quinta-feira, 3 de setembro de 2026

João Távora


foto de 2017 com o irmão José Abrantes e com uma camisola dos Genesis

A IRMANDADE

(...)

Deus plantou quatro irmãos na minha vida, e no princípio eram eles os principais povoadores do meu mundo de brincadeiras e que me ajudavam a relativizar os sucessos e frustrações vividos fora de casa. Éramos cinco, conhecidos pelas outras casas da família pelos “Abrantes”. Todos em escadinha, pouco mais de um ano de diferença entre cada um, não me perguntem como, mas cabíamos num Volkswagen carocha com o meu pai ao volante e a minha mãe com a mais pequena ao colo no lugar do morto. Foi nesses preparos que viajámos algumas vezes para férias de Lisboa para Milfontes.

Os meus irmãos eram o barulho à minha volta, o choro e o riso, horas e horas de brincadeiras, provocações, lutas e disputas que preenchiam o imenso tempo livre que tinham as crianças do meu tempo. Mas foram os tempos difíceis de uma crise complicada que vivemos a seguir ao 25 de Abril que nos obrigaram a crescer mais depressa e nos entrelaçaram para sempre. Por essa altura a treinar a democracia em casa, habituámo-nos a dizer uns aos outros o que nos passava pela cabeça – a sinceridade é um perigo - e foi devagarinho que a vida cuidou, com algumas zangas de premeio, de nos ensinar a preservar melhor os espaços de cada um. Mas julgo que foi também por causa dessa cumplicidade excessiva que os nossos conflitos sempre se resolveram, com a ajuda do tempo e com pedidos de desculpas, mais ou menos hesitantes, mais ou menos a contragosto. 

(...)

João Távora, 01/06/2017

Personagens de Banda Desenhada que mais me marcaram a existência

Em primeiro lugar, estará sempre o Tintim de Hergé. Meu companheiro de infância, de sonhos e brincadeiras. Do pequeno e inocente Tintim do Ídolo da "Orelha Quebrada", passando pelo sofisticado Tintim do "Carvão no Porão" e acabando no adulto e contemporâneo Tintim do "Voo 714 para Sydney".

João Távora, 18/06/2006

Quero prestar também aqui a minha homenagem a Hergé. Discordo apenas do João Villalobos quando mistifica a versão “animada” de Tintim que foi para mim uma autentica desilusão, um susto, uma afronta ao meu imaginário. É que a mim puseram-me um álbum do Tintim nas mãos antes sequer de eu saber o meu próprio nome. Afinal não fui eu que lhe dei voz e movimentos? Até fui eu que inventei as tramas, enquanto folheava atento os livros ainda sem saber ler... O Tintim na TV chocou-me desde logo com a veleidade daquela animação tão deficiente e a histérica dramatização daqueles guiões sempre simplificados. Fiquei definitivamente enciumado com a exposição pública e banalização do meu herói. Quase desde o berço que passeei por dentro daqueles quadradinhos, daquelas histórias e mistérios. Lembro-me das horas estáticas, de pernas cruzadas, em puro deleite passadas diante da ultima prancha do álbum Carvão no Porão, aquele insólito e colorido rally nos jardins de Moulinsart. As horas passadas em êxtase, fisgado num só quadradinho, invejando o pequeno carro vermelho do rebelde Abdallah em No Pais do Ouro Negro. Hergé deu-me os meus melhores amigos de toda a infância, de quem aliás fui íntimo. Com o Tintim e Milou fui crescendo e lutei contra os sovietes e contra a máfia. Ajudei a libertar os escravos e lutei contra o tráfico de droga. Fui também à lua, onde ia perdendo os meus amigos todos e não salvei o Engº Wolf de uma heróica morte. Planei arrastado por um condor pelas encostas dos Andes. Tremi de medo e gelei de frio a caminho do Tibete, num hino à generosidade. Comovi-me com o cão mais simpático do mundo, ri-me com os excessos do bêbado mais divertido de todos, o Capitão Haddock. Ao Hergé ficarei sempre grato pelos amigos que me proporcionou. Hergé será por certo responsável por muitas das mais felizes horas da minha infância, e por isso ser-lhe-ei sempre grato.

João Távora, 22/05/2007

texto compilado depois no livro "Liberdade 232" pp. 174 -  JT, 06/06/2013

Liberdade 232 é uma selecção de comentários, crónicas e memórias, publicadas entre 2006 e 2012 por João Távora em diversos blogs e agora convertídos num livro com 192 páginas ilustrado com fotografias de Ozias Filho e do arquivo do autor. Assumindo um discurso virado para o imenso “páteo dos gentios” (existencial e político), dividido em cinco capítulos temáticos onde as fronteiras muitas das vezes revelam-se difusas, o livro tem o nome de uma Avenida de Lisboa e número de uma porta que o autor reclama de particular significado na sua iniciação ao Mundo.

+

(Foi) um dos melhores amigos que tive na infância. Sim, também eu descobri os livros do Tintim antes de saber ler num armário do quarto dos meus tios na casa da Avenida e os folheava inebriado, na pele do meu herói. Lembro-me bem com seis anos quando saiu o "Voo 714 para Sydney" de devorar cada quadradinho, das fúrias do Capitão Haddock com o insuportável Senhor Carreidas, multimilionário dono daquele fascinante avião que antecipava a chegada do Concorde – e como me fascinavam aqueles carros e aviões desenhados por Hergé que pareciam verdadeiros modelos daqueles que se vendiam nas lojas de brinquedos para mim inacessíveis.

O facto é que fui descobrindo as diferentes camadas narrativas de cada aventura à medida que fui ganhando habilidade na leitura. Ficámos mesmo amigos, e recordo-me de em pequeno estranhar o facto de Tintim se tratar apenas de uma personagem de ficção, tão vivo que parecia dentro da minha mente. Fui com ele à Lua, às florestas tropicais da Índia ou da América Latina, fui à China, mergulhei entre tubarões, corri pelas galerias de Moulinsart, entrei no Palácio do bondoso rei da Sildávia que enfrentava os revolucionários republicanos, foi na alvura dos Himalaias que mais me emocionei com o verdadeiro sentido da amizade e da nobreza de caracter dos meus heróis na busca do jovem Tchang capturado pelo descomunal Yeti. 

