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El Topo


Em breve nós vamos "lançar" a HQ Europeia, "Os Filhos d'El Topo", a continuação direta do filme cult de 1970 que Jodorowsky escreveu, atuou e dirigiu. Então pra quem ainda não viu o filme, trazemos uma das várias análises que se encontram na web para entender um pouco desse universo, porem contendo vários spoilers. Mas quem preferir, tem uma versão online diretamente do YouTube em uma ótima qualidade!


Análise:

Faroeste lisérgico, psicodélico, surrealista! “El Topo” um filme de 1970, é à primeira vista um Western, mas muito diferente de qualquer outro Western até aí filmado. Produto da imaginação do autor vanguardista chileno (durante antes radicado em França) Alejandro Jodorowsky, que antes já filmara o também surrealista “Fando y Lis” em 1968, “El Topo” é uma história mística de busca da luz e conhecimento, e das consequências que isso tem sobre um homem. O mote é desde logo dado na apresentação da toupeira, animal que escava para procurar a luz, e com ela fica cega. De certo modo é isso que a história representa.

O filme segue a vida de um homem, chamado El Topo (o próprio Alejandro Jodorowsky), que se inicia como um justiceiro, mas através de uma série de episódios, muitas vezes simbólicos, vai encetar uma viagem de purificação e ascensão, que acabará com o seu próprio sacrifício, após se ter disposto a salvar um conjunto de pessoas.

Subdividido em capítulos de carácter bíblico, “El Topo” mostra uma forte influência religiosa, com temas judaico-cristãos e orientais, na base da sua filosofia. Esta (que tem a ver com as influências do próprio Jodorowsky) passa por um certo messianismo (El Topo surge como salvador no deserto, compara-se a Moisés, e faz milagres de encontrar comida e água), e continua no ascetismo com que ele renasce no interior da caverna (a cabeça rapada e túnica invocam o budismo), e na ascensão que busca no contacto com os mestres, que procuram atingir uma outra forma (o nirvana budista).

A violência e a sexualidade são outros dos temas recorrentes da obra (comuns ao surrealismo em geral), iniciada como uma série de combates à pistola. Em jeito de Western, El Topo desafia e vence todos os adversários, trazendo justiça a um mundo que eles vilipendiam (matando, usando, humilhando, profanando, sodomizando). Tal vale-lhe a admiração de Mara (Mara Lorenzio), que o segue, e a quem se dá. A fé de El Topo (que consegue encontrar comida e água no deserto, ao contrário de Mara), alia-se a imagens de conteúdo sexual, como a nudez e violação de Mara que, ao deixar de ser virgem, já pode também acreditar e assim a conseguir também comida e água (de notar como a rocha de onde brota água tem a forma de um penis do qual jorra semen).

A partir de então El Topo é desafiado a dar o passo seguinte, matar os quatro mestres, os quais nos surgem como ascetas, mestres de sabedoria, que contribuem para a iluminação de El Topo. Este mata-os para que ele próprio progrida e os substitua, mas fá-lo com pesar, no que não é compreendido por Mara, que aos poucos o troca por outra mulher. Por outras palavras, quanto mais El Topo sobe no caminho espiritual, mais Mara procura os prazeres carnais dados pela mulher desconhecida (exemplificados na tortura com chicote, e nos beijos apaixonados).

Tendo atingido a perfeição, ao matar os mestres (e absorver a sua sabedoria), El Topo é abandonado (as feridas que ostenta relembram as chagas de Cristo), e renasce no interior de uma caverna. Note-se aliás como o tema do enterro e renascimento é recorrente. Começamos com o enterro dos objetos do seu filho, que assim se torna um homem. Vemos depois o renascimento do Coronel (David Silva), que acorda como um bebé, e à medida que se veste se torna adulto e poderoso. A passagem de El Topo dá-se após o enterro dos quatro mestres. Temos depois o renascimento simbólico de El Topo, que acorda numa caverna (como um útero da mãe Terra), e na cerimonia de corte do cabelo e barba, vemos um parto simulado, com El Topo saindo de entre as pernas da velha anciã. O próprio filme termina com o nascimento do segundo filho de El Topo e o enterro do protagonista.

O tema da passagem é também evidente, com a educação e o crescimento do filho de El Topo (primeiro criança, depois adulto), o qual precisa matar o pai (analogia freudiana), para finalmente ter uma vida sua. O mesmo fizera El Topo, com os quatro mestres, que precisou matar para progredir como pessoa. O filme termina fechando um ciclo, em que o filho, veste agora as vestes de pistoleiro, cavalgando no deserto com um bebé atrás de si.

Crescimentos, mortes e renascimentos, são constantes rituais de passagem, episódios no caminho para novos estados de existência, o tal caminhar da toupeira em relação ao sol que a cegará.

A sátira de Jodorowsky vai ainda mais longe, mostrando-nos a hipocrisia humana, contida na cobardia e luxúria do Coronel e seus homens (retratados como cães), na violência da aldeia, na repressão de costumes que leva às depravações sexuais de homens e mulheres, e até na religião, aqui professada como um culto de falsos milagres (a roleta russa viciada), numa igreja marcada pelo símbolo do triângulo com um olho dentro, evocativo da maçonaria, e usado nas notas de dólares americanos.

