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sábado, 20 de abril de 2024

domingo, 17 de outubro de 2021

Tintin ou o triunfo dos pequenos

Em dezembro de 1969, poucos meses após a demissão do general De Gaulle, André Malraux foi visitá-lo ao seu retiro de Colombey-les-Deux-Églises e trouxe de lá um livro marcante, que relata (fielmente ou não, mas que importa?) a sua conversa com o homem que saía nesse momento da política e da vida ativa para entrar na lenda dos séculos.

É nessa conversa que De Gaulle diz a famosa frase "no fundo, o meu único rival internacional é Tintin", que é frequentemente citada a propósito desta enorme e já mítica figura da ficção, agora objeto de uma exposição na Fundação Gulbenkian que eu fiz questão de não perder. Mas falta explicar porque dizia tal coisa o general; e a frase continua: "Nós [De Gaulle e Tintin] somos os pequenos que não se deixam levar pelos grandes; só não dão por isso por causa do meu tamanho" - e ri-se.

Um pequeno que sabe enrolar os grandes, como David fez a Golias, é um herói improvável. É De Gaulle, contando apenas com a aliança nem sempre estável de Churchill para se opor ao "bom senso" de Roosevelt, que queria diluir a Resistência no esgoto dos pétainistas arrependidos e governar militarmente a França como país ocupado. O heroísmo improvável de De Gaulle foi o de, pequeno como estava, declarar sem ambiguidades que ali onde ele está é a França que fala e conseguir, contra todas as probabilidades, colocar a França entre as nações vitoriosas da guerra.

Também Tintin faz uma aposta improvável e fora do bom senso quando, contra todas as evidências dos relatos do desastre aéreo no Tibete, decide ir procurar o seu amigo Tchang, um dos passageiros do avião perdido. Quem é pequeno só pode fazer apostas improváveis, porque para as certas não tem os meios. Como caracteriza Malraux: "O homem que escapa ao destino - o que é talvez a definição do homem lendário - é diferente do santo e do herói." É do que nos ocupamos - Tintin, que foge ao destino.

Tintin escapa aos criminosos que o perseguem no Congo, aos gangsters que o cercam na América, a Rastapapoulos e seu bando de traficantes, a Mitsuhirato e à espionagem japonesa, ao general Alcazar e ao general Tapioca, aos agentes da Bordúria, de Musstler a Pleksy-Gladz,, aos traficantes de escravos, aos sinistros irmãos Loiseau, ao traidor Wolff e finalmente ao yeti que chora lágrimas de emoção no termo desse grande romance que é Tintin no Tibete... Ele é bem pequeno face a todos os inimigos e todos os desafios - mas conta com a sua inteligência, a sua coragem, a sua astúcia ... e os seus amigos.

As histórias de Tintin são histórias de amizade sem falhas: Haddock segue Tintin para a sua louca aventura no Tibete, os raptores de Tournesol são perseguidos sem qualquer hesitação ou receio por Tintin e Haddock. O grupo familiar que cerca este Tintin sem família aparece-nos em cada álbum, todos fiéis ao que são e dando-nos assim a segurança límpida dos seres que não mudam.

De Gaulle entendeu Tintin. Nós, os tintinófilos, seguimo-lo desde o mais fundo da infância e compreendo Hergé quando ele considera que Tintin nos servia de modelo. De modelo de curiosidade que não cessa de inquirir a verdade das coisas, de modelo moral que pelo Bem se bate sem tréguas contra os maus (sempre desenhados numa linha clara que, ai de nós, veremos depois esbater-se e acinzentar-se à medida que nos tornamos adultos) e que triunfa de injustiças desde logo claras para nós (a expulsão dos índios dos seus territórios na América) ou que mais tarde compreenderemos melhor (a agressão japonesa contra a China). A curiosidade levou-nos a querer entender o mundo. A moral levou-nos a querer entender os humanos nossos irmãos. Tintin levou-nos a entender que ser pequeno não é necessariamente ser escravo.

Luís Castro Mendes (Diplomata e escritor), Diário de Notícias, 05/10/2021

«Conheci Tintin aos meus cinco anos e nunca mais me separei dele, mesmo depois da morte do seu autor Hergé.»

Luís Filipe Castro Mendes, facebook, 30/04/2020

Preocupa-me a Sildavia não ter representação consular em Portugal

Luís Filipe Castro Mendes, facebook, 17/07/2020

Loja TTPTT

Carta de Hergé aos seus editores portugueses.

facebook

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Tim Tim passou por nós!


