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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Boas Vindas ao Trânsito na Serra


Tal como somos forçados a recordar cada vez que passamos na Calçada da Pena, foi aberto um parque de estacionamento na Tapada do Inhaca, à custa de corte de vegetação e de compactação de terrenos. Ao longo deste Inverno chuvoso, para nosso gáudio, o solo nu transformou-se num lamaçal intransponível, o acesso de veículos foi cortado e, por uns meses, pareceu que o antigo bosque poderia regressar.

Entretanto, a chegada da Primavera começa a afogar de novo a Serra em trânsito e nada leva a crer que a nossa Câmara Municipal dê conta de que tem alguma coisa a ver com o assunto. A Parques de Sintra, por seu lado, sempre velando pelo bem estar dos pagadores de bilhetes de entrada, decidiu voltar ao seu estacionamento inutilizado, munida de máquinas, rolos compressores e grandes telas brancas. Nos últimos dias têm-se atarefado a esmagar um pouco mais as raízes das árvores que sobrevivem, com o simpático intento de proporcionar um piso agradável aos pneus delicados dos visitantes automobilizados.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Uma Nova Velha Casa nos Lagos




Já sabemos que as acções mais unânimes da Parques de Sintra – Monte da Lua são as recuperações do património edificado. O Palácio de Monserrate e o Chalet da Condessa, em avançado resgate da sua ruína, são os exemplos mais vistosos, mas o trabalho também é apreciável nos edifícios menores espalhados pelos parques e tapadas. Já aqui tínhamos gabado a nova Casa da Lapa, hoje chegou a altura de mostrar as novas faces coradas de outra casa abandonada que estava em obras desde Abril.

Na casa da Entrada dos Lagos, tudo reluz como acabado de construir: o rosa das paredes, o encarnado dos telhados, o branco dos socos e dos beirados; os candeeiros do portão parecem ser mesmo novos, isto é, não nos lembramos (mas a nossa memória tem apenas duas décadas ou pouco mais) de alguma vez terem existido ali. O novo anexo escuro nas traseiras, que à partida poderia levantar mais reservas, não está mal para o nosso gosto, embora ainda não saibamos para que vai servir – aliás, para que vai servir exactamente todo este conjunto. Substituirá a actual entrada uns metros abaixo? O desaparecimento da obstrutora barraca de madeira onde se vendem bilhetes seria muito bem vindo.

O que menos nos agrada é um detalhe, mas um detalhe que grita aos ouvidos: aquelas duas bandeiras espetadas. Parecem-nos parte de uma compulsão para poluir a vista com acenos, reparos e chamadas de atenção, um fruto amargo da nossa época tão visualmente ruidosa. Ficamos a aguardar que os mastros enferrujem e caiam. Aliás, apesar de tudo reluzir como acabado de construir, daqui a alguns invernos, se tudo tiver corrido conforme previsto, tudo estará mais bem aconchegado ao seu lugar, ganhando sombras de musgo, mossas e manchas de idade.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Descintrificação (I)


A Sintra luxuriante dos nossos dias, tão diferente da que Herculano descreveu há século e meio, deve muito a uma migração de culturas dendrófilas norte-europeias, que aqui se aclimataram com resultados que hoje vemos como a quintessência sintrense – desde logo, à cabeça, a germânica Pena, seguida do seu irmão britânico menor, Monserrate. Mas as recriações do Jardim do Éden não se ficaram pelas grandes escalas: foram generalizadas com várias intensidades e diferentes sucessos, desde a grande quinta histórica à casa de bonecas com o seu pátio de um palmo.

Foi e continua a ser o conjunto de acções de múltiplos proprietários inspirados, com os seus parques públicos ou privados, a fonte primeira desse deslumbrante equilíbrio de paisagem que conhecemos, em parte edificada, em parte natureza domesticada, em parte quase selva. Porém, quando estes proprietários são contaminados pelo ódio meridional à arborização séria e perdem o sentido dos seus deveres e da sua responsabilidade, os resultados são desastrosos: Sintra descintrifica-se.