(...) fiz questão de introduzir aos meus filhos todo o universo do Hergé, que para lá dos livros, há longos anos acompanha as rotinas da família na forma de um elegante calendário Tintim que a cada mês de Janeiro penduramos na cozinha. Na verdade, acreditem ou não, o Tintim não é apenas um ícone para a minha família, é nosso amigo mesmo - de longa data.

João Távora, 11/01/2019 blog


Qualquer dia vai tudo para a fogueira


Chamem A Policia


+

Talvez porque me puseram um álbum do Tintim nas mãos antes sequer de eu saber o meu nome me tenha chocado a versão deficientemente animada, a estranheza daquelas falas mal dobradas e simplificação das histórias na TV. Afinal não foi a minha imaginação que lhe deu voz e movimentos? Até fui eu que inventei as tramas, enquanto folheava atento os livros ainda sem saber ler... Com o Tintim na TV fiquei definitivamente enciumado com a exposição pública e a banalização do meu herói.

Quase desde o berço que passeei por dentro daqueles quadradinhos, daquelas histórias e mistérios. É por isso que nunca consegui entregar de bom grado o Tintim ao mundo, como se cada aventura guardasse um segredo só meu, um pacto silencioso entre leitor e personagem. O eco das páginas lentamente viradas nas tardes soalheiras das férias intermináveis, o cheiro do papel, os risos partilhados com Milou e os sermões científicos do Professor Girassol, tudo isso moldou um universo privado onde os heróis eram eternos e os perigos, embora assustadores, terminavam sempre com um sorriso de esperança. E aquilo que hoje escapa a muita gente, a bondade de Tintim, a generosidade desse herói profundamente cristão.

Lembro-me das horas estáticas, que passei de pernas cruzadas, em puro deleite diante da última prancha do álbum Carvão no Porão, aquele insólito e colorido rally nos jardins de Moulinsart. As horas passadas em êxtase, fisgado num só quadradinho, invejando o pequeno carro vermelho do rebelde Abdallah em No Pais do Ouro Negro. Hergé deu-me os meus melhores amigos de toda a infância, de quem aliás fui íntimo. Com o Tintim e Milou fui crescendo e lutei contra os sovietes e contra a máfia. Ajudei a libertar os escravos e lutei contra o tráfico de droga. Fui também à lua, onde ia perdendo os meus amigos todos e não salvei o Engº Wolf de uma heróica morte. Planei arrastado por um condor pelas encostas dos Andes. Tremi de medo e gelei de frio a caminho do Tibete, num hino à generosidade. Comovi-me com o cão mais simpático do mundo, ri-me com os excessos do bêbado mais divertido de todos, o Capitão Haddock. Ao Hergé, genial criador destas histórias ficarei sempre grato pelos amigos que me proporcionou.

Com o passar dos anos, aquelas páginas passaram a ser refúgio e companhia, à medida que a vida se tornava mais complexa e o mundo parecia mais vasto e menos decifrável. Os personagens iam-se densificando. A cada releitura, descobria detalhes antes despercebidos, diálogos que se revelavam mais espirituosos, enigmas que cresciam em profundidade conforme a minha própria compreensão amadurecia. Havia sempre um novo segredo guardado entre os balões de fala, uma nuance nos olhares das personagens, uma nota de humor que só se revelava ao leitor mais atento. Assim, as aventuras de Tintim transformaram-se num território de familiaridade e surpresa, onde a infância encontrava refúgio e o espírito de aventura permanecia ao alcance das mãos.  

Por tudo isto em minha casa se cultiva este extraordinário herói e os seus amigos, e todos os anos se estreia em lugar de destaque um vistoso calendário temático publicado pela editora. E ainda hoje ao reencontrar um álbum em lugar nobre da estante, sinto a mesma emoção pueril, na expectativa de uma nova descoberta, como se a infância se deixasse viver, uma e outra vez, através da magia das linhas claras e cores vivas do desenho de Hergé. Ele é por certo responsável por muitas das mais felizes horas da minha infância, e por isso ser-lhe-ei sempre grato.

Texto adaptado duma troca de impressões escritas, no tempo áureo dos blogs.

JT,  03/09/2025

álbum preferido:

A partir de “As sete bolas de cristal” a escolha é muito difícil. Talvez “O caso Girassol” ou  “Tintim no Tibete”.

CF

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Oliveira da Figueira

O primeiro número da revista da Associação  "Les Amis de Hergé" (publicado em junho de 1985) tem duas páginas com "La Boutique de Oliveira da Figueira" e em que até aparece um texto assinado por Oliveira. A secção continuará a aparecer regularmente nas edições seguintes. Mas em 1987 há mudança da morada após a demissão de Jean-Claude Jouret do Conselho de Administração e não volta a aparecer.


Beaucoup d'entre vous ont manifesté le désir d'être tenus au courant des différentes réalisations publicitaires et commerciales basées sur les personnages de Hergé et j'en suis très heureux.

Je craignais un peu que mon métier de « camelot » ne soit tombé en désuétude depuis la prolifération des grandes surfaces. Mais grâce aux Amis de Hergé, je compte bien poursuivre mon activité et ainsi répondre à vos souhaits.

Tout d'abord, je crois intéressant d'effectuer une légère mise au point en ce qui concerne les licences contractées. En effet, il existe des licences dont la vente des produits est exclusive à un pays déterminé et des licences dont la production est effectuée dans les perspectives d'une vente élargie à plusieurs pays.

De plus, il existe souvent un décalage entre la date réelle de commercialisation des produits et la date initialement prévue. Dès lors, il se pourrait que pour une licence déjà contractée, le produit en question ne soit pas encore disponible dans le commerce.

Voici déjà une liste des licences actuelles :

(...)

Mais j'oubliais presque de vous dire que grâce à l'aimable collaboration des Editions du Lombard, vous pourrez disposer de 2 avantages importants !

Tout d'abord une réduction de 10 % (moyennant présentation de la carte de membre qui vous parviendra bientôt) sur les achats de « gadgets Tintin » effectués dans les magasins des Editions du Lombard situés 1 à 11 avenue P.H. Spaak à 1070 Bruxelles (gare du Midi).

Ensuite, la production relative à une licence réservée à un seul pays pourrait être obtenue par l'intermédiaire des Editions du Lombard si le nombre de membres intéressés peut justifier une commande « spéciale ».

Il ne vous reste donc plus qu'à me faire parvenir la liste des productions susceptibles de vous intéresser et je vous communiquerai ensuite les conditions auxquelles elles seront disponibles (prix, endroit, délais...).

