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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

PAS844. O fim dos preconceitos

-- Patrão! Olhe!
Amos Johnson encontrava-se a meia milha do seu rancho, inspecionando os estragos causados pelo nevão, pelo que era dado ver, não tinham sido muito grandes. Se o frio não aumentasse, em meia dúzia de dias teria desaparecido a camada de gelo ártico, trazido pelo vente em forma de pó. Ao ouvir a voz do seu vaqueiro, voltou -se na direção apontada por este.
Doze a catorze cavaleiros, embiocados em amplas capas, tal como ele e os dois vaqueiros que o acompanhavam também estavam, dirigiam-se decididamente para sua casa.
Durante uns segundos ficaram os três a olhar para o grupo que se aproximava. A distância a que se encontravam não lhes permitia distinguir as feições de quem quer que fosse. Porém, a direção de onde provinham indicava perfeitamente de quem se tratava.
— São os Withers... e não creio que nos venham fazer uma visita de cortesia! — disse, ao mesmo tempo que tocava ao de leve com as esporas na barriga do cavalo. — Vamos ao seu encontro.
— São muitos para nós, patrão — arriscou o vaqueiro que primeiro os havia visto. — Talvez seja melhor recolhermo-nos ao rancho.
Johnson fitou-o com um olhar duro.
— Tens medo deles?
— Não, mas... — o rapaz baixou a vista, um pouco envergonhado.
— Vamos!
Os outros já os haviam visto, mas não tinham feito qualquer movimento hostil. Amos Johnson e os seus dois vaqueiros colocaram-se na frente deles, obstruindo a passagem.
Dan Withers e um outro que Amos tinha visto antes, mas logo identificou como sendo seu irmão, marchavam à cabeça. Todo o grupo apresentava um ar de poucos amigos e uma expressão decidida.
— Já haveis reparado que este não é o vosso rancho? — interrogou Johnson com modos bruscos.
— Quem é este sujeito? — perguntou Jeff ao irmão.
— Amos Johnson em pessoa.
Então deixa que seja eu a responder-lhe. — E, voltando-se para o proprietário, prosseguiu: — Não sei por que se admira. Suponho que aqui deve ser um hábito generalizado invadir as terras dos outros. Porque não pede a opinião aos seus homens, que ainda ontem mataram um dos meus vaqueiros... dentro dos limites d nosso rancho?
Johnson ficou pálido de raiva.
— Os meus rapazes não são assassinos!
— ...E aos que há cerca de duas semanas nos assassinaram dois pastores, obrigando depois cerca de um milhar de ovelhas a despenharem-se num precipício, não falando já no incêndio que provocaram e nos poderia ter destruído as pastagens? — continuou Jeff, como s não tivesse dado pela interrupção.
Amos levou a mão ao revólver, no que foi imitado pelos seus vaqueiros. Aquela acusação ultrapassava todo os limites...
Mas tinham-se esquecido de que estavam a lidar com experimentados gun-men. Ainda eles nem sequer tinham conseguido fechar as mãos sobre os punhos das armas já estavam cercados por uma floresta de revólveres que os visavam.
Dan, agindo rapidamente, e sem pensar que estava arriscando a vida, obrigou o seu cavalo a dar um salto interpondo-se aos dois grupos.
— Não sejam loucos..., todos vocês! Deixem lá os revólveres! — gritou.
— Sai daí, Kid — avisou Jeff com um sorriso cruel, a bailar-lhe nos lábios. — Este assunto vai ficar resolvido já... e à nossa maneira.
— Calem-se! — berrou enfurecido o mais novo do Withers. E virando-se para o irmão, continuou: — Já te tinha dito, e volto a repetir-te agora, que não acredito que Amos tenha alguma coisa a ver com essa história por muito que ele odeie as ovelhas.
Lije foi morto junto dos limites do seu rancho — insistiu Jeff. — Terá de arranjar uma boa explicação, se quiser que o acreditemos.
Dan fitou de novo o pai da sua noiva.
— Tem alguma coisa a dizer a este respeito, Amos?
— Absolutamente nada. Não dei ordens, fosse a quem fosse, para que vos molestasse. Fico satisfeito só com o não vos ver... desde que vocês não entrem nas minhas terras. E posso dizer o mesmo de Noah. Temos conversado muito nestes últimos dias. Tratem de arranjar lar que essas porcas ovelhas que haveis trazido para a região não estorvem os outros, e nenhum homem decente se meterá convosco!
— Estás a ver, Jeff? — exclamou Dan, esperançado.
— Não passam de palavras — replicou este, que não ficara nem muito nem pouco convencido. — Se só formos a exercer represálias quando tivermos provas de quem é o nosso inimigo, bem podemos começar a fazer as trouxas.
