Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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domingo, 21 de junho de 2026

Sugestão de Leitura

 


    Já, aqui, vos falei da minha admiração pela poetisa  Graça Pires     .https://raraavisinterris.blogspot.com/2019/06/a-proposito-de-uma-poetisa.html. Hoje, sugiro-vos o que publicou este ano, durante a Primavera. Uma leitura fascinante que nos conduz pela beleza de imagens e de metáforas profundas. A prosa poética refina cada palavra como quem lapida diamantes. O que mais nos atrai é essa liberdade interior que se prolonga na liberdade poética dos seus versos sem amarras de normas de versificação.


                  Rito de passagem

Ocultei o olhar

para ver no fundo do abismo

o reino da água

com reflexos

de lágrimas e suor

de sangue e saliva

no recato da memória se doendo.

Neles me purifiquei para entrar

no labirinto das palavras.


                                 (o.c., pág. 281)

    

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Tantas coisas...

Ilha Folegandros, Grécia


    Passaram muitos dias e eis-me de regresso. Não, não estive em Folegandros, nem as minhas geometrias foram assim brancas na sua pureza inicial e limpa.    Quando os dias me reclamam, refugio-me em doces memórias gregas, ou em pesadas leituras.
    
    Com a minha anterior publicação gerei confusões, por se tratar de uma republicação. Foi, tão só, uma breve despedida de Edgar Morin, que na Feira do Livro de Lisboa, em 2024, me surpreendeu no Pavilhão das edições Piaget, com aquela obra, escrita já depois dos 100 anos, de uma enorme síntese mental, lúcida e certeira. A sua actualidade é merecedora de uma leitura reflexiva.

    E, na Feira do Livro, este ano, lá estive a cumprir o contrato com a minha pequena editora independente, mas que apostou em mim com uma edição tradicional. Os afazeres, tão diversos, que preenchem o meu quotidiano, não me permitiram vir aqui deixar este convite:


    
    A responsável por tudo isto lá esteve e foi o incentivo para me recordar quem sou: esquivo animal de província, que não procura a fama nem os prémios, mas que ama e acredita que a vida vale a pena.


Madalena, ao centro (com amiguinhos)


E, no meio dos passantes, desconhecidos para quem escolho palavras simpáticas, mas inócuas...surgem rostos de amigos!

A ventania não ajudou o esforço das cabeleireiras :)


Grata!


    Aquela que escreve não é esta que sou. Ocorre-me, então, um poema de Eugénio de Andrade de que muito gosto. Nele, bem se define o que penso sobre o que é a poesia. 

    Na próxima edição, vos darei nota de uma maravilha que, hoje, me chegou a casa.

    Por hoje, já mesclei muitos assuntos. Irei respondendo às vossas amáveis visitas, quando este calor do meu Alentejo me der alguma trégua - ao serão.

            Fiquemos, por ora, com essa poesia que anda descalça...e livre de certames.


A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

                                     Eugénio de Andrade

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Sala de Operações - nota de uma ausência

 