Libre à vous de vous rétracter ou de confirmer à ce moment là !

Bien à vous,

Oliveira

Adresse :
ASBL des Amis de Hergé
c/o Oliveira Da Figueira
49, rue de Boetendael
B-1180 BRUXELLES   

tradução_

Muitos de vós manifestaram o desejo de serem mantidos informados sobre os diversos projetos publicitários e comerciais baseados nas personagens de Hergé, e eu fico muito feliz por isso.

Estava um pouco preocupado que o meu trabalho como "vendedor ambulante" pudesse tornar-se obsoleto com a proliferação de grandes superficies. Mas, graças aos "Les Amis de Hergé", pretendo continuar o meu trabalho e, assim, ir ao encontro dos seus desejos.

Antes de mais, acho importante esclarecer alguns pontos sobre as licenças que adquirimos. Existem licenças em que a venda dos produtos é exclusiva para um país específico e licenças em que a produção é realizada com a perspetiva de vendas mais amplas em vários países.

Além disso, existe normalmente um atraso entre a data de lançamento real dos produtos e a data inicialmente planeada. Assim, é possível que, para uma licença já em vigor, o produto em questão ainda não esteja disponível para compra.

Segue-se uma lista das licenças atuais:

(...)

/

É conhecido há algum tempo que o escritor e jornalista Frederico Duarte Carvalho está a preparar um livro sobre Oliveira da Figueira depois do livro Goscinny e Uderzo entre os lusitanos. O autor é fã de BD e colaborou em fanzines como o Édito do qual foi director.

Esperamos que o livro sobre Oliveira da Figueira agrupe o máximo de coisas sobre a personagem. E que apareçam mais curiosidades de que não temos conhecimento.

/

Algumas das muitas coisas para abordar:

1-A mudança de nacionalidade em O Papagaio. 

2-A campanha de 1947 contra a especulação do mercado negro.

3-A presença de Oliveira da Figueira nas guardas azuis dos álbuns.

4-Selos dos anos 70 em que aparecem várias personagens do tintin.

5-O boneco monocromático.

6-A figura da Altaya.

7-Um resumo/destaque do livro de 2021 de Albert Algoud

8-A escolha da primeira edição em mirandês (2026). 

9-O episódio da viagem de Hipólito Raposo e Pedro Emauz Silva e a carta de Hergé de 1958.

10-Capa do livro "Hergé Em Portugal".

11-Cartaz da exposição "Tintin na Lousã" de 2007 da autoria de Carlos Sêco

12-Caricaturas

13-Manuel António Pina

14-FDC

15-Rui Patricio

16-Oliveira Martins

17-Clara Ferreira Alves/AM

18-Orlando Ferreira Abarca

19-José Manuel Fernandes

20-Luiz Beira 

21-Pedro Mexia

21-O Diabo 1981

22-loja Oliveira/Castafiore

23-O companheiro do Major Alverca, o Ângelo, é. literalmente, o Tintim quando se mascara de sobrinho do Oliveira da Figueira [https://tintinemportugal.blogspot.com/2025/11/manuel-joao-ramos.html]

24-Major Alverca

25-Artigo de Ana Sá Lopes sem Oliveira da Figueira

26-Sermão 

27-Antero Valério


00-Insónias [https://tintinemportugal.blogspot.com/2016/04/pastiche-as-minhas-insonias-em-carvao.html]

terça-feira, 1 de setembro de 2026

José Abrantes

José Abrantes é um conhecido autor de bd e ilustração com vasta obra publicada. Recebeu dois desenhos autografados por Hergé depois de contactar o autor belga em 1980. 

"Escrevi-lhe em 1980. O secretário Alain Baran deu uma longa resposta, e o Hergé autografou-me um Tintin e Millu." (JA)

"Aos 16 anos descobriu que Hugo Pratt era seu parente, tendo contactado várias vezes com o criador de Corto Maltese, ao qual pediu opinião acerca dos seus trabalhos." (Infopédia)



"Hergé morreu a 3 de Março de 1983. Está no meu Céu." (JA, 03/03/2025)

"Planeava fazer um fanzine com a recolha dos imensos recortes de imprensa aquando da morte do Hergé (...) O eventual investidor desapareceu com o espólio. Mas foi impressionante tantos que foram os testemunhos que foram divulgados na época, durante meses." (JA, 18/12/2025)


Biobibliografia até 2011 no blog de Geraldes Lino:

José Abrantes, aliás, José Maria da Piedade de Lancastre e Távora, nasceu a 9 de Setembro de 1960, em Lisboa, onde frequentou o antigo curso liceal e concluíu o 4ºano.

A sua actividade como autor de BD teve início visível em 1975, a 8 de Novembro, numa publicação chamada Folha CDS, panfleto monocromático distribuído na rua, onde fez uma tira sob o pseudónimo "Zeta", obtido pela abreviação de José (Zé) em contracção com a primeira sílaba do apelido Távora. Faria ainda mais duas tiras nas seguintes edições desse panfleto.

Em Outubro de 1976 iniciou a bd Os homens não são ilhas no mensário infantil, de índole católica, O Farol. Essa história, com a extensão de cinco pranchas, durou até ao nº4 , já em 1977, e tinha argumento de Isabel Mendonça Soares. Com ela, e no mesmo jornal, fez ainda mais duas bedês, Uma Pista Perigosa e No Museu Naval. Foi nesta última, datada de Março de 1978, que usou pela primeira vez o semi-pseudónimo José Abrantes.

Colaborou posteriormente com BD num grande número de publicações, entre revistas, jornais, álbuns e fanzines (...). Há igualmente bedês suas nos fanzines Protótipo e Eros, ambos dos anos 1980 (1985 e 87, respectivamente), no Boletim do Clube Português de Banda Desenhada, no Lady Blitz Fan-Club (1995), no Tertúlia BDzine (bedês publicadas nos anos 1998, 2010, 2011), e no Efeméride, tendo feito neste último, no nº 2 (2007) e nº 4 (2009), paródias a cores, em formato A3, às personagens Príncipe Valente e Tintim.

Quanto a edições em álbum, tem dois títulos realizados em colaboração: Contos do Nordeste Transmontano, com argumento de Jorge Magalhães (1990), e Dakar o Minossauro (dois tomos, 1997 e 1998), com argumento de Luís Diferr.