Usando o surrealismo e simbolismo na forma de ligar episódios, e transmitir conceitos, Jodorowsky concebeu um filme excêntrico e complexo. Lembra por um lado um Fellini visualmente mais austero e parco em palavras. Mas o imaginário de Jodorowsky é original pela fotografia no deserto, temática sul-americana e sátira corrosiva. O uso da violência, muitas vezes sangrenta, a crueza das várias passagens, a escolha do grotesco, por exemplo no uso de pessoas deformadas como atores e figurantes, e as mensagens desconcertantes presentes em cada momento, fizeram com que o filme tenha sido fortemente criticado, tendo sido inclusivamente proibido no país de origem.

“El Topo” quando estreou,  acabou chamando a atenção de John Lennon, que o defendeu como parte do movimento avant-garde em que ele próprio se inseriu. Com o seu patrocínio o filme teve uma distribuição alargada nos Estado Unidos, tornando-se um filme cult, tendo vindo a influenciar inúmeros artistas. Hoje, é citado como influência de realizadores como David Lynch e Gore Verbinski, e músicos como Bob Dylan, Roger Waters e Peter Gabriel, entre outros artistas e autores.
Fonte: A Janela Encantada

Filme:
El Topo - BluRay 720p - Legendado



Matéria: Nova entrevista com o roteirista e desenhista Leo


Uma nova entrevista com o roteirista e desenhista Leo, concedida em novembro ao site nacional voltado ao mundo das HQs Europeias; Tu Já Viu . Acompanhem!


Finalmente, conseguimos entrevistar o ilustre Luiz Eduardo de Oliveira, ou simplesmente LEO, desenhista brasileiro que mora na França e é o criador de Os Mundos de Aldebaran. Não apenas morador deste país europeu, há muitos anos, ele é bastante respeitado por lá no mundo da Nona Arte e tido como um dos melhores artistas da banda-desenhada franco belga da atualidade. Além de Os Mundos de Aldebaran, série que tem a aventureira espacial Kim Keller como principal personagem, LEO também é o criador de: Dexter London, Kenya, Namibia, Survivants, Terres Lointaines, La Porte de Brazenac, Ultime Frontière e Centaurus. Espero que gostem deste bate-papo que eu, PH, tive com ele por e-mail.

1 – Sei que é engenheiro e gosta de carros. Acha que consegue passar esta paixão para seus quadrinhos, através dos diversos e arrojados veículos que imagina em suas aventuras, incluindo as naves espaciais?

Parece um contra senso , mas nas minhas historias, eu não dou muita importância ao aspecto dos veículos e naves espaciais. Eu procuro fazê-los da maneira mais simples, sem muitas elocubrações. Não sei explicar porque. Talvez seja porque praticamente não uso régua nos meus desenhos, a não ser para fazer os quadrinhos.


2 – Já desenhava quadrinhos, antes de ir para a França?

Sim, fiz algumas histórias ainda no Brasil, mas só consegui publicar numa revista que se chamava O Bicho, no fim dos anos 70. Foi a minha primeira história publicada. Me esqueci como se chamava! Tinha só umas cinco ou seis páginas e era uma ficção científica, claro.


3 – Qual foi o primeiro desenho em quadrinhos que se lembra de ter feito?

Quando eu tinha uns 10 anos, desenhei uma historinha com o Mickey. Uma história policial onde o Mickey era o detetive. Como vê, comecei cedo!


4 – Você tem uma predileção óbvia por heroínas. Existe algum plano futuro para lançar um novo protagonista masculino, como aconteceu em Terres Lointaines, Dexter London e Trent?

Por enquanto, não tenho nenhum plano com um herói masculino. Prefiro que os personagens centrais sejam mulheres, de um lado, porque prefiro desenhar mulheres bonitas, em vez de homens musculosos, e também, porque heróis homens já existem aos montes, e em geral rodeados de mulheres bobas, frágeis e enervantes. Prefiro fazer o inverso. Sou um feminista instintivo e convicto.

    
Capas da "Trent", "Dexter London" e "Terres Lointaines"

5 – Um de seus trabalhos que mais gosto é justamente Dexter London. Esta série poderia ser retomada?

Infelizmente, não. Ela não fez muito sucesso, em grande parte, pois o desenhista, o espanhol Sergio Garcia, é professor da Universidade de Granada e ele não tinha muito tempo para desenhar a historia. Acabou que o prazo entre o aparecimento de cada álbum era muito longo e isso prejudicou as vendas e enervou o editor. É uma pena! Eu também gosto dessa série.


6 – Existe alguma chance de vermos Mermaid Project lançada no Brasil? Digo isso, por ser uma série que se passa, na maioria do tempo, por aqui.

Isso não depende de mim. Não sei responder. A Dargaud possui um departamento de vendas ao estrangeiro e sei que eles tentam vender no mundo inteiro.

  
Capas da série "Mermaid Project" que tem o roteiro de Leo

7 – Imagina qual é o motivo que torna complicada a difusão do quadrinho franco-belga no Brasil?

Ah se eu soubesse! Me lembro que quando eu morava ainda em São Paulo, a editora Abril publicou alguns dos monstros sagrados da BD: Jean Giraud, Bilal, Manara, etc. Eu e meus colegas desenhistas, que éramos todos fãs de quadrinhos europeus, estávamos certos de que o público iria acompanhar, pois a edição era de qualidade bem melhor do que fez a Panini. Que nada! Foi um fracasso e a Abril interrompeu a coleção. Incompreensível! Ficamos inconsoláveis.


8 – Como a sua infância e brincadeiras destes tempos influenciaram no trabalho que faz hoje?

