como as festividades do domingo de Páscoa, em que se aviva e festeja a ressureição de Cristo.

Também na arte, Jesus surge representado de inúmeras maneiras, seja na Última Ceia com os seus apóstolos, seja crucificado (cujas reproduções mais populares fizeram parte da decoração de muitos lares, durante o século vinte...).

Não fazia ideia de que Pablo Picasso também tinha pintado o seu "Cristo Crucificado", ainda no século dezanove (1897), com que ilustramos estas palavras.


sexta-feira, março 27, 2026

O teatro é feito com e sobre pessoas...


Hoje é Dia Mundial de Teatro.

Quando penso em teatro, penso em pessoas.

De certa forma fui um felizardo, porque como jornalista pude conhecer e conversar com algumas das nossas grandes figuras dos palcos.

O mais curioso, é que a primeira entrevista que fiz para o meu "Contraponto" nas páginas do Record de domingo, foi com o grande Rui de Carvalho, que acabou de completar a bonita idade de 99 anos. Ainda me recordo da forma cordial como ele me recebeu,  no seu camarim, do Teatro D. Maria II, todo suado, depois de representar o velho "Minetti" de Thomas Bernhard...

Outra excelente memória que tenho é de Mário Viegas, que era mesmo uma personagem, um gigante nos palcos. Houve também tempo para conversar com Luís Miguel Cintra, Raul Solnado, Diogo Infante, João Perry, Filipe Lá Féria, Eugénio Salvador, João Lourenço, José Viana, Nicolau Breyner, João Mota, Joaquim Benite, António Anjos... E claro, com as excelentes Maria do Céu Guerra, Irene Cruz, Beatriz Costa, Rita Ribeiro, Alexandre Lencastre, Eunice Muñoz e Marina Mota.

Nessa altura o mundo e as pessoas eram mais simples...

E, VIVA O TEATRO!

(Fotografia de Luis Eme - a minha homenagem ao Cénico da Incrível Almadense, o único grupo que encenou e representou uma peça da minha autoria...)



segunda-feira, dezembro 01, 2025

«Somos tantos...»


Ela não estava na fila para as escolhas de mais um desses concursos televisivos, em que se percebe que  existe tanta gente que sabe cantar e devia fazer corar de vergonha esses fulanos (as) que em sociedade com as televisões e com os programadores, enchem os fins de semana de música parola. Mas podia estar...

Deu-me vontade rir, ouvi-la dizer, "somos tantos...»

Até porque não estava ninguém à nossa volta.

Embora eu estivesse farto de saber que o mundo não começava e acabava ali, que as multidões estão sempre ao virar da esquina...

Só não percebi se ela estava a querer desistir, antes de conseguir ser qualquer coisa, ou se queria ir à luta e estava ali, a querer ganhar balanço.

Depois disse-me que estava com receio. Questionei-a sem palavras, apenas com o olhar.

E ela levantou-se do chão, mostrou-me um sorriso enigmático, para me contar o seu dilema: «Às tantas começamos a querer muito ser isto e aquilo, perdemos o medo e começamos a andar em frente, sem receio de pisar os outros que já estão à espera de vez, sentados ou deitados...»

Podia dizer-lhe, "bem vinda à selva urbana", mas não ia adiantar muito. Até porque ela já encontrara pelo caminho várias espécies de "animais", capazes de se "transvestir" de leões, zebras, ursos, gazelas, macacos ou serpentes...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, novembro 26, 2025

"Olhar Portugal a partir das colecções do MNAA"


Gostei de saber que o Museu Abade de Baçal, em Bragança, reabriu - após obras de requalificação - com a exposição "Olhar Portugal a partir das colecções do MNAA", com obras do Museu Nacional de Arte Antiga e também do museu bragantino.

Acho muito boa ideia a descentralização de obras de arte, que muitas vezes estão em depósito e que agora vão viajar pelo país fora, para que Portugal, com o projecto "O MNAA está aqui", se habitue à arte.

É bom para as localidades que vão beneficiar desta iniciativa e também para o MNAA, que embora feche as suas instalações para obras, promete continuar activo, de Norte a Sul.

Estive na Primavera em Bragança e agora ao saber da exposição "Olhar Portugal a partir das colecções do MNAA", apeteceu-me voltar, só para visitar o museu...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 22, 2025

Quando a fotografia quer ser outra coisa...


A meio da tarde visitei a exposição de fotografia de um amigo e à medida que olhava as suas imagens, ia percebendo, com mais nitidez, que ele já está numa outra "galáxia".

A sua fotografia deixou de ser o mero retrato, caminha cada vez mais para um campo que se alimenta da diferença, da procura do que "ainda não existe", e onde a marca pessoal começa a ser o principal motivo de inspiração.

Quando vinha para casa, pensei que esta "mutação" acontece quando nos dedicamos em demasia a uma arte, quando ela começa a tomar conta de nós. Ou seja, quando o que fazemos não deixa dúvidas a quem vê, de que é aquilo o que faz correr os artistas. 