— Posso garantir que não serei eu quem irá pedir para vocês ficarem — esclareceu o rancheiro, aproveitando a deixa.
Não precisamos que nos peça nada, amigo... nem para irmos, nem para ficarmos! Quanto à sua boa vontade, eu não sou tão crédulo como este. Quererá dizer-me o que faziam você e o outro homem honrado de região, esse tal Leigh, enquanto o Kid era despojado de tudo o que possuía, até ficar reduzido ao que tinha no corpo. inclusive a bala nos costados?
— Eles também perderam muita coisa, Jeff! — intercedeu Dan. — Falei-te nisso várias vezes.
— Não sejas palerma! — insultou Jeff que, excitado, estava pronto a explodir à mínima provocação. — Isso foi o que eles te disseram. Mas então como se explica o facto de eles continuarem na mó de cima, enquanto tu estás arruinado? O que seria feito de ti se nós não tivéssemos vindo? Bolas! Mas que lindos amigos tu arranjaste! Garanto-te que passarias muito melhor sem eles... De futuro, será bom que eles tenham sempre presente o seguinte: do mesmo modo que permitiram que tu te afundasses, sem mexerem um dedo para te ajudar, também nós faremos o mesmo quando chegar a sua vez. Cada qual tratará de si... e ai daquele que se cruze no nosso caminho!
Estava de tal modo dominado pela cólera, que algumas das suas palavras eram quase ininteligíveis. No entanto, a ameaça era bem clara; tão clara que quando eles fizeram meia volta e tomaram o caminho do rancho de Rockies, Amos Johnson, saindo do estado de aturdimento em que o lançara aquela torrente de ameaças e censuras, virou-se para os seus, vaqueiros e, contrito, admitiu:
— Creio que ele tem alguma razão, moços. Como nos não amargava... deixámos que o Dan se desembaraçasse sozinho. A minha filha apelidou-me muitas rezes de egoísta, e agora vejo que não andava muito longe da verdade...
— Não passam de uns porcos pastores de ovelhas, patrão! Deixe-os lá!
— Estás obcecado pelos preconceitos que todo criador de gado bovino alimenta contra as ovelhas. Eu também enfermo do mesmo mal, mas isso não me impede de pensar com clareza. A verdade é que até agora não deram o mínimo sinal de quererem invadir as terras destinadas às vacas, nem sequer no seu próprio rancho. E isto não é tudo. Sabeis o que penso?
Os dois vaqueiros encolheram os ombros, em sinal de ignorância.
— Que ainda tem razão noutra coisa. Os Whithers, presentemente, são os mais fortes do vale. Os tipos que os escoltavam mais pareciam pistoleiros do que qualquer outra coisa. Weser há-de pensar duas vezes antes de se meter com eles. Quem nos diz que não chegou a vez de nós soçobrarmos... e de serem eles a assistir ao espetáculo?
— Que acha que devemos fazer? Que nos aliemos a eles?
Johnson abanou a cabeça em sinal de dúvida.
— Dan, talvez... Mas o seu irmão não quererá saber de nós para nada. Vamos a casa de Noah. Tenho de lhe contar o que se passa, e aproveitaremos para ver que tal se tem portado o seu gado com este tempo.
Os catorze homens do rancho dos Withers atravessaram a propriedade de Johnson, cortando em diagonal. À medida que se iam aproximando do rancho da Rockies, Sammy Eden sentia-se cada vez menos tranquilo. Não tinha a menor graça acabar por se ver envolvido numa refrega em que estava sujeito a receber um balázio dos seus próprios amigos, ou, o que viria a dar no mesmo, que estes vendo-o fazer parte do grupo, o considerassem um duplo traidor. Por causa das dúvidas, foi diminuindo o andamento, até ficar na cauda da coluna. Mais do que isso não se atrevia a fazer, receando chamar a atenção.
— Esses cabeços aí indicam a linha divisória deste lado — esclareceu Dan. — Os edifícios ficam apenas a uma milha.
Os cavalos avançavam sem ruído sobre o branco manto de neve. Foi este facto que lhes permitiu chegar sem serem ouvidos junto de um grupo de quatro homens, os quais estavam preparando o almoço em frente de uma cabana.
Tanto uns como outros ficaram surpreendidos perante o inesperado encontro. O primeiro a ver os visitantes pôs-se em pé de um salto, empunhando o se revólver, enquanto gritava à laia de aviso:
— Cuidado, rapazes!
Foi a primeira vez que Dan lançou mão de uma arma na presença de seu irmão, tendo intenção de a usar. E tão fulminante foi a sua ação que o homem da Rockies, já tinha caído de costas com uma bala entre os olhos e ainda os outros não se tinham refeito da surpresa.
