sexta-feira, 26 de junho de 2015

Papá provoca Caos na Gulbenkian!


Segundo o jornal Público o director actual do Próximo Futuro, António Pinto Ribeiro, irá demitir-se da Gulbenkian e é dado como exemplos do “autoritarismo” a ordem para que não se vendesse na livraria da fundação o álbum de "BD Papá em África", do sul-africano Anton Kannemeyer (cidade do Cabo, 1967), um dos autores que a Gulbenkian recebe a 15 de Maio, num debate promovido pelo Próximo Futuro. 

O livro, que o crítico do PÚBLICO José Marmeleira classifica como ácido e feroz em histórias e imagens, começa por parecer um pastiche de Tintin no Congo, de Hergé, mas acaba por se revelar, através de uma sátira mordaz ao autor belga que aqui é representado envelhecido a abater animais e até um africano negro, uma crítica violenta ao colonialismo e à sociedade afrikaner em que o próprio Kannemeyer cresceu. 

Elisabete Caramelo, directora de comunicação da fundação, confirmou ao início da tarde que Pinto Ribeiro pediu a desvinculação da fundação, o que foi aceite pela Administração. Quanto ao livro, garantiu que já está à venda e que foi apenas “retirado temporariamente para que se pudesse identificar que se trata de uma Banda Desenhada para adultos”.

Ao final da manhã de hoje, confirmou o PÚBLICO por telefone junto de um funcionário da livraria/loja, o álbum editado em Portugal pela Chile [sic] com Carne.

https://bedeteca.wordpress.com/2015/04/24/copypaste-papa-provoca-caos-na-gulbenkian/

As pessoas sérias e a Cultura, au Congo

Deixo uma declaração de intenções: trabalhei para o António Pinto Ribeiro e tenho admiração profissional pelo seu trabalho. Desconheço a carta de demissão, à excepção do que foi publicado, nem falei com o próprio. (...)

No Tintin au Congo, de 1931, um empresário português oferece a Tintim 50 mil escudos pelo exclusivo da sua viagem ao Congo. O jornalista dedica-se a ser europeu, o que significa, na altura, algo de muito específico: educar o indígena a ler e contar; caçar leões, elefantes e crocodilos; organizar o indígena para lutar as guerras dos brancos bons contra os brancos maus. No fim, o indígena retribui erigindo uma estátua em sua honra (e de Milu). De todos os livros de Hergé, este é o Tintim mais fraco e desinteressante porque reduz o colonialismo a uma ópera bufa numa tentativa de apagão (tal como Rossini tenta apagar a revolução francesa reduzindo tudo à comédia de salão): as relações com indígenas são infantis (porque infantilizam, na realidade, como bem descreve Fanon e muitos outros antes dele) na mesma medida em que as lutas com os animais são inverosímeis e sem graça; uma comédia sem riso. A forma como os europeus se entretinham a olhar para África é politicamente abjecta e reveladora dos próprios. O Congo não era o Congo, mas o que a Europa achava que devia ser.

O único equívoco, para corrigir o sentido da crítica de Augusto M. Seabra, não é APR achar que podia ser rei (se alguma vez achou), mas acharmos todos que este conjunto de pessoas muito sérias, de Artur Santos Silva a António Lobo Xavier, aceitaria mais internacionalismo do que totens de si próprios espalhados por um Portugal onde se vêem como Tintim no Congo. A recusa em expor o livro de Anton Kannemeyer é o apagão e a atitude de APR é absolutamente justificada. As pessoas muito sérias querem que voltemos ao Congo de Tintim, e parece que conseguiram. Este é o problema que a crítica tem de enfrentar: erigir estátuas ou obrigar a pensar.

artigo de Tiago Ivo Cruz (Assessor parlamentar do Bloco de Esquerda), Público, 14/05/2015

Os autores de banda desenhada, tal como outros criadores do passado, começaram a ser escrutinados à luz dos critérios éticos do presente. E Hergé é dos que tem passado mais tempo no banco dos réus.

