Agora entrámos mesmo na dinâmica de uma Administração Trump, com ele a todo o gás em direção ao abismo ao mesmo tempo que metade do país lida com a situação através de comédia ou da ridicularização dos acontecimentos.
No caso das tarifas a comédia tem sido fenomenal, não só porque Trump impôs tarifas a ilhas sem habitantes humanos, mas também atingiu uma ilha com apenas uma base militar com pessoal americano e britânico. O James Surowiecki, que eu acho um dos melhores escritores de peças de opinião sobre a economia, descortinou a metodologia de Trump que, aparentemente, é algo que é sugerido pelos algoritmos de inteligência artificial (isto da inteligência artificial merecia um post, mas tenho andado preguiçosa).
Em resposta ao Gotcha, a administração divulgou uma fórmula matemática manhosa cheia de letras gregas, em que dois dos parâmetros se cancelam e no fim ficamos apenas com o rácio do défice comercial dos EUA com um país dividido pelo volume de exportações de bens desse país para os EUA--esse rácio é o que Trump denota de tarifas e outras barreiras comerciais actuais cobradas aos EUA, mas obviamente que não é tarifa nenhuma.
Quanto ao valor lúdico do caos actual, acho que estamos conversados. Resta apenas dar uns passos atrás e ver o contexto mundial de forma objectiva. Em 2024, a economia americana representava 26% do PIB mundial--é enorme, apesar de a proporção já ter sido mais alta. Ao contrário do que os europeus pensam, o nível de vida americano é bastante alto e consome muitos recursos.
Por exemplo, no outro dia, tive um jantar da minha vizinhança e uma das organizadoras dizia que, para facilitar a vida à senhora onde o jantar se iria realizar, ela ia comprar pratos, copos, e talheres de plástico, daqueles a imitar vidro e cerâmica que depois se deitam fora, para assim não se ter de lavar loiça. Super-comum nos EUA. Há famílias que só comem de pratos descartáveis, apesar de toda a gente ter máquina de lavar louça. E isto é apenas um exemplo de muitos. Para além de ser péssimo para o ambiente é mau para a alocação mundial de recursos--grande parte da economia mundial serve as preferências americanas, mas as políticas de Trump irão ajudar a modificar algum deste comportamento.
Estas políticas apesar de péssimas para os americanos não têm necessariamente de ser más para o resto do mundo porque os americanos ao perderem poder de compra irão colocar menos pressão nos recursos mundiais, o que deflaciona os preços para o resto do mundo, dado que a economia americana era tão grande e irá encolher imenso. Se Trump avançar com tudo o que ele já começou, não me admiraria se encolhesse mais de 10% e, se calhar, 20% é ser conservador.
O capital já está a fugir para a Europa depois de anos em que saía da Europa para alimentar a bolsa americana. Desde que a Europa aja de forma fria e contida, irá atrair capital, investimento e turismo. E com as modificações da política de imigração americana, a Europa também tem a oportunidade de atrair cérebros e mão-de-obra (bem sei, os portugueses têm horror a imigrantes porque são xenófobos: a população portuguesa mal tem aumentado, ou seja, os que entram compensam os que saem; o que há é mais pessoas em algumas cidades porque a infraestrutura é má em sítios mais pequenos, mas é natural que tal seja temporário). Não nos podemos esquecer que os americanos beneficiaram imenso, no século passado, da fuga de cientistas e outros quadros superiores da Europa para os EUA. Agora o oposto pode acontecer. Há bastante potencial para a Europa crescer mais depressa e o euro ficar mais forte como moeda de reserva.
Há uma enorme nuvem na economia mundial que é a questão das criptomoedas. Acho provável que à medida de as pessoas entram em pânico, haverá mais fuga de capitais desses "activos" que apenas têm valor especulativo, o que pode causar uma séria crise financeira mundial para além dos problemas que o Trump já está a criar.
Como se dizia durante a crise subprime: as crises são oportunidades. Pena que Portugal nem governo tenha. Se continuar assim, fica ainda mais atrasado.