É difícil dizer, mas é certo que os meus roteiros vão buscar suas origens nas coisas da infancia e juventude. Me lembro, por exemplo, que o meu irmão, três anos mais velho que eu, me chamou a atenção uma vez, sobre a experiência incrível que viveram os primeiros descobridores do Brasil, ao chegarem naquela terra selvagem, com fauna e flora diferentes, com índios estranhos. Uma experiência que nós, hoje, não teremos nunca mais a oportunidade de viver. A não ser que fôssemos descobrir outros planetas longínquos, selvagens e inexplorados. Como isso é praticament impossível, dado as distâncias colossais, resta a possibilidade de se fazer viagens imaginárias…


9 – Possui algum ressentimento por ser mais conhecido na Europa do que em seu país?

Não, eu não diria isso. Acho uma pena, claro, mas não ressentimento. Muitos outros paises além do Brasil não curtem a BD franco-belga. O que fica é mais uma satisfação de, apesar de ter vindo de um pais sem essa cultura de BD adulta, eu ter conseguido me implantar aqui.


10 – Sempre imaginei que Kim, heroína de Os Mundos de Aldebaran e suas derivações, e Manon, protagonista de Survivants, poderiam se encontrar em um crossover destas séries. Isto seria possível?

Claro que sim! E é o que vai acontecer na proxima série que dará continuidade à Antares. Eu previ desde o início. E isso, apesar da dificuldade que existe. Se a gente prestar atenção ao ler Survivants, nos damos conta de que Manon nasceu um século antes da Kim. Para superar esse impecilho, existe a mirobolante possibilidade de usar os desequilíbrios quânticos que, como todo mundo sabe, podem provocar saltos temporais…


11 – O que podemos esperar das duas gêmas de Centaurus, June e Joy, nova saga que você realiza em parceria com Rodolphe e Janjetov?

Centaurus, que eu escrevo conjuntamente com meu parceiro Rodolphe, é uma saga totalmente independente dos Mundos de Aldebaran, minha HQ principal e mais pessoal. O roteiro de Centaurus é super complexo e eu confesso que muita coisa está ainda por ser definida. Aliás, neste momento, estamos justamente começando a escrever o terceiro tomo da série. E tá complicado!

   
"Centaurus", Ultime Frontiere" e "La Port de Brazenac" são as novas do Leo

12 – Onde busca inspiração para os incríveis animais e plantas que cria?

Essa é talvez a pergunta que mais me fazem e que eu não sei responder. É difícil saber de onde surgem minhas inspirações. Só sei que às vezes, já no momento de escrever o roteiro, a imagem do animal me vêm à cabeça automaticamente. Outras vezes, não! Eu sou obrigado então a buscar inspiração, folheando livros sobre insetos, dinossauros, peixes das profundezas. São uma fonte inesgotável de idéias!


13 – Voltará aos Brasil, um dia?

Voltar para morar, não creio. Custei tanto para conseguir chegar aqui e aqui ficar que não tenho mais vontade de sair. E acho que perdi o hábito de viver no Brasil. Nas vezes em que fui aí de férias (raras vezes!), me senti um estrangeiro…

Por PH e LEO.

Fonte: Tu Já Viu

Em entrevista o mestre italiano dos quadrinhos eróticos, Milo Manara, lamenta que desenhos sensuais ainda possam causar escândalo. 

Milo com a versão italiana
De um mestre para o outro: a nova empreitada do italiano Milo Manara é uma biografia em quadrinhos sobre seu conterrâneo Caravaggio, um dos maiores pintores da História e também um dos mais controversos. Intitulado “Caravaggio - A morte da virgem”, o primeiro volume do trabalho acaba de ter seu lançamento mundial (no Brasil, pela editora Veneta), abrindo uma trama que envolve assassinatos, debates sobre sexualidade e uma ambientação detalhada da Roma do início do século XVII (o segundo volume ainda não tem previsão de lançamento). Em entrevista ao Globo, Manara, de 69 anos, explicou como fez para elucidar as incertezas acerca de Caravaggio.


Por que o senhor escolheu Caravaggio como tema para seu livro?

Caravaggio foi um grande artista que mudou a história da arte, mas também foi um homem ao mesmo tempo violento e apaixonado, que viveu intensamente. Alguém pronto a duelar com qualquer inimigo, mas também capaz de grande ternura com seus amigos, seus modelos e os miseráveis. Ele não suportava a arrogância e o poder. E eu acho importante contarmos a história de rebeldes, daqueles que vão contra a corrente, especialmente nos difíceis dias de hoje, em que prevalece uma sensação de que estamos à mercê de um poder financeiro que não conseguimos identificar, mas que controla as nossas vidas e as vidas de povos inteiros. 

Como o senhor fez a pesquisa para sua história? O quanto do livro nasceu de sua imaginação? 

Existem várias biografias sobre Caravaggio, embora apenas uma tenha sido escrita por um contemporâneo que o conheceu. Ele se chamava Giovanni Baglione, um pintor rival, e seu livro é muito curto e não muito benevolente. Mas existem outros documentos. Por exemplo, Caravaggio tinha uma personalidade turbulenta e foi preso muitas vezes e, felizmente, os relatórios policiais com seus interrogatórios e depoimentos de testemunhas foram preservados. É a partir de relatos como esses que podemos aprender muito sobre a vida agitada do grande gênio. Já no campo visual, há muitas pinturas, gravuras e desenhos relativos a esse período. Não foi muito difícil mergulhar no ambiente daquela época, o que me ajudou a preencher as lacunas da vida de Caravaggio, respeitando a verdade dos fatos e adicionando apenas algumas situações, todas plausíveis e até prováveis. Posso dizer que tudo o que adicionei no livro não pode ser provado como falso, embora não haja nenhuma evidência de que realmente tenha acontecido. 