Alcipe, blog Tim Tim no Tibet, 16/07/2011

Francisco Seixas da Costa July 17, 2011 at 8:23 PM

Uáu! Bela foto. Em Louvain-la-Neuve ?

Alcipe July 17, 2011 at 8:28 PM

Exacto. Finalmente vi o Museu Hergé. Mas o Centro de Banda Desenhada em Bruxelas (rue des Sables) é extraordinário.

Francisco Seixas da Costa July 19, 2011 at 12:57 AM

E já foste à livraria "La bande des six nez"?

Alcipe July 19, 2011 at 8:53 AM

Não, não conhecia. Para a próxima vez...

Helena Sacadura Cabral July 21, 2011 at 5:39 PM

Não deixe de ir prezado Alcipe. O nosso Embaixador só dá bons conselhos!

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Facebook 2013

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Blog de Francisco Seixas da Costa

duas ou três coisas - notas pouco diárias de Francisco Seixas da Costa

Blogue

Não tinha dado conta, devo confessar: este blogue fez ontem cinco anos. Foi um confrade que se preocupa com essas datas que o anunciou.

Foram cinco anos sem uma única data em que eu aqui não tivesse deixado um post. Foram em número de mais de 3200 as mensagens que assinei, entre memórias ou notas do quotidiano, historietas pessoais ou de outros, cenas e episódios da vida diplomática, textos mais ou menos sérios, muitas fotografias. 751 amigos inscreveram-se para seguir, nos dias hoje, este blogue. Quase um milhão e trezentas mil visitas foram feitas nestes cinco anos, com mais de dois milhões de páginas consultadas. Em média, todos os dias, o blogue é visitado por mais de mil pessoas - o que, de acordo com quem sabe destas coisas, leva a presumir que cerca de cinco mil leitores passam regularmente por aqui.

Durante o primeiros quatro anos, o blogue foi assumido como sendo "do embaixador de Portugal em França", embora nunca tivesse sido um blogue formal da Embaixada. Logo no primeiro post ficava clara a dualidade: "Embora, como disse, este espaço não tenha uma natureza oficial, naturalmente que quem o escreve assume, em pleno, a responsabilidade da função que exerce e que, por essa razão, não se esquece dela ao escrever. "À bon entendeur"..." A mudança do meu estatuto ocorreu há um ano e, naturalmente, o blogue sofreu alguma alteração no seu estilo e, aqui ou ali, em alguma seleção temática.

Um palavra para as comentadoras e comentadores. Quem segue este espaço sabe que há gente que o acompanha desde o início, com uma dedicação que só posso agradecer. Um "quarteto" ímpar de senhoras tem feito uma inigualável "guarda de honra" aos textos: Isabel Seixas, Helena Oneto, "Margarida" e Helena Sacadura Cabral. Mas há outros nomes, como "Patrício Branco", "Catinga", ARD ou Guilherme Sanches a cuja fidelidade estou muito grato. Caso especial é "Alcipe" e o seu saudoso heterónimo "Feliciano da Mata", este último agora desaparecido em combate empresarial, entre o Cabinda e o Cunene, com passagens fugazes pelo mundo do PSI20. (...)

Diplopoeta

O "nosso" Luís Castro Mendes acolheu-se agora à "Assírio & Alvim", onde vai publicar o seu próximo livro, "A Misericórdia dos Mercados". É bom vê-lo numa excelente casa da poesia, ainda ligada, agora só pelo nome, ao meu querido amigo João Carlos Alvim (João, temos de nos ver um dias destes!).

O primeiro lançamento ocorrerá na Póvoa de Varzim (e não Póvoa do Varzim, como às vezes alguns se enganam), no dia 22 de fevereiro, no âmbito da "Correntes d'Escritas" (desculpa lá, Luís, mas tenho um compromisso em Setúbal nesse dia, com que sei que estarás solidário).

No dia 25, pelas 18.30, na Barata, na avenida de Roma, o evento repete-se, com falas de Fernando Pinto do Amaral e Nicolau Santos (Tó Zé Massano, se chegares mais cedo, tu, que moras a "walking distance", marca lugares!).

