Comecei a leitura de David Copperfield. Mas o meu encontro com a obra é bem mais antigo, teria uns catorze anos, quando, no livro de leitura de inglês, contactei com alguns extractos. Bom, falando verdade, por mania de avançar nos textos do livro, apresentei-me a David Copperfield antes do dia em que nos calhou por lição. E caí de quatro pela história. Então, munida de paciência e muita esperança, folheei o livro página a página, em busca da continuação. Mas, além dos textos em sequência, nada mais havia. Nessa altura, já a professora nos tinha pedido que lêssemos “As Mulherzinhas” que eu adorara e a cuja primeira leitura, sem recurso a dicionário e feita quase de um fôlego, sucumbi de simpatias pela pequena Beth e por Laurie que me parecia angélico e divertido como nenhum rapaz de carne e osso que eu conhecia, pelo que fiquei muitíssimo inclinada para ele e a pensar que os jovens abastados e ingleses eram deveras interessantes. Entendi o eixo da história, mas só na segunda volta e com recurso ao dicionário, integrei detalhes, dos quais me lembro que julguei o final do livro um tanto apressado por guindar um personagem mais que secundário à honra de fechar o livro com a Jo. Dado o entusiasmo e sucesso desta primeira experiência de leitura em inglês, ganhei coragem e, na segunda e última aula sobre David Copperfield, perguntei à professora por que razão não nos dava também esse livro a ler. Ela respondeu que não podia e tive de engolir o desejo de saber mais; nesse tempo, retorquir a um professor raiava a má educação. Portanto, ainda hoje me espicaça a curiosidade de saber o que terá acontecido ao pequeno David que, soube dos textos em inglês, era órfão, pobre e um bocado maltratado por alguém (um patrão, um padrasto…) de que já não recordo nome ou função. Tais injustiças ficaram-me cá dentro a fermentar e este ano resolvi – finalmente – comprar a obra na Feira do Livro. Para já, digo que, da curiosidade ingente da adolescência me sobrou apenas uma réstia amadurecida e quase podre, os sentires humanos, por pura necessidade vital, também se cansam e suspendem. Portanto, fui lendo outras coisas, certa de que este livro me pertence e o percorro quando queira. É certo, detesto prefácios. Em geral, encontram-se eivados de encómios ao autor, muitos fazem extensa e intelectual análise à obra o que, antes de conhecê-la o leitor, me parece liberdade indevida e por vezes mesmo incompreensível, facto que me deixa perplexa e antevendo que, nos elaborados e científicos elogios que tece, o prefaciante pretende para si o enfoque, . Portanto, preparava-me para passar à frente, quando reparei que não só o prefácio à primeira edição era bastante sucinto, como assinado pelo próprio Charles Dickens. Arrepiei caminho. Em boa hora. Conta o autor que andou dois anos a conviver com as personagens e é com tristeza que delas se despede. Galvanizou-me aquele prefácio simples, curto e eficaz na sua quase melancólica apresentação. Hei-de ver se o livro é como dizem: bastante auto biográfico (afirmação da professora de inglês que mais me aguçou a piedade curiosa). Digo-vos que li duas ou três páginas - a história inicia com o nascimento de David a personagem que escreve – mas estou encantada com a extensão (756 páginas) e o peso (um quilo de escrita em papel fino). São páginas quase em papel bíblia, mas parece-me escrita preciosa, insinuada de subtilezas humorosas. Há pois um quilo de esperança à minha espera. Em casa. Um imenso de dias. Por sorte.
Nota: entretanto, entendi a recusa da professora de
inglês. Mais vale tarde que nunca.
Uns dias entregues à saúde, impossíveis de adiamento - a fazer lembrar aqueles casamentos em que andamos anos estupidamente a insistir e só nos roubam o tempo - levaram-me a perder as suas crónicas Em Roda Livre e Os Dias Insensatos, e que só hoje recuperei. Gostei e gostaria de as ter comentado, mas agora já vem a despropósito e fico-me pelos títulos que coloca nelas. Se um dia escrever um livro, peço-lhe um...