O revólver do homem disparou contra o chão, pois ele ainda nem sequer tinha tido tempo de o levantar, quando o espasmo da morte lhe fez apertar o gatilho.
— Bom tiro, Kid... — elogiou Jeff, admirado. — Nem eu próprio teria feito... Fred!
Acabava de identificar um dos outros três que se haviam posto de pé, com as mãos no ar. O seu antigo subordinado estava mais pálido que os restantes, pois não ignorava que, para si, o fim daquela entrevista era a morte.
Sammy Eden, cada vez mais assustado com o aspeto que o caso estava a tomar, adiantou-se de revólver em punho, pronto a disparar contra o seu amigo, dissimulando os seus verdadeiros motivos com uma torrente de injúrias:
— Traidor! Canalha! Era tu que...
Absolutamente desnorteado, pensou que o melhor processo de evitar que Fred dissesse alguma coisa que o pudesse comprometer seria matá-lo. Mas no momento em que ia levar a cabo os seus intentos uma bala incrustou-se-lhe no peito. O estampido do tiro de carabina permitiu localizar o atirador no cimo do cabeço que acabavam de contornar.
Sammy tombou da sela. Houve uns momentos de confusão que os outros três apaniguados de Weser aproveitaram para fugir em todas as direções. Entretanto a carabina continuava a entoar a sua canção de morte.
Outro dos homens de Jeff caiu de braços abertos quando um projétil lhe trespassou o cérebro. Um cavalo relinchou de dor ao sentir uma queimadura proveniente do terceiro disparo, caindo e arrastando o seu cavaleiro na queda.
Era inútil tentar dar ordens no meio daquela barafunda. A pé ou a cavalo, cada um corria para o seu lado, procurando um local para abrigar-se. Só ao fim de alguns segundos a luta assumiu um aspeto de batalha organizada.
Fred, o que melhor soubera aproveitar a oportunidade, galopava como um possesso em direção ao lancho. Os seus dois companheiros tinham-se encerrado na cabana, valendo-se da proteção do outro que continuava a disparar a coberto das rochas.
De carabina na mão, Dan arrastou-se até chegar junto de seu irmão.
— Temos de nos safar depressa daqui, Jeff. Aquele tipo dará o sinal de alarme, e o rancho não fica longe.
— Julgas que ainda não reparei no lindo sarilho em que, estamos metidos? Dá cá essa carabina. Temos de fazer calar o fulano que está ali em cima.
— É Smiley — informou Dan, reconhecendo-o. -- Deixa-o comigo.
Procurando esquecer os projéteis que zumbiam a sua volta, o mais novo dos Withers meteu a arma à cara, apoiando-se na rocha que lhe servia de escudo. A distância era bastante grande e o outro conservava-se bem oculto, não se mostrando senão o estritamente necessário para visar os que se encontravam em baixo.
Jeff começou a impacientar-se vendo a calma comi; que seu irmão fazia pontaria. Abriu a boca para protestar, mas, exatamente nesse momento, a carabina cuspiu a sua carga mortífera, envolta numa labareda de fumo.
Ao longe, lá no alto, uma arma voou pelos ares. O seu 1 proprietário pôs-se de pé, como se quisesse agarrá-la, mas, em vez disso, caiu de cabeça para baixo pelo declive escarpado, embatendo e rasgando-se de encontro às finas arestas dos penhascos.
Quando o seu corpo se deteve uns metros abaixo não dava o mínimo sinal de vida. Morrera quase instantaneamente.
— Em marcha! — comandou Jeff, felicitando intimamente Dan pela pontaria que havia demonstrado, tanto com a carabina, como com o revólver.
Erguendo-se sem deixar de fazer fogo sobre os homens que se tinham refugiado na cabana, retrocederam para o local onde se tinham reunido os cavalos. O momento não era muito indicado para se dirigirem à Rockies e tentarem falar com Weser. Jeff decidiu que noutra oportunidade... que tinha intenção de fazer surgir o mais depressa possível, iriam deixar um cartão de visita mais airoso que o presente.
Para já, tinham mostrado os dentes e provado que os sabiam usar.
Quando já se afastavam a todo o galope, puderam ver o numeroso grupo de cavaleiros que se aproximava da cena de batalha. Felizmente, demasiado tarde para fazerem outra coisa que não fosse enterrar os mortos.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PAS843. Um cavalo sem cavaleiro

-- Alguém viu o Lije?
A pergunta partira de Seth Douglas. A sua cama ficava ao lado da de Murdock e fora ele o primeiro a dar pela sua falta, quando se levantara, de manhã.
Ao que parecia, ninguém o tinha visto.
— Rapaziada! — berrou Ben Libby entrando como um vendaval no dormitório comum. — Já viram o que está lá fora?