Em Portugal, a banda desenhada costuma andar arredada do debate político, mas uma invulgar série de acasos levou a que Tiago Ivo Cruz (TIC), que se apresenta como “assessor parlamentar do Bloco de Esquerda”, num artigo no Público de 14.05.15, desenterrasse Tintin no Congo, a pretexto de uma polémica envolvendo a demissão do programador cultural António Pinto Ribeiro da Fundação Gulbenkian.

Escreveu TIC que “de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante, porque reduz o colonialismo a uma ópera bufa numa tentativa de apagão […] tal como Rossini tenta apagar a revolução francesa reduzindo tudo à comédia de salão”. Acrescenta TIC que “as relações [de Tintin] com [os] indígenas são infantis […] na mesma medida em que as lutas com os animais são inverosímeis e sem graça: uma comédia sem riso”, e conclui: “A forma como os europeus se entretinham a olhar para África é politicamente abjecta e reveladora dos próprios.”

(...)

Para já, importa colocar "Tintin no Congo" no contexto da obra de Hergé: foi publicado originalmente entre 1930 e 1931 no Petit Vingtième, suplemento juvenil do semanário belga Le Vingtième Siècle, que se apresenta como “jornal católico de doutrina e informação” e cujo redactor-chefe, Norbert Wallez, tinha manifesta simpatia por Mussolini.

As pranchas a preto e branco surgidas semanalmente no Petit Vingtième foram coligidas em álbum nesse mesmo ano de 1931, álbum que seria reeditado, em versão profundamente revista, em 1946, já na Casterman, no âmbito do processo de revisão, homogeneização e colorização a que Hergé submeteu as suas primeiras obras.

"Tintin no Congo" é a segunda aventura de Tintin, pois embora nem todo o público não-aficionado de BD o conheça, antes houve "Tintin no País dos Sovietes", publicado originalmente em 1929-30 e em que as aventuras do pequeno repórter são pretexto para um rudimentar panfletarismo anti-comunista. Hergé viria mais tarde a renegá-lo como “um erro de juventude” e foi a única das suas obras a preto e branco que não seria mais tarde submetida ao processo de revisão profunda e colorização no pós-II Guerra Mundial (embora, décadas mais tarde, a pressão dos fãs tenha obrigado o autor a autorizar a reedição da versão original a preto e branco, sem retoques).

Se, “de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante” é-o não por causa do seu conteúdo paternalista e pró-colonialista, como pretende Tiago Ivo Cruz, mas porque é uma obra incipiente de um autor que ainda não domina o seu mister. Estando muito longe de ser uma obra-prima, representa, ainda assim, um avanço, em termos de desenho, argumento e técnica narrativa, em relação ao tosco Tintin no País dos Sovietes.

É crucial conseguir discernir, na apreciação de Tintin como na de qualquer outra obra artística ou literária, os valores estéticos dos valores éticos: "Tintin no Congo" continuaria a ser “fraco e desinteressante” mesmo que veiculasse a mais igualitária e generosa das ideologias.

"Tintin na América", de 1932 revela mais progresso, embora continue a partilhar com os dois álbuns anteriores a limitação de não passar de uma sucessão desgarrada de peripécias rocambolescas (o “desgarrado” compreende-se melhor se se atender a que estas obras eram concebidas para serem lidas ao ritmo de uma ou duas páginas por semana) e de assentar em imagens estereotipadas do país visitado. A maturidade artística só chegaria com o quarto álbum, "Os Charutos do Faraó" (1932-34) e só se afirmaria plenamente em "O Lótus Azul" (1934-36).

É crucial conseguir discernir, na apreciação de Tintin como na de qualquer outra obra artística ou literária, os valores estéticos dos valores éticos: "Tintin no Congo" continuaria a ser “fraco e desinteressante” mesmo que veiculasse a mais igualitária e generosa das ideologias. Por outro lado, é despropositado sujeitar uma BD concebida em 1930 para o suplemento juvenil de um “jornal católico de doutrina e informação” ao crivo ético dos nossos dias.

É no período entre as duas guerras mundiais que o colonialismo europeu atinge a sua máxima expressão, quer em extensão, já que a França e Grã-Bretanha somaram aos seus vastos domínios os despojos do Império Otomano, quer em intensidade: o domínio europeu na Ásia e em África ficara-se muitas vezes por feitorias, fortalezas, entrepostos e portos, mas é a partir do fim da I Guerra Mundial que avança para o interior e se consolida, com construção de infra-estruturas e instalação de novas levas de colonos europeus (Portugal, atrasado como sempre, só empreenderia esta consolidação após o fim da II Guerra Mundial, quando os movimentos autonómicos já ganhavam ímpeto nas colónias dos outros países europeus).