Obras totalmente suas, ou seja, argumento, desenho, legendagem e colorização, são as seguintes: Aventura em Valverde e Os Fundos Perdidos (série "As Aventuras de Tobias Bigom"), O Eclipse, Histórias de Natal, O Ladrão Insolente, Luta de Galos, O Lago Iluminado, Horus-Uma Vida de Cão, e a série "As Aventuras do Zu" (1999-2001) (...)

Pois vai ser José Abrantes o autor de BD em foco na Tertúlia BD de Lisboa, no encontro de 7 de Maio (de 2011). Após ter sido Convidado Especial naquela Associação Informal, em Setembro de 1985, ele passa agora ao nível superior de Homenageado, por ter mantido uma constante actividade criativa, malgrado as reduzidas possibilidades existentes em Portugal, ao longo de um percurso já com trinta e seis anos (como se pode verificar na biobibliografia abaixo registada, e também no engraçado episódio que criou em BD propositadamente para o fanzine Tertúlia BDzine, de que no topo se vêem três pranchas, mas que pode ser visto na totalidade no "post" anterior).

Ver a totalidade deste post de 2011 no blog de Geraldes Lino e ainda o episódio que criou em BD para o fanzine Tertúlia BDzine que pode também ser visto na sua totalidade.

+

Tantã e Liru e Capitão Marselha são algumas das suas personagens ligadas ao universo de Hergé que fez para tiras e pranchas soltas.

Capitão Marselha, este nome diz-lhe alguma coisa? Mas Capitão Haddock, esse sim, claro que sim. E não lhe parece que há semelhanças físicas, até de vestuário, entre um e outro? É perfeitamente natural, visto que o criador do Capitão Marselha, José Abrantes, é um indefectível entusiasta da obra de Hergé e respectivas personagens... GL, 2008

Aconselha-se a consulta da tag José Abrantes

+

José Maria da Piedade de Lancastre e Távora, cujos pseudónimo José Abrantes e Centro [Kundry?] vão assinando as suas obras, nasceu a 9 de Setembro de 1960, em Lisboa e é alguém que parece esconder-se atrás dos desenhos imensos que cria. Imagens coloridas de tempos jurássicos, cujo herói é Dakar, o Dinossauro (publicado pela primeira vez em 1997, pela BaleiAzul, com textos de Luís Diferr) ou histórias mais domésticas que poderiam passar-se na casa de qualquer um de nós. Hórus o gato, antepassado da mais recente criação felina.  

José Abrantes estreou-se em finais de 1970, no jornal O Farol e, depois, já em meados de 1980, trabalhou na revista Girassol. Participou nos festivais lisboetas de BD de 1982/83 e, no ano seguinte, fez para o Correio da Manhã, As Viagens de Gularth. O ano de 1985 traz-lhe o primeiro prémio como guionista de uma história desenhada do concurso de BD da revista O Mosquito, ficando um outro trabalho seu, (de novo na qualidade de guionista) entre os dez melhores classificados, no mesmo concurso. Entre festivais de BD e fanzines, surge a ilustração e concepção gráfica do Jornal do Sélix, para os CTT em 1987 e, um ano mais tarde, ilustra várias brochuras da Secretaria de Estado da Família. 

Em 1989, recria o Pimpampum, suplemento infantil do jornal «O Século» e diversas BD's publicadas no Correio da Manhã.  

Durante a década de 90, José Abrantes trabalhou no programa da RTP, Rua Sésamo, exercendo funções de criativo e ilustrador e, mais tarde, ilustrando também a revista com o mesmo nome, onde elaborou histórias e jogos. Paralelamente, executou álbuns para as edições Asa (Contos do Nordeste Transmontano), e duas aventuras de Tobias Bigom intituladas Aventura em Valverde e Os Fundos Perdidos, actualmente esgotadas, mas em curso de reedição, revistas e recoloridas, a sair na editora BaleiAzul. Fez bandas desenhadas para o Jornal do Gil, a revista Crescer e participou na exposição colectiva Perdidos no Oceano, que esteve patente no Festival Internacional de Angoulême (França) em Janeiro de 1998, figurando no catálogo publicado.

(in Catálogo BD Sobreda, 2000)



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O Templo do Sol

Folha de promoção de exibição do filme "Tim-Tim E O templo do Sol" no cine Vasco da Gama em Sines na data de 15/02/1972.


A imagem foi obtida na internet provavelmente num site de leilões.

O filme estreou em Portugal, no cinema Condes, propriedade da Castello Lopes, no dia 23/12/1970.

sábado, 15 de agosto de 2026

Regressar a Tintin à boleia do eclipse


O díptico "As 7 bolas de cristal"/"O templo do sol" é uma das mais emblemáticas aventuras de Tintin que comprova a mestria de Hergé.

O acontecimento mediático da semana, o eclipse do sol, foi o pretexto - desnecessário - para regressar a uma das mais emblemáticas aventuras de Tintin, o díptico "As 7 bolas de cristal"/"O templo do sol", disponível em edição da ASA.

Sendo o realismo uma das notas distintivas da obra-prima de Hergé, aqui o ponto de partida é fantástico: regressados do Peru, onde descobriram o túmulo do soberano inca Rascar Capac, sete exploradores mergulham numa profunda letargia, de que só saem durante espantosas convulsões que os afeta todos os dias à mesma hora. Depois, entra em cena a aterradora múmia do inca, que tantos pesadelos causou a jovens leitores de Tintin.

Preparado o enredo, começa a aventura em estado puro: o rapto do professor Girassol por índios irá levar Tintin e Haddock num longo périplo até ao Peru, numa viagem recheada de peripécias e de perigos que ficaram na memória de muitos: o atentado no comboio que descarrila para um precipício, Milu levado por um condor, a avalanche de neve, a condenação à morte em sacrifício ao deus Sol dos incas... E sempre com o contraponto do humor para equilibrar as tensões, numa história construída com enorme mestria.

Veja-se logo na segunda prancha de "As 7 bolas de cristal", como o sentido de leitura acompanha o movimento do passeio de Tintin, ou como, no final de cada página ímpar há sempre uma cena de suspense, que impele o leitor a virar de imediato a página.

Numa série que é também profundamente humanista, distingue-se o elemento narrativo que Hergé introduziu para que a vida de Zorrino seja salva ou, acima de tudo, o que move Tintin e o capitão na sua busca: a amizade pelo distraído Girassol, que os leva a atravessar meio mundo e a enfrentar todos os perigos e adversidades.

