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12 de janeiro de 2014

Citação fantástica (101)

Be grateful that you only see the outward man. Be grateful that you never see the passions, the hatreds, the jealousies, the malice, the sicknesses... Be grateful you rarely see the frightening truth in people.

Alfred Bester, The Demolished Man (1953)

22 de dezembro de 2013

Citação fantástica (98)

The whole point of extravagance is to act like a fool and feel like a fool, but enjoy it.

Alfred Bester, The Stars My Destination (1954)

20 de dezembro de 2013

The Stars My Destination: Antecipação e disrupção

No ano passado, falei aqui sobre The Stars My Destination, romance de Alfred Bester publicado em 1954 (também com o título Tiger! Tiger!) para se vir a tornar num clássico incontestado da ficção científica; dada a efeméride do centenário do nascimento do autor, julgo não ser despropositado regressar a este livro, sem dúvida merecedor de uma releitura atenta*. Na análise original, coloquei em evidência a temática de vingança central a todo o enredo que Bester tece com mestria: uma espécie de Conde de Monte Cristo da era espacial, num futuro hipotético no qual a Humanidade já explorou e colonizou o Sistema Solar. A trama, essa, ter-lhe-á surgido a partir da história, aparentemente verídica, de Poon Lim - o marinheiro chinês que passou meses à deriva no Atlântico Sul durante a Segunda Guerra Mundial, dado o receio de que o barco salva-vidas fosse um isco para torpedos alemães. O protagonista de Bester, Gulliver "Gully" Foyle, é um homem comum, um mecânico de terceira classe a bordo da nave espacial "Nomad" - não tem quaisquer ambições, interesses intelectuais ou estímulos naturais. E é este homem comum que, durante seis meses, estabelece uma intricada rotina de sobrevivência após a "Nomad" ser atingida e danificada com gravidade algures entre Marte e Júpiter, no decorrer da guerra entre as Colónias Exteriores e os Planetas Interiores - para se transformar numa máquina de vingança brutal e impiedosa após a nave "Vorga" passar perto dos destroços à deriva da sua nave, ignorando os sinais de socorro e deixando-o para morrer.

Para todos os efeitos, Gully Foyle é um anti-herói - mas não é um anti-herói moderno, charmoso e irreverente, desligado e talvez até algo perverso, capaz de actos questionáveis mas não inteiramente mau. Gully Foyle não podia estar mais longe da descrição - o seu despertar violento nos destroços da "Nomad" torna-o numa besta em forma humana, desfigurado pela tatuagem dos fanáticos do asteróide no qual se salva do vazio sideral; o seu desejo de vingança inflama-o, aguça a sua inteligência e reforça a sua determinação; e a sua sede de vingança leva-o a fazer tudo - tudo - o que está ao seu alcance para a satisfazer. Matar, violar, destruir - nada é tabu no decurso da vingança de Gully Foyle, como cedo aprendem todos aqueles que se cruzam no seu caminho. Não é, de todo, um personagem agradável de acompanhar; mas a força com a qual se projecta pela trama de Bester acaba por se tornar irresistível para o leitor. E o seu desfecho, enfim, é memorável.

