Showing posts with label FMI. Show all posts
Showing posts with label FMI. Show all posts

Wednesday, July 15, 2015

ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Arrebatado pela gravata, vd. como aqui,  Tsipras passou a linha vermelha que ele próprio tinha traçado, caindo nos braços da volúvel Christine. Imagine quem quiser o que terá passado pela mente da directora-geral naquela noite de pesadelo. 

Nos dias seguintes, Tsipras torceu-se e distorceu-se em argumentos que esbarraram contra a intransigência dos outros 1+17 e a rispidez altiva da srª. Lagarde. Irado, chamou-lhes criminosos, foi plebiscitado pelo seu povo, e acabou por aceitar a pior de todas as propostas, perdendo, naturalmente, por 18 a 1. Que, também naturalmente, não vai ser cumprida.

Hoje, com os bancos gregos fechados talvez por mais um mês, soube-se que, vd. aqui, o FMI da previsível na imprevisibilidade Christine Lagarde critica e ameaça não participar no terceito resgate da Grécia nos termos em que foram impostos pela arrasante maioria dos membros da zona euro, e nomeadamente por tal acordo não incluir uma substancial redução da dívida grega.  Precisamente o ponto mais relevante porque se bateu Tsipras e que foi liminarente refutado pela srª. Merkel, ouvido o sr. Schäuble, e que mereceu a aprovação adormecida a altas horas da noite de todos os outros 17. 

Como Tsipras tentou que o FMI não fizesse parte deste terceiro resgate, Christine promete fazer-lhe a vontade e deixá-lo agora com água a crescer-lhe na boca.

Thursday, July 09, 2015

LA DONNA È MOBILE

Dona Christine Lagarde tem dias. 
As notícias desta manhã dão conta que a directora-geral do FMI declarou ontem que a dívida da Grécia tem de ser reestrurada e que os gregos precisam de mais 50 biliões de euros para se desatascarem e levantarem a cabeça. 
Espantoso?

Um pouco, mas não tanto assim.
Sua Excelência tem vindo ao longo do seu mandato a dar provas de ter a cabeça mal arrumada: umas vezes bate-se por medidas de políticas austeridade, depois afirma que essas medidas foram longe de mais e não resultaram, depois volta a insistir que sem mais medidas de austeridade não há mais apoio do FMI, recentemente avisou a Grécia de que ou pagava no dia 30 de Junho os 1,5 milhões devidos nesse dia ou cortava-lhe a coleta. 
Nunca se tinha visto nada assim: um país, dito desenvolvido, não pagou mesmo. 

Dias depois, foi publicado um relatório do FMI, - vd. aqui -, que os países da Zona Euro quiseram bloquear- vd. aqui -, que reconhecia, além do mais, que a dívida grega requer uma reestruturação e o sistema financeiro grego uma injecção de 50 milhões de euros. Tal e qual o que a srª. Lagarde disse ontem, sendo certo que quando ainda dizia o contrário o relatório já lhe tinha sido distribuido. 

É a senhora Lagarde volátil por conta própria? Duvida-se. Desde logo porque as contradições entre relatórios do FMI e as declarações e imposições dos seus técnicos integrados na troica são frequentes. Depois porque Madame Lagarde deve ter recebido indicações para olhar para o mapa e perceber onde se situa a Grécia.

A rematar as suas declarações, Christine Lagarde fez questão de esclarecer que as medidas de excepção aplicáveis à Grécia não podem ser estendidas aos outros países intervencionados, i.e., Portugal e a Irlanda.

O que dirá o primeiro-ministro de Portugal a isto?
E o candidato ao lugar?



Monday, July 06, 2015

PERDIDOS POR DEZ, PERDIDOS POR MIL

"Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias." - cf.  aqui.

A previsão de que a Grécia vai atravessar dias de grande calamidade, a juntar aqueles que já experimentou, tem alta probabilidade de acontecer. 

Tsipras chegou ao poder prometendo muito que não poderia vir a cumprir. Nisso não se distingue da generalidade dos políticos, exemplos desses abundam também por cá, e por toda a parte . E, é sabido, as promessas são tanto mais atraentes quanto mais os crentes estão aflitos. Ora os gregos tinham sido apanhados na ratoeira de uma dívida externa que os esmagava e continua a esmagar, uma situação que o último relatório do FMI atesta.

A história já foi contada vezes incontáveis: os bancos, ou investidores através deles, emprestaram aos bancos fundos em volumes completamente desproporcionados com as capacidades de pagamento da economia grega. São os gregos vítimas inocentes desta armadilha sinistra? Não todos: há muitos coniventes, activos ou passivos, geralmente gente bem instalada na vida.

Apesar da ténue recuperação da economia observada em 2014, os gregos rejeitaram nas eleições de alguns meses atrás a continuidade da liderança política daqueles que os tinham metido num beco sem saída. E, em desespero de causa, atiraram-se para os braços do vendedor de promessas. Acontece fequentemente, é assim que as democracias sossobram e os demagogos são idolatrados.

Tendo Tsipras prometido o que não pôde conseguir nas negociações em Bruxelas e etc., não tinha mais alternativas senão voltar a Atenas e perguntar ao povo que o tinha elegido o que queria o povo, ou demitir-se. Escolheu a primeira e o povo disse que não, que não aceita as condições impostas pelas instituições europeias e pelo FMI.

Votaram os gregos na ignorância do que vai acontecer a partir de hoje? De modo algum. Se há conhecimento adquirido pelos gregos, por todos, ao longo destes últimos anos, o mais intenso será certamente o das consequências da ruptura social, económica e financeira. Eles votaram à vista de filas de gente em frente às máquinas ATM e os bancos encerrados há dias.