E, numa narrativa em que coabitam o mistério, o suspense, o exótico e até o fantástico, veja-se como ao longo de mais de 30 páginas, Hergé prepara o desfecho, contrastando a aparente calma de Tintin face à morte que se aproxima, com o desespero crescente de Haddock, até à radiosa entrada em cena do astro-rei, rapidamente ofuscada pelo eclipse, que é o momento alto desta aventura e que vai culminar, de forma inesperada, superior e magnífica uma das mais brilhantes aventuras do repórter.

in Jornal de Notícias, 14.08.2026


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eclipse do Sol

 


O eclipse de 12.08.2026 contado em "O Templo do Sol"

Portugal vai observar um eclipse solar, o que não acontecia no nosso país desde 1912.

Muitos fãs de "As Aventuras de Tintin", dos 7 aos 77 anos, conhecem este fenómeno através do álbum "O Templo do Sol", de Hergé, publicado em 1949.

Na história, Tintin, o Capitão Haddock e o Professor Girassol estão prestes a ser sacrificados em piras pelos Incas.

Quando a Lua passa entre a Terra e o Sol e o dia fica escuro, os Incas acreditam que Tintin tem poderes sobre o Sol e os astros. Assustados, deixam os heróis em liberdade.


Tintin sabia que o eclipse iria acontecer porque tinha lido essa informação num jornal. O que para os Incas parecia magia era, afinal, um fenómeno que a ciência consegue explicar e prever.

É também esta uma das qualidades dos livros de Hergé: ensinam sem parecer que estão a ensinar. As aventuras de Tintin despertam a curiosidade e levam os leitores a descobrir a astronomia, a geografia, a história e diferentes culturas.


imagens de IA convertidas a partir do original de O Templo do Sol

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Bazar Tintin - 1979

                                       

"Tintin & Tintinors" é o nome de um jogo de tabuleiro dos anos 60 produzido pela empresa Jeux Noël (Montbrison). Na folha de regras está escrito "Com a Autorização de Hergé" e no verso tem uma lista ("Colecção dos Jogos Tintin et Milou") com vários jogos comercializados:

"TINTIN ET MILOU DANS LE MONDE" (1962)

"TINTIN ET MILOU VERS LA LUNE" (1960)

"DOMINOS TINTIN ET MILOU" (1965)

"TINTIN ET TINTINORS" (1962)

"TINTIN JOKER" un passionnant jeu de cartes (1965)

Existe uma versão portuguesa de "Tintin & Tintinors" denominado "Bazar Tintin, Jogo de Sociedade", publicado pela SEL, Lisboa. Na última folha das regras é mencionado "copyright PUBLICA/ HERGÉ/ AEI 1979".





MKB, 2023


Bazar Tintin: Jogo de Sociedade


Distribuidor: Círculo de Leitores
Ano - 1979
Jogadores - 2 a 5
Caixa - 26,5×24,5cm


Parece que há duas versões da caixa Bazar Tintin porque numa delas não aparece escrito Círculo de Leitores.

Curiosamente em 1982 foi feito novo jogo (Copyright Publica/Hergé/1982) e esse já aparece apenas com o nome do Circulo de Leitores e não da SEL.

Ambos os jogos tiveram design e orientação gráfica de José Antunes que não temos a certeza se era o ilustrador do mesmo nome.




BAZAR TINTIN
JOGO DE SOCIEDADE PARA 2 A 5 JOGADORES

REGRAS

COMPOSIÇÃO DO JOGO
- 104 cartas;
- 5 cartões;
- 1 maço de notas de 1 tintin e 1 maço de notas de 5 tintins ("tintinors" na versão original);
- 15 marcas;
- 1 roleta (que indica aos jogadores o número de tintins necessário para ganhar a partida).

FINALIDADE DO JOGO
Consiste em comprar, para constituir colecções, as cartas que representam as partituras da CASTAFIORE; a roda do leme e o rum velho do CAPITÃO; o relógio e o guarda-chuva do professor TOURNESOL e as bengalas dos DUPONT/DUPOND; formar séries para obter prémios e finalmente, no momento oportuno, trocar as suas cartas por tintins.
Ganha o primeiro jogador que conseguir juntar a quantia em tintins estipulada no início do jogo.

PREPARAÇÃO DO JOGO
No meio da mesa colocam-se:
1 - O baralho de 104 cartas, com as figuras para baixo;
2 - A roleta, que determina o número de tintins a obter no jogo (é o banqueiro que acciona a roleta após acordo com os parceiros).
N. B. Para melhor praticar este jogo, é aconselhável começar por um máximo de 30 tintins;
3 - As notas de tintins não distribuídas constituem a banca.

A BANCA
Um dos parceiros é escolhido para banqueiro, lugar que desempenha ao mesmo tempo que joga.
O banqueiro distribui a cada jogador:
1 - Um cartão para colocar as suas cartas;
2 - 15 tintins.

O JOGO
O primeiro jogador é o banqueiro, seguindo-se-lhe o parceiro situado à sua esquerda, depois o que está à esquerda deste, e assim sucessivamente.
Ao chegar a sua vez de jogar, cada jogador é obrigado a tirar uma carta do baralho.

O que acontece se tirar:
1 - Uma carta CASTAFIORE, CAPITÃO, TOURNESOL ou DUPONT/DUPOND: pode comprá-la, pagando à banca o seu preço em tintins e colocando-a no respectivo lugar no seu cartão. Mas o jogador não é obrigado a comprar, podendo deixar a carta, com a figura à vista, ao lado do baralho, e passar;
2 - Uma carta VALE 1 TINTIN: o banqueiro paga-lhe um tintin, e a carta é reposta, ao lado do baralho, com a figura voltada para cima;
3 - Uma carta RECEBE ou PAGA: o jogador cumpre as indicações (caso lhe seja possível) e depois coloca a carta ao lado do baralho, com a figura à vista;
4 - Uma carta com as figuras TINTIN e MILOU: esta carta é grátis. É um Joker, que pode substituir qualquer outra carta. Se o jogador, posteriormente, comprar a carta que o Joker substitui, poderá dispor deste e utilizá-lo noutra série.