Recebido com alguma perplexidade no seu tempo, The Stars My Destination acabou por se tornar num clássico e num dos mais persistentes livros de ficção científica dos anos 50 - antevendo muito do arrojo estilístico que marcaria a revolução do género pela "New Wave" no final dos anos 60. A influência literária mainstream - não só na obra de Dumas como no poema The Tiger de William Blake, que serve de mote ao texto e que o resume de forma perfeita - combinada com a herança temática do género, e a forma elaborada e espantosa como descreveu em página escrita a sinestesia traumática do protagonista, numa passagem memorável, são disso exemplo. Mas a antecipação de The Stars My Destination vai mais longe: ao longo do seu enredo, encontram-se muitos dos temas que se tornariam fundamentais para o movimento que dominaria a ficção científica nos anos 80: o cyberpunk. Conforme Neil Gaiman explicou na sua introdução para a primeira edição do livro na colecção SF Masterworks da Gollancz, 
"The Stars My Destination is, after all, the perfect cyberpunk novel: it contains such cheerfully protocyber elements as a multinational corporate intrigue; a dangerous, mysterious, hyperscientific McGuffin (PyrE); an amoral hero; a supercool thief-woman..."
Os aumentos cibernéticos físicos e mentais poderiam ser outro exemplo de antecipação de cyberpunk (e estão na base de uma sequência de acção muito bem construída em termos visuais). Quando William Gibson, um dos "fundadores" do movimento, descreve o romance de Bester como uma pedrada no charco, não o faz por acaso: dos alicerces temáticos à intensidade narrativa, as raízes do cyberpunk vão até 1954. Mas o que Bester faz em The Stars My Destination é mais do que antecipar movimentos futuros na ficção científica - ele constrói, na melhor tradição especulativa do género, uma premissa fascinante e explora com intensidade as suas possibilidades, e sobretudo as suas consequências. O livro abre, após a célebre quadra de Blake, com um prólogo fascinante - e, lido à distância te todas estas décadas, curiosamente meta-referencial: 
This was a Golden Age, a time of high adventure, rich living, and hard dying... but nobody thought so.
No prólogo, Bester descreve a descoberta acidental da capacidade humana de teletransportação por puro impulso mental - uma técnica designada de Jaunting em homenagem ao cientista que a descobriu, Charles Fort Jaunte; estudos subsequentes feitos pela comunidade científica demonstraram que todos os seres humanos têm o potencial de dominar a técnica mental de jaunting, e de se teletransportarem de forma instantânea através de distâncias mais ou menos longas. É certo que o tema dos poderes psíquicos não é novidade na ficção científica quando The Stars My Destination é publicado em 1954; mas a forma como explora as mudanças radicais que a teletransportação pessoal introduz na economia e na sociedade é a todos os níveis espantosa. Bester começa por explicar como o jaunting tornou todos os sistemas de comunicações humanas obsoletos - como as redes de transportes urbanos deram lugar a plataformas de jaunting, colocadas em hubs estratégicos, para que todos as pudessem utilizar nas suas deslocações diárias. Logo no primeiro capítulo, a descrição do movimento urbano de Nova Iorque enquanto Robin Wednesbury ensina os seus pacientes a recuperarem a capacidade de teletransporte é notável pela vivacidade com que transmite a ideia de uma sociedade profundamente alterada - como todo o tipo de trabalhadores se pode deslocar para toda a parte, limitados apenas pela sua própria capacidade. E ao longo do livro, Bester deixa pequenos detalhes que reflectem todas as alterações socio-económicas: dos condomínios construídos no meio de nenhures à necessidade da construção de muralhas labirínticas nas habitações dos mais abastados, com o propósito de impossibilitar teletransportações para o interior da propriedade. Mas os privilegiados não recorrem ao jaunting; o seu estatuto social passa a ser feito por negação dessa espantosa força transformadora da humanidade. Quando o leitor vê Presteign de Presteign, o topo do topo da sociedade e um dos homens mais poderosos do mundo, a viver num fausto aristocrático digno do final do século XIX, a deslocar-se em carruagens e a impor a utilização de telefones, percebe como é escavado o fosso entre classes: pela obsolescência tecnológica. Por não ser necessário, possuir um carro e deslocar-se num carro passa a ser um luxo, um sinal de poder económico.

De resto, é também o jaunting que está na base da guerra travada entre os planetas interiores (Vénus, Terra/Lua e Marte) e as colónias exteriores (Io, Europa, Ganimede, Calisto, Reia, Titã e Tritão): as transformações socio-económicas que provoca transtorna de forma irremediável o equilíbrio económico construído no Sistema Solar, e precipita uma guerra - e é no decurso dessa guerra que Foyle irá emergir. Bester é mais sucinto na descrição do contexto alargado do confronto, mas nem por isso menos verosímil.