Seis polegadas de neve! Muitos dos texanos nunca tinham visto neve durante toda a sua vida e precipitaram-se para fora a fim de contemplarem o inesperado espetáculo. Aquilo fez esquecer Lije durante uns minutos, mas alguém voltou a recordá-lo.
— Temos de falar com Jeff — propôs Douglas. — Talvez saiba onde ele está.
Tal como eles, não sabia. Um rápido interrogatório permitiu concluir que Lije não regressara após a visita de inspeção ao gado que Jeff lhe mandara fazer na tarde anterior.
— Bem deve ter assoprado as mãos esta noite — afirmou um. — De certeza que lhe gelaram as orelhas.
Jeff deu imediatamente as suas ordens. Cinco homens foram destacados para irem procurar Lije ao local onde tinha sido enviado pelo chefe. Os outros deveriam percorrer as diversas pastagens, verificando como se encontrava o gado proveniente do Texas, bem como as ovelhas.
Lá fora, o frio era terrível. Toda a gente se precipitou a ir buscar os agasalhos.
— Eh! Reparem no que está ali! — gritou de repente uma voz.
— É o cavalo do Lije! — exclamou outro, que o identificara imediatamente. — E está aparelhado!
O animal regressara sozinho ao rancho durante a noite, refugiando-se junto de um muro para se proteger da ventania. Por isso, ainda ninguém havia dado por ele.;
— Aconteceu alguma coisa àquele rapaz!
Encontraram-no com relativa facilidade. Jeff, que' fazia parte do grupo, apeou-se de um salto, ajoelhando junto da figura coberta de neve. Com duas sacudidelas fez desaparecer o branco sudário que o cobria. Em seguida, com os punhos crispados, voltou-se para os seus companheiros.
— Mataram-no sem sequer lhe darem oportunidade de se defender! Reparem no seu revólver!
Estava metido no coldre, sem o menor indício de que tivesse procurado servir-se dele.
— Coloquem-no em cima de um cavalo e voltemos para casa.
O regresso fez-se num silêncio fúnebre. Os homens fumavam ou olhavam com maus modos para o solo coberto de neve, sem se preocuparem com o gado que mugia lastimosamente em seu redor, ao ver que a erva tinha desaparecido inexplicavelmente sob as suas patas, sendo substituída por aquela capa branca que tanto os incomodava.
Dan, fiel ao princípio estabelecido entre os dois irmãos de que um deles permaneceria sempre em casa, juntamente com alguns homens, a fim de defender o rancho em casos de ataque, aguardava-os impaciente. Ao ver chegar o grupo, dirigiu-se ao seu encontro.
Contaram-lhe em poucas palavras o que se passara. Jeff concluiu:
— Estava junto da linha que divide o nosso rancho do de Johnson. Garanto-te que vão pagar isto cara! Da outra vez, conformei-me em ficar calado, apesar de ter perdido quase um milhar de ovelhas, além de dois dos rapazes. Mas, desta vez, passaram das marcas!
— Amos não foi. Podes ter a certeza, Jeff.
— Então, que queres que façamos? Achas que devemos continuar de braços cruzados à espera que deem cabo de nós e nos arruínem, só porque não vimos com os nossos próprios olhos quem foram os autores da façanha?
Sammy Eden estava suficientemente próximo para poder ouvir a indignada voz do seu chefe. Sorriu, satisfeito consigo mesmo. A sua ação não só lhe garantira a impunidade, como ainda ia trazer benefícios para Lynn Weser.
A guerra entre os Withers e os pequenos criadores do vale ameaçava desencadear-se de um momento para o outro.
Dan compreendeu que, daquela vez, não poderia deter seu irmão. Rapidamente, dirigiu-se à cavalariça e aparelhou um cavalo.
— Uma vez que insistes em ir, Jeff, irei contigo. Quero impedir urna tragédia desnecessária, se isso ainda estiver na minha mão.
O bandido verificou, tal como seu irmão antes a seu respeito, que nada impediria Dan de ir, exceto a força concordou:
— Está bem. Eu também não estou interessado em complicações com quem não me provocar. Podes vir mas não te aconselho a impedires que incendiemos o rancho do pai da tua noiva se chegarmos à conclusão que ele tem algo a ver com o que se passou!
À sua roda havia doze homens, entre eles o ruivo Eden. Pela primeira vez iam deixar as casas do rancho sem proteção. Completamente equipados, como se fossem travar uma batalha, puseram-se em marcha, traçando um profundo sulco na neve.
O sol voltara a brilhar, como querendo mostrar que aquilo não passara de uma amostra... e que o Inverno ainda estava a armazenar forças para se tornar numa verdadeira catástrofe, a qual seria recordada em todo o Oeste como a pior desde que começara a colonização
Estava-se no dia dezassete de Novembro de 1886.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PAS842. O vaqueiro que viu o que não devia

— Diabo! O frio está a chegar.
