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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Os onze filmes favoritos de Bergman



Em 1994 um jornalista perguntou a Ingmar Bergman, um dos maiores cineastas do século XX, quais os seus 10 filmes preferidos de sempre. Bergman pediu para pensar um pouco e depois foi dizendo um título atrás do outro. Pensava que tinha dito 10 filmes, mas o entusiasmo levou-o a citar 11 títulos.

São os seguintes (sem ordem especial):

- Andrei Rublev (Andrei Tarkovsky, 1971)
- The Circus (Charlie Chaplin, 1928)
- The Conductor (Andrzej Wajda, 1980)
- Marianne and Juliane (Margarethe von Trotta, 1981)
- The Passion of Joan of Arc (Carl Theodor Dreyer, 1928)
- The Phantom Carriage (Victor Sjöström, 1921)
- Port of Shadows (Marcel Carné, 1938)
- Raven’s End (Bo Wilderberg, 1963)
- Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)
- La Strada (Federico Fellini, 1954) 
- Sunset Boulevard (Billy Wilder, 1950

De todos estes filmes, só não conheço o filme do Andrzej Wajda, do Bo Wilderberg (nem sei quem é!) e da Margarethe von Trotta (de quem ainda ontem publiquei na rubrica Genealogia de Fotogramas imagens do seu último filme, "Hannah Arendt").
Todos os outros filmes citados são obras-primas indiscutíveis. Confesso a minha surpresa pela escolha de um filme aparentemente menor de Charlie Chaplin - mas que eu adoro - "The Circus", assim como o maravilhoso (e pouco reverenciado) "La Strada" de Fellini. 
Estas escolhas provam o gosto cinematográfico ecléctico do grande Ingmar Bergman.

sábado, 7 de setembro de 2013

Cinema: a discussão do top 10



Para quem ainda não sabe ou para quem quer relembrar, 846 críticos escolhidos pela revista Sight & Sound escolheram há um ano os 10 melhores filmes de sempre. 
Pela primeira vez, o clássico de Welles, "Citizen Kane", foi destronado:

1 - "Vertigo" (Alfred Hitchcock, 1958)
2 - "Citizen Kane" (Orson Welles, 1941)
3 - "Tokyo Story" (Yasujirô Ozu, 1953)
4 - "La Règle du Jeu" (Jean Renoir, 1939)
5 - "Sunrise" (F.W. Murnau, 1927)
6 - "2001: A Space Odyssey" (Stanley Kubrick, 1968)
7 - "The Searchers" (John Ford, 1956)
8 - "Man with a Movie Camera" (Dziga Vertov, 1929)
9 - "The Passion of Joan of Arc" (Carl Theodor Dreyer, 1928)
10 - "8½" (Federico Fellini, 1963)
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Apesar de se tratar de uma lista elaborada por críticos e jornalistas especializados, não deixa por isso de ser uma lista subjectiva e passível de discussão. Isto é, será legítimo perguntar porque é que não consta nenhum filme de Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovski, Charlie Chaplin, Robert Bresson, Jacques Tati, Ingmar Bergman ou tantos outros? Simplesmente porque não "cabem" no top 10 original mas poderiam, perfeitamente, integrá-lo.  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Packs DVD a preço módico

Várias vezes me queixo do preço exorbitante dos DVD vendidos em Portugal. E não me estou a referir aos DVD de importação, compreensivelmente mais caros, mas sim às edições nacionais. Uma das editoras que sempre praticou um política de preços elevada é a Costa do Castelo. Apesar da qualidade do seu catálogo ser inquestionável, os preços praticados (sobretudo com caixas de cinema clássico de coleccionador) sempre foram altos e raramente (talvez nunca) alvo de promoções ou descontos especiais. 
Ora, o panorama mudou - para benefício do cinéfilo. Finalmente, a Costa do Castelo faz uma promoção de alguns títulos clássicos da sua preciosa colecção, como são os packs de filmes do John Ford, do Antonioni, do Dreyer ou do Ophüls. Packs que anteriormente custavam à volta de 60€, custam agora ao público uns módicos 15,99€.
É aproveitar, portanto.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um filme diferente para o Halloween


Agora que se aproxima o Halloween, eis um dos mais míticos e sublimes filmes do período mudo: "Häxan", realizado em 1922 pelo cineasta dinamarquês Benjamim Christensen.
"Häxan", um dos primeiros grandes filmes fantásticos de sempre (é do mesmo ano de "Nosferatu" de Murnau), documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras e os actos de bruxaria numa Europa medieval conspurcada pela intolerância religiosa e pela Inquisição.
A prodigiosa fotografia do filme, as encenações de rituais e de possessões demoníacas, e o ambiente visual expressionista recriado viria a influenciar outras obras-primas do cinema, como o clássico de Carl Dreyer, "A Paixão de Joana D'Arc" (1928).
Muito do imaginário de terror psicológico e visual dos filmes das décadas posteriores (aliás, até aos nossos dias), foi gerado a partir deste filme escandinavo. Há muito de "Häxan" no filme "O Exorcista" (1973); e os produtores do filme-fenómeno "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. E até inspirou a criação de um grupo homónimo de música... Black Metal. O escritor beat William S. Burroughs era grande admirador do filme.
Também é verdade que o filme de Christensen foi, durante décadas, censurado e banido, quer pelas autoridades religiosas, quer pelas autoridades políticas, tornando-se num filme marginal e num verdadeiro fenómeno de culto internacional. Mas nessa suposta marginalidade existia imensa criatividade e inovação estética.
Para além disso, esta obra é interessante para compreender a bruxaria através dos tempos. Um tema muito apropriado para a próxima temporada do Halloween, portanto.
Trailer.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dreyer e Manuel António Pina

O escritor, poeta e cronista Manuel António Pina deu uma entrevista ao jornal i, na qual revela todo o seu desencanto com a política e o estado actual do país.
Numa determinada passagem, respondendo acerca do seu desencanto e falta de esperança na política nacional, Manuel António Pina evoca o filme "A Palavra" (1955) de Carl Dreyer para justificar o seu ponto de vista. A forma inteligente como descreve a essência do filme é deveras esclarecedora:

Jornalista - "Está um bocadinho desencantado?"

Manuel António Pina - "Estou muito. Eu não tenho nenhuma fé. Mas escrevi recentemente uma crónica chamada “O que fica depois do que se perde”, sobre o filme “A Palavra”, do Dreyer. É uma história sobre