E Bester nem se fica por aqui: da cegueira de Olivia Presteign, filha do magnata, capaz de ver apenas no espectro infravermelho e na projecção de campos electromagnéticos à radioactividade de Dagenham; da telepatia unidireccional de Robin Wednesbury, incapaz de captar os pensamentos de quem a rodeia mas a transmitir os seus próprios sempre que o controlo lhe escapa, à feroz independência de Jizbella McQueen; e sem esquecer Foumyle de Ceres ou o enigmático "Homem em Chamas"; Bester constrói um elenco fascinante que lhe permite explorar os vários aspectos do futuro que constrói com mestria, encaixando cada personagem na complexa engrenagem que é a vingança de Foyle. O resultado é a todos os níveis soberbo: uma aventura vertiginosa e violenta, de uma riqueza conceptual ímpar e de uma força narrativa notável. A sua inteligente construção tornou-o, ao contrário do que aconteceu a alguns clássicos do género seus contemporâneos, impermeável à passagem do tempo: pela vivacidade da prosa, pelo arrojo estilístico e pelo enquadramento das ideias que apresenta, The Stars My Destination lê-se hoje com o mesmo fascínio de há quase seis décadas, quando foi publicado pela primeira vez. Que seja lido e relido, então.

* É claro que o que seria mesmo indicado seria pegar noutro trabalho de Bester, como The Demolished Man - mas ainda não o li. Fazê-lo será uma das minhas resoluções para 2014. 

18 de dezembro de 2013

Alfred Bester (1913 - 1987)

Assinala-se hoje o centenário do nascimento de Alfred Bester, talvez menos recordado hoje do que devia: um dos grandes da ficção científica dos anos 50, 60 e 70, foi o primeiro autor a vencer o Prémio Hugo na cobiçada categoria de "Best Novel": estávamos em 1953, e o romance foi The Demolished Man, um policial futurista num mundo onde a telepatia se tornou comum. Foi publicado originalmente nas páginas da revista "Galaxy Science Fiction" e dedicado ao seu editor, Horace L. Gold. 

Seria o único Hugo que Bester receberia na sua prolífica carreira - mas The Demolished Man está longe de ser a única pérola que a sua bibliografia deixou ao género. Em 1954, o poema clássico de William Blake serviu de abertura a The Stars My Destination, em algumas edições intitulado Tiger! Tiger!. Um livro revolucionário para a sua época - há mesmo quem considere Bester como um dos percursores, ainda nos anos 50, do que viria a ser a "New Wave" nos anos 60. Sobre The Stars My Destination, escreveu William Gibson: 
It was, I saw in my twenties, a book that had absolutely ignored everything that science fiction had been doing when it was written. It was built on bones pilfered from Dumas and Dickens (steal only the best). It was clad in a skin of archly sophisticated Mad Ave ur-hipness, with all the grot and glitter of a fully happening dude’s postwar Manhattan (something no other science fiction writer of the era was able to offer). It was, I recognized then, an utterly urban thing. It made most of the rest of its assumed genre look hick.  
Bester’s protagonist hurls himself naked from a spaceship, fuelled by hatred. Bester’s novel hurled itself naked from the science fiction of its day, fuelled by something hipper than hatred, more potent. Into that vacuum, and on, into the actual 21st Century, Gully and the book rock. 
As palavras de Gibson (o texto completo pode ser lido aqui) surgem a propósito da reedição de The Stars My Destination na colectânea de 2012 American Science Fiction: Classic Novels of the 1950s. Um romance notável, uma espécie de Conde de Monte Cristo num futuro psíquico, do qual já falei aqui - e ao qual talvez regresse na próxima Sexta-feira a propósito da efeméride.