SÉRIES COMPLETAS E PRÉMIOS
Um jogador tem todo o interesse em comprar as cartas necessárias para formar séries completas (compostas de 1 Dupont/Dupond, 1 Tournesol, 1 Capitão e 1 Castafiore) com cartas de cores diferentes (por exemplo: 1 amarela, 1 verde, 1 encarnada e 1 laranja). Recebe então do banqueiro, por cada série completa, um prémio de 10 tintins e uma marca para colocar ao lado da série já completa. Esta marca destina-se a impedir que o jogador receba outro prémio pela mesma série.

Podem-se comprar cartas para as 2.ª e 3.ª séries sem que a 1.ª esteja completa. É possível completar uma série que tenha duas cartas da mesma cor, por meio de uma inversão.

Tomemos como exemplo o jogo que se segue:

IMPORTANTE
O jogador que já não tenha tintins pode comprar uma quarta e última carta que vá completar uma série; mas o valor dessa carta será deduzido do prémio que vai receber.

VENDA DE CARTAS A BANCA
Para ganhar o jogo é necessário possuir, não cartas, mas a quantia em tintins estabelecida pela roleta no início do jogo.
É indispensável, portanto, no momento oportuno, trocar as suas cartas por tintins.
Para tanto o jogador, ao chegar a sua vez, não tira a carta do baralho; escolhe uma das suas cartas e pede ao banqueiro que lhe pague o valor da carta menos 1 tintin, como está indicado em cada carta.
As cartas DUPONT/DUPOND e os Jokers não são vendáveis na banca.
O jogador atento começará a venda no momento em que os seus haveres em notas, somados ao valor das cartas que vai vender, atinjam a quantia em tintins necessária para ganhar o jogo. Se a venda se fizer ou muito cedo ou demasiado tarde, o jogador não conseguirá juntar a quantia necessária para ganhar.
Quando um jogador vender uma ou mais cartas que não façam parte de séries completas, pode continuar a completar outras séries.

VENDA DE CARTAS ENTRE JOGADORES
Ao chegar a sua vez, o jogador pode vender uma carta (uma só de cada vez) a qualquer outro parceiro interessado. O preço da carta pode ser discutido entre os jogadores e é permitido o leilão. Em todas as circunstâncias, a venda conta como uma jogada.

O BARALHO
Quando se tiverem esgotado todas as cartas do baralho é necessário refazê-lo com as cartas postas de lado.




quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entrevista no Jornal de Letras (1987)


Entrevista a Adolfo Simões Müller. No JL de 16.3.1987

Adolfo Simões Müller: "Paguei a Hergé em latas de sardinhas"

Raul Correia, Cardoso Lopes, José de Oliveira Cosme, Baptista Rosa, Roussado Pinto... Homens, todos eles já desaparecidos, que devotaram, integralmente ou em grande parte, a sua actividade pública à divulgação editorial da banda desenhada. Adolfo Simões Müller, cujas declarações aqui registamos, é a voz de uma geração entusiasticamente empenhada na divulgação dessa forma de arte. Aos 76 anos, aquele que foi sucessivamente director de «O Papagaio», «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão» e «Zorro» defende com calor as histórias ilustradas dos ataques dos seus detractores.

Jornal de Letras — Como principiou o seu interesse pelos «quadradinhos»?

Adolfo Simões Müller — Claro, principiei por ser apenas um leitor do que, na matéria, então se fazia por cá: havia os suplementos do «Diário de Notícias» e de «O Século», um deles creio que dirigido pelo Cottinelli Telmo...

P. — E o passo seguinte, a entrada activa na sua produção e divulgação?

R. — Vamos por partes. Por altura dos meus 18 anos, estava eu a estudar Medicina, vi-me forçado a começar a trabalhar, dando aulas, porque as posses da minha família não eram grandes. Tornei-me professor nas Oficinas de S. José, onde me lembrei de inventar processos de entreter os alunos. Um deles consistiu em dividir a turma em dois grupos de futebol, com onze de cada lado, perfeitamente definidos como avançados, halves, backs, keeper e tal. A bola ia progredindo até ao golo, através de perguntas que se iam formulando sobre a matéria (neste caso, Ciências Naturais). Quando era golo havia uma algazarra! Este processo era óptimo porque os rapazes tinham sempre a matéria na ponta da língua, para tramarem o parceiro. Um dia, quando uma das equipas marcou golo, foi tal a barulheira que apareceu o director acompanhado de umas senhoras muito bem vestidas. Fiquei atrapalhado, mas lá expliquei em que consistia o jogo. Pois a verdade é que o «público» ficou para assistir e, no final, aplaudiu... Também ensinava a História de Portugal recorrendo à narração de episódios como se fossem histórias maravilhosas e os alunos aderiam entusiasmados. Assim começou, digamos, a exprimir-se a minha vocação para o contacto com a gente nova...

«Uma técnica própria de leitura»

P. — E daí aos jornais de histórias aos quadradinhos?

R. — Bom, teria eu cerca de 30 anos, «pescaram-me» para as «Novidades», onde passei a trabalhar como redactor. Por volta de 1935, o director da Renascença, Lopes da Cruz, lembrando-se da minha vocação para lidar com jovens (e eu, entretanto, tinha já publicado um livro infantil) convidou-me para fazer um jornal — e assim nasceu «O Papagaio». Escolhi alguns colaboradores já meus conhecidos — o Tom, o José de Lemos, etc. — e, além de textos, decidi incluir também banda desenhada. As pessoas diziam muito mal, que afastava os jovens da leitura, e por aí adiante, mas eu acho que não: o que tem é uma técnica própria de leitura. Aliás, quando se tratava de adaptações de obras literárias eu tinha sempre o cuidado de chamar a atenção para esse facto e de convidar à leitura do original, sublinhando que a adaptação não era mais do que um aperitivo para ela.

P. — Havia fortes concorrentes na altura...

R. — Sim. Os mais importantes eram o «Tic-Tac», «O Mosquito» e «O Senhor Doutor». Todos tinham histórias em banda desenhada.

P. — «O Mosquito» e «O Senhor Doutor», nos primeiros tempos, poucas ou nenhumas histórias ilustradas de origem portuguesa publicavam. N'«O Papagaio», creio, não se passavam assim as coisas...