    O título é sugestivo e inquietante – lugar de luta contra a efemeridade da vida, lugar de morte, porventura. 
    Folheio, leio transversalmente e com a avidez de chegar ao miolo da obra...e deparo-me com a palavra “Ázigo”, vagamente penso no significado grego deste termo: “único”, ou ímpar, como o jovem e talentoso poeta que aqui vos apresento. Entremos na sala de operações, onde esta veia ímpar, que faz parte de um sistema de outras veias, se acomoda.
    Sou mais uma das suas leitoras. Lê-lo é surpreender-se, nessa fuga aos floreados, é mergulhar numa contenção que muito aprecio.
    Há no autor uma melancolia contida feita de  palavras esculpidas, mesmo quando o seu lirismo se afoga no corpo, no sentimento de uma “sala de operações” urbana que vê asséptica através de uma arte poética extraordinária, dissecada e precisa.
    Há nele uma consciência da fragilidade fragmentada da vida humana e a consciência de uma memória que me parece invulgar, num poeta tão jovem.
    O seu olhar é urbano, mas atento, diria mesmo cirúrgico.
    O ritmo, construído com versos de raras pausas, evoca o ritmo da vida urbana. Os versos, aqui e ali, têm sonoridades musicais (pág.19), apoiadas em aliterações e assonâncias.
    Os seus poemas detêm uma consciência uma invulgar para um autor tão jovem. 
    Os “carros” parecem ser os repositórios da vida urbana. Animizam-se sob um regime de imagens literárias penumbrosas, de uma meia-luz nocturna, crepuscular e sem brilho.
    Em toda a obra há uma liberdade criativa evidente também afirmada pela presença de poemas harmoniosos, numa construção sem amarras aos cânones tradicionais. A marca de algumas rupturas é feita de originalidade de um pensamento pós-moderno e individualizado. Noutros poemas, leio a ironia de O’ Neill que observa cirurgicamente os prédios, as paisagens que eram e já não são, na mudança fluida da cidade, onde tudo é precário e se transforma. Às vezes, Cesário Verde assoma no minucioso olhar sobre a cidade, mas na evocação do campo já nada se revigora e a doença permanece (p.p. 25/27).
    Que “alma velha” o habita para escrever assim(?) neste tempo em que a maioria  sucumbe a uma efémera sociedade espectáculo?
    Que nostalgia o leva aos lugares “de uma ausência”, (pág.32) como diria Maurice Blanchot, e o habita nessa geografia íntima que tão profundos poemas nos traz nessa sua arte poética? (“vapor”, pág. 32)
    Proponho, aos leitores, uma atenção muito especial ao sema da consciência social, presente nos poemas das p.p. 42 e seguintes e, em especial o poema da pág. 50, “Hannah” que antecede a parte intitulada “sala de operações”  concatenada com o poema com o mesmo título, na pág. 82. . Estes poemas constroem-se sobre intertextualidades diversas, mas de todos emerge a sensação da nossa inglória finitude.
    
    Parabéns, poeta André Osório, por tanta sensibilidade poética e por esta obra, em particular!


                                                                          Ana Tapadas



(Não pude estar presente, no dia 17 de Abril. Aqui deixo uma nota.

O luto impôs a viagem para Ponte de Lima, pois os meus partem em plena Primavera.)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

BARTLEBY, André Osório

 



Este biombo
repete o segredo

dos poemas em que me copio,
intrinsecamente,

com a humanidade à tona.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

A Paz sem Vencedor e sem Vencidos

 


Algures no Médio Oriente - José Alves


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos




Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Regresso

 


Judith Bergerson


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Então entra pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina (1943-2012)
Como se Desenha uma Casa
(livro também integrado na antologia Todas as Palavras)


Meus amigos, que o ano novo (que teima em envelhecer-nos) nos traga saúde.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Chuva


Guarda-Chuva. Rafal Olbinski. 2017


Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.


Nuno Júdice, "Um Canto na Espessura do Tempo", 1992

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Poema do Silêncio, José Régio

 

Ferragudo, Praia Grande - 2025


Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
- Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio, in As Encruzilhadas de Deus


    Depois de dias absorvidos pelo cuidado e pela família, estou de regresso. Aos poucos, irei visitando os @migos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Fui criança indo por um carreiro

 

Madalena - agosto 2025


Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

quarta-feira, 16 de abril de 2025

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio"

 

Alentejo, 2025


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.

                                               Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral, 1950



Alentejo, 2025


    Que este tempo de passagem vos seja leve e doce, meus amigos!


Pessach/Páscoa


segunda-feira, 31 de março de 2025

Cyclamen de Alepo

 

cyclamen cá de casa, 2025

Cantos para o amor
1
um eco de ti me disse:
“o segredo que fala de ti e de mim
não tem idade”
2
sabemos como podem amar as estações
sabemos que línguas falaram
no desconhecimento do vento e do espaço
3
não tenho medo
devo inventar o testemunho que
te corresponde

Entre teus olhos e eu
quando penetro meus olhos nos teus
vejo a alvorada profunda
vejo o antigo ontem
vejo isso que ignoro
e sinto que passa o universo
entre os teus olhos e eu

Unidade
o universo uniu-se a mim
suas pálpebras cobrem com as minhas
o universo ligou-se à minha liberdade,
qual dos dois criou o outro?