Os historiadores divergem sobre as circunstâncias da morte de Caravaggio. Como o senhor pretende resolver essa incerteza para o segundo livro? 

Pretendo manter a mesma linha de pensamento: vou respeitar a verdade histórica documentada, mas também dar a ela minha interpretação. Depois de tanto tempo passado na companhia de Caravaggio, eu às vezes me sinto tentado a perguntar diretamente a ele como as coisas ocorreram. Vai que uma hora ele aparece para me responder...

Capa da versão brasileira
O senhor chegou a uma conclusão sobre a sexualidade do pintor? Há estudos que apontam para sua homossexualidade. É possível ter certeza?

A crença acerca da homossexualidade de Caravaggio é baseada no que escreveu Giovanni Baglione, mas provavelmente o biógrafo queria se vingar de um poema satírico e feroz que o próprio Caravaggio fez. Pelo poema, Baglione processou Caravaggio e o apontou como homossexual perante um juiz. Deve-se ter em conta que, no período, a homossexualidade era um crime grave que poderia ser punido com a morte. Mas Caravaggio não sofreu qualquer consequência do julgamento, o que indica que a acusação não foi considerada verdadeira. Já outra razão pela qual alguns acreditam que Caravaggio foi homossexual é a presença em suas pinturas de rapazes nus que se mostravam com descarada sensualidade. Mas precisamos considerar que as pinturas foram feitas por encomenda. Caravaggio pintou o que príncipes e cardeais pediam e era pago por isso. O fato de que esses rapazes expressem tanta sensualidade em seus quadros só mostra o quanto Caravaggio foi um grande artista, não que teria sido homossexual. Tendo a acreditar que a sexualidade de Caravaggio era exercida em sua arte, sensual e poderosa. E ele foi um pintor extraordinário de mulheres. Suas figuras femininas estão entre as mais bonitas, sedutoras e modernas em toda a história da arte, embora nunca nuas.

Em sua carreira, o senhor também já foi criticado pelo conteúdo de suas histórias e a natureza de seus desenhos. No ano passado, por exemplo, houve uma polêmica com a capa da revista da Mulher-Aranha, feita para a Marvel, considerada pelos fãs sensual em excesso. Como o senhor explica o que aconteceu?

Aquilo me surpreendeu. Não achava que um desenho ainda pudesse chocar. Com todas as imagens muito mais explícitas que podem ser vistas hoje em todos os lugares, eu nunca teria esperado um barulho como aquele. Além do mais, eu não acho que a celebração e a glorificação da beleza da forma feminina possam ser escandalosas.

Hoje, por causa da internet, qualquer pessoa pode ter acesso a imagens eróticas. Isso reduziu o interesse nos quadrinhos eróticos?

Acho que não, ou ao menos espero que não. Os quadrinhos, por sua natureza, são o reino da fantasia. Sabemos bem que nosso órgão sexual mais importante é o cérebro. E é o cérebro, a imaginação, que transforma a história em quadrinhos. Que fique claro que não tenho nada contra, mas o erotismo da internet fala mais ao corpo do que à mente. Então não acho que isso possa reduzir o interesse nos quadrinhos.

Muita gente imagina o senhor como um velho tarado que desenha quadrinhos. Tem uma mensagem para essas pessoas?

Posso citar John Le Carré: “Sim, eu sou um maníaco sexual normal, como todos”. Já quanto ao “velho”, não posso fazer nada, infelizmente. Mas tampouco acho que seja um insulto.

Preview da HQ que tem na nossa página do Facebook. >>CLIQUE AQUI<<

Fonte: O Globo

Matéria: RanXerox - Cópia 25 Centavos!


Texto: Rodrigo Garrit



“Os quadrinhos, sendo a linguagem artística mais desprezada pela Alta Cultura, é objeto de carinho e interesse especial por parte dos baderneiros. Em um mundo virado de cabeça para baixo, a forma mais desvalorizada de arte adquire uma súbita importância”. – Rogério de Campos.

Na turbulência de uma revolução, surgiu o reflexo de uma atitude na cultura pop. Contestador, transgressor e amoral. Um robô feito a partir de uma máquina de Xerox (exatamente isso, a copiadora) e programado para ser um ícone dos quadrinhos italianos dos anos 80, destinado a ser eternamente lembrado como o pioneiro de um movimento que antecedeu muito do que vimos e lemos nos anos seguintes.

“A ideia do Ranxerox nasceu em um ônibus, quando eu voltava para a universidade depois de uma série de batalhas contra a policia, em 1977. Havia uma fotocopiadora usada sendo chutada por vários estudantes e me veio à mente que ela poderia ser transformada, de uma simples fotocopiadora da realidade, em uma coisa mais ativa, mais bélica… poderia ser transformada em um robô por um estudante de bioeletrônica. Que foi exatamente o que desenhei para a Cannibale”. – Stefano Tamburini.


Ranxerox foi criado por Stefano Tamburini em 1977 na Itália, durante o movimento estudantil em reação ao anúncio do Ministério da Educação de diretrizes mais rígidas para os exames, o que ganhou proporções muito maiores, mesmo quando o então ministro Franco Maria Malfatti voltou atrás em sua decisão, o estopim da revolução já havia sido iniciado, e os jovens foram as ruas protestar por melhores perspectivas de vida para os formandos, contra o autoritarismo e claro, o próprio capitalismo.
Em meio a esse caldeirão ideológico, “Rank Xerox” começou a ser publicado nas edições undergrounds Cannibale e depois na Frigidaire. Então esqueça todo aquele esquema dos quadrinhos americanos moralistas e cheios de pudores. Ranxerox é um escarro na nossa cara, a grande metáfora da vida real elevada a sua décima potência. Um androide feito a partir de uma máquina de Xerox que pode copiar as emoções humanas, entre outras funções surpreendentes. Ele é um típico sobrevivente da repressão social, morador de periferia, usuário de drogas e amante de uma nada inocente garota de 13 anos, Lubna.