O legado de Bester, porém, é mais vasto do que estas duas obras. Entre os romances que publicou contam-se The Rat Race (1953), The Computer Connection (1975), Golem100,(1980), The Deceivers (1981) ou Tender Loving Rage (1991). Mas também publicou dezenas de contos, como todos os autores do seu tempo; e alguns deles tornaram-se clássicos. Adam and No Eve (1941), Of Time and Third Avenue (1952), Star Light, Star Bright (1953), 5,271,009 (1954), Fondly Fahrenheit (1954) e The Men Who Murdered Mohammed (1958) serão disso exemplos. O seu primeiro trabalho publicado foi o conto The Broken Axiom, nas páginas da revista "Thrilling Wonder Stories" em 1939.

Ao longo da sua vida, Bester trabalhou para a DC Comics em títulos como Superman ou Green Lantern, escreveu comics para jornais, desenvolveu guiões para rádio e televisão. Em 1988, foi nomeado "Grand Master" pela Science Fiction Writers of America, e passou a integrar o Science Fiction Hall of Fame em 2001. Nascido a 18 de Dezembro de 1913 em Nova Iorque, Alfred Bester faleceu a 30 de Setembro de 1987.

30 de dezembro de 2012

2012 em leituras

Tal como nos videojogos, também nas leituras dediquei em 2012 muito pouco tempo às novidades editoriais do ano, optando por continuar a ler muitos dos clássicos da fantasia e da ficção científica que tenho em falta. É certo que a lista de leituras futuras continua a ser muito longa, mas algumas lacunas mais sérias já foram preenchidas - e, diga-se de passagem, com imenso prazer. Seria difícil (para não dizer inútil) falar num único artigo de todos os livros que li em 2012, isto partindo do princípio de que ainda seria capaz de enumerar a lista completa. Assim, e tendo a sensação de que me esqueço de algo, aqui ficam os meus destaques de leitura deste ano que está mesmo quase a terminar. 

The Stars My Destination (Alfred Bester, 1953)
Descrito frequentemente como O Conde de Montecristo da ficção científica, The Stars My Destination conta a fabulosa e sangrenta odisseia de vingança de Gully Foyle, um homem em nada excepcional que foi abandonado à sua sorte nos destroços de uma nave espacial à deriva no Sistema Solar. Isto num futuro em que a Humanidade se espalhou pelos vários planetas e satélites mais próximos, e em que toda a gente possui a capacidade de se teletransportar. As alterações sociais provocadas pelo teletransporte compõem o quadro de forma brilhante, mas é Gully Foyle, um autêntico Zé-Ninguém, quem carrega a narrativa às costas a passo de corrida, num ritmo tão vertiginoso como violento, cruzando-se com personagens fascinantes (como Dagenham ou Olivia Presteign) à medida que junta as várias peças do puzzle que é a sua vingança. Muito do que se seguiu na ficção científica literária tem neste livro as suas raízes, o que, julgo, diz alguma coisa sobre quão importante foi na sua época.

The Forever War (Joe Haldeman, 1973)
Numa das mais relevantes obras da ficção científica militar, Joe Haldeman transporta a Guerra do Vietname - na qual combateu - para um futuro no qual as grandes batalhas são travadas no espaço. Da recruta ao combate real, Haldeman usa o pretexto da guerra contra os "Taurans" para reflectir sobre o absurdo da guerra, sobre a forma como nunca conhecemos verdadeiramente o nosso inimigo, e sobre a forma como a guerra muda de forma inevitável e irreversível quem nela participa. Quando o familiar se torna estranho e quando as causas se tornam difusas, qual é o sentido do combate? Com uma narrativa muito bem articulada, Haldeman recorre a um realismo científico invulgar para colocar estas (e outras) questões, utilizando a relatividade do tempo no espaço para acentuar a estranheza dos combatentes à medida que os anos se sucedem a ritmos diferentes na guerra e no mundo que o soldado Mandella e os seus companheiros juraram proteger. A todos os níveis, The Forever War é uma obra fundamental na ficção científica. 