ResponderEliminarComo dizia Vergílio Ferreira, deve haver uma palavra sagrada para tudo, a questão é saber onde é que está. Mesmo o que é chato ou feio ou não presta, se a gente souber a palavra certa deve ficar belo à mesma.
Não li o livro David Copperfield mas vi o filme; talvez me tenha assustado com o tamanho.
Ficou-me a sociedade vitoriana, a humildade na aceitação da inferioridade social, assim como certos caracteres desonestos, falsos e calculistas dos personagens, infelizmente tão actuais. Ontem como hoje.
:))) não compare os dias que entregou à saúde com os anos em que se insiste num casamento. São de ordem diferente, movem outros valores e responsabilidades, implicam diversa natureza de danos.
ResponderEliminarSou péssima em títulos, como já deve ter reparado. Mas agora que reli esses dois escritos por si, nem me pareceram mal, decerto uma excepção.
Suponho que se uma coisa é chata ou feia a palavra certa não a faça bela, mas a diga o mais próximo possível daquilo que é: chata ou feia. Mas, é verdade, pode a palavra, em si mesma, ter a sacralidade de nomear.
Como não vi o filme, vou ler o livro. Já não é sem tempo:). E concebo, como o Joaquim, que a maldade ou a bondade dos homens, sejam sentimentos que originam acções e pensamentos muito iguais, as épocas passam por nós mas só nos mudam a exterioridade. Não sei mesmo se, quando nos apertam os calos, não desamarramos os trogloditas que temos cá dentro. Na generalidade, a educação resiste aos problemas simples e raro se impõe aos complexos e fundos.
Bom sábado, Joaquim. E cuide de si e dos seus.
Não li. Haverá tempo, ainda. Espero. :)
ResponderEliminarBoas leituras, bea!
Obrigada, Luísa. A maioria das pessoas que se reforma passa a ter mais tempo livre. Nessa altura, cada um cultiva os seus hobbies. Vai ser aí que a Luísa lê com calma tudo que lhe apetece e guardou para quando. Há coisas muito bonitas neste livro e as personagens parecem-me ressaltar; confirmo aquela subtil dose de humor e certa descrição feita com os olhos da infância.
EliminarBoa semana, Luísa.
Li o prefácio assinado por Dickens, onde ele refere que David Copperfield é o seu filho preferido.
ResponderEliminarMas não passei daí.
Como diz a Luísa, espero que haja tempo para o ler.
Continuação de bom domingo.
Há-de haver tempo, Magui. Eu estou a gostar.
ResponderEliminarBoa semana, Magui.
Um bom companheiro de confinamento.
ResponderEliminarBoa semana
Os livros fazem companhia. Têm o inconveniente/conveniente de não serem pessoas; mas, à parte este pormenor, são todos bons:).
ResponderEliminarBom dia, Pedro. E boa semana.
David Copperfield há-de fazer-lhe companhia para ultrapassar mais estes dias necessários de confinamento. Dickens é um excelente autor. Tenho que voltar a lê-lo agora que ando a reler os clássicos. Gostei do seu texto com memórias muito interessantes dos tempos de escola.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Parece-me bem que estou confinada para a vida, Graça. Mas temos de a levar como se apresenta. E é verdade que os livros ajudam a evasão. Gosto muito de Dckens, é bom contador de histórias, surge tudo muito real, sobretudo as personagens.
EliminarBem, estão aí páginas que nunca mais acabam :P
ResponderEliminarNunca li nenhum livro dele, mas já li as Mulherzinhas. Era miúda. Admito que não me recordo da história.
Beijocas
Isso mesmo, Cláudia, páginas que nunca mais acabam:). Mas são fáceis de ler, Dickens conta muito bem e com leve sentido de humor.
ResponderEliminarBoa semana e cuidado com o mau tempo.
Achei perfeito! E mais, saber que tu entendeu a professora e traz esse aprendizado pra gente. Não li o livro, mas antes de morrer vou ler.
ResponderEliminarGrande abraço!
ney, é melhor começar já, a gente nunca sabe quando é que morre.
EliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarPara quem gosta dos clássicos acho que é óptimo.
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