O que não faz dele um pedófilo… ou faz? Talvez… se fosse humano. Tecnicamente ele é um robô mais jovem do que Lubna. Mas isso envolve outras questões éticas que não cabem aqui.

A liberdade criativa dos autores de Ranxerox não conhece limites, e eles fazem uso total dela, transitando pelo mais profundo escárnio e recorrendo a todos os recursos disponíveis, desde cenas de nudez e sexo explícito, até o consumo indiscriminado de drogas e a violência gratuita que choca exatamente pelo fato de partir desse gigante cibernético descontrolado e multifuncional. Todas essas cenas são apresentadas de forma despudorada, elas existem no cotidiano dos personagens e definem aquilo que eles são; não são recursos eventuais criados com a finalidade de gerar polêmica e aumento de vendas. Ranxerox é uma das melhores coisas que já foram feitas na nona arte, algo que todo fã precisa ler para se considerar um verdadeiro nerd amante de quadrinhos. Não estou defendendo aqui as atitudes questionáveis dos personagens, mas é preciso lembrar que elas foram criadas dentro do contexto de uma revolução, e precisava ser um grito de liberdade que expressasse de alguma forma os ideais de uma comunidade jovem, punk rock, e constantemente silenciada pelo sistema.

Houve problemas, é claro, com a marca Xerox, que não gostou de ver seu nome associado a essa HQ pouco convencional sem autorização. Eles entraram em contato pedindo que o nome fosse mudado, e tiveram a seguinte resposta, dita pelo próprio Ranx, desenhado por Tamburini: “E eu me verei obrigado a rasgar o cu de vocês”.

De qualquer forma, o nome foi alterado de “Rank Xerox” para “Ranxerox” e tudo ficou por isso mesmo. Nosso protagonista é um robô, mas muito humano em vários sentidos. Ele tem vários comportamentos que em nada lembram a frieza robótica de algumas máquinas ( e alguns humanos). Por exemplo, ele transa. E muito.

Conforme Tamburini nos explica na história "Ranx em Nova York", o cérebro eletrônico de Ranxerox é estruturado de maneira a produzir emoções sintéticas, induzidas por três estímulos primários: cor, timbre vocal e odor. Tais estímulos acionam relês que, por sua vez, determinam uma fotocópia de emoções (ódio, amor e indiferença). Esses sentimentos mecânicos são muito rudimentares e instáveis. Podem mudar repentinamente a respeito de uma mesma pessoa, caso ela mude de roupa ou de comportamento.

Afora isso, Ranx é dotado de um violento instinto animal de sobrevivência. O único mistério é o incrível arrebatamento amoroso que ele nutre por Lubna, devido talvez a um choque na cabeça que causou a estabilização em ciclo contínuo (loop) de um programa que faz com que ele seja apaixonado por ela, e por isso não é capaz de lhe fazer nenhum mal. O mesmo não se pode dizer dos outros: Ranx é extremamente violento, dependendo do seu estado de espírito (ou programação), não olhe torto, não seja mau educado e não tente vender uma rosa. Mesmo que você seja uma garotinha singela. Seus dedos podem acabar quebrados do mesmo jeito. 


Apesar da “paixão” por Lubna (que faz dele o que bem entende e deixa claro que tem por ele o mesmo sentimento de amor que a mãe dela teve por sua primeira lava-louças), Ranx é muito chegado num rabo de saia, e vez por outra apronta das suas, enchendo a cara com amigos, se drogando e transando adoidado. Mesmo sendo um robô, Ranxerox tem um sistema nervoso artificial tão apurado que permite que ele tenha um “barato” ao usar drogas e fique excitado e tenha ereções como qualquer outro homem. Ranx é um adorável devasso, uma criatura livre, um “Anti-Frankenstein”… porque ao contrário do monstro criado por Mary Shelley, ele não é atormentado, não se esconde de ninguém e tem todas as noivas que desejar, embora ame apenas Lubna. 

As histórias do personagem são surreais e deliciosas… cativantes do começo ao fim. É o puro suco do que de melhor se ouviu falar em cultura pop progressista nos 80 e 90, tanto em quadrinhos, quanto em cinema, literatura e teatro. Ele foi ilustrado por Tanino Liberatore e seus desenhos são belíssimos, como não poderia deixar de ser dentro dessa tradição europeia.

Stefano Tamburini, o “pai” do personagem, faleceu em 1986, vítima de uma overdose de heroína. Sua última história, intitulada “Amém”, ficou incompleta e só veio a ser finalizada em 1997 por Liberatore com ajuda do roteirista francês Alain Chabat.

Ranxerox foi publicado na íntegra no Brasil pela Conrad Editora, numa caprichada edição de capa dura contendo todas as suas histórias em ordem cronológica e excelente matéria de Rogério de Campos, situando o leitor a todos os fatos pertinentes ao contexto na qual o personagem foi criado, além de várias informações adicionais sobre os autores e os bastidores de sua trajetória.

Uma obra imperdível.