E, agora?
Agora não sei, quem sabe?, o que irá acontecer.
Mas suponho que a União Europeia irá mudar radicalmente a partir de hoje.
Repito-me: A União Europeia é insustentável sem uma moeda comum. E uma moeda comum é insustentável sem uma federação política dos seus membros. Soberania e democracia (numa zona económica e monetária) são destrutivamente conflituantes se não se reunirem no mesmo espaço político.

Se a Europa apreender e aproveitar de vez o resultado de ontem em Atenas, o contributo de Tsipras não deve ser vilipendiado.

Varoufakis demitiu-se, ou foi aconselhado a isso, para faclitar o diálogo em mais uma maratona de negociações. É esse o geral entendimento de analistas dos mais insuspeitos quadrantes de serem alinhados com a esquerda: Financial Times, Economist, entre outros.
Parece-me pouco pertinente ( ) considerá-lo cobarde e incompetente.

( ) Colocar Tsipras e Varoufakis como principais responsáveis da tragédia grega, quando é claríssimo que a tragédia já tinha atingido o clímax quando eles entraram em cena por repúdio da plateia dos actores que lá tinham estado antes,  é muito excessivo. Os grandes responsáveis pelas diversas tragédias que se desenrolam de tempos a tempos em vários pontos deste mundo são os banqueiros.

Sim, os banqueiros.
Foram eles que, movidos pela ganância, emprestaram muito para além das possibilidades de reembolso aos credores.
E os gregos?

Os gregos são inacreditáveis?
Os gregos são impostores?
Os gregos são intratáveis?
Os gregos são chantagistas?
Os gregos são tudo isso e muito pior?

Admitamos que sim.
Então por que lhe emprestaram os banqueiros tanto dinheiro conhecendo-lhes a falta de carácter?

Sabe-se bem porquê:
Se uma empresa vende mercadoria a um cliente sem analisar o risco que corre, isto é, a capacidade do devedor pagar o que deve, o que acontece se o cliente não paga? O fornecedor incauto tem de registar na sua contabilidade um "incobrável", uma perda, portanto.

O que é aconteceu aos bancos que emprestaram aos gregos (e aos portugueses ... e a tantos outros, agora e no passado), as dívidas a esses bancos foram assumidas pelo FMI e pelo BCE na sua quase totalidade, isto é, foram colocados às costas dos contribuintes.

Não é isto verdade?

( ) Acusar Tsipras de companhia de terem prometido o impossível para se alcandorarem ao poder, é pertinente.
E os nossos governantes, o que fizeram para alcançar o poder?
Falaram verdade?
As desonestidades de uns não justificam as de outros mas é sempre mais higiénico não acusarmos alguém de pouca limpeza com os nossos dedos sujos.

(colocado aqui)

Sunday, June 28, 2015

QUAIS CREDORES?


Estimado António,

Subscrevo.
Mas depois de subscrever, interrogo-me:
Quem são os credores dos gregos? Quem lhes emprestou a pipa de massa com que eles se embebedaram?
Foi o BCE? Foi o FMI?

Quando o BCE e o FMI entraram em cena, se não estou enganado, eles já estavam afundados em crédito até ao cocuruto, ou não?
E depois foram resgatados pelo BCE e pelo FMI. Se não teriam ficado afogados e, com eles, aqueles que lhes concederam o crédito. Ou estou a ver mal?

Por onde andam esses credores que, em primeira mão, lhe colocaram os fundos nas unhas, quiçá lhes enfiaram até o crédito pelas goelas abaixo?

Quando o FMI entrou em cena, projectou uma evolução do PIB que Krugman publicou aqui


Sei que desconfias do Krugman, por isso não te peço que leias o texto mas que olhes para o gráfico, que não deve estar falseado.
Parece que depois da embriaguez de crédito as medidas do FMI não ajudaram na ressaca. Ou ajudaram e o gráfico está borracho?
Quanto ao resto, tudo bem. Ou tudo mal, se assim o entenderes.

Friday, June 26, 2015

ESTA NOITE DORMIMOS JUNTOS

- Tsípras ??? ... Aléxis Tsípras !!!??? ... Como? ... e a que propósito ... entraste no meu quarto ... ? ... às ... às .... às quatro da manhã? ... rua! ... rua! ... rua!... rua, ou ligo imediatamente à recepção do hotel!
.
(Christine Lagarde teve um dia arrasador mesmo para uma mulher de aço. As reuniões com os gregos são esgotantes, as intervenções de Varoufakis sufocantes. Nos últimos dias, Christine cede às recomendações da sua amiga Brigitte e toma o xanax que ela lhe dá. Varoufakis não sabe mas ele é o único tipo que até agora teve o condão de a levar a um nível de tensão que lhe retira o sono. Se pudesse esbofeteava-o em público. É insinuante e insolente, arrogantemente melífluo, um convencido imaturo. Resumidamente, um cretino.
São duas da manhã, o xanax demora a produzir efeito, enquanto a droga não lhe entorpece a mente, Christine rememora o que disse, o que não disse, mas sobretudo o que não devia ter dito durante as infindáveis reuniões daquele dia e o que irá dizer na reunião marcada para dentro de seis horas. E, outra vez, sempre, o avantesma, Varoufakis. Boceja, Oh! Yanis, Yanis, volta-se pela enésima vez na cama, alonga-se entre os lençois, e abraça a cabeceira.
Acorda duas horas depois, sobressaltada pelo restolhar dos cortinados, acende a luz, e o seu espanto não tem medida. Alguém entrou no quarto, um homem entrou pela janela que ela deixara aberta para se libertar do sufoco carregado durante as reuniões do dia. É Tsipras, o estupor do Aléxis Tsípras, armado em valet: calça e sapatos pretos, colete preto sobre camisa branca, uma gravata vermelha, vermelho vivo, ao pescoço. Na mão direita um spray de tinta, destes que os árbitros de futebol usam para marcar distâncias no futebol, uma toalha branca no braço esquerdo. Indiferente ao espanto de Christine, Tsípras marca uma linha vermelha ao longo da cama, a meio metro de distância, e perfila-se, mudo e quedo,  atrás dessa linha)

- Que é isto? A que propósito? O que é que pretendes Aléxis??? ... Ouves-me? ... Aléxis, o que é que pretendes de mim?