(...)

artigo de José Carlos Fernandes, Observador,  13/06/2015

Polémica: O Silêncio e a Cultura, em Portugal (ou "Budos e mico calado")

Tiago Ivo Cruz responde ao artigo de José Carlos Fernandes "Tintin no Tribunal Penal Internacional", escrito a pretexto de uma recente polémica envolvendo a Gulbenkian, António Pinto Ribeiro e Hergé.

O fenómeno das pessoas muito sérias na cultura só é compreensível sobre um mar de consensualismo que reduz todo o acto artístico e política cultural ao nível da propaganda.

O gesto de censura (e sim, foi censura) que o Presidente da Fundação Gulbenkian fez pela sua própria mão ao proibir a venda de um livro de denúncia ao colonialismo - um gesto ideologicamente racista - é exactamente o mesmo que recebe e protege a Fundação Sindika Dokolo como pretenso acto de igualdade pós-colonial. Segundo o próprio Sindika em entrevista ao Jornal de Negócios, “Portugal conseguiu inverter o período negativo do fim da colonização”. Parece que o pós-colonialismo se resolve oferecendo uma montra para uma colecção de arte. A ninguém incomodou ou sobressaltou o facto de Sindika Dokolo ser peça fundamental no negócio de diamantes do regime angolano. Ninguém estranhou que a maior colecção de arte africana se tenha deslocado para uma cidade fora dos circuitos artísticos internacionais, ou sequer se não haverá algum conflito ético em promover o regime que persegue Rafael Marques. Ninguém pergunta nada, porque é Cultura. E na Cultura não há política, apenas respeitinho.

A escolha da colecção de Sindika para a Bienal de Veneza de 2007 suscitou as maiores dúvidas e críticas acesas. (...)

Nada disto faz sentido mas nada disto é refutado. Pelo contrário, surge gratuitamente e é repetido sem qualquer contraditório ao longo de meses em notícias sucessivas. Segundo o vereador Paulo Cunha e Silva, a exposição You Love Me, You Love Me Not “expressa também a relação paradoxal que nós, portugueses, temos com o continente africano, e com Angola em particular”. Neste contexto, estas palavras cumprem a função de lavar a reputação de alguém que é alvo de fundadas suspeitas. São um favor político que obrigaria a demissão imediata numa democracia que se respeita.

Querem Silêncio. Venha a Castafiore.

Budos e mico calado

Quando Castafiore canta, os vidros partem-se. A brigada do politicamente (in)correcto exalta-se com dramáticas defesas pela Liberdade sempre que alguém critica o Poder. José Manuel Fernandes [JMF], com a sua habitual elegância, exige que a parvoíce (a crítica publicada no Público) pague imposto. José Carlos Fernandes [JCF], mais contido e num longo ensaio publicado no Observador [Tintin no Tribunal Penal Internacional], expõe três argumentos contra a opinião que expus, um deles interessante. Primeiro, o menor, que a censura do livro de Anton Kannemeyer na Gulbenkian se justifica pela sua classificação etária — parece que é impróprio para crianças. Uma ingenuidade que não é atribuível a JCF. É aliás um argumento que obrigaria a retirar boa parte das bandas desenhadas expostas em qualquer livraria. Gosto muito do riso de Castafiore mas isso não impede alguma honestidade.

Mais sério, argumenta depois que não se podem aplicar princípios éticos contemporâneos a obras do passado (Bloom ri). No início do século XX, “poucos seriam os europeus que não estavam convencidos de que assistia aos europeus um direito natural a subjugar as raças inferiores. As crenças racistas não eram perfilhadas apenas por ditadores fascistas, bandos de arruaceiros e capatazes de fazendas em África. Nos países mais avançados e democráticos do mundo, eram teorizadas, com apoio em provas científicas, por antropólogos e biólogos, subscritas por eminentes académicos, cristalizadas, legitimadas e postas em prática pela legislação e genericamente aceites pela opinião pública.” Ou seja, Tintin au Congo, reflectindo o status quo, é inocente.