Não possuo edição portuguesa



    Pseudónimo de Ali Ahamed Said Esber, poeta conhecido por combater o sionismo e as ditaduras árabes, defende uma poesia livre das amarras das instituições políticas e das obrigações religiosas.

(Enquanto desviamos o olhar.)

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Ocasos

 

Dezembro, 2024 - Alentejo

    

    Foram intensos os ocasos de 2024. Ano tremendo, na acepção sacra da palavra - mysterium tremendum, sem contacto com o numinoso, diria eu num paradoxo tão do domínio das coisas que escapam ao entendimento. Muitas foram as contradições, muitos foram os fascínios -fascinans, qualidade estranha desse mistério que é a Vida. 
    Conheci a finitude do trabalho, que amei profundamente, e troquei-o pelo espanto e lazer de quem, finalmente, dispõe do tempo para contemplar as profundezas remotas do lugares esquecidos.


Loulé, 2024


    Fragrâncias exaladas do passado de onde só a recordação vai mantendo os meus ancestrais. Os mais velhos retiraram-se quase todos para a eternidade e o tempo vai fluindo para um rio, também ele, eterno...mas pleno do vigor que se alimenta de ideais, enquanto não desagua nesse Nada de que todos faremos parte.

Ana Tapadas - 12 anos



O jardim e a casa

Não se perdeu nenhuma coisa em mim. 
Continuam as noites e os poentes 
Que escorreram na casa e no jardim, 
Continuam as vozes diferentes 
Que intactas no meu ser estão suspensas. 
Trago o terror e trago a claridade, 
E através de todas as presenças 
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Adonis, "Na Sombra das Coisas"

 

Gianfranco Gazzetti , Museu de Aleppo, 2008




Na sombra das coisas

Gosto de ficar na sombra das coisas
no segredo delas, gosto
de entranhar a criação
de vagar como as ideias
como a arte que se entranha
e, incerto, incauto
renasço a cada dia.

                                          Adonis (tradução Michel Sleiman)

Adonis (em árabe: أدونيس, pseudónimo de Ali Ahamed Said Esber — Al Qassabin, Lataquia, Síria, 1 de janeiro de 1930) é um poeta e ensaísta sírio, com uma longa carreira literária no Líbano e em França, autor de mais de vinte livros em língua árabe. Considerado o maior poeta contemporâneo de Língua árabe.








terça-feira, 16 de julho de 2024

NÃO PRECISO DE DINHEIRO

 

Alvor, Junho de 2024



Eu não preciso de dinheiro
Preciso de sentimentos.

De palavras, de palavras escolhidas sabiamente.
de flores, chamadas pensamentos,
de rosas, chamadas presença,
de sonhos, que morem nas árvores,
de melodias que façam as estátuas dançarem
de estrelas que murmurem ao pé d’ouvido dos amantes…

Preciso de poesia,
essa magia que queima o peso das palavras,
que desperta as emoções e dá cores novas.

Alda Merini (Milão, 1931 - 2009), a "Miúda de Milão"


Original:

NON HO BISOGNO DI DENARO


Io non ho bisogno di denaro.
Ho bisogno di sentimenti.

Di parole, di parole scelte sapientemente,
di fiori, detti pensieri,
di rose, dette presenze,
di sogni, che abitino gli alberi,
di canzoni che faccian danzar le statue,
di stelle che mormorino all’orecchio degli amanti…

Ho bisogno di poesia,
questa magia che brucia le pesantezza delle parole,
che risveglia le emozioni e dà colori nuovi.




domingo, 19 de maio de 2024

Árvores

 

Suíça, Zurique, 2021


Sem fadiga, as árvores regressam
ao poema. Primeiro as laranjeiras,
a seguir entram as tílias.
Sempre estiveram perto, incapazes
de se afastarem dos pequenos
olhos imensos.
À sombra dos cavalos
podia vê-las chegar carregadas
do seu aroma, dos seus frutos frios.
A tarde chegava ao fim
mas tive tempo ainda
de as sentir, com um sorriso, aproximar.