(A exaltação inicial de Christine esbate-se na mudez e na imobilidade do intruso)

- Ah! Ah! Ah! Pretendes, por acaso, acusar-me de violação a um criado de hotel? Sabes bem que esse é um argumento que raramente funciona ao contrário. E os franceses não sairam todos do mesmo molde. O Dominique será um libertino impenitente com um nome andrógeno, eu não sou, nem nunca fui, mulher de fúrias libidinosas  ocasionais. Sou pérfida, dizem vocês, mas enganam-se. Sou sensível. A Ângela, essa sim, é pérfida. E aquela outra garota, como é que ela se chama?, a portuguesa? Pérfidas e libidinosas, não se nota porque vocês não lhe ouvem as conversas. Se os homens ouvissem o que dizem as  mulheres entre si ... nem todas, bem entendido. Em França temos mais fama mas menos proveito, garanto-te. 
O turbilhão grego atormenta-me profundamente porque não sei como possa amainá-lo. Acusam-me de contradições nos meus discursos, e não posso deixar de reconhecer que entre aquilo que penso e aquilo que as minhas funções me obrigam a fazer vai a distância que me dilacera. Bom, reconheço que gostaria muito de ver renovado o meu mandato e essa renovação só é possível com os votos de muitos, de quase todos, os membros do FMI. Lamento recordar-te, Aléxis, mas a Grécia está quase só. Contas, do teu lado, com quem? Com Putin? Ah! Ah! Ah! Putin prefere, por agora, que os problemas gregos contribuam para a destruição das  instituições europeias. Dar-te-á um caramelo, só te dará um caramelo, e a tua sede aumenta ....
 .
(Christine faz uma pausa, e olha fixamente para Aléxis, imóvel, mudo, os olhos imóveis nos olhos dela)
 .
... - Agora que olho mais detidamente para ti, Aléxis, reparo que não és desengraçado de todo, sabes? Não, não vou dizer que és um tipo sexy. O Yanis é sexy, reconheço. É um estupor mas é um homem interessante. Melhor dizendo, é um estupor com certo interesse, de homem terá o que uma mulher vulgar precisa, não mais que isso. Tu tens cabeça, e essa trunfa rebelde atiça, estou certa disso, o interesse feminino mais exigente, aquele que vai além das bolsas de testosterona. Chega-te cá! Vá lá, chega-te aqui mais perto. Passa essa linha vermelha que traçaste e eu juro-te que não chamo a polícia. 

(Aléxis, não mexe, sequer, um músculo da cara)

Dizem-me que já te decidiste a roer a corda e mandar os credores às urtigas. Tens ideia, Aléxis, uma pequena ideia que seja, do sarilho em que te metes se saltas do euro sem para-quedas? És doido?
Amanhã é sábado, terça-feira o dead line. Se não há acordo amanhã, o mais tardar domingo, como é que governas sem euros nem dracmas? Ou já tens rotativas clandestinas a trabalhar ou a Grécia é uma bagunça sem rei nem roque à espera que os militares ponham tudo em sentido. Estás acordado ou a dormir em pé?

(Tsipras lembra uma estátua grega antiga, o movimento suspenso, vestida a preto e branco e um toque encarnado. Christine faz nova pausa no discurso, e para o olhar no olhar dele)

- Afinal, o que vieste cá fazer, monstro? Chegas de lata na mão e toalha no braço, traças uma linha  a vermelho, e não soltas sequer um grunhido por quê? Chega cá, dá-me a tua mão, só a mão, ou nem a mão pode passar essa estúpida linha vermelha? Bom, se a montanha não vai a Maomé ... vai Maomé à montanha. Se não te mexes, levanto-me eu. Upa!

(Christine tenta levantar-se e agarrar Tsipras mas só consegue chegar-lhe à gravata)

- A gravata já cá canta. Esta noite dormimos juntos.


Wednesday, March 18, 2015

NÃO PERCEBO

Ontem, o sr. Jeroen Dijsselbloem, ministro holandês das Finanças e presidente do Eurogrupo admitiu publicamente que, estando a Grécia à beira de ficar sem dinheiro e ter de pagar 350 milhões de euros ao FMI até depois de amanhã, os alemães estarão a pretender que aos gregos seja administrada a receita imposta a Chipre: fecho dos bancos e controlos de capital, com o suspeito objectivo de um corte nos depósitos a favor das finanças públicas gregas, ainda que as razões avançadas sejam relacionadas com um terceiro resgate. A notícia tinha sido avançada pelo Spiegel e as declarações de Dijsselbloem  instantâneamente publicadas em todo o mundo. Vd., p.e., aqui e aqui ou aqui.

O que é que faz um grego ao ouvir estas declarações, se tiver dinheiro que valha um salto? Salta.
Só não saltarão os que já saltaram ou não saltam porque têm a perna demasiado curta. Ainda há dias, e na sequência da expectativa da vitória do Syriza noticiaram os media uma fuga maciça de capitais, depois reforçada com a confirmação da vitória e a constituição de um governo heterodoxo, segundo os padrões ocidentais. 

Não percebo como se admite publicamente uma acção destas que, obviamente, terá imediatamente espoletado um movimento que pretende vir a evitar. Se a intenção é proceder a um haircut dos depósitos e fundos guardados pelos bancos, o governo grego tem sempre a possibilidade de, se for compelido a exercê-la, a impor essa decisão sobre os fundos a atingir registados nos bancos, p.e, no   início deste ano. Afinal o confisco não é uma forma de prepotência menor que a retroactividade das leis. Anunciando esta hipótese, muito grego estará a esta a hora a coçar a cabeça lamentando-se de não se ter  decidido há mais tempo. Claro que terá de pagar por isso: as taxas pagas por bancos em países de baixo risco (a Alemanha é já há muito tempo a ganhadora destas encrencas em que ela mesma lidera)  são, toda a gente sabe isso, negativas. Cerca de 2,2 biliões de euros de dívida pública já pagam, vd. aqui, taxa de juro negativa. Portugal emitiu hoje 1250 milhões a uma taxa, vd. aqui, abaixo de 0,1%.