O vaqueiro olhou para o céu. Nem uma só nuvem empanava o brilho da atmosfera. Estava-se quase a meio de Novembro e os homens, durante o dia, continuavam a ir trabalhar para os campos em mangas de camisa, raro naquela época do ano. À noite, porém, o caso mudava de figura. O ventinho gelado que descia das Montanhas Rochosas furava até os ossos.
Agora, inopinadamente, o vento parecia ter rodai vindo do Norte. Lije Murdock deu a sua observação por terminada. O tempo regressava à sua normalidade, trazendo o frio quando lhe competia... embora com pouco de atraso.
Dispôs-se a regressar a casa, pois a sua missão est cumprida. Viera verificar como se encontravam os a mais e vira que, felizmente, quase não se haviam mexi do mesmo sítio. Antes, contudo, resolveu dar uma vista de olhos para o caso de se ter perdido alguma rês em qualquer ravina.
O vento do Noroeste soprava com maior força ali em cima. Lije procurou proteção, refugiando-se atrás de um penhasco. Não descortinava qualquer animal... Afinal, pareceu-lhe ver um.
Olhou com mais atenção. Que diabo faria uma vaca a descer por ali?
Não. Claro que não! Afinal era um cavaleiro, que quase a seguir identificou como sendo Sammy Eden, o ruivo da quadrilha. Agora já não lhe restava a menor dúvida que era ele.
Encolheu os ombros, como se tivesse perguntado a si mesmo que andaria ele a fazer por ali e tivesse concluído que isso pouco lhe importava. Talvez o chefe o tivesse mandado fazer algum reconhecimento.
Começava a arrefecer deveras. Em menos de meia hora a temperatura tinha descido desalmadamente. Quando atingiu a planície pôde observar como as vacas se colocavam de costas para o vento, procurando defender-se dos seus embates.
— Muito ides sofrer este Inverno, pequenas — comentou para si próprio, ao mesmo tempo que esporeava o seu cavalo para ir ao encontro de Sammy, um pouco mais além. — No Texas, não estáveis habituadas a estas coisas...
Olhou uma vez mais para o céu. Parecia que uma densa neblina, trazida pelo vento, o ia encobrindo. O próprio Sol perdera muito do seu fulgor e, em determinados momentos, era possível olhar para ele.
— Mau, mau — murmurou de novo. — Receio bem que o Inverno se faça anunciar por um nevão de categoria.
Procurou Sammy com a vista, estranhando ainda não o ter visto aparecer do lado do leito da torrente. Esse era o caminho mais indicado para regressar ao rancho.
Incitou a sua montada. O outro parecia não ter a mínima pressa, o que de resto pouco lhe adiantaria enquanto percorresse aquele tortuoso carreiro. Por fim, atingiu o mesmo ponto que ele e, aproximando-se cuidadosamente do bordo da ravina, gritou:
— Ei, Sammy! Onde pensas tu que vais?
Eden levantou a vista, nitidamente sobressaltado. Deu um violento sacão nas rédeas e pareceu mesmo que ia puxar pelo revólver. Porém, não o chegou a fazer.
— Olá, Lije! Vou por aí... — respondeu vagamente.
— Está um frio dos diabos, rapaz. Começou tarde, mas parece decidido a recuperar o tempo perdido. Vamos para casa e deixa-te de passeios!
— Tens razão — concordou Sammy, sorrindo. — Espera aí que eu já subo.
Lije fez o que o outro lhe pedia. O leito da torrente tinha muitos braços por onde as enchentes estivais arrastavam as férteis terras circundantes. De repente viu aparecer Sammy, que acabava de trepar por um deles.
— Que diabo fazias por estas bandas, camarada? —perguntou, ao mesmo tempo que dirigia o cavalo para o seu lado. A pergunta fora feita, não por desconfiança, mas por simples curiosidade. — Julguei que Jeff te mandara a... Não, Sammy! Que vais fazer...?
A sua frase ficou a meio, cortada pelo estampido dum tiro. Lije Murdock, ainda com a incredulidade estampada nos seus olhos ingénuos, levou a mão ao peito, ao mesmo tempo que caía para trás, projetado pela bala que acabava de encaixar. Pete, assustado, encabritou-se, ajudando a queda.
Estendido no solo, fazendo apelo às últimas forças, o vaqueiro apenas pôde murmurar:
— Por... quê, Sam... eu? Por... quê...?
O ruivo sorriu cruelmente do alto do seu cavalo, ao mesmo tempo que soprava o fumo da boca do cano do revólver.