Fonte: O Santuário



Entrevista de Andrea Bonzi: Paolo Eleuteri Serpieri, do erotismo de Druuna ao Ranger

“O meu Tex? Forte com os cabelos compridos!”


“O meu Tex? Jovem, com os cabelos longos e menos politicamente correto do que é habitual”. Paolo Eleuteri Serpieri é um dos grandes nomes das HQs italianas. Aluno de Renato Guttuso, é conhecido sobretudo pela bela heroína Druuna, que nos "endoidava" anos 80 e 90. Mas o seu primeiro amor é o Oeste, e depois de uma longa gestação, no próximo dia 17 deste mês de Fevereiro sairá a sua homenagem a Águia da Noite, totalmente realizada por si, no texto e nos desenhos: para a ocasião a Sergio Bonelli Editore inaugurará uma nova coleção anual de volumes cartonados a cores, com histórias mais curtas, intitulada “Tex de autor”.

Bonzi - Serpieri, o seu Ranger é diferente de todos os outros…
Serpieri - “Interessava-me um período histórico em particular, os anos 50 do século XIX e portanto pensei que Tex podia ter uns 24-28 anos, quando habitualmente aparece como um quarentão. Eu fiz apuradas pesquisas históricas e, naquele período, era extremamente difícil encontrar alguém que tivesse o cabelo curto, e por isso alonguei-os. É o Tex que eu sempre ansiei, embora continue a ser o herói de sempre.”

Capa da HQ

Forte e quase desumano, dada a vingança final. Ele tem um gesto que não revelaremos, mas que não é próprio “de Tex”.
“Talvez sim, mas é impulsionado por uma situação extrema e sabe que para sair dela, deverá agir como um guerreiro.”

Sei que a ideia nasceu há alguns anos atrás, e Sergio Bonelli tinha hesitado…
“(Sergio) Bonelli disse amiúde que gostaria de ver um Tex desenhado por mim e por Moebius. Eu falei com ele um pouco sobre essa história provocatória, dizendo que o personagem tornou-se politicamente correto em demasia. Ele ficou perplexo e disse “não se pode fazer“, talvez tivesse razão. Então, infelizmente, faleceu. Na Bonelli deram-me a máxima liberdade criativa, e a história, como se vê pelo final em que comparece um personagem com o seu nome, é dedicada a ele!”

Algumas das páginas da HQ

Talvez alguns leitores do autor de Druuna esperassem qualquer nudez a mais…
“Eh, eh (…risos…). Na redação da Bonelli estavam todos com medo: “Não vá ele desenhar algumas mulheres…” diziam. Há uma personagem feminina, mas com efeito é muito pura.”

O editor Mauro Boselli com a 1ª edição que terá o preço de € 6,90 (Euros)

Os co-protagonistas da história são os índios, povo guerreiro retratado de forma muito crua.
“São os índios americanos a parte da epopeia do Oeste que mais me interessa. Nesta história participa Lua Negra, um comanche malvadíssimo, mas na realidade eu sempre torci por eles.”

Paolo Eleuteri Serpieri
O senhor sempre teve um grande sucesso sobretudo na França, como o explica?
“Não há nenhuma explicação em particular. Eu sempre fiz o que eu gostava. Me interessa sobretudo a ficção científica, pelo fascínio do desconhecido. Não pensei que o género pudesse agradar mais no estrangeiro do que na Itália, simplesmente aconteceu.”

Iremos rever Druuna?
“Dígamos que sim. Está para sair “Anima”, uma não história por imagens de 66 páginas: a protagonista será uma espécie de Druuna loura e encaracolada, com surpresa final.”

Jovem Tex

Tex – L´Eroe e La Legenda ( O Herói e a Lenda) é uma edição no formato franco-belga, tem 48 páginas, formato grande (23cm x 30cm), capa dura e lombada quadrada, e totalmente em cores. Parece que Serpieri teve uma certa liberdade cronológica em relação ao personagem, não utilizando a versão canônica de um Tex mais velho, mas sim um Tex mais jovem e até mesmo de cabelos longos. Mas pelas páginas divulgadas, a essência do personagem está lá, com muita aventura e tiroteios.

Fontes: Tex Willer Bog e Dinamo Art.

N&D no EMDCast!


Quando começamos a produzir um título, não sabemos que repercussão pode vir a ter. Se a história for boa, pode angariar fãs dos mais insuspeitados gêneros. Quem diria que um bando de fãs de mangá se interessaria por uma obra como Arawn? E já que eles fazem podcasts sobre suas preferências, surgiu o convite para gravar um review exatamente sobre Arawn. £L!¢aRpO e Reverendo representam o Ndrangheta & DecK’Arte nessa informativa e divertida conversa. Produção, gravação e edição do parceiro Ecchi Must Die (ou EMD), um post bem incomum no N&D.

podcast arawn

>PODCAST< 

Para fazer o DOWNLOAD e/ou ESCUTAR ONLINE: Clique Aqui!

DURAÇÃO : 

-Spoilers [00:56:40 até 01:08:10 ] 

- Pauta Principal [00:00 até 01:15:15] 

- Melhores e Piores [ 01:18:24 até 01:25:26 ]


ESPERAMOS QUE COMENTEM E DIGAM O QUE ACHARAM!


Entrevista com ANGE, criador da série A Ordem dos Cavaleiros Dragões


Anne e Gerard = ANGE
A Ordem dos Cavaleiros Dragões  é mais uma das séries europeias de sucesso aqui no blog e que possui um número um pouco acima da média de livro. No momento estamos no 13º e ainda não tem um final definido. Os criadores da série, Anne e Gerard Guero usam o pseudonimo  ANGE, que é a junção das primeiras letras dos nomes do casal de criadores, deram uma pequena entrevista para o site da Editora Soleil, e eles falam um pouco do que acontecerá nos proximos livros. Quem não leu até o 13º livro da série, CUIDADO... pode haver SPOILERS!