Por outro lado, ou do mesmo lado?, o FMI diz, vd. aqui,  que "a Grécia é o país mais incapaz de se ajudar em 70 anos de história". Com ajudas destas como pode a Grécia pagar até depois de amanhã 350 milhões do que deve ao FMI.

---
Correl. - Casal alemão pagou a sua "parte da dívida" à Grécia por danos da II Guerra

Sunday, February 01, 2015

VERDADE OU CONTO DE OGRES?

No fim de Abril de 2011, segundo o Expresso o programa imposto pela troika iria reestruturar Portugal de alto a baixo.*


Ao começo da tarde de 2 de Maio do ano passado o Governo revelava os resultados da última a avaliação da troica. Paulo Portas, tendo a ministra a seu lado, disse, vd. aqui, que "a avaliação foi bem superada e que a sua conclusão significa que o programa está no bom caminho para o seu termo". Aliás, todas as avaliações anteriores, segundo as notícias vindas a público, tinham sido positivas, os níveis de cumprimento dos compromissos assumidos tinham sido sempre satisfatoriamente atingidos. Sabíamos que não era assim. Os objectivos do programa, vd. aqui, não estavam a ser atingidos mas nem o governo nem a troica quiseram, por razões tácticas, reconhecer o incumprimento parcial.

Hoje, noticia-se aqui que "A missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) a Portugal fez uma avaliação muito severa do programa de ajustamento português, mas a Comissão Europeia, que divulgou a sua versão no final de dezembro, também não se fica atrás e dá nota de 36% no exame das reformas estruturais. O governo, através do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, argumentou na sexta-feira que as conclusões do FMI refletem "uma realidade que já não existe".
Em todo o caso, uma análise da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), divulgada anteontem à noite, mostra que a Comissão Europeia também deu uma nota negativa à concretização do pacote de reformas estruturais na economia: apenas 36% das medidas combinadas (cinco em 14) foram "observadas". Chumbou três e carimbou seis com "progresso limitado". A avaliação europeia é de final de dezembro."

Estão a brincar connosco?
---
* Curiosamente, na mesma edição do Expresso lia-se que Eduardo Catroga afirmara "O governo de José Sócrates devia ir a Tribunal. O fartar vilanagem foi uma tragédia nacional", na sequência de troca de acusações com Silva Pereira.- vd. aqui

Tuesday, October 07, 2014

TEMPOS GERALMENTE MUITO NUBLADOS

O FMI acaba de divulgar o "World Economic Outlook" do Outono. Aqui.
O subtítulo resume as conclusões: "Legacies, Clouds, Uncertainities". 
Resumidamente: As políticas de recuperação da crise, que o FMI apadrinhou, não desanuviaram o ambiente e as incertezas são muitas. Do relatório do FMI realça o Financial Times - vd. aqui - o risco de uma nova recessão para a Zona Euro.

Por outra porta entra o muito citado professor Ricardo Reis - vd. aqui - anunciando que não estamos, em Portugal, assim tão longe de um segundo resgate. Ora o mesmo Ricardo Reis previa no início do ano de 2010 - vd. aqui - que "a probabilidade da bancarrota portuguesa estava algures abaixo de 0,5%-1%." Não aconteceu bancarrota, mas aconteceu resgate. Agora, RR, menos optimista, prevê a optimista possibilidade de novo resgate para, novamente, evitar a bancarrota.

Um dia destes teremos este Ricardo Reis no FMI.

Monday, May 05, 2014

CHUTO PARA CANTO

Cavaco Silva quer programa cautelar para Portugal
Portugal deve optar por um programa cautelar
Cavaco e Barroso preferiam cautelar

"O que mais me vem à memória, no dia de hoje, são as afirmações perentórias de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora?

Neste tempo pré-eleitoral
é apenas isto que respondo a todos aqueles que pedem a minha reação ao anúncio de ontem de que Portugal não recorrerá a qualquer programa cautelar, ao mesmo tempo que lhes recomendo a leitura integral – e não truncada – do prefácio que escrevi para Roteiros VIII, disponível na página oficial da Presidência da República na Internet.- aqui"

Peremptoriamente, chuto para canto é medida cautelar e saída limpa.


Friday, October 04, 2013

FOI VOCÊ QUE DISSE QUE A DÍVIDA PÚBLICA ERA INSUSTENTÁVEL ?

Pois se disse, não deveria ter dito.
E não deveria ter dito, não porque a dívida seja sustentável mas porque, disse o PR, é altamente inconveniente  que se diga que a dívida é insustentável.  E é inconveniente porque os credores podem acreditar no que ouvem dizer a analistas e políticos masoquistas e cortarem o crédito à República.

Quem sāo esses credores que se fiam mais nestes analistas e políticos masoquistas do que no BCE, no FMI, na Uniāo Europeia, entre outras instituiçōes notáveis que acreditam que a dívida pública portuguesa é sustentável e a República Portuguesa solvente?

Pois, muito maioritariamente, essas mesmas instiuiçōes e os bancos portugueses, enquanto  intermediários das operaçōes de financiamento junto dos investidores, sendo estes, que em última instância podem dar ouvidos aos masoquistas e desinteressarem-se da dívida portuguesa.

Mas serāo os investidores assim tāo sensíveis a estes alarmes e tāo pouco confiantes nas instituiçôes intermediárias? Dito de outro modo: se os masoquistas se calarem a dívida passa a ser sustentável mesmo que, realmente, não seja? É evidente que nāo passa. A confiança só se esboroa com boatos quando a realidade em que ela se deposita nāo é consistente.