Dizem-me que, para este último evento, se prevê uma multidão multinacional. Desde logo, um tal Alcipe, vindo de Estrasburgo com a madame. Como estamos no ano comemorativo do "movimento dos capitães", é aguardado, com imensa expetativa, o famoso Capitão Rosa, que agora usa um nome estrangeiro, para armar em "fino", na correspondência que lhe mandam para Moulinsart. Ao que me dizem, está já confirmada a presença de um estimado comerciante da Figueira da Foz, de seu nome Oliveira, muito chegado ao autor, e de quem, nas últimas horas, se fala bastante para novo presidente da AICEP. De Coimbra, aguarda-se o renomado professor Pedro João dos Santos, acompanhado de um jornalista de um diário de Lisboa, cujo nome me escapa. De Paris, está garantida a presença amiga de Ronaldo Azenha de Noisiel, que consta estará prestes a lançar um negócio de mercearias "drive-in" em auto-estradas. Também deverá deslocar-se, vindo de uma das antigas colónias, essa figura muito próxima do autor que é Feliciano da Mata, em seu nome e de uma senhora engenheira cuja modéstia esconde o santificado apelido. Em representação de uma augusta figura, espera-se a presença de D. Henrique Vasconcellos Menezes (Vinhais), responsável pelo pé de página do Gotha dedicado a Portugal. Pelo movimento literário Malta da Rima, a que o autor terá aderido na juventude, aguarda-se a presença de um diplomata que, nos últimos anos, se dedica a fazer um "remake" do "Mistério da Estrada de Sintra". Pude há minutos confirmar, depois de um jantar que tive com o Hélder Macedo, que, daqui de Londres, irá o Joseph Crabtree e, do Brasil, está garantida a presença de Augusto Maria de Saa. E muita, muita mais gente.

Vai ser uma festa!  

Francisco Seixas da Costa, 11/02/2014

11 de fevereiro de 2014 às 06:16

Anónimo (JPGarcia) disse...

Ouvi dizer que até do Tibet vem um amigo (comum ao abominável homem das neves ), de Milão uma cantora lírica de renome, da América Latina um General que dará um curso de derrube de Governos, do Egipto um vendedor de charutos Flor Fina. Al Capone não estará porque os gangsters de cá lhe metem medo (o mesmo acontece com Rastapopoulos, Allan e o Dr. Muller). O Sheik Ben Kalish Ezab e o filho aproveitarão para investir em Portugal. O caranguejo servido será "Pinces d'Or", as carnes frias naturalmente Sanzot e o whisky Loch Lemond. Dupont e Dupond estão agora no poder aqui no burgo mas têm compromissos anteriores. Obama será representado pelo cão de ågua Milú. O jornalista Jean-Loup de la Batellerie fará a reportagem. Belém cedeu a Irma que agora lá vive. Os convivas oferecerão uma versão em prata do ceptro de Ottokar. Do Congo virão padres e pretos. A comunidade científica portuguesa, agora em crise, recusou ser representada pelo Professor Girassol, como propunha o Governo. Talvez venha um dos Alambiques, mas está-se ainda a negociar. Ciganos são bem-vindos mas a Gazza Ladra não, para não levar os diamantes da D. Didas. Não serão precisas sete bolas de cristal, nem aproveitar um eclipse do Sol, para se prever que o lançamento das memórias do Cavaleiro de Hadoque será um grande sucesso. Espera-se contudo que não caia por cá nesse dia uma estrela misteriosa, a não ser que seja de platina para se poder pagar a dívida. Um abraço ao Senhor Tim-Tim do JPGarcia que procurará estar presente, no caso do Docteur Rotule o curar das actuais maleitas.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tintin e os polícias.


Neste Natal, ao folhear*, numa casa de familiares, a edição portuguesa (pós-25 de abril) do álbum "Tintin na América", recordei o facto de um dia me ter dado conta de que a primeira aparição da história em Portugal havia sido objeto de uma discreta intervenção da censura. Já aqui havia falado do assunto, mas só agora posso documentar esse ridículo ato censório.

Hoje, dei-me ao cuidado de procurar, na coleção completa do "Cavaleiro Andante" (1952-1962), de que sou feliz proprietário, e lá fui encontrar, no nº 210, de Janeiro de 1956, a primeira imagem dessa história**. Olhem para ela:



O Estado Novo, na sua cuidadosa preservação das figuras da autoridade, entendeu não dever permitir que um polícia pudesse ser apresentado a fazer a continência a um gangster.

O "Cavaleiro Andante" optou também por uma tradução livre do texto original francês, que - já agora! - assim reza: "À Chicago, où règnent en maîtres les bandits de toutes espèces, un soir..." Talvez tivesse sido ponderada a necessidade de remeter para um prudente e bem qualificado passado essas mesmas aventuras. Não fosse dar-se o caso de, em 1952, alguém ter a veleidade de pensar que, noutras partes do mundo, pudesse haver "bandits de toutes espèces" a reinarem sob a proteção de polícias...

* Eu havia escrito "desfolhar", o que era um enormíssimo erro. Um leitor atento corrigiu-me, o que agradeço.