Nisto, como noutras coisas, o argumento revela-se oco na sua reversão: o esforço da crítica não vai ao passado para criticar o passado mas sim, como é óbvio, para criticar o presente. Numa altura em que a Europa assume publicamente uma política de guerra armada contra qualquer pessoa que entre numa jangada no Norte de África, JCF acredita sinceramente que o racismo latente do início do séc. XX se desvaneceu? Os campos de concentração para imigrantes construídos desde 1995 na Grécia, Itália, França e Espanha são o quê, exactamente? Campos de inserção social? Apesar da denúncia da banalização do mal, o regime jurídico que permitiu o campo continua bem presente no estado de excepção que Giorgio Agamben desvela e que, em boa medida, cada vez mais nos encerra.

A consciência crítica anticolonial era já uma presença intelectual séria em 1931 e nada obrigava um jovem em ascensão a assumir um discurso racista. O terceiro argumento, mais interessante, peca por chegar atrasado. “Se, de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante é-o não por causa do seu conteúdo paternalista e pró-colonialista, como pretende Tiago Ivo Cruz, mas porque é uma obra incipiente de um autor que ainda não domina o seu mister.” Ou seja, o problema não é político, apenas artístico e, crucialmente, os dois vivem separados. Mas como nos ensinam os irmãos Dupondt, separar a forma do conteúdo pode ser um exercício de crítica brilhante na pena de Stanley Fish, Eliot ou Wilde. But, alas, you are no Fish. De tão estafada, a separação tornou-se dogma corriqueiro na crítica literária e, entre o conteúdo que define a forma e a forma que define o conteúdo, a discussão é sempre estéril. Uns dizem Dupond, outros Dupont, sempre cheios e vazios de razão.

É por isso que enxertar meia dúzia de parágrafos sobre ópera sem lhes retirar consequências políticas é mera boutade. Por muito que me apaixone e ouça Rossini, o libreto de La Cenerentola é uma pastoral medíocre que seria estraçalhada por Empson ao pequeno-almoço (porque o estilo literário tem consequências políticas). E, sobre Wagner, é importante lembrar que não é censurado pela esquerda, mas sim por Israel.

Hergé era conservador e isso não me impede hoje de ler nenhum dos seus livros e de ter prazer nisso; só não entendo por que razão tenho de suspender a minha consciência crítica ao fazê-lo. E esta é a falácia do dicionário politicamente (in)correcto: a sua defesa da Liberdade considera que os gurus culturais os proíbem de ler o que quiserem e, sobretudo, os proíbem de retirar prazer desses pequenos pecados reaccionários. Já era altura de enterrar esta infantilidade protestante. Estou-me nas tintas para os prazeres dos irmãos Dupondt, mas incomoda-me quando se arrogam definir o que posso ou não encontrar numa livraria. Não são os gurus culturais quem acha normal censurar livros. São as pessoas muito sérias.

O problema não é a discussão etérea sobre o racismo latente de Tintin au Congo, muito menos se ele deve ou não ser lido, mas sim aquilo que parece não causar o menor incómodo a JCF. Tintin au Congo deve ser lido e vendido (também na sua versão original) tal como o livro censurado de Anton Kannemeyer, precisamente porque o passado colonial não pode ser apagado. E o problema é este. O que se passou na Gulbenkian foi uma escolha ideológica que censura um e não o outro, uma escolha que JCF se prestou a ilibar, mas que não assume.

É, aliás, extraordinário que um jornal que se exalta com a pretensa censura de Saramago, como se ele tivesse assaltado as bibliotecas (como bem satiriza António Guerreiro), não se incomode nem por um segundo com um acto de censura verdadeiro. Tal como, por toda a sua imagem de irreverência, nem um único artigo crítico publicou sobre a Fundação Sindika Dokolo, pelo contrário, comemora sem reservas. Para o Observador, a Liberdade é do Poder e só deles. JMF e JCF criticam como os irmãos Dupondt: “Budos e mico calado”.

PS: peço as mais sinceras desculpas aos irmãos Dupondt.