Se o BCE garantisse, como banco típico central, a indiscutível solvabilidade dos países membros, os juros da dívida portuguesa seriam próximos da Alemanha ou da França, voltando à situaçāo pré-crise, a dívida pública seria bem menor e, nesse caso, provavelmente, sustentável, e o ajustamento realmente eficiente.

Caso contrário, nāo. Com ou sem masoquistas em campo.









Thursday, September 26, 2013

COMO ÁGUA NA AREIA

As receitas das privatizações realizadas em Portugal sumiram-se sem deixar rasto.
Segundo um relatório do FMI divulgado hoje - Dealing with a High Debt in na Era of Low Growth - é possível a redução da dívida pública em períodos de baixo crescimento económico.
 
Como?
A solução mais óbvia é a privatização, quanto baste, de sectores económicos detidos pelo Estado,
Evidentemente, que aquele quanto baste, implica que além de serem  suficientes sejam convenientemente aplicados os embolsos provenientes das privatizações realizadas.
 
Quanto a este requisito, o da aplicação dos fundos resultantes das privatizações,  concluem no FMI, que em Portugal os efeitos pretendidos têm fugido à regra, parecendo irrelevantes as privatizações na contenção da dívida pública. E, a questão que, imediatamente, se levanta é esta: sem recurso a privatizações e golpes de mão a outras receitas extraordinárias, que nível teria atingido a dívida pública portuguesa? Provavelmente, pouco mais ou menos o mesmo. As receitas extraordinárias, não tendo reduzido a dívida foram aplicadas em despesas que, de outro modo, teriam sido reequacionadas mais cedo.
 
Para lá das privatizações, ou quando já não há nada de relevante para privatizar, argumentam os autores do relatório, a redução da dívida em tempos de crise é possível após um período de ajustamento (inevitável, afinal) da despesa com (inevitáveis) efeitos recessivos imediatos.  
 
Do FMI, nada de novo.
 

Wednesday, September 18, 2013

GENTE POUCO SÉRIA

O Fundo Monetário Internacional divulgou hoje um documento de reavaliação das políticas de natureza fiscal adoptadas nas economias mais desenvolvidas - IMF Policy Paper - Reassessing the role and modalities of fiscal policy in advanced economies  - onde, mais uma vez, são reconhecidas consequências perversas de medidas prescritas ou sobrescritas pelo mesmo FMI. 
 
Este é um exercício de masoquismo dialético psicológico a que os responsáveis pelo FMI, com especial responsabilidade da senhora Christine Lagarde, nos vêm submetendo há cerca de um ano, pelo menos desde que Lagarde afirmou em Tóquio que  "tipo e ritmo de ajustamentos orçamentais devem ser adaptados a cada país", alertando para riscos graves de instabilidade financeira no sistema financeiro globalizado". -, e que, ingenuamente, reconheço agora, comentei aqui.

Ingenuamente, porque aquilo que parece óbvio para o cidadão comum - um mínimo de coerência entre o que o que o FMI diz e o que o FMI pratica - não é nada óbvio, e são insondáveis as razões últimas deste descarado desfasamento entre dizer e fazer, impróprio de gente séria. Ao mesmo tempo que o FMI publicava este documento o encontro dos partidos políticos com a troica caracterizou-se com duas palavras "insensibilidade e silêncio", segundo o PS.

"É em Berlim é que está a chave dos nossos problemas, temos de fazer uma grande ofensiva diplomática em Berlim", afirmou hoje Freitas do Amaral. Não é a primeira vez, nem é o único, que diz o mesmo.

Os senhores representantes da troica merecem o respeito devido a técnicos de, supõe-se, elevadíssima craveira técnica, mas não mais que isso. Se o FMI é um desencontro de opiniões, e os dois outros pilares da troica se sustentam na Dona Merkel, é com a Dona Merkel, reconhecidamente o mais poderoso da economia portuguesa, que o senhor Passos Coelho deve convencer.

Mas há um senão: Só convence quem está convencido. E não é nada liquido que o senhor Passos Coelho já esteja convencido de uma evidência, que ele publicamente rejeita: Portugal não tem nenhuma hipótese de suportar a carga dos juros e só uma reestruturação da dívida (Wolfgang Münchau, o colunista do Financial Times, alemão, disse há dias o mesmo em Lisboa) pode resolver o nosso imbróglio e os de mais algum outros.

Quanto ao senhor vice-primeiro ministro, incumbido das discussões com a troica e da reforma do Estado, que prometeu não permitir a tributação excepcional das pensões - a tal linha vermelha que com ele não será nunca ultrapassada - eclipsou-se ou revogou-se outra vez?


 

Saturday, August 03, 2013

CATASTROÏKA

Proximamente, perto de si.


Tuesday, July 09, 2013

A BANCA : O PROBLEMA DA EUROPA

Talvez a afirmação seja chocante para muitos mas foi dita pela directora-geral do FMI, a francesa
Christine Lagarde, transmitindo a exigência do FMI: a Europa tem de limpar de vez o seu sistema financeiro. E a senhora Lagarde deve saber do que fala porque era membro do G8 como Ministra dos Negócios Económicos, das Finanças e da Indústria quando foi nomeada para o FMI. Aliás, a opinião de Lagarde não é original porque é comungada por outros, tidos por credenciados na matéria. 