R. — As histórias eram então quase todas de importação inglesa ou americana. Ora, independentemente dos méritos dos seus autores, não me agradava aquilo, pois não se adaptavam bem à nossa sensibilidade. Antes de passar a incluir n'«O Papagaio» produção portuguesa tive, porém, a sorte de poder contar com a inserção de histórias de Hergé. Foi o padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e que lá na Bélgica tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente [ nb: apenas conheceu a Obra e não o autor ] o então ainda jovem e não muito famoso autor de Tintin, quem me falou dele. A coisa interessou-me, ele próprio se encarregou dos contactos e assim passámos a publicar em Portugal, pela primeira vez, o Tintin, o «Tim-Tim no Congo»... O Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre, n'«O Papagaio» e nos jornais que se lhe seguiram, com o exclusivo do Tintin. E sempre com o maior êxito!

P. — Os direitos de publicação de histórias do Hergé eram dispendiosos?

R. — Nem por isso... E vou contar-lhe um episódio curioso. Nós pagávamos em dólares, ou francos, ou lá o que era (já não me lembro) mas veio a guerra e aquilo para nós era uma ninharia. Eles lá é que estavam pobres... Ora, um belo dia, o Hergé escreveu-me a pedir-me, se possível, o pagamento dos direitos, não em dinheiro, mas em latas de sardinhas, que se destinariam a um irmão dele que estava prisioneiro dos alemães, num campo de concentração... Assim fiz: lá ia a minha mulher comprar as conservas, enviávamos-lhas e elas em seguida iam para o campo, via Cruz Vermelha... Posteriormente visitei o Hergé, encetámos uma relação pessoal e eu sempre fiquei «cliente» das produções franco-belgas, de grande qualidade.

P. — As traduções eram mesmo da sua responsabilidade?

R. — Sim, e no caso do Tintin até adaptei os nomes das personagens. Como se sabe, o Capitão Haddock tornou-se Capitão Rosa, o Professor Tournesol ficou Professor Pintadinho, e por aí adiante. Um caso engraçado é o do cão do Tintin, que no original, como é conhecido, se chama Milou; ora, acontece que na altura estava muito em voga a actriz e cançonetista Milu, a «Menina da Rádio», [ nb:«Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha).» (Azevmen) ] e eu achei (achámos todos) que era aborrecido chamar Milu ao cão, parecia que era de propósito, até porque entre nós aquilo não é nome de cão. Então, por onomatopeia, ficou Rom-Rom. Tim-Tim e Rom-Rom, soava bem. Num álbum recente, dedicado à obra de Hergé, vem um quadro com as traduções dos nomes das personagens em muitas línguas — e lá vêm os nomes que eu lhes pus...

P. — Quanto às traduções propriamente ditas, as que se fazem agora são muito más, até do ponto de vista estilístico. Não é dessa opinião?

R. — Não leio, não tenho conhecimento. Mas sei que há uma grande invasão de publicações feitas no Brasil, o que é péssimo. E os miúdos consomem muito daquilo. É pena... Eu sempre me preocupei por adaptar com o maior escrúpulo os textos ao português correcto e coloquial, com os nossos provérbios, as nossas frases feitas... Ah, mas ainda a propósito da transposição dos nomes, aqui vai outra história engraçada. A páginas tantas deparei, numa história do Tintin, com um pirata qualquer chamado Müller. Como é natural (risos) eu não achei nada próprio que o vilão tivesse o mesmo nome que o director do jornal. E, assim, chamei-lhe outra coisa qualquer...

P. — Que tiragem tinha então «O Papagaio»?

R. — Não sei já bem, mas uns dez mil, para aí...

P. — Como (e porquê) acabou «O Papagaio»?

R. — Bom, a certa altura, o Lopes da Cruz (que era uma pessoa muito delicada) começou a queixar-se, a dizer que «aguentava a publicação por causa do Müller», e por aí fora. Claro, eu disse-lhe que estivesse à vontade mas ele ia mantendo o jornal, que não era rentável.

P. — E veio «O Diabrete»...

R. — Por essa altura, um dos administradores do «Diário de Notícias» perguntou-me se eu não quereria dirigir o «Diabrete», surgido uns meses antes, e que até então fora dirigido por um engenheiro agrónomo cujo nome, sem menosprezo, não recordo, mas que à data já era muito idoso [nb: A. Urbano de Castro] e se encontrava pouco capaz de ter ideias novas. Eu falei com o Lopes da Cruz, expus-lhe o caso, ele aceitou a minha posição — mas não gostou. E o que é certo é que fez sair «O Papagaio» por mais dois anos, apesar das dificuldades económicas com que se debatia. [ nb: Mais anos! «Como revista terminou no n.º 722, em 10 de Fevereiro de 1949, mas continuou, sendo secção da revista Flama, até 9 de Fevereiro de 1951.» (Azevmen) ]

P. — Dificuldades que não tinha o «Diabrete»?

R. — Era um jornal novo e menos dispendioso. Aí contei com a colaboração próxima do Fernando Bento, um grande desenhador, que ainda continua a trabalhar, apesar da idade (que é mais ou menos a minha).

P. — Mas já «O Papagaio» tivera grandes desenhadores...

R. — Sim. Olhe, um deles — pouca gente sabe isto — foi o grande pintor Júlio Resende, talvez hoje o maior pintor português. É verdade, o Júlio Resende, que com o irmão, fazia banda desenhada para nós. Um dia vieram do Porto de propósito para colaborarem numa festa de «O Papagaio», no Politeama. Faziam uma parelha de palhaços, o Júlio era o faz-tudo e o outro tocava harmónio.

P. — Era frequente nesse tempo a colaboração de artistas plásticos em jornais infantis...

R. — Pois era. O Stuart Carvalhaes também desenhou histórias a meu pedido. O Stuart já fizera muito antes bandas desenhadas com as personagens «Quim e Manecas», que ressuscitou já nos anos 50, quando lho solicitei. Sabe que nunca guardei os originais? Perdi tudo, nunca tive preocupações de coleccionismo. Hoje lamento-o profundamente.

P. — Não possui as colecções dos jornais infantis e juvenis que dirigiu?

R. — Não, nunca me preocupei com isso. Às vezes há coleccionadores que me procuram, que dizem que me dão não sei quantos contos por isto ou por aquilo. «Homem, venda-mos você a mim», respondo eu. (Risos).