Na base das escadinhas de Santa Maria havia uma casa no meio do seu jardim-selva, próprio de um local há muito tempo em quase abandono. Precisava de quem tratasse dele, é certo, mas o recanto, para quem passava nos caminhos em volta, era um gosto de sombra e verde saturado. Há poucos anos a casa foi comprada por diplomatas, cremos que vindos de um lugar hispânico – talvez o deserto de Sonora, talvez o de Atacama, talvez um pedaço dos mais estéreis de Castela Nova ou Aragão. Atarefaram-se em obras na casa e no jardim, e o resultado foi este:


Não gostamos dos detalhes decorativos, mas é mera questão de gosto, tal como o são, de outro modo, o pavilhão de churrasco e a piscina. Mas arrasar toda vegetação e cobrir o chão de lajes em forma de calçada calcária é puro crime lesa-Sintra para o qual não há perdão. Um sítio magnificamente sintrense transformou-se assim num sítio desgostoso a evitar. A única réstia de esperança está agora na placa “vende-se” pendurada após a devastação. Roga-se aos futuros proprietários um pouco mais de sensibilidade e algum reconhecimento pelo lugar único que lhes será permitido partilhar. Plantar um jardim-bosque que merecesse Sintra seria um bom começo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nosferatu e os códigos de barras

Quem goste do ecrã demoníaco alemão dos anos 20, ou quem apenas tenha simpatias góticas, pode assistir aqui à projecção do Nosferatu, eine Symphonie des Grauens. O próprio vampiro foi surpreendido (ou podia ter sido, se resistisse à luz do sol) a apontar uma das etiquetas que de repente se propagaram pelas árvores do Parque da Pena.



O arquitecto da recuperação do Chalet da Condessa, que entusiasticamente nos descreveu algumas das acções em desenvolvimento no Parque, referiu entre elas a georreferenciação sistemática das suas árvores – ou seja, a sua localização em cartografia digital, associada a informação mais ou menos exaustiva sobre cada exemplar – que para este efeito passariam a estar identificadas por uma etiqueta com um código de barras. Poderá ser, ao que parece, um instrumento de gestão precioso.

Confirmando a tendência do bem e do mal para sempre se apresentarem de mãos dadas, o resultado visual e simbólico desta boa notícia deprime um pouco. Os seres vegetais gloriosos que povoam o nosso Parque transportam agora todos, presa ao tornozelo, a sua correia preta e o seu código de barras, reminiscentes das pulseiras dos condenados em prisão domiciliária. Nós próprios, num transporte pessimista, antevemos já a sugestão de um futuro distópico em que todos traremos gravadas as barras do nosso código, para nossa georreferenciação e para nosso bem. Ou um futuro de empobrecimento e um novo ciclo de abandono da Pena, transformada em acacial-pitosporal cerrado, no qual os restos da floresta passada se resumem a restos abandonados de correias e códigos de barras, difíceis de biodegradar.



Ou pelo contrário: a identificação é leve e pouco perturbadora, os benefícios de um conhecimento mais exaustivo vão tornar-se evidentes à medida que avance o controlo das invasoras e a reflorestação exemplar dos sectores degradados, e o Parque da Pena renascerá para uma nova época de glória. Podemos aguardar por uma ou outra coisa entretendo-nos com o Nosferatu oferecido pelo mundo virtual, um vampiro kitsch aprisionado pelo seu destino mesmo sem código de barras.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Casa da Lapa quase nova


As obras na Casa da Lapa (já aqui tínhamos referido o seu início) avançam rapidamente e, passo a passo, o edifício vai-se tornando acabado de construir. A recuperação é rigorosa e mantém, em grande parte, materiais de época, quer na estrutura, quer nos acabamentos – como também já afirmámos, as obras de recuperação de edifícios são as acções da Parques de Sintra mais unanimemente aplaudíveis, pelo que estamos na expectativa de aplaudir outra vez. Quanto ao anexo das traseiras, feito de novo, precisa de atingir uma fase mais avançada para um veredicto final.




segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os lagos da Condessa d’Edla ao fim da tarde

Referimos ontem a recuperação das canalizações em volta do Chalet da Condessa, que permite ver de novo os pequenos lagos transbordando de água límpida (muitos, nós próprios incluídos, nunca tal tinham visto). Aqui estão eles, quase gémeos, o primeiro a norte do Chalet, o segundo a sul (um terceiro irmão mais sombrio, também a norte, recusou mostrar-se apresentável à nossa objectiva). Para já, estas águas vivas aliviam a desolação deste lado do Parque.