Sim, não é preciso ser-se crítico de arte para perceber que as fotografias do Modesto Viegas já são outra coisa, ao nosso olhar. Não são pinturas, mas parece que existe aqui e ali, uma "pincelada", que além de alterar as formas, lhes dá uma tonalidade especial.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, setembro 14, 2025

«Não. O futebol não é uma arte. É apenas um jogo, que por vezes é jogado por um ou outro artista.»


Por ter feito jornalismo desportivo e por nunca ter sido um adepto ferrenho (tanto do Caldas como do Benfica...), normalmente, discuto futebol sem grandes estados de alma.

Foi por isso que não me manifestei muito no começo da discussão sobre se esta modalidade era um arte ou um simples jogo. Só depois de uma acesa troca de palavras entre os meus amigos Jorge e Gonçalo, é que resolvi "desempatar"...

Claro que lhe faltam vários parâmetros para entrar no mundo das artes. O principal talvez seja o facto de ter um número muito reduzido de artistas, a maior parte dos jogadores limitam-se a ser bons profissionais, cumprindo a sua missão sem terem a preocupação de "fazer arte". 

Foi por isso que disse: «Não. O futebol não é uma arte. É apenas um jogo, que por vezes é jogado por um ou outro artista.»

Depois falámos dos ordenados obscenos que se pagam aos futebolístas, tal como da desculpa, quase esfarrapada, de que é um negócio que movimenta milhões. De facto o futebol movimenta muito dinheiro, só que este está longe de ser bem distribuído. A maior parte dos clubes têm de inventar mais do que deviam, entrando inclusive em alguns negócios no mínimo pouco claros, para conseguirem equilibrar as contas. E mesmo assim, os  passivos são quase sempre superiores aos activos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, setembro 13, 2025

As artes e as letras como "ganha-pão" (ou não)


Eu sei que, de certa maneira, sou um purista (para outros costumo ser coisas piores...), por não conseguir olhar para o mundo das artes e letras como uma profissão igual às outras.

Claro que sei que quem escreve, quem pinta, quem canta, quem faz teatro, tem de viver como as outras pessoas, ou seja, tem de ganhar dinheiro com as suas actividades criativas. E também sei que se quiser ser alguém, acima da média, não pode continuar a ser artista apenas ao final do dia ou aos fins de semana.

O curioso é que estas discussões normalmente não nos levam apenas a um lado, são demasiado complexas para se ter um olhar simples. Não deixou de ser curiosa a expressão do Jorge, de que apenas alguma boa fotografia e algum bom cinema, são a preto e branco. E mesmo esses nunca dispensam os cinzentos...

Todos conhecemos pessoas que pintavam apenas para vender. E quando o mercado encolheu, muitos arrumaram os pincéis e as tintas  e começaram a fazer outras coisas, que lhe pudessem ajudar a pagar a renda. O Gonçalo atreveu-se a dizer que os pintores eram pessoas diferentes, para levar logo de seguida com o exemplo do Manuel Ribeiro Pavia, que morreu à mingua. E logo ele que se fartou de trabalhar, de fazer capas de livros e ilustrações para escritores, uns amigos outros apenas conhecidos, sem ter tabela de preços. Como a maioria só se lembrava do Manel Pavia quando precisava, ele foi embora quase sem que se desse por isso...

E depois houve alguém que trouxe o futebol para a mesa. E lá se começou mais uma discussão daquelas, porque para uns este desporto era uma arte e para outros apenas um jogo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, julho 11, 2025

O Zé Povinho, as Caldas e o Grande Rafael


Não é habitual falar de duas exposições em dois dias, mas como passei pelas Caldas da Rainha, aproveitei para ver a mostra artística e histórica que está patente ao público no CCC, "Zé Povinho, uma História com 150 Anos", com curadoria de Jorge Silva.

Gostei muito do que vi. Já sabia que o Zé Povinho era a figura mais caricaturada no nosso país, ao longo do tempo, mas não imaginava que até tinha sido capa de revistas como a "Gaiola Aberta" ou o "Riso Mundial".

Tudo isto graças ao grande Rafael Bordalo Pinheiro, que, além de ser o pai de muitas coisas no nosso país, inclusive da Banda Desenhada, escolheu as Caldas para começar a trabalhar na indústria da cerâmica. O Artista acabou por oferecer um novo cunho artístico às faianças da ainda Vila, ao mesmo tempo que dava uma nova vida ao Zé, oferecendo-lhe a tridimensionalidade que não possuía.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, julho 10, 2025

"Munngano (1975-2025)" na Sociedade Nacional de Belas Artes


Marcámos encontro na Sociedade Nacional de Belas Artes, para ver a exposição "Munngano (1975-2025), 50 anos de história, arte e cultura de Moçambique Independente".

Não foi só uma bela surpresa (tanta coisa bonita...), descobrir tantos artistas moçambicanos de grande talento, foi bom olhar e conversar sobre muitas das pinturas, desenhos e esculturas em exposição.