— Porque — ripostou, embora o seu companheiro já o não pudesse ouvir — assim não poderás contar a ninguém que eu não estava onde me tinham mandado. E porque assim ninguém suspeitará que sou eu quem informa Fred de todos os vossos movimentos.
Dito isto, substituiu calmamente o cartucho por outro que tirou do cinturão, e seguiu o seu caminho.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PAS841. Suspeitas sempre suspeitas

Dan Withers olhou com o rosto carregado para o irmão. Jeff, que não apresentava estar com melhor disposição, contemplava os cadáveres queimados dos dois mexicanos, os quais haviam sido transportados para dentro da cabana, agora sem teto.
Felizmente, o incêndio inutilizara apenas aquela vertente. Dois outros pastores, que se encontravam não muito distantes, tinham ouvido os tiros e, embora a sua chegada se tivesse verificado muito depois da partida dos vândalos destruidores, tinham conseguido dar o alarme a tempo de comparecer o resto do pessoal e impedir que fogo ganhasse proporções catastróficas.
Tinham perdido toda a noite, mas o perigo fora debelado.
— Não resta a menor dúvida — exclamou Jeff, como se estivesse a falar consigo próprio. — São os irmãos Miguel e Alberto.
Os punhos cerraram-se-lhe num sinal de cólera mal contida. Dan observou:
— Isto é apenas o princípio, Jeff, uma espécie de aviso. Neste vale, as ovelhas apenas podem trazer desgraças... e as que conseguirem sobreviver a estas fatalidades, morrerão geladas no Inverno.
Jeff voltou-se vivamente para ele.
— Quem te disse isso?
— Mae. Como sabes, encontro-me todos os dias com ela. Tanto o seu pai como os outros criadores de gado afirmam que as ovelhas são demasiado débeis para resistirem aos tremendos frios destas altitudes.
— E, na dúvida, vão arranjando as coisas de maneira que nenhuma exista nessa altura, ficando assim por provar a veracidade ou falsidade da sua afirmação — acusou a bandido, furioso.
— Não foram eles, Jeff, podes ter a certeza.
— Ainda os defendes?
— Sou amigo deles... ainda que não me considerem como tal. Os que atiraram as ovelhas para o precipício e assassinaram os pastores pertencem ao bando de Weser.
— E por que não de Leigh, por exemplo? Seria aperra a continuação do que se passou outro dia no forte.
— Não são desse género. O que eles temem é que rio ovelhas esgotem o pasto dos nossos terrenos particular» e depois as levemos para os prados comunais. Daí a invadirmos as suas próprias terras, seria apenas um curto passo...
— Não chegaremos a tanto — interrompeu-o o irmão — Quando as trouxe para cá, sabia perfeitamente o que fazia e o terreno de que podia dispor.
— Nisso, estou de acordo contigo. Não há dúvida de que estes animais conseguem alimentar-se em terrenos onde não se daria o gado vacum, e que, portanto, não há previsão de os misturar. Por outro lado, se os mudarmos com frequência, nunca chegarão a esgotar a sua alimentação. Mas os rancheiros receiam outra coisa... e eu também...
— O quê?
— Que nos vejamos obrigados a levar as ovelhas a beber nos locais onde habitualmente o fazem as vacas. Mas, depois, recusar-se-iam a beber aí, porque detestam o cheiro das ovelhas,
— Mas a verdade é que ainda não fizemos nada disso. Se essa altura chegar, então veremos.
Jeff tinha resposta pronta para tudo. Em igualdade de situações, Dan estava convencido de que se comportaria exatamente do mesmo modo. E a prova é que estava a tentar criar simultaneamente as duas espécies de gado no seu rancho. Mas seria ele capaz de convencer igual-utente os seus vizinhos... sobretudo levando em conta que eles nem sequer se dignariam escutá-lo?
— Parece que te informaste muito bem acerca de tudo quanto é necessário para a criação destes bichos —observou.
— Não tenhas a menor dúvida — afirmou Jeff, com um sorriso nos lábios. — Sou a pessoa mais entendida nesta matéria deste lado do Rio Grande. E também sei limitas coisas mais. Por exemplo: dar uma lição àqueles que me mataram dois homens e cerca de um milhar de ovelhas, ensinando-os a não repetirem a graça.
— Como?
— Isso é segredo, Kid. É melhor que ignores esta parte das minhas atividades, para evitares desgostos.
— Proíbo-te que ataques Johnson, Leigh, ou qualquer dos outros.
— Os teus amigos podem estar tranquilos... se de facto estiverem inocentes. Angel! — gritou, voltando-se para um dos pastores que andavam por ali. — Tratem de recolher as ovelhas que ficaram em condições. As restantes, matem-nas. Conviria também lançar os cadáveres num fosso para evitar que empestem o ar quando entrarem em decomposição. As aves de rapina e os coiotes não conseguirão fazê-las desaparecer a tempo de evitar que a atmosfera fique irrespirável.