Escreve o correspondente do El País em Bruxelas que "Lagarde se atreveu a mandar a ferroada na presença do presidente do Eurogrupo, Jeoren Dijsselbloem e do comissário Olli Rehn: o problema é a banca." Mas Lagarde não se ficou por aí e  reclamou ao BCE que active medidas não convencionais, que vá além das meras palavras porque, "o crescimento (na União Europeia) brilha pela sua ausência, o desemprego cresce e a incerteza é elevada, a zona euro continua vulnerável e pode vir a ser atingida por mais perturbações". "A banca europeia tem de corrigir os seus balanços, avaliar a magnitude dos problemas com um exame credível dos activos e ter preparado um plano de necessidades de recapitalização" 

Segundo o El País "ninguém sabe quanto dinheiro falta: os grandes bancos alemães, franceses e holandeses empanturraram-se de activos tóxicos antes da crise, que ainda não foram declarados nas contas". "A situação exige uma resposta política integrada: limpeza do sistema bancário mas também a completa realização da união bancária de forma rápida, o incentivo fiscal da procura, a concretização das reformas estruturais necessárias"  "Pede ainda o FMI ao BCE que reduza os juros e injecte mais liquidez"

Ironicamente, acrescenta o articulista que "a União Europeia já fez aquilo tudo (já decidiu fazer) mas ainda não fez (não concretizou) nada". E porquê?

Porque a União Europeia continua enredada em contradições congénitas, e não serão as eleições alemãs de 22 de Setembro que vão permitir ultrapassá-las. A senhora Lagarde sabe que os valores em jogo, que não são apenas nem sobretudo os valores pecuniários, não são domináveis pelo senhor Draghi e companhia; que a Europa é um puzzle cultural de peças de difícil ajustamento; que os franceses são tanto ou mais nacionalistas que os outros povos europeus e mais do que nenhuns outros olham com desconfiança sistémica para a eventual preponderância política alemã numa Europa mais politicamente integrada. Integração política sem a qual, por mínima que seja, a União Europeia continuará a fazer que anda mas não anda.

A Banca é o problema da Europa? É um problema urgente à espera da solução do problema mais decisivo. Poderá a urgência do primeiro provocar a solução urgente do segundo? Se isso acontecer será péssima a solução encontrada.

Sunday, June 23, 2013

DIVÓRCIO À VISTA

Dizia há dias o PR que o FMI deveria ser dispensado de participar na resolução dos problemas com que alguns países da União Europeia se encontram confrontados, porque existem entre os membros da UE compromissos mútuos cujo cumprimento deve ser resolvido exclusivamente entre eles.

Praticamente, ninguém comentou. E, no entanto, a questão é primordial num debate que se pretenda sério acerca do futuro da União Europeia. A intervenção do FMI na troica não foi imposta pelo FMI mas implicitamente solicitada pela Alemanha com o objectivo de servir de amortecedor na resolução de um conflito em que, sem o envolvimento do FMI, Merkel seria obrigada a assumir o papel de carrasco dos países membros caídos na ratoeira da dívida externa. Não conseguiu livrar-se da fama, e o relatório do FMI, ao assumir erros grosseiros nos resgates à Grécia, precipitou as dessintonias que há muito eram públicas entre os membros da troica.
 
O El País publica hoje um artigo - El largo adiós a la Troika - que relata com detalhe suficiente a evolução mais recente das fricções entre os troicos denunciadas pelo cruzamento de declarações progressivamente contundentes, erros flagrantes, resultados que vão de mau a pior e, em última instância, apontam para um divórcio à vista no horizonte ... "Morte à troica", resume mordaz um alto funcionário em Bruxelas perante o desenvolvimento dos programas em países como a Grécia e Chipre, abocanhados pela depressão, e em menor medida Portugal e Irlanda, que têm diante de si uma longa travessia do deserto. O FMI já sinalizou claramente a sua futura saída da troica. A Comissão conta os dias para que isso ocorra. Há condições mais que suficientes, se os governos o pretenderem, para que as instituições europeias tenham plena responsabilidade dos resgates, disse José Manuel Barroso".    
 
Hoje, é opinião praticamente unânime que a chamada do FMI para a troica nem ajudou a solução do imbróglio de algumas dívidas soberanas europeias, porque as receitas do FMI não são adequadas a um espaço económico com moeda única (e têm também fracassado em outras circunstâncias) nem reduziu a conflitualidade de interesses, compromissos e obrigações entre os membros fortes e os fragilizados da União Europeia, e, principalmente, da zona euro.  
 
Melhorarão as relações entre os europeus depois da saída do FMI, terminando as ameaças de desintegração da UE? Não por isso. As receitas do FMI agradaram a alemães e companhia do norte enquanto os resultados não demonstraram que fracassaram. Ao reconhecer o fiasco, o FMI deixou de poder desempenhar o papel que lhe estava atribuído. Saindo o FMI, e não sairá a curto prazo, nada de relevante, por esse motivo, se alterará na actual correlação de forças prevalecente na UE. O futuro da União Europeia, no entanto, ficará ainda mais dependente da decisão que os alemães tomarem quanto ao preço que estarão dispostos a pagar para evitarem que a UE se desintegre.   

Wednesday, June 05, 2013

CALL CENTER

Se há hoje alguma unanimidade acerca do memorando de entendimento assinado pelo trio com a troica é a de que ele foi mal desenhado ou mal negociado, e que as conversações com a troica subsequentes às avaliações de cumprimento, todas positivas até agora, segundo informações publicadas, se regem por uma inflexibilidade formatada em cartilha semelhante aquelas que são distribuídas aos atendedores nos call centers. A troupe da troica, ao que parece, por mais crassos que sejam os erros resultantes de algumas políticas que impuseram e evidentes os desvios observados, não arreda pé do que está escrito na cartilha. Chegam, vêm, concluem, comparam e despacham sem considerar que o ponto de partida estava deslocado e algumas variáveis nunca estiveram nos sítios onde as previram.
 
Nestas condições, não há pachorra nem argumentos que possam demover o agente do call center a mudar de posição. Por um lado, porque não pode exorbitar das suas competências, isto é, proceder de modo diferente do que manda a cartilha, por outro, porque do estrito cumprimento das normas depende a prorrogação do seu posto de trabalho.
 