Na encosta poente do Chá, ou seja, uma boa centena e meia de metros a sul do Chalet, cintilam outros dois lagos mais selvagens – o segundo pouco mais que um tanque rochoso – a pouca distância um do outro. Aqui estavam perdidos num mato denso de pitósporos e acácias (que adoram estas paragens e já despontam de novo). Agora, após os cortes que alteraram tão dramaticamente o ambiente da Tapada, estes lagos de novo cheios são uma descoberta reconfortante, à luz do fim da tarde.


domingo, 12 de julho de 2009

Visitando a Condessa d’Edla


No fim do inverno passado, quando descíamos a devastada Estrada dos Capuchos, passando junto da entrada do Chalet da Condessa, deparámos com o novo portão luzidio aberto e decidimos entrar. Na parede do novo edifício aí construído estava, e continua a estar, um painel que identifica, em grandes manchas sobre uma planta, os limites das obras que já decorrem ou que se preparam (clique e amplie):


Fomos interpelados por um senhor que educadamente nos informou que aquela parte do parque estava fechada e que não podíamos estar ali. No entanto, porque do nosso lado havia óbvia curiosidade sobre o que se estava a passar e porque do outro lado havia um grande vontade de mostrar o que se passava, tivemos uma curta visita guiada ao novo edifício e à envolvente do Chalet, com uma descrição entusiasta do que já estava feito e do que faltava fazer, desde detalhes do processo de recuperação de materiais e técnicas construtivas até aos resultados da recuperação das redes de canalização que alimentam os lagos daquela parte do Parque. Tratava-se, fomos sabendo, do arquitecto responsável pela reconstrução do Chalet, que tinha acabado de conduzir a visita dos responsáveis pelas petrocoroas norueguesas que pagam, numa parte que não deve ser pequena, esta obra complexa. Disponível (estava-se bem dentro da hora de almoço) e desinteressado, oferecia-nos agora uma segunda visita.

A reconstrução de edifícios e infra-estruturas parece ser, talvez, a parte mais unanimemente bem sucedida da actuação da Parques de Sintra, ainda que o prazo avançado pelo arquitecto para a conclusão do Chalet (ainda este ano) não pareça fácil concretizar a quem hoje, em Julho, observe o estado da obra: a casca envolta em andaimes não parece muito diferente do que era há quatro meses. Em todo o caso, estamos à espera de resultados para aplaudir:


O abandonado jardim à volta não parece ter ainda sofrido alterações de vulto, para alem dos cortes que, em qualquer caso, não lhe melhoraram o aspecto. Ao longo de todo, ou grande parte, do perímetro identificado como “área de intervenção” no painel de cima, está a ser construída uma vedação que promete manter toda esta área isolada durante muito tempo. Entretanto, o recato deste local desapareceu com os cortes que arrasaram a Estrada dos Capuchos. O muro da Tapada e a desolação envolvente ficam logo em frente:


Uma palavra para o novo edifício frente à ruína do antigo, como uma grande roulotte high-tech sem rodas, a que com pompa foi chamado Centro Cultural do Chalet da Condessa e que, julgávamos nós, seria provisório, apenas para apoio das obras e da sua divulgação. Talvez tenha grande utilidade, talvez seja o mais discreto e menos intrusivo que poderia ser, mas o melhor que dele podemos dizer é que seriamos mais felizes se não existisse:


Enfim, no seu estado actual, a melhor imagem que se recolhe neste recanto ocidental da Tapada da Pena obtém-se do alto das “Pedras do Chalet” para nascente, olhando para bem longe do estaleiro:

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Lago Maior de vez

Imagem no Flickr

Aqui está um postal ilustrado de uma entrada nos Alpes: uma nesga de Santa Caterina del Sasso pendurada sobre o Lago Maior. Na entrada central do Parque da Pena não existe nenhum antigo convento dominicano-carmelita, mas antes um castelo onde até há dois anos reinavam patos, cisnes e aves afins. A água do seu lago desapareceu entretanto, e as aves com ela.

Sempre foi para nós intrigante a razão porque os engenheiros de D. Fernando II tinham conseguido construir um lago estanque tão durável enquanto a tecnologia do século XXI parecia incapaz de manter seguras aquelas águas por mais que alguns dias. Assistimos ao encher e vazar alternado do lago, que permanecia a maior parte do tempo uma cova escura coberta de telas amarrotadas, com aparência de petróleo derramado, e um castelo desabitado no meio de lama e folhas mortas. Era um dos fracassos da Parques de Sintra com explicação difícil. E uma perda grande para os patos destronados e para as fotografias de domingo.