A Canticle for Leibowitz (Walter M. Miller, Jr., 1960)
É possível que A Canticle for Leibowitz seja a obra mãe da ficção pós-apocalíptica que tão bons livros e filmes nos deu ao longo das últimas décadas. Muitos anos após o cataclismo nuclear que arrasou a civilização no então longínquo século XX, os frades da Ordem de Leibowitz - que julgam um mártir - dedicam-se à preservação de todo o conhecimento científico que esteja ao seu alcance, ainda que nem sempre tenham um entendimento muito preciso daquilo que têm em mãos. Isto, claro, enquanto tentam obter a beatificação do seu santo padroeiro, e enquanto lutam pela sobrevivência num mundo devastado. Publicada originalmente na The Magazine of Fantasy and Science Fiction em três partes, A Canticle for Leibowitz é uma história muito bem conseguida e particularmente bem humorada sobre a natureza humana, e sobre o carácter cíclico - e quase sempre irónico - que a História acaba sempre por assumir.

Hyperion / The Fall of Hyperion (Dan Simmons, 1989/1990)
Ainda a leitura ia a meio e já Hyperion, de Dan Simmons, se tinha tornado num dos meus livros de ficção científica preferidos - pela escrita elegante, pelas referências literárias, e sobretudo pela densidade da narrativa. Um acaso que é tudo menos casual juntou sete desconhecidos numa peregrinação à lendária criatura conhecida como Shrike, no remoto planeta Hyperion - e, durante a longa viagem, decidem partilhar as suas histórias e o que os levou a alinhar naquela aventura suicida. Mais do que uma história, Hyperion é composto pelas formidáveis histórias individuais de cada um dos peregrinos, que contém as várias peças do vasto puzzle da guerra de proporções galácticas que se avizinha. Afinal, qual é a relevância de Hyperion no conflito entre os mundos da Web e os Ousters? E qual é o papel da AI Technocore? As respostas são dadas no surpreendente The Fall of Hyperion, fechando de forma formidável esta parte dos Hyperion Cantos

Stand on Zanzibar (John Brunner, 1968)
Para todos os efeitos, John Brunner falhou na previsão: apesar de a população terrestre em 2010 ser de (mais ou menos) sete mil milhões de indivíduos, as consequências da sobrepopulação estão longe daquelas que imaginou em Stand on Zanzibar. O que, para todos os efeitos, é irrelevante: a sobria distopia que descreveu de forma prodigiosa neste livro premiado continua a ser relevante e, acima de tudo, assustadoramente plausível. Num estilo narrativo que, sendo reminescente de John Dos Passos, nunca deixa de ser original e inovador, Stand on Zanzibar marcou os anos da "New Wave" com as histórias paralelas de Norman House e Donald Hogan num mundo caótico onde o espaço e a privacidade se tornaram luxos. As muitas histórias paralelas dão cor ao mundo imaginado por Brunner ao focar os vários aspectos desta distopia, e há qualquer coisa de vagamente premonitório (e genial) nos infodumps com que o autor apresenta personagens, introduz factos e coloca mais questões do que respostas. 

Lord of Light (Roger Zelazny, 1967)
Pode um livro excepcional ter origem num trocadilho? Pode, e Roger Zelazny demonstrou-o em 1967 com Lord of Light, misturando fantasia épica e ficção científica de forma elegante e irónica. O trocadilho fica à descoberta dos leitores, tal como a história de Mahasamatman, que deixou cair o -Maha e o  -atman para ser conhecido apenas por Sam. Sam abandonou o panteão dos deuses para viver entre os homens e, no seu caminho, decidiu devolver à Humanidade todo o conhecimento e todo o progresso que aqueles lhe negavam. Como é que uma história sobre a revolta contra o divino pode incluir ficção científica? Esse é justamente uma das maravilhas de Lord of Light e da sua recriação sui generis das divindades Hindus. Com uma interessante estrutura narrativa circular, Zelazny desenvolve uma fascinante história de queda e ascensão onde Yama, Brahma, Shiva, Ratri, Mara e Ganesha merecem destaque, mas na qual é Sam, o Buddha, quem de facto brilha. 