Angel escolheu três ou quatro companheiros e lançou-se imediatamente ao trabalho. Os restantes, depois colocarem os corpos de Alberto e Miguel Sánchez em cima de uns cavalos, regressaram ao rancho para descansarem, exceção feita para aqueles que tinham outra tarefas urgentes.
Pelo caminho, Tusky Benson, que desempenhava o papel de segundo capataz — o primeiro era o próprio Jeff — foi indicando as enormes medas de feno que estavam a armazenar, prevendo que a neve impedisse durante algum tempo a pastagem normal dos animais.
— Não te parece que já temos o suficiente? — perguntou Dan. — O Inverno promete não ser muito rigoroso. Já nos encontramos em pleno Verão índio, e ainda nem sequer caiu a primeira geada.
 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

PAS840. Ovelhas para a morte

— Ouviste, Miguel?
Ao mesmo tempo que pronunciava estas palavras, Alberto Sánchez pousou a mascarrada cafeteira numa pedra da lareira, erguendo-se. Embora estivesse muito longe de ser alto, mesmo assim tocava com a cabeça na ramagem que cobria a pequena cabana, fazendo de telhado.
— Ouvi, sim — respondeu o irmão. — Talvez seja algum coiote.
Um dos seus cães, que se havia introduzido sub-repticiamente na casa, espetou as orelhas ao mesmo tempo que arreganhava os dentes, rosnando ameaçadoramente. Vendo que Miguel empunhava o revólver, acompanhou-o, colado às suas pernas.
Alberto, depois de atirar mais uns ramos para o lume, seguiu-os.
Os outros três cães, atados a um toco de árvore, latiam furiosamente. Um deles deu um violento esticão na corda que o prendia, sem, no entanto, conseguir libertar-se.
Os dois mexicanos entreolharam-se no meio da escuridão.
— Não será um puma? — alvitrou Miguel, pouco tranquilo.
— Vamos ver. Vem cá, Cholo!
O único cão que estava solto começara a afastar-se, mas acorreu obedientemente ao chamamento, embora sem deixar de rosnar ameaçadoramente. Não podia haver a menor dúvida de que algo de anormal se estava a passar um pouco mais abaixo, no local onde tinham reunido os seus dois rebanhos.
— Solta os outros cães, Alberto. Eu vou andando.
O mais novo dos dois irmãos começou a avançar, enquanto Alberto voltava para trás a fim de fazer o que lhe tinha sido pedido. Porém, mal pusera as mãos no pescoço do primeiro cão, ficou imóvel como uma estátua. Nas suas costas acabava de fazer-se ouvir a inconfundível voz de um gringo:
— É melhor que não te mexas, Alberto. A minha arma está apontada para ti.
— Senhor Fred! — exclamou o mexicano ao reconhecer-lhe a voz. E com' esse reconhecimento acabava de assinar a sua sentença de morte, ainda que as anteriores intenções do assaltante pudessem ter sido outras.
Mas não para já... Ainda havia o outro que se afastara e, portanto, não podia descobrir imediatamente o jogo.
— Afasta-te dos cães... e com as mãos no ar. Se fores bom rapaz, não te acontecerá nada.
Os irmãos Sánchez eram ladrões, e talvez pior do que isso. Mas o que ninguém podia negar era que manifestavam uma fidelidade canina em relação a Jeff Withers que, num dos seus raros momentos de bondade, os havia a salvado de perecerem sob as patas de uma tresloucada manada de gado... que ele mesmo acabara de roubar.
Desde aí, pouco faltava para que beijassem o sítio onde ele punha os pés.
Não era, pois, de admirar que Alberto Sánchez estivesse mais disposto a deixar-se matar do que a permitir que alguém tocasse numa só ovelha do patrão. E ele estava certo de que Fred, despeitado por ter sido expulso, procurava fazer algo de prejudicial para os animais.
Aproveitando a escuridão, ergueu-se rapidamente. Tinha o revólver no cinto, onde o colocara para soltar os cães, mas era mau atirador, facto que não ignorava. Por isso, deitou a mão à afiada faca.
O seu braço recuou, preparando-se para lançar a cintilante lâmina. Mas Fred, que o conhecia perfeitamente, vendo o seu gesto e divisando o brilho do aço iluminado pelas estrelas, atirou imediatamente. Apenas uma vez.
Alberto nem chegou a aperceber-se do que lhe acontecera. A bala perfurou-lhe o crânio, impedindo o cérebro de emitir as ordens necessárias para que a faca se fosse cravar no coração de Fred.