Só há uma saída, que exige muita persistência e habilidade de persuasão: conseguir o acesso à chefia do turno. Normalmente resulta: os chefes sentem-se mais chefes quando lhes é dada a oportunidade de mostrarem as suas capacidades.
 
O relatório do INE sobre as Contas Nacionais  confirma que a actividade económica continuou a contrair-se a uma cadência superior às previsões do governo, resumindo-se numa quebra de 4% do PIB. Segundo as últimas estimativas do OCDE a dívida pública aumentará em 2014 para 132,1% do PIB e a taxa de desemprego rondará os 20%. A impossibilidade de redução da dívida para níveis suportáveis não é ainda reconhecida pelo governo, que, no entanto, não apresenta uma matriz de medidas que sustentem a coerência e a credibilidade da persistência na sua actuação. Uma actuação decorrente em larga medida do memorando de entendimento que até o ministro das Finanças já considerou, com incompreensível atraso, ter sido mal negociado. Até quando espera o governo que a situação se degrade para reconhecer a impossibilidade que há muito se mete pelos olhos dentro? Revê-se o governo nos superavits históricos observados na balança de comércio externo, mas é impensável que não tenha feito as contas e concluído quanto são insuficientes os valores observados para refrear o cavalgar dos juros e da dívida.
 
Dito de outro modo: até quando espera o governo para bater à porta da senhora Merkel e dizer-lhe que, obviamente, não podemos pagar a dívida que carregamos às costas e que, a continuar a aumentar a carga, demonstra a mais elementar lei da física que a base acabará por colapsar sem remissão possível?
---
Correl. - FMI vai reconhecer erros cometidos na ajuda à Grécia.

Sunday, March 17, 2013

VALE TUDO

Durante quase dois anos os resultados dos exames ao cumprimento do contrato assinado pelo trio - PS, PSD, CDS - com a troica foram publicamente anunciados como positivos, regozijando-se o Governo português, o FMI, a União Europeia e o Banco Central Europeu com os esforços, a disciplina e a resistência do povo português, o melhor do mundo, segundo o senhor Vítor Gaspar, num dia em que tinha recebido os parabens dos examinadores à sua capacidade para cumprir o programa de ajustamento.
 
Hoje, disse o senhor Daniel Bessa, "estamos todos a evitar anunciar a bancarrota". O senhor Daniel Bessa é livre de dizer o que bem entende mas, em matéria de economia, é suposto que entende da poda. Como é que foi possível só agora se tornar nítido que estamos mais próximos do precipício do que quando pedimos ajuda para evitar a queda no abismo? Erraram todos, troicos e Governo, durante trimestres seguidos, e só agora compreenderam que o compromisso era incumprível desde o momento em que foi negociado e assinado?
 
Ou enviesou-lhes os cálculos a ideologia com que o FMI compõe a sua metodologia, e a União Europeia fervorosamente abraçou por determinação da senhora Merkel? Nunca acreditei nisso. Se as recomendações da troica em matéria de reestruturação do Estado eram geralmente pertinentes - e muita gente concluiu que nunca a troica poderia ter feito um diagnóstico tão preciso se não tivesse recebido sugestões dos entrevistados -, por que razão só agora a troica acusa o Governo de ter descurado essa parte fundamental do programa? 
 
Por uma questão de tempo. O tempo necessário para retirar os bancos, nomeadamente alemães e franceses, do atoleiro para onde nos tinham conduzido. Vítor Gaspar errou quase todas as previsões, mas não errou só agora. A reforma do Estado continua em grande medida por fazer e não é razoável imputar a Gaspar toda a culpa do fracasso.  Porquê, então, só à sétima avaliação, Gaspar é chumbado? Porque ainda não tinha sido atingido o objectivo primordial: salvar o sistema. E, para o salvar, sabemos agora, segundo eles, vale tudo. 
 
Ontem soube-se que aos cipriotas foi imposto, sem aviso nem aprovação no parlamento, um corte nos seus depósitos bancários. Hoje, os cipriotas, amanhã quem? Paul Krugman escreveu hoje no seu blog, a este propósito, "It´s as if Europeans are holding up a neon sign, written in Greek and Italian, saying "time to stage a run on your banks!".
 
As corridas aos bancos começam por ser irracionais e tornam-se, naturalmente, racionais.
Amanhã, veremos.
 

Saturday, January 19, 2013

EM CONFRONTO

Três relatórios em confronto: dois do FMI, ou um em duas partes, aqui e aqui*, e outro (preliminar) aqui*  do Grupo Técnico da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública (IAC). O do FMI foi conhecido ontem, o da IAC está  ser hoje discutido no Instituto Franco-Português. Com âmbitos só parcialmente coincidentes, o confronto entre eles é total na matéria crítica que está subjacente à razão de existir de qualquer deles:  a dívida pública e privada dos portugueses e, sobretudo, a sua asfixiante componente externa.  Desfasado por cinco fusos horários, passei até agora apenas a vista por eles.

Não me revendo em algumas das posições geralmente assumidas por alguns dos dinamizadores da IAC, considero, no entanto, que o seu objectivo é meritório de agradecimento e as suas conclusões, quando forem conhecidas, decerto que contribuirão para um debate mais inteligente acerca das razões que nos conduziram a este beco em que nos debatemos, e onde já nos esgadanhamos uns aos outros: público contra privado, jovens contra velhos, sumindo-se os culpados entre a confusão social que criaram. 

Ao próprio FMI não podem ser indiferentes as causas e as consequências quantificadas pelo IAC porque há razões que não são ideológicas quando são provadamente matéria de facto. E as averiguações e conclusões do IAC são, enquanto invocadas como matéria de facto, susceptíveis de contra prova. Espera-se, por isso, que aqueles que têm a responsabilidade de negociar com a troica, e nomeadamente com o FMI, as adicionais medidas de austeridade implícitas nos seus relatórios, tenham em conta aquilo que pensam os outros, que eles pensam que são apenas conduzidos entre baias ideológicas opostas às suas.