The Colour of Magic (Terry Pratchett, 1983)
No final do ano passado, defini como única resolução para 2012 começar a ler a série Discworld, de Terry Pratchett, após me ter maravilhado com o conto The Sea and Little Fishes que encontrei na antologia Legends, de Robert Silverberg. Logo em Janeiro li The Colour of Magic, primeiro volume nesta série que já conta com 39 livros publicados, vários contos e inúmeros livros paralelos, e apesar de esperar uma leitura divertida, acabei por me surpreender com a (aparentemente infinita) capacidade de Pratchett descrever as mais absurdas e hilariantes situações no mundo fantástico de Discworld (que, como se sabe, assenta sobre quatro elefantes enormes que estão de pé sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica). The Colour of Magic apresenta o inábil feiticeiro Rincewind, a formidável Luggage, a Morte e a grande cidade de Ankh-Morpork - e ainda que possa não ser o livro mais divertido da série, é nele que tudo tem início.


The Farthest Shore (Ursula K. Le Guin, 1972)
Earthsea, o universo de fantasia de Ursula K. Le Guin, ocupa um lugar de destaque na fantasia moderna. Com cinco romances e vários contos, Earthsea esconde vários temas adultos numa narrativa de tom mais próximo da literatura young adult e em personagens e localizações fascinantes. A Wizard of Earthsea é o primeiro desses livros, publicado em 1968, mas foi The Farthest Shore, o terceiro livro da série, que mais me tocou. Com a magia a desaparecer do mundo, o feiticeiro Ged junta-se ao jovem príncipe Arren numa viagem pelas ilhas mais remotas do vasto arquipélago de Earthsea. Nessa expedição encontram tribos muito diferentes, dragões e um terrível inimigo que os obrigará a ir para lá dos limites do mundo desconhecido e a enfrentar os seus maiores receios. Tal como nos outros livros da série, em The Farthest Shore Le Guin desenvolve uma história muito contida com um ritmo excepcional, explorando novas facetas do universo de Earthsea numa aventura que se revela mais madura do que aquelas que a antecedem.

The Last Wish (Andrzej Sapkowski, 1993)
The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings são dois dos mais aclamados videojogos dos últimos cinco anos, e têm a sua origem na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski. Nos vários contos que compõem a antologia The Last Wish, Sapkowksi apresenta Geralt of Rivia, o cínico caçador de monstros que assume o papel principal tanto nos livros e contos como nos populares videojogos. À primeira vista, o universo descrito nos vários contos que compõem The Last Wish parece semelhante a outros universos de fantasia medieval de inspiração tolkieniana, com elfos e anões a conviverem com os seres humanos, e com muita sword & sorcery. A diferença reside no tom, e é aqui que Sapkowski revela toda a sua mestria, criando fábulas que, num tom tão cínico como sarcástico, desconstroem as convenções e os clichés da fantasia épica e dos contos de fadas para criar histórias onde o Bem e o Mal raramente são aquilo que parecem ser

28 de setembro de 2012

The Stars My Destination, ou O Conde de Monte Cristo da ficção científica

The Stars My Destination (1956), de Alfred Bester, é um dos melhores livros de ficção científica que já tive oportunidade de ler. Não o digo por ser um dos preferidos de autores como William Gibson, Neil Gaiman ou Joe Haldeman, ou por ser hoje - e com toda a justiça - considerado um precursor do popular cyberpunk - mas sim por ser uma obra extraordinária, um prodígio de imaginação e uma aventura vertiginosa da primeira à última página.