                               
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, 2001

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Os poetas não morrem



                                         (n. Loulé, 14/01/1938 - m. Braga 16/05/2024) - pelo poeta


Saltei os cinquenta e acabo de entrar
Na via do mestre onde não há via nem
Glória para além do pé que pisa

As águas que passam. E vou com elas 

Assim leve nos acasos desta viagem

Sem retorno. Abandonei entre as ervas

Os livros de ouro e as moedas

De prata — o palácio do ser enfim desviado 

Das grandes estradas. O brilho das estrelas

Lembra-me que houve uma infância 
indecifrada.
Tanto melhor. Saltei os anos — 

Libertei-me da casca pouco a pouco 

Acumulada. Que mais desejar? Praias 

Desertas? Beber com a lua? Ouço a doce 

Respiração amada; divido com ela

O belo capital que me resta: estas mãos 

Vazias; velas de um corpo que desliza 

Entre as folhas do outono caídas no chão.

                                             Casimiro de Brito

    Conheci Casimiro de Brito pela mão da minha querida Ana Hatherly. Foi um encontro fugaz que, depois, continuou pelo "Facebook"...partiu hoje de Braga, deixando-nos uma obra extensa (mais de setenta títulos) e diversificada (poesia, conto, ensaio...). 
    É, sem dúvida, um dos maiores poetas portugueses dos séculos XX-XXI.




quarta-feira, 20 de março de 2024

O Jardim

 

Cá de casa, 2024

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.

               
António Ramos Rosa, in Volante Verde


Alentejo, 2024


sábado, 9 de março de 2024

Nunca

 

Care.org - Sudão


Um pardal com saudades de seu lar,
Empoleira-se na janela do coração;
seus olhos têm anseio,
Ele se estica para olhar as casas,
Nos céus distantes,
Esperando por uma manhã alegre,
Carregada de promessas,
Para pousar como um turbante,
Nos ombros de sua pátria.

Com cada golpe nós mergulhamos em um abismo escuro,
A junta de pés pesados ​​sitia nossas canções,
Agitam nosso tinteiro, confiscam sua paz interior.

Eles envenenam nossa alegre primavera,
E colocam seus focinhos em tudo.

Mais um sonho agradável eles desfiguram,
Aos olhos de cada mãe.
Mas eles não conseguem nos silenciar.

Nunca.

Em suas celas bebemos,
o xarope da perseverança,
Para permanecermos,
firmes e corajosos.

Ó meus tempos de prisão,
Ó minhas dores,
de saudade
e de tormento,
Se eu perder o contato com você,
Quem, neste tempo de coerção, eu seria?

Se eu perder contato com você eu vou trair,
Os pequeninos que ainda estão por vir,
Se eu perder o contato com você,
Vaidoso e egocêntrico eu me tornarei.

Enquanto eu tiver uma voz em meus acordes,
Que prisão — ou mesmo a morte — pode me silenciar?

Não.
Jamais sucumbiremos.

Eles não têm nada a dizer
Quanto ao nosso destino.

Não, eles não têm!
Somos nós que trazemos a vida
Aos poros mortos da dormência.

Minha querida,
minha companheira de vida,
No mais alto respeito, sempre te manterei.

Ó minhas amadas filhas,
Aninhadas à sombra das pessoas gentis.

Ó espaço luminoso ainda ao alcance dos olhos:
Aqueça-me com suas saudações pacíficas,
Com suas cartas.

Dê minhas saudações aos meus pares;
Dê minhas saudações às nuvens;
Dê minhas saudações à terra;
Dê minhas saudações à multidão;
E às palavras de romance,
Nos cadernos da juventude.


Mahjoub Sharif, poeta do Sudão (tradução de Raad Abdullah Ferreira)



ONU








segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

IRMANDADE


Odilon Redon, "A Morte de Buda"


Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octávio Paz



sábado, 6 de maio de 2023

Coroações

 

Jim Warren



Retrato de uma princesa desconhecida


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição




Sophia de Mello Breyner Andresen