Porque Portugal não é só de alguns, nem sequer apenas de uma maioria democraticamente eleita.

---
*pescados aqui e aqui

Monday, January 14, 2013

ENFIM, CADA UM O QUE QUER APROVA


Caro E.,

Pelo título se subentende que o objectivo do colunista não é tanto a defesa do documento mas cascar na ronha do PS. Porque não sou partidário* ocorre-me sempre a tendência para olhar para o outro lado dos convencimentos dos outros. Começa por afirmar o articulista que "é fácil fugir à discussão quando os cálculos e os interessses eleitorais recomendam uma atitude mais proveitosa a prazo."
E condena o PS por se limitar a críticas circunstanciais sem apresentar alternativas credíveis.

Ora isto não é um argumento novo, é um disco riscado. Há anos que andamos a ouvi-lo. Sai um governo, entra outro, e a música, com mais ou menos sustenidos, é a mesma. O senhor César das Neves garante que o senhor "Passos Coelho é tão corajoso como Soares e Salazar" mas usa uma bitola elástica e confunde coragem com auto suficiência. Se o senhor Seguro sobe nas sondagens, e se arrisca a ganhar as municipais por larga margem, não ficará a dever o feito não inédito à coragem do senhor Passos Coelho mas à auto suficiência deste, que permite ao senhor Seguro criticar e manter-se ao largo. Em matéria de coragem, a auto suficiência do senhor Passos Coelho é idêntica à do senhor Sócrates, e a do senhor Seguro é insufiente.

Se assistimos a uma recorrente judicialização da decisão política, e consequente desvalorização da democracia, a culpa de quem é?** Nos EUA continua a guerra entre democratas e republicanos a propósito do consentimento do crescimento da dívida (debt ceiling), o governo federal corre o risco de entrar em ruptura de pagamentos ou lançar a economia numa recessão pavorosa em consequência de um abrupto redução de rendimentos por aumento dos impostos (fiscal cliff) mas a ninguém ocorre recorrer ao Tribunal Constitucional para resolver o imbróglio. A propósito: Para contornar a obstinação dos republicanos ocorreu a alguns democratas (Krugman tem-se batido pela ideia) a cunhagem de 1 trilião de dólares em moedas de platina. Não vai adiante porque os próprios democratas rejeitam a alternativa e pretendem obrigar os republicanos a confrontarem-se com as eventuais consequências das suas posições. Nós ainda temos ouro, disse o PR  na entrevista do Expresso. Por que é que ninguém fala disso?

Em Portugal, o senhor Passos Coelho sabia que algumas das suas propostas estavam longe de ser pacíficas, mesmo entre os seus partidários, e avançou contra tudo e contra todos, incluindo o Presidente da República, que, aliás, também não assumiu posição política e preferiu endossar o embrulho para o TC. Isto é coragem? É a política que temos.

Quanto ao parecer dos técnicos do FMI, quem é que tem dúvidas hoje que foi propositadamente divulgado para confrontar o TC com os riscos da sua decisão? A coragem do senhor Passos Coelho é a coragem do endosso. Entre redefenir as funções do Estado e reduzir indiscriminadamente as despesas do Estado, o primeiro-ministro continua a querer adoptar esta última via, porque é mais fácil. Entre chamar a oposição e discutir com ela fora da praça pública, obrigando-a a assumir as suas responsabilidades,continua a preferir a exibição mediática das sessões do plenário da AR transmitidas pelos canais de televisão.
----

"Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão 
está em toda parte". (Grande Sertão: Veredas)


Assinatura: Joao Guimaraes Rosa 
------------

 Correl. - Um mau passo
* Nem do Sporting. O que não me garante que não seja
compulsivamente chamado a contribuir para lhe pagar
as dívidas.
** Um pândego, que dá pelo nome de Raposo
e é colunista com banca garantida no Expresso, 
colunizou nas suas duas últimas redacções
contra o pagamento de reformas e a favor do recurso
para o TEDH  se o TC julgar inconstitucional alguns items do OE 2013.

Friday, January 11, 2013

E, OS JUROS, NÃO CONTAM?

"...Educação, saúde, protecção social, salário dos funcionários, pensões, justiça, segurança, vêm sendo parcialmente assegurados pelos financiamentos da Troyca..." - aqui
E os juros também, não?

Caro António,

Grande parte do diagnóstico dos técnicos autores do parecer está correcto e, na sua grande maioria até nem constitui novidade. Antes pelo contrário, se muitas das situações criticadas ainda persistem não é por não terem sido há muito diagnosticadas.

Grande parte das suas propostas são pertinentes, algumas estarão menos bem ou até erradamente fundamentadas, mas o documento poderia ser uma boa base de discussão em sede própria entre o Governo e a oposição, na altura governo, que subscreveu o memorando com a troica. E digo, poderia ser, porque, pelo andar da carruagem, muito provavelmente não vai ser. Os políticos portugueses velam mais pela protecção das suas posições partidárias que pelos interesses do país.

Mas, voltando aos juros, percebo mal que os técnicos não tenham registado aquilo que até a directora-geral do FMI, Christine Lagarde tem dito e reafirmado. Por exemplo aqui - Lagarde calls for caution on austerity.
Os juros contam e contam demais nas contas que nos esmagam.
O endividamento da República, das empresas e das famílias foi importado e distribuido sem rei nem roque. E, de repente, pretendem que os endividados regurgitem o que lhes deram a engolir, num ápice.

Não regurgitam, sobretudo se ao mesmo tempo lhe enfraquecem os abdominais. Se a despesa pública é restringida em fase deprimida do ciclo, é aritmética a dedução que a despesa relativamente ao PIB, por efeito dos juros que se vencem, não parará de crescer.

Que a troica queira ignorar isto, percebe-se mal, mas percebe-se. Que nos queira convencer que os juros não contam ... são contas que eu não sei contar.