Desde há poucas semanas que o Lago Maior (aliás, Lago de São Martinho) pode ser visto de novo a transbordar – agora de vez, segundo os optimistas – com os seus mais de cinquenta metros de comprimento, um pouco abaixo dos cinquenta quilómetros do homónimo italiano. Conta, no entanto, com um castelo que está pronto para a restauração do reino dos patos e dos cisnes, enquanto que Santa Caterina perdeu os seus frades e hoje só pode aspirar a ser passeio de muitos turistas, pouco tempo cada um.

sábado, 30 de maio de 2009

Parques de Sintra e participação pública: a propósito de outra mancha desarborizada

Vista do Castelo



Vista da Estrada da Pena

Vê-se bem do Castelo dos Mouros a mancha desarborizada de que aqui demos conta há umas semanas. Trata-se do derrube de muros e do corte de árvores na Tapada dos Bichos, do lado esquerdo de quem sobe a Estrada da Pena, próximo do cruzamento dos Capuchos, um dos troços que se contavam entre os mais frondosos deste caminho. Ao nosso pedido de informação, recebemos esta resposta da Parques de Sintra, subscrita pelo presidente do seu Conselho de Administração, António Lamas:

«Quanto às aberturas praticadas no muro da Tapada dos Bichos que referem, esclareço que foram necessárias para a remoção das ramadas e troncos das árvores resultantes das limpezas efectuadas nesta zona. Após conclusão dos trabalhos estas serão de novo fechadas, mas uma será, provavelmente, transformada em portão, de modo a proporcionar um caminho pedonal através da Tapada até ao parque de estacionamento dos Lagos. Esta iniciativa faz parte do alargamento da rede de caminhos pedonais que, partindo da Vila, permitam alternativas ao uso da Calçada da Pena.»

Apreciamos este aparentemente simples facto: recebermos respostas rápidas às nossas interrogações, distante da cultura autista da nossa administração pública. Mas gostávamos ainda mais de não sermos sobressaltados a cada passo por mais um acto consumado: mais motosserras em frenesi em mais uma encosta e mais uma mancha florestal “limpa”. Vai ser substituída? Por um estacionamento? Por uma estrada? Por um parque de diversões? Por um condomínio residencial? Por carvalhos, faias e castanheiros? Quando, como, porquê e mais todas a perguntas que interessam a quem se interessa?

Aqui chegamos ao grande pecado da Parques de Sintra, gestora deste nosso património. Se há um plano que guia as suas acções, ele já deveria ter sido tornado público, já deveria ter sido sujeito a discussão e já deveria ter sido – necessariamente – ajustado em resultado dessa discussão antes de tomadas decisões finais. Aqui, a Parques de Sintra assemelha-se mais à velha administração pública (ou a uma empresa de interesse privado). Não acreditamos em entidades infalíveis e benignas, nem nos bons povos dóceis e agradecidos. Estamos convencidos de que os resultados do trabalho da Parques de Sintra seriam melhores e mais reconhecidos se se fundassem em participação pública séria, e cabia à Parques de Sintra a obrigação de a dinamizar – afinal, o que se está a passar nesta Serra, com os milhões anuais que agora aqui se derramam, pode bem ser o mais intensivo e radical conjunto de transformações desde os tempos fundadores de D. Fernando II.

sábado, 2 de maio de 2009

O Tanque de Seteais

O interior do Palácio de Seteais pode ter sido sujeito a obras de recuperação modelares, mas o belo tanque no extremo sul do parque foi simplesmente destruído, transformado em casa de máquinas, com um espelho de água como cobertura recordando o antigo uso. Se a alteração da função nos parece uma muito má ideia, os pormenores (pormenores finais?) são revoltantes. Um portão tipo corta-fogo-em-estacionamento-de-centro-comercial? Uma rede verde tipo galinheiro chique? Eis a desgostosa visão a partir da Estrada Velha de Colares:

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Obras pela Serra

Há já algumas semanas que decorriam obras em edifícios abandonados dos parques e tapadas públicas da Serra. Hoje vimos que foram colocadas placas identificadoras dos trabalhos e descobrimos que a Casa da Lapa, uma das duas antigas casas das Matas Nacionais na Calçada da Pena, junto ao início do caminho para Santa Eufémia, está a ser convertida em Centro de Acolhimento para Visitas Pedonais ao Castelo dos Mouros e Parque da Pena:


A Casa do Guarda do Portão dos Lagos será um Centro de Acolhimento de Visitantes da Zona dos Lagos e Feteira da Condessa:


Por fim, a Casa do Guarda do Castelo dos Mouros, na menos utilizada das três entradas da Tapada do Castelo, deverá tornar-se um Centro de Interpretação Ambiental:


As intervenções nos edifícios históricos são talvez das acções mais visíveis e mais unanimemente aplaudidas da nova gestão da Parques de Sintra e vemos com muita satisfação chegar a vez da recuperação dos "edifícios menores".

Entretanto, mais transformações, desta vez no coberto vegetal e ainda sem qualquer identificação, deixam-nos mais perplexos e motivam novo pedido de informação aos gestores dos parques. Uma, exactamente em frente da obra da Casa da Lapa, já na Tapada do Inhaca, consistiu numa abertura do muro, no corte de toda a vegetação rasteira e na cobertura do solo com madeira triturada:


Outra adjacente à Estrada da Pena, muito próxima do cruzamento para os Capuchos, um troço outrora em sombra profunda onde agora se pode ver um sério pedaço de desarborização:


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Glicínias arrancadas em Seteais


Congratulamo-nos com o restauro (ainda não completamente terminado) do Palácio de Seteais – propriedade da cadeia Tivoli Hotels & Resorts. O que não compreendemos é porque é que dessa recuperação resultou o arranque das glicínias que cresciam ao longo das paredes laterais da rampa de acesso ao miradouro central.

De facto, não estando estas em nenhuma das fachadas nobres (ou, sequer, menos nobres) do palácio mas crescendo, simplesmente, em dois muros de suporte não vislumbramos qualquer razão objectiva para esta abrupta eliminação. Em vez delas, apenas calçada e paredes imaculadamente pintadas. No entanto, do lado de lá de um dos muros, surgiu uma complexa (e bem visível) maquinaria metálica – que acreditamos necessária ao funcionamento do hotel. Mas necessárias eram também as glicínias que ali existiam.


Talvez o corte das glicínias do miradouro de Seteais pareça a muitos – a começar pela direcção do hotel, os autores do projecto de restauro ou a Câmara Municipal que licenciou a obra – um pormenor sem grande significado ou importância. A verdade, porém, é que Sintra é feita destes pormenores. Mesmo quando, como aqui em Seteais, ela parece ter uma dimensão monumental, a sua grandeza é o resultado de uma sábia mistura entre arquitectura e paisagem, natureza e artifício, intenção e surpresa. Basta olhar para as fotografias que apresentamos para perceber o óbvio: o miradouro de Seteais ficou mais pobre. Como mais pobre ficou, por isso, Sintra. Tal como nós, impossibilitados doravante de ver florir as glicínias em Seteais.


quinta-feira, 16 de abril de 2009

Resposta da Parques de Sintra

A Parques de Sintra - Monte da Lua, através do presidente do seu conselho de administração, António Lamas, foi célere, extensiva e muito clara na sua resposta às questões que colocámos sobre a ligação a Santa Eufémia. Aqui transcrevemos na íntegra o texto recebido, a que juntamos três das dez fotos que o acompanhavam (legenda nossa):

O caminho antigo para Santa Eufémia


A nova estrada para Santa Eufémia


O início da nova estrada para Santa Eufémia


Agradecendo a oportunidade de esclarecer a obra de recuperação do caminho de ligação entre Santa Eufémia e a Tapada do Shore, informo o seguinte:

  1. Este antigo caminho, situado entre a Tapada do Forjaz e o Parque da Pena, que foi calcetado, ligava pelo exterior do muro Sul do Parque da Pena dois dos seus portões: o de Santa Eufémia e o da Tapada do Shore junto à Pousada Azevedo Gomes, há muito entrada de serviço no Parque para quem vem de São Pedro. Esta ligação foi com o tempo perdendo interesse, pois o caminho, íngreme, degradou-se muito com enxurradas, que foram arrastando o saibro e as pedras da calçada, e tornou-se intransitável.
  2. Para conforto e segurança dos visitantes criou-se um estacionamento calcetado junto ao portão da Tapada do Shore, que passou a ser o acesso de serviço ao Parque e Palácio da Pena. Esta decisão e a recente ocupação da Pousada Azevedo Gomes pela GNR, para além do acesso ao arquivo da ex-Direcção Geral de Florestas, implicaram um aumento de tráfego de dois sentidos na estreita ligação entre a rampa de Santa Eufémia e o largo da Pousada, o qual não permite o cruzamento de veículos.
  3. Com a recuperação do caminho de ligação entre Santa Eufémia e a Tapada do Shore, o acesso ao largo da Pousada (portão de serviço da PSML, GNR e arquivo) passou a poder ser feito, em condições de segurança, pelo Alto de Santa Eufémia, com saída para a rampa de Santa Eufémia, criando-se um anel de sentido único. Não foi criado nenhum novo acesso à ermida. A sinalização de tráfego foi acordada com a GNR.
  4. A directriz adoptada foi ajustada o mais possível ao traçado existente, excepto na zona de chegada ao portão e Pousada, onde houve necessidade de aumentar o largo, recuando o muro da Pena para permitir a entrada no portão. Os muros foram recuperados utilizando a técnica tradicional (pedra de granito irregular e argamassas de cal), à semelhança do que também tem sido prática em todas as propriedades geridas pela PSML, exceptuando-se a parte de muro recuado que tem função estrutural de suporte do caminho, executada em betão armado, a bujardar.
  5. Na recuperação dos principais caminhos nos Parques da Pena e de Monserrate que a PSML vem efectuando desde 2007 (até final de 2008 foram recuperados cerca de 5km), tem sido utilizada a calçada de cubos de granito, como na Calçada da Pena. Esta era também a solução pretendida para a recuperação do caminho em causa, descrita no painel explicativo da obra, mas tal não foi possível por questões de aderência dada a sua grande inclinação. A solução encontrada seguiu a preconizada na rampa de Santa Eufémia, com a utilização de betão estriado em detrimento de alternativas em asfalto, mais agressivas do ponto de vista ambiental e estético.
  6. O largo de Santa Eufémia foi também beneficiado com reparação do pavimento em saibro. A segurança deste espaço, que era reconhecidamente “mal frequentado”, ficou também melhorada com a passagem das viaturas de serviço da PSML e, em especial, da GNR.

Para melhor ilustração da recuperação em causa junto envio imagens do antes e depois.

Com os melhores cumprimentos,


António Lamas

Presidente do Conselho de Administração

Parques de Sintra - Monte da Lua, S.A.

Parque de Monserrate, 2710-405 Sintra

Tel: + 351 21 923 73 00

Fax: + 351 21 923 73 50

antonio.lamas@parquesdesintra.pt

http://www.parquesdesintra.pt

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Nova estrada para Santa Eufémia e uma estranha placa


Existe desde há poucas semanas uma nova estrada para Santa Eufémia. São cerca de 100 metros ligando ao terreiro da ermida o núcleo de edifícios semi-abandonados, pouco mais que centenários, que em tempos recentes foram pousada de juventude e actualmente albergam a GNR. A estrada substitui um caminho pedonal – bastante selvagem, desde que nos recordamos dele – ainda assinalado por placas indicando a direcção de Santa Eufémia.

A nova estrada para Santa Eufémia, em Janeiro e em Abril


A nova via implicou o corte de alguns metros quadrados do perímetro da tapada da Pena, cujo muro foi derrubado e reconstruído um pouco recuado. Parte dele é agora muro de suporte em betão. Trata-se, como se pode ver nas fotografias, de um perfil estreito, com valetas em cubos de granito e pavimento em betão. Os automóveis circulam em sentido único, descendo esta nova estrada e continuando pela antiga até à estrada de Santa Eufémia.


O estranho aqui é a placa informativa que identifica a obra e o seu financiador, o Programa Ambiente da UE. A placa salienta, a vermelho, o traçado do antigo caminho (e não o da nova estrada), descrevendo a obra como sendo a “recuperação do caminho de ligação”, a pavimentar “em calçada de cubos de granito”, o que não corresponde obviamente à obra executada.

Não temos a certeza de ser preferível, ou mais justificável, ter a recuperação do antigo caminho em cubos ou a nova estrada em betão, mas vamos questionar a
Parques de Sintra sobre este assunto e voltaremos à questão.