P. — Mas voltemos a «O Diabrete»...

R. — Foi uma fase muito grata para mim os dez ou onze anos que durou. Mas comecei a imaginar uma coisa maior e melhor e assim nasceu o «Cavaleiro Andante», no princípio dos anos 50. Antes contara com trabalhos de grandes artistas portugueses e espanhóis (e entre estes últimos cabe destacar o Jesus Blasco, um grande pintor), ao passo que o «Cavaleiro» passou a estar voltado praticamente para quanto se fazia de melhor na Europa. Publicámos, além de produções de outras origens, o melhor da banda desenhada francesa e belga. O Professor Mortimer, de Edgar P. Jacobs, o Astérix, o Lucky Luke, tudo isso, que foi assim pela primeira vez divulgado em Portugal. E o Hergé continuava. O Fernando Bento acompanhou-me sempre e aquilo serviu de escola a outros mais novos, como o José Ruy ou o José Garcês, o que para mim foi muito grato.

«Eu fazia os guiões, o Bento recriava-os»

P. — As histórias não eram, então, assinadas. Como nasciam as que fazia com o Fernando Bento? De quem partia a iniciativa?

R. — Era um trabalho dos dois. Em regra, eu fazia um guião indicando as situações e os diálogos e ele recriava-os. É um grande artista, a quem nunca foi prestada a homenagem que merece.

P. — Pode considerar-se o «Cavaleiro Andante» o jornal de maior êxito de entre os que dirigiu?

R. — Sim, foi um sucesso desde que principiou. Tirávamos trinta ou quarenta mil exemplares e o número um teve de ser reimpresso. Tínhamos, também, uma série de publicações adjacentes: o «Álbum do Cavaleiro Andante», mensal, os «Números Especiais» (os do Natal eram encadernados, com um certo luxo, e custavam 10 «paus»), a «Colecção Oásis», o «João Ratão», a «Colecção Alvo», as «Obras-Primas Ilustradas»... Por fim imaginei o jornal mais giro de todos, mas esse não teve êxito... Foi o «Foguetão», de que se publicaram apenas treze números. Era um jornal grande, tipo «adulto», magnífico, com artigos, contos, histórias ilustradas, grandes diaporamas, tudo a cores e em bom papel. Sabe a que se ficou a dever o falhanço? Eu fiz uma «sondagem» (como se diria hoje) junto dos vendedores e apurei o seguinte: que não se vendia por ser grande de mais. É que os rapazes queriam jornais que pudessem, na escola, meter debaixo dos livros, enganando assim o professor... Foi uma pena. Olhe, é o único jornal que dirigi de que possuo a colecção completa: são apenas treze números.

P. — Como eram feitos os contactos com os fornecedores de material estrangeiro e como chegava este às suas mãos?

R. — Havia agências distribuidoras, mas eu preferia o contacto directo com editoras ou publicações europeias, como a Casterman, as Éditions du Lombard, o jornal «Tintin», a Dupuis, o semanário italiano «Il Vittorioso»...

«Não violentar os jovens»

P. — Nunca lhe «disseram» muito as produções americanas, não é verdade?

R. — Há grandes desenhadores americanos, grandes artistas mas aquilo, realmente, nunca me pareceu muito adaptável à nossa maneira de ser nem muito adequado a ser lido por jovens.

P. — No entanto, o «Mundo de Aventuras» e as restantes publicações da Agência Portuguesa de Revistas abasteciam-se quase exclusivamente nesse mercado...

R. — Pois era, mas que quer? Eu era «estúpido» e não gostava daquilo...

P. — É verdade que os quadradinhos americanos não são dirigidos a jovens, mas a adultos. Em contrapartida, a própria designação «banda desenhada para adultos», que apareceu há uns vinte anos na Europa, indicia claramente que a que por cá se fazia antes era infantil. Mas o que pensa da actual produção para jovens?

R. — Hoje é tudo muito diferente, há uma grande carga de violência, os valores são outros. Eu preocupava-me em não violentar os jovens, em não os chocar, em não os excitar. E fui criticado por isso.

P. — Como?

R. — Pertenci a uma comissão de leitura, que não era de censura e se limitava a aconselhar. Eu próprio recebi conselhos da comissão de que fazia parte. Era sobretudo o tom: para quê escrever que «Fulano foi arremessado para uma fria masmorra» em vez de que «Fulano foi encarcerado», ou assim?

P. — Relações com o poder (com os poderes). Teve?

R. — Nunca tive. Vi o Salazar uma vez, mas nunca falei com ele. O Marcelo Caetano foi o único governante que manifestou algum interesse pela minha obra: quando ocorreu o quarto centenário da publicação de «Os Lusíadas» deu instruções no sentido de uma reedição estatal do meu livro «As Aventuras do Trinca-Fortes». Pois sabe quantos exemplares se venderam? Como diria o Jô Soares: zero! (Risos). Aquilo nunca foi avante. Agora, recentemente, a dr.ª Maria Barroso esteve presente no lançamento do meu livro «A Torre de D. Ramires». E foi tudo.

P. — Porque a sua obra não cabe apenas, convém lembrar, no campo das publicações periódicas...

R. — Não. Tenho publicados cerca de quarenta livros, designadamente biografias de pessoas célebres. Era a colecção «Gente Grande para Gente Pequena». Escrevia à média de um por ano. E também trabalhava na Emissora, onde colaborei estreitamente com o Francisco Mata, que, como sabe, já morreu, está um pouco esquecido e é outro homem a quem nunca foi feita a justiça que merecia. E ainda fiz publicidade. Foi uma vida cheia, a minha.

P. — Voltando às publicações juvenis: o «Foguetão» e o «Zorro» foram as últimas que dirigiu?

R. — Depois disso ainda fiz a «Nau Catrineta», que era um suplemento do «Diário de Notícias» e, mais tarde, pediram-me para ir a «A Capital» dirigir os «Quadradinhos».

P. — Pensa que um jornalismo nesses moldes ainda teria actualmente, saída? O que há agora é diferente...

R. — Praticamente não há nada. Eu ainda pensei em fazer um jornal em moldes novos, que seria a minha despedida: um jornal juvenil para os filhos dos emigrantes, que lhes permitisse manterem-se ligados a Portugal. Mas a coisa não foi por diante. Mas agora os interesses dos jovens são outros: é a música, é a televisão, é o cinema. Quase não lêem...

Entrevista de Luís Almeida Martins / Jornal de Letras, 16/03/1987

(entrevista obtida no blog Porta da Loja onde se pode ver a digitalização da mesma)

https://portadaloja.blogspot.com/2021/10/tintin-e-as-aventuras-dos-desenhos-sem.html

https://portadaloja.blogspot.com/2020/09/mais-de-cima-da-mesa-em-setembro.html

https://portadaloja.blogspot.com/2016/11/as-tretas-das-letras-ii.html