Tiago Ivo Cruz, Observador, 08/07/2015



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Um documento com 73 anos redefine quem tem a custódia de Tintin

Afinal, os direitos de Tintin não têm como única morada Moulinsart, a localidade e castelo ficcionais da série de BD que é também o nome da sociedade belga que gere o legado de Hergé. Uma pequena associação de fãs holandesa conseguiu uma vitória judicial baseada na revelação um documento assinado por Hergé que pode redefinir a custódia de Tintin.
As aventuras do jornalista criado pelo belga Hergé e que tem como famoso amigo o Capitão Haddock, dono do castelo de Moulinsart, são um império valioso que até aqui é gerido pela sociedade Moulinsart SA, que se dedica à gestão dos direitos de publicação e exploração da “marca Tintin”. A Fundação Hergé, criada em 1987 pela viúva do desenhador, é por seu turno uma organização sem fins lucrativos e gere o museu dedicado à personagem e seu universo em Bruxelas.
Ora em 2012, a Moulinsart processou a Association Hergé Genootschap, um clube de fãs do autor belga que publica uma revista/fanzine trimestral que não é vendida, a Duizend Boomen (em holandês, mil árvores) em que reproduz algumas tiras de Tintin, argumentando que a associação não tem direitos sobre a obra. Esses direitos de reprodução e uso custariam à associação de fãs belga cerca de um milhão de euros. Mas o caso chegou este fim-de-semana a um desfecho que muitos admitem ser inesperado – o tribunal de recurso de Haia não só deu razão à associação como abriu um precedente quanto à possibilidade de a Moulinsart cobrar pela reprodução e uso de excertos de tiras de Tintin.
Isto porque o advogado da associação holandesa apresentou em tribunal um documento assinado por Hergé – o seu verdadeiro nome era Georges Remi (1907–1983) – em que este entregava todos direitos de Tintin (publicado entre 1929 – 1976) à editora Casterman. O documento em causa data de 1942, foi entregue por um perito na obra que quis manter-se anónimo e, aceite em tribunal (a sua validade não foi contestada por qualquer uma das partes nem pela família do desenhador belga), estabelece que a Moulinsart não tem poder absoluto sobre Tintin.
“Parece que a Moulinsart não é aquela que decida quem pode usar material dos livros”, lê-se na decisão do tribunal, citada pela AFP. “A grande questão é agora saber se outros [clubes de fãs] têm de continuar a pagar à Moulinsart” quando usam material dos livros de Tintin, comentou o presidente da associação belga que saiu vencedora deste caso, Stijn Verbeek. O El País abre também a porta à possibilidade de outras publicações que usaram excertos de livros de Tintin e que pagaram por elas poderem exigir agora o seu dinheiro de volta.
"A decisão holandesa é surpreendente”, disse ao diário francês Le Figaro Didier Pasamonik, chefe de redacção do site especializado em BD ActuaBD, que detalha que no passado houve tensões e discussões mais acaloradas entre a Casterman e a Moulinsart sobre o assunto mas sempre vencidas pela Moulinsart.
“Estou incrédulo”, diz por seu turno ao mesmo diário Numa Sadoul, autor do livro Tintin et moi. Entretiens avec Hergé (1975). “Isto significa que agora é Casterman que irá gerir os direitos de Tintin. Isso vai mudar completamente o jogo e melhorar significativamente as relações dos jornais, fanzines e editoras com Tintin.”
Didier Pasamonik chama a atenção para a especificidade da lei holandesa neste caso. “O que é interessante neste momento é que o tribunal em Haia oferece uma nova interpretação da relação entre a Casterman e a Moulinsart, uma leitura dissonante do que havia sido feito pelos tribunais belgas. No que se refere esta decisão, é sobre citações de imagens de Hergé numa revista de fãs. Em França, o direito de citar uma imagem não existe. No entanto, na Holanda, há”, explica o perito, que considera mesmo que se levanta uma questão mais ampla: “que tal uma harmonização europeia?”  

A opinião geral parece ser de que é necessária ainda alguma cautela perante a decisão até se perceber o seu verdadeiro impacto. Nem a Casterman nem a Moulinsart comentaram ainda publicamente a decisão. 

João Amaral Cardoso em Público.pt