E claro, ir ainda mais longe, falar ligeiramente das polémicas sobre o colonialismo e a arte africana (não tivemos dúvidas que todos os trabalhos artísticos feitos por moçambicanos, com um matriz cultural local, deverão regressar ao país de origem, desde que este tenha condições para a acolher em museus).

Como normalmente visito exposições a solo, já não me lembrava do bom que é ter companhia para conversar, criticar e sorrir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, julho 06, 2025

Os comboios que só passam uma vez na nossa estação...


Conheço a Sandra há quase trinta anos. Falamos menos do que devíamos, em parte porque a minha companheira nunca lhe achou muita piada. E a maior parte das vezes que nos encontramos no café, que partilhamos ao fim de semana, estou acompanhado.

Às vezes somos surpreendidos pelo meio da semana que nos marca lugar na esplanada do nosso café e colocamos a conversa em dia.

Foi o que aconteceu na última vez que nos encontrámos. Estávamos os dois sozinhos e para não sermos egoístas, ocupámos a mesma mesa. Foi bom, falámos de tudo e mais alguma coisa, menos dos papeis secundários que ela passa a vida a fazer, tanto no teatro como nas telenovelas. Não é por falta de talento ou de graça, é porque "nunca calhou" e porque "agora começa a ser tarde".  Sim, a Sandra já está a aproximar-se dos cinquenta, uma idade terrível para as actrizes...

Às vezes penso na quantidade de gente com talento que conheço, que não conseguiu chegar à parte do céu onde poisam as estrelas. Como o Gui diz, muitas vezes, há comboios que só passam uma única vez na nossa estação...

Mas não é apenas isso...

Por uma questão de educação, personalidade, e sobretudo dignidade, não conseguimos "fazer tudo", muito menos irmos na conversa das pessoas que estão quase a "cobrar bilhetes", à entrada da "carruagem dos nossos sonhos". 

E o tal lugar estrelar, vai ficando, cada vez mais longe para a Sandra, como ficou para a Luísa ou para o João e para tantas outras pessoas, que passam o tempo a "lamber as feridas"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, julho 05, 2025

As "duas vidas" do cinema português, uma para o povo e outra para intelectuais...


Desde que me interesso por cinema, que assisto a discussões intermináveis sobre as fitas portuguesas e os nossos realizadores.

O Mestre Manoel de Oliveira foi sempre uma das figuras mais contestadas, até pelos seus pares, porque a inveja sempre foi, e será, aquela coisa pequenina e quase "terrorista". Embora lhe reconheça alguma lentidão e fixação exagerada nos planos (o que para os seus admiradores mais pacientes é poesia...), ele sempre teve uma ideia  do que é cinema. Ou seja, o seu passado e presente, mereceram todo o apoio que teve, e não apenas para que Oliveira ficasse no "guiness" como o realizador com mais idade e experiência da Sétima Arte. Quem tem um mínimo de conhecimento do que é Arte, sabe que o Mestre Manoel foi um dos nossos melhores artistas.

O que normalmente se discute é o "cinema de autor" e o "filme comercial", como se estes fossem inimigos e não pudessem conviver uns com os outros. E como em tudo na vida, as posições de quem faz estes filmes, em vez de se irem aproximando, vão ficando cada vez mais distantes. O ideal era que não se fizesse cinema apenas para o nosso imaginário (umbigo talvez ficasse melhor...), nem se explorasse tanto o que existe de mais popularucho (a graçola manhosa a querer imitar os senhores Santana e Silva, mas muito longe da sua qualidade...). Ou seja, que se pensasse a sério nos espectadores. Mas o mundo é o que é...

Estou a escrever sobre cinema, porque há dois filmes portugueses em exibição que têm sido olhados de forma diferente pelos críticos. Falo de Portugueses de Vicente do Ó e de A Vida Luminosa de João Rosas. Se o primeiro tem sido "deitado abaixo", o segundo tem sido apreciado pela maioria das pessoas que escrevem nos jornais sobre cinema.

Embora compreenda a "defesa" do filme feita por Vicente (também nos jornais), não acho que ele ganhe alguma coisa em se preocupar mais com terceiros que em explicar as coisas menos compreensíveis do seu filme. 

E pelo que tenho lido, se há fita que seja capaz de me levar de regresso às salas, será A Vida Luminosa do João, porque se aproxima mais do que gosto de ver e sentir no cinema.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, junho 12, 2025

«No nosso país é difícil ser tudo...»


A jovem que continuava a sonhar com uma carreira de sucesso como actriz, lamentava-se, «é tão difícil ser artista no nosso país...»

O Gil aproveitou a quase deixa para usar uma lente de aumentar e dizer, «no nosso país é difícil ser tudo...»

O Carlos, atento como sempre, não perdeu a oportunidade de dizer  que no nosso país «a vida só é boa para os filhos de pais ricos ou de políticos sem vergonha.»

Acabámos por ficar todos a sorrir, como se ele tivesse dito uma graça e não uma verdade...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)