** Para os mais curiosos e conhecedores da obra de Hergé, noto que a história tal como publicada no "Cavaleiro Andante" é claramente baseada na primeira edição do "Tintin en Amérique", que surgiu na revista belga "Le Petit Vingtième", em 1931, o que justifica a total diferença na coloração (a versão original era a preto-e-branco), para além de bizarros pormenores de "publicamente correto" que não vêm para o caso...



10 comentários:
Anônimo disse...
Enfim...
Se os Referidos lessem a psicanálise dos contos de fadas talvez percebessem a importância para os espíritos infantis independentemente da idade cronológica, que é fundamental para manter o entusiasmo pela história contada uma peculiar irreverência. Ah, independentemente da idade mental, do leitor claro!

Aliás isso vê-se, sente-se. ora vejam... Lá se vêem.

Isabel seixas

10 de janeiro de 2011 00:59
César Ramos disse...
(...) na verdade, até a B.D. - 9ªArte - sofreu a pressão dos poderes políticos, tal qual agora, de forma recorrente, se volta a falar da hipótese de a Justiça belga proibir(!?) o álbum "Tintin no Congo", sob o argumento de que o livro é racista.

[lá vai o livro subir na cotação do mercado livreiro clandestino]

Hergé era ainda vivo, quando foi entrevistado acerca destes conceitos, tanto sobre o "Tintin no Congo", como s/o alegado "anti-comunismo primário" no "Tintin au Pays des Soviets".

Se a Bélgica pudesse fazer alguma auto-crítica, pensaria que, enquanto colonizadora, desviou muitas riquezas do solo congolês, mas nunca lá pregou um prego!

Agora, Hergé é que tem os defeitos da falta de ética!

Parabéns... pela colecção do "Cavaleiro Andante"; é uma bela raridade!

Peço desculpa pelo tempo perdido e o espaço que lhe tomei.

Cumprimentos,
César Ramos

10 de janeiro de 2011 03:32
Alcipe disse...
Eu poderia invejar muitas coisas ao meu amigo Francisco, mas sucede que não sou um invejoso e muito menos dos meus verdadeiros amigos. Agora a colecção do "Cavaleiro Andante" com as primeiras versões em português do Tim Tim (o capitão Rosa; o professor Girassol) essa eu confesso : invejo-a furiosamente!

(Sei que tenho que arranjar um bom álibi se essa colecção algum dia for roubada)

10 de janeiro de 2011 12:23
Francisco Seixas da Costa disse...
... e encadernada a preceito, caro Alcipe!

10 de janeiro de 2011 13:45
Carlos disse...
Parabéns pela notável observação desse pormenor numa história do nosso saudoso Tintin. Só lhe pedia encarecidamente o favor de não DESFOLHAR essas obras tão preciosas. FOLHEIE-AS com a devida cautela, porque são realmente preciosas.
Com o meu agradecimento pelos belíssimos textos com que me presenteia, desejo-lhe paz e bem para si e para todos os seus.

10 de janeiro de 2011 16:11
Santiago Macias disse...
Fantástico!
Não fazia ideia que as "intromissões" chegavam a esse ponto, ao mesmo tempo revelador e caricato. A História tem desses exemplos em abundância, e nem sequer falo das célebres maquilhagens fotográficas do regime soviético.
Uma vez, numa exposição de arqueologia num país da América Latina, mostrei ao embaixador português uma lápide em árabe, onde o nome do emir caído em desgraça tinha sido cuidadosamente rasurado.

10 de janeiro de 2011 19:42
Francisco Seixas da Costa disse...
Caro Santiago Macias: ou muito me engano ou conheço bem esse embaixador e esse país.

10 de janeiro de 2011 20:17
A.Teixeira disse...
Suponho que será pertinente notar que, 16 anos depois, o mesmo Estado Novo permitiu a publicação da imagem original (com o polícia cumprimentando o ladrão) no nº32 do 4º Ano da revista Tintin, qur foi publicada a 1 de Janeiro de 1972.

Terão sido os efeitos da "Primavera Marcelista"?...

11 de janeiro de 2011 18:06
Francisco Seixas da Costa disse...
Caro A. Teixeira: Excelente nota!

11 de janeiro de 2011 20:12
Funes, o memorioso disse...
Muito interessante esta nota. Mas importa estar consciente que esta necessidade de ocultar o politicamente incorrecto não foi um exclusivo do Estado Novo. Hoje mesmo, um bando de cretinos está a editar nos EUA o clássico «Huckleberry Finn», de Mark Twain, omitindo na obra a palavra "nigger" que aparece mais de duzentas vezes no original.