O estampido do tiro cortou o silêncio da noite, ouvindo-se ao longe, embora não tanto que atingisse o rancho de Withers. Miguel, pelo contrário, ouvira perfeitamente a detonação. Regressara a correr, preparando-se Cholo para se lançar temerariamente contra o assassino do seu dono.
Porém, Fred não estava só. Ocultando-se com a noite, estavam emboscados Smiley e mais quatro indivíduos. Cão e pastor caíram crivados de balas antes de chegarem a constituir qualquer perigo para o malfeitor.
— Despachem-se, rapazes! — apressou Fred. — Fizemos muito barulho e passaríamos um mau quarto de hora se nos apanhassem aqui. Smiley! Prega um tiro em cada um desses cães!
— Para quê? — perguntou o outro.
— Imbecil! Trata de fazer o que te digo! Ou preferes que amanhã sigam o teu rasto e vão dar contigo na cama? Tu, Red! Vai buscar os cavalos e espera-nos ali em baixo.
Quando Red voltou com os cavalos, já os outros, sob a direção de Fred que era quem melhor conhecia os animais com que estavam lidando, os estava empurrando eu, determinada direção. Uma vez a cavalo, deitaram fogo a uma bolas de resina que pendiam de cordas e, fazendo-as revolutear, espalharam o pânico entre as ovelhas que fugiam.
A perseguição prolongou-se durante cerca de cinco minutos. Alguns animais conseguiram escapulir-se, mas a maior parte continuava a correr sempre em frente, procurando afastar-se daqueles monstros de fogo que os acossavam por todos os lados.
Loucas de terror, as ovelhas que iam à cabeça não repararam que, de repente, o solo desaparecia na sua frente. Um concerto de aflitivos balidos rasgou o ar quando os animais se precipitaram no abismo. As poucas que se aperceberam do perigo, empurradas pelas de trás, não o conseguiram evitar. Em poucos segundos, cerca de mil ovinos desapareceram no precipício.
— Pronto, rapazes — comandou Fred, exibindo os dentes num sorriso de satisfação. — Voltemos para casa.
Algumas das bolas de resina incendiadas haviam-se soltado quando as cordas que as prendiam se tinham queimado. Num ou noutro ponto das matas começava a irromper o fogo, originando pequenos incêndios. Os cavaleiros, porém, não se preocuparam nada com este facto., o rancho deles não corria o menor perigo.
Cinco minutos mais tarde, apenas se ouviam no local os lamentosos balidos das ovelhas que não tinham perecido na terrível queda. Os cadáveres de dois homens e quatro cães jaziam no solo, ilustrando um exemplo de lealdade recompensada a tiro.
O fogo, que primeiro se estendera lentamente para depois alastrar com crescente rapidez, completava este cenário macabro...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

BIS151. Chumbo na neve

 
(Coleção Bisonte, nº 151)
 
 

Muitas foram as histórias forjadas em torno da lendária figura de Jeff Withers — seu nome verdadeiro —aliás Leo Humphrey, aliás Kid Anson, aliás... A lista seria interminável, do mesmo modo que o eram as suas inúmeras façanhas que, de comum, apenas tinham uma posição permanentemente oposta à da Lei: roubo à mão armada em todas as oportunidades, desde o assalto a bancos, a diligências ou a um criador de gado bem instalado na vida; homicídio em qualquer dos graus; incêndios; raptos...
Infindáveis são ainda as versões que descrevem o modo como acabou a sua vida de bandoleiro. Há quem afirme que foi gravemente ferido num dos seus múltiplos trabalhos, e que a sua quadrilha o abandonou numa ignorada gruta das montanhas, para que se esvaísse em sangue; outros garantem que se retirou para o México para desfrutar pacificamente as suas mal adquiridas economias, mas que morreu numa rixa de taberna; outros ainda defendem a teoria de que terminou os seus dias na cama, cercado pela esposa mexicana e cinco filhos, os quais ignoravam a proveniência da sua fortuna.
Nenhuma destas explicações corresponde à verdade. Ao apropriar-se -das cinco mil ovelhas de Brett Sanders e das mil cabeças de gado bovino de um criador californiano cujo nome se desconhece, Jeff Withers pretendia apenas vir a estabelecer-se como criador misto. Não tinha qualquer outro plano ulterior, exceto o abandono de toda e qualquer catividade criminosa... possivelmente até que voltasse a surgir uma tentação demasiadamente forte. De modo algum estava arrependido das suas façanhas passadas.
Com o produto do seu roubo, escondeu-se no rancho do irmão, Dan Withers, o qual estava numa situação de ruína provocada por uma companhia que lhe pretendia ficar com as terras. A presença das ovelhas veio ainda piorar o ambiente relativamente a Dan e a situação foi resolvida com chumbo e sangue empestando a neve…