Tradução: Reverendo 

Soleil: O livro 14 da Ordem nos remete à origem do mito dos dragões e das virgens, as únicas capazes de se aproximar das bestas e de matá-las. A abordagem é “pré-histórica”. É uma forma de dizer que a origem da Ordem remonta à origem dos homens? 

Livro 14 - A Primeira

ANGE: O mundo da Ordem estava organizado, mas foi modificado pela chegada dos dragões. A presença - intermitente - da besta influenciou profundamente a história desse universo desde o início dos tempos. Ou quase. Mas a origem da Ordem não remonta à origem dos homens. Ela remonta à origem das mulheres!

Soleil: O livro 15 se concentra no aspecto político desse universo: a guerra contra os Sardos, alianças em detrimento de laços de lealdade ou de família. Era isso que vocês queriam mostrar? 

Livro 15 - A Inimiga

ANGE: Claro. Um dos temas recorrentes na série é a responsabilidade. Responsabilidade dos cavaleiros, das matriarcas, da anciã do forte, dos reis (livro 13), dos sacerdotes, dos imperadores, dos cidadãos comuns... o livro 15 põe em lados opostos duas mulheres muitos responsáveis e leais às suas causas: uma à imperatriz e a outra, à matriarca. E o fato de serem irmãs não facilita em nada as coisas, nem evitará que cada uma cumpra seu dever, que é o de trair a outra. 

Soleil: Esse livro nos remete, igualmente, à condição da mulher. Vocês querem discutir as dificuldades enfrentadas por uma mulher num mundo violento e dominado pelos homens? 

ANGE: Mesmo que tenha sido um dos pontos de partida da série, isso foi pouco explorado. Ellys, no livro 1, Elleanor no livro 3, e, claro, Saraï no livro 15 tentam se livrar da dominação masculina. Três livros apenas em toda a série. E, pra constar, Saraï se vinga de maneira atroz, Ellys enfrenta o preconceito, e Elleanor é ninguém menos que a simpática sociopata do livro 2. Nos outros livros... bom... elas são as brutas, são as que dominam... até parece que a ordem é formada por batalhões de mulheres maravilhas. E que nem sempre são tão “gentis”, como se poderia imaginar. 

   
"Paradis Perdu", "Marie des Dragons" e "La Cicatrice de Souvenir", 
são outras obras de sucesso da dupla.

p.s.1: Em quinze livros, os dragões aparecem em umas quarenta e seis páginas, o suficiente para apenas um livro inteiro. 

p.s.2: não lembro quem, mas um dia alguém perguntou sobre Elleanor, a garotinha do livro 3. A entrevista responde a essa questão. 

p.s.3: O livro 17 chama-se A Guerra dos Sardos - parte 1. São os desdobramentos da situação política do livro 11. Amarelle agora cresceu e vai à guerra. Conclui no livro 18, que sai na França no mês que vem.


Livros 17 e 18, A Guerra dos Sardos


Matéria: Entrevista com o roteirista e desenhista Leo


Uma entrevista com o roteirista e desenhista Leo, concedida ao blog português voltado ao mundo das HQs; Blogue De Banda Desenhada. Acompanhem!

LEO
Formou o seu nome artístico, Leo, com as iniciais do seu nome real: Luís Eduardo Oliveira. Nasceu no Rio de Janeiro a 13 de Dezembro de 1944. Residindo em Paris desde 1981 e casado com uma portuguesa (Isabel) da Ilha da Madeira, onde passa largo tempo do ano, sobretudo para se escapar às agruras do Inverno da continental Europa. Hoje muito conceituado no mundo das HQs, sobretudo entre os francófonos, dedica-se muito (quase que exclusivamente) ao tema da ficção-científica. E tanto funciona só enquanto desenhista, como, outras vezes, como argumentista e, outras ainda, como autor total. Foi homenageado ao vivo no Salão Internacional "Sobreda-BD / 2000", tendo então recebido o Troféu Sobredão.

Porém, se hoje está tranquilo a narrar aventuras através da 9.ª Arte, foi antes uma aventura de si próprio que viveu e sofreu. Sempre inclinado >para o desenho, após terminar o seu curso de engenheiro mecânico enveredou um tanto pela militância política. Em 1971, para escapar à ditadura militar brasileira, fugiu para o Chile. Daqui torna a fugir, desta vez para a Argentina, quando o general Pinochet tomou o poder. Em 1974, regressa clandestinamente ao seu Brasil, onde se dedica ao desenho publicitário em S.Paulo.

"Gandhi", o primeiro álbum de Leo
 Em 1981, abalou-se à aventura para a Europa, estabelecendo-se em Paris, sonhando com a carreira nas HQs. Foi uma época de angústias pois a 9.ª Arte franco-belga atravessava então uma das suas piores crises.
Mesmo assim, publica alguma coisa nas revistas "L'Echo des Savanes" (1982) e "Pilote" (1985). Com o apoio de Jean-Claude Forest, em 1986 publica algumas histórias realistas na "Okapi" e, em 1989, é editado o seu primeiro álbum, "Gandhi, le Pélerin de la Paix", com roteiro de Benoît Marchon. No entanto, algum tempo depois começa uma parceria com o roteirista Rodolphe, com as séries "Trent" (um western em oito livros), "Kenya" (em cinco livros) e "Namibia" (a decorrer), mas agora como co-roteirista, e Marchal sendo o desenhista.

   
"Trent", "Kenya" e "Namibia", com roteiro de Rodolphe e traço de Leo

Além de ter participado em álbuns coletivos, Leo foi roteirista das séries "Dexter London" (arte de Sergio Garcia), "Terres Lointaines" (arte de Icar) e "Mermaid Project" (arte de Fred Simon).

  
Capas de três séries que tem o roteiro de Leo

Todavia, pelo seu encantador talento, o que podemos considerar como a sua notável criação (até agora) é a série "Os Mundos de Aldebaran", dividida em quatro ciclos: "Aldebaran", "Betelgeuse", "Antares" e "Survivants (Sobreviventes)", estando estes dois últimos ainda em curso na Europa.

 
 
"Os Mundos de Aldebaran", roteiro e arte de Leo, e também a sua criação máxima

Pois aí vai a entrevista com Leo:
Nota: Banda Desenhada (BD) - Histórias em Quadrinhos (HQ)

BDBD -  Foi dura a tua caminhada pela Banda Desenhada, sobretudo na América do Sul, mas hoje tens um justo estatuto de autor-BD confirmado. Porquê a França como tua opção?
LEO - No Brasil eu fiz umas tentativas de trabalhar em BD, mas não deu certo. Não há mercado para BD's adultas. Foi o que me levou a vir para a França. No Chile e na Argentina, eu não trabalhei com a BD e, na época, eu não pensava nisso. Eu era um refugiado político, fugindo à ditadura brasileira, e me dedicava à ação política.

BDBD - E voltares a viver no teu Brasil, está fora de questão?
LEO - Sim, foi tão difícil conseguir estabelecer-me em França, onde passei vários anos como imigrante clandestino, que não tenho nenhuma vontade de sair daqui. Ainda mais porque profissionalmente é aqui que eu construí toda a minha carreira na BD.

BDBD - Curiosamente, tens ligações a um outro país do nosso idioma, precisamente Portugal. Para além de teres sido homenageado no salão "Sobreda-BD /2000", és casado com uma portuguesa (da Madeira)... Portugal será um dia o território para residires em definitivo?
LEO - Não creio, pelos mesmos motivos que exponho acima. Mas pretendo passar longos períodos na Madeira, principalmente no Inverno. Acho a Madeira um lugar fantástico!

BDBD - Estranhamente, da tua vasta obra nada está editado em Portugal!... É um fato pouco simpático e desatento em relação à tua obra, não achas?
LEO - Alguns dos meus álbuns foram editados em Portugal alguns anos atrás, mas, infelizmente, a eterna questão do mercado pequeno para a BD adulta não permitiu que a coisa se renovasse. A mesma coisa aconteceu no Brasil, onde o fato de eu ser brasileiro não ajudou em nada as vendas. É uma pena!...

BDBD - Para além de desenhares, também tens sido, às vezes, roteirista. O que preferes: desenhar ou escrever?
LEO - Não dá para escolher uma ou outra, pois são coisas bem diferentes e ficaria muito  frustrado se tivesse que abandonar uma dessas atividades. É claro que, quando eu desenho - e atualmente eu só o faço quando eu mesmo escrevi o roteiro e, com isso, o resultado é bem pessoal - é mais forte. Como roteirista, escrevendo sozinho ou em parceria com outros, eu posso expressar a minha imaginação de outra maneira e é uma atividade fascinante.

BDBD - "Gandhi, o Peregrino da Paz" foi um interessante trabalho teu enveredado pela biografia. O que sentes por Gandhi para teres pegado neste projeto? Pensas repetir a experiência versando biografias?
LEO - Devo confessar que esse trabalho foi feito numa época em que eu aceitava qualquer coisa que surgisse para que a minha conta bancária saísse do negativo! Felizmente, o Gandhi foi um personagem interessante mas fazer BD's históricas não é o meu terreno, pois sempre preferi a ficção-científica.

BDBD - Ora aqui está!... Excluindo a bela série "Trent", o teu tema favorito é a ficção científica, cheia de hipóteses no futuro e de maravilhosos aspectos insólitos. É mesmo o tema que mais te entusiasma?
LEO - É o meu universo preferido. Desde sempre. Ele permite toda a liberdade criativa, onde tudo se pode inventar. Todos os roteiros que escrevi até hoje são de ficção-científica, o que é bem sintomático...

BDBD - Acreditas nos distantes aspectos futuristas que propões nas tuas séries?
LEO - Infelizmente, não. É o meu lado engenheiro bem racional...

BDBD - O Salão da Sobreda, onde foste homenageado em 2000, parece que se finou de vez. Mas, em Portugal, existem dois anuais (Amadora e Beja) e mais dois bienais (Moura e Viseu). Estarias disposto em participar em algum deles?
LEO - Nos últimos tempos tenho trabalhado tanto que evito os festivais. Especialmente quando incluem viagens. Mas eu gosto muito de Portugal, então, quem sabe?...

BDBD - A terminar, deixa aqui uma breve mensagem aos bedéfilos portugueses, em especial aos que te admiram... Desde já, muito obrigado, Leo.
LEO - Evidentemente eu fico muito orgulhoso e contente de saber que portugueses conhecem as  minhas histórias, apesar delas não serem atualmente traduzidas na minha língua materna. Portugal possui uma cultura de BD's adultas que, infelizmente, meu país ignora. E, meu caro Luiz Beira, sou eu que agradeço!


 
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