Com um prólogo interessante a explicar como a Humanidade aprendeu a teletransportar-se (o termo de Bester é jaunting), e o impacto que isso teve na sociedade, com o desaparecimento das redes de transportes (tornadas obsoletas) e as formas de preservação da privacidade num mundo onde toda a gente pode, em teoria, ir a qualquer lugar, a história tem lugar alguns séculos no futuro, numa época tão fantástica como sombria. O protagonista, Gully Foyle, segue metodicamente a sua rotina de sobrevivência nos destroços da nave espacial Nomad, de cuja tripulação foi o único sobrevivente após a nave ser apanhada no fogo cruzado da guerra entre os planetas centrais e as colónias exteriores situadas em luas dos planetas mais distantes do Sistema Solar. Foyle é um homem comum, médio - não em dimensões físicas, pois essas são generosas, mas em tudo o resto. Não se faz notar, não brilha ou falha no seu trabalho. Quando ficou encurralado nos destroços da Nomad, estabeleceu uma rotina de sobrevivência e executou-a com rigor. Até que, após meses sozinho no vazio do espaço, a nave espacial Vorga passa ao largo da Nomad, e ignora os sinais de socorro enviados por Foyle. O que, ao invés de o fazer entrar em desespero, fá-lo sair da sua letárgica rotina e, mais do que sobreviver, empreender todos os esforços - ao seu alcance ou não - para sair dali e encontrar os responsáveis da Vorga que ignoraram o seu sinal de socorro e obter a sua vingança. De preferência, com sangue (e de que maneira).

A partir deste ponto, a narrativa segue Gully Foyle numa autêntica história que se poderia definir como “O Conde de Monte Cristo meets Ficção Científica”, repleta de intriga, traição, twists surpreendentes e violência q.b.. A cruzada de vingança iniciada por Foyle leva-o a encontrar uma substância rara, tão enigmática como perigosa, e por isso extremamente cobiçada - para além de um segredo extraordinário a seu respeito, capaz de mudar o rumo da Humanidade. No seu caminho encontra um elenco de personagens memoráveis - do radioactivo Saul Dagenham à cruel Olivia Presteign, de Jisbella McQueen a Robin Wednesbury, cada uma com a sua agenda pessoal - e os resultados da interacção com Foyle são sempre imprevisíveis.

The Stars My Destination está repleto de elementos que antecipam o movimento cyberpunk três décadas antes de William Gibson o ter “inaugurado” com Neuromancer, já nos anos oitenta - o que em si é um feito, e prova da influência desta obra de Alfred Bester. A narrativa é intensa ao ponto da vertigem, com locais extraordinários (a prisão de Gouffre Martell, a colónia nos asteróides) e uma componente visual impressionante, explorada através de uma componente formal original e muito bem conseguida.

Numa época em que a indústria cinematográfica vive dos remakes, dos reboots e das sequelas, não entendo como ainda ninguém pegou em The Stars My Destination. Sejamos francos: o livro pode ser longo, denso e algo complexo, mas pela história que conta, pela acção que apresenta e pelas várias premissas com enorme potencial visual, o clássico de Alfred Bester está a pedir uma adaptação cinematográfica de qualidade.

25 de março de 2012

Citação fantástica (6)

"You, pigs, you. You rut pigs, is all. You got the most in you, and you use the least. You hear me, you? Got a million in you and spend pennies. Got a genius in you and think crazies. Got a heart in you and feel empties. All a you. Every you..."
He was jeered. He continued with the hysterical passion of the possessed.
"Take a war to make you spend. Take a jam to make you think. Take a challenge to make you great. Rest of time you sit around lazy, you. Pigs, you! All right, God damn you! I challenge you, me. Die or live and be great. Blow yourselves to Christ gone or come and find me, Gully Foyle, and I make you men. I make you great. I give you the stars."


Alfred Bester, The Stars My Destination (1956)