Auditório da Junta da União das Freguesias
da Charneca de Caparica e Sobreda. 03-05-2019
O “Grupo da Cidadania” agrega um conjunto de almadenses[1]
que, independentemente do laço que os liga a este município (tenham por cá nascido,
aqui residam, trabalhem, estudem ou gostem desta terra pelas praias,
gastronomia ou outro motivo qualquer), gostam de se reunir para refletir sobre
temas do quotidiano.
Desvinculados partidariamente, mas não anti partidos (e muito menos
apolíticos), une-os a preocupação com as questões da participação cívica encontrando
no debate democrático de ideias (plural, franco e aberto) com os(as)
participantes que a eles(as) se vão juntando nas várias iniciativas (sejam conversas
de café, encontros ao ar livre ou tertúlias temáticas em instalações cedidas
para o efeito) uma forma de enriquecimento pessoal e, principalmente, de intervenção
cidadã.
Em ano eleitoral, a abstenção é um assunto premente. Lançaram um inquérito
que, numa primeira fase foi realizado na rua e na etapa seguinte passou para a
interne (ainda se encontra a decorrer) para aferir as razões da abstenção e
apurar o que fazer para combater o fenómeno.
Com as eleições europeias já no próximo dia 26 do corrente mês, e sendo
este o ato eleitoral com maiores índices de abstenção em Portugal (61% em 2004;
63% em 2009; 66% em 2014), estando a decorrer uma campanha onde se fala de tudo
menos da Europa, sentiu-se a necessidade de encetar uma reflexão conjunta sobre
o tema.
Para o efeito contactou-se[2]
o Professor
António Manique, que nos honrou com a aceitação do convite, o qual fez uma
pequena apresentação de 15 minutos a que se seguiu o debate com os presentes
que durou cerca de três horas e no qual todos(as) puderam participar. E quando
digo todos é porque todos participaram mesmo.
Foi um momento único. Não estarei errada ao dizer que aprendemos imenso
com a partilha de ideias (eu admito-o: vim de lá muito mais rica) e não só com
a excelente apresentação do professor António Manique mas, sobretudo, com a
forma livre e democrática como decorreu a conversa (porque foi isso mesmo: uma toca
informal de opiniões) em "pé de igualdade": as cadeiras colocadas em
círculo esbatiam a diferença entre organização, orador convidado e público (algo
que se evidencia olhando as fotografias do evento). Uma disposição que aliada à
forma descontraída como se deu início “aos trabalhos”, que me fez lembrar as
sessões de Poesia
Vadia (algumas ocorridas naquele mesmo espaço: auditório da Junta de
Freguesia)[3]
Se a organização está de parabéns, todos e todas os que ali estiveram
cerca de três horas a debater a Europa (é mesmo verdade! a discutir a Europa,
nos seus multifacetados temas, sem sequer fazer derivas para a situação
política do momento: o Governo vai ou não cair por causa do "caso dos
professores"?) devem ser também parabenizados.
Da Europa dos (e para
os) Cidadãos à Europa dos interesses. Da Europa dos valores (paz,
democracia, liberdade) à Europa dos extremismos, da xenofobia. Da Europa da
solidariedade à Europa dos egocentrismos individualistas. Da Europa da partilha
cultural à Europa da indiferença. Da política europeia do passado e dos seus líderes
carismáticos, aos populistas de hoje e às liderança atuais (fracas e interesseiras),
do papel dos eleitores no comportamento dos que elegem, do contributo dos
cidadãos na melhoria do sistema democrático, da escola como formadora cidadã e
da família que se desobrigou de educar os seus filhos, sempre numa perspetiva de
integração europeia (quiçá desintegração nalguns casos) sem esquecer o factor
local, a perceção que os munícipes têm das instituições oficiais (da junta de
freguesia à câmara municipal, à Assembleia da República até ao Parlamento Europeu).
Falou-se de tudo um pouco: cidadania, crescimento económico, sociedade,
educação…
Para tentar apurar: que Europa queremos, afinal? A relação de Portugal com
a União Europeia (firmeza e subserviência). A paranoia securitária, a
imigração, a mobilidade sem fronteiras. Regras, restrições, liberdade
amordaçada… fundos comunitários, abusos e corrupção…
Parece incrível, mas é verdade: abordou-se isto tudo e muito mais, sempre
na ótica da Europa: o perigo da abstenção, o crescimento da extrema direita, o
acesso à justiça, da pobreza dos programas partidários, da ausência de visão de
longo prazo, as consequências do Brexit… Quem lá esteve pode testemunhá-lo. Até
houve espaço para histórias de vida, pequenos apontamentos que nos fizeram pensar
ou sorrir.
Eramos poucos (17)? Desenganem-se… eramos os suficientes para que esta
"conversa de amigos" tivesse dado oportunidade a todos(as) de opinar
(mais do que uma vez), de expor ideias, de contra-argumentar, sempre de forma
espontânea, tal era o à vontade com que os diálogos fluíam (o que talvez não
tivesse sido possível se estivéssemos perante uma grande audiência, facto que
provavelmente inibiria alguns de intervir)… e não fosse o adiantado da hora, e
eu própria ter de sair por questões familiares, por ali tínhamos ficado outras
tantas horas.
Pronto: confesso…
Adorei! E quero mais! Quero eu e querem os que participaram.
[1] Do
núcleo inicial fazem parte: António Palma, Ermelinda Toscano, Filomena Silva e Jerónimo Gil. Neste
momento juntaram-se muitos outros.
[2]
Uma diligência encetada por António Palma (amigo de longa data, mais de
cinquenta anos, do orador) mas que, infelizmente, por motivos de saúde (internamento
hospital de urgência) não pode estar presente no evento e a quem todos os
presentes endereçaram votos de rápidas melhoras.
[3]
Estas sessões de declamação poética da associação informal Poetas Almadeses,
ficaram célebres pela forma como eram organizadas, sem agenda pré-definida, onde cada um era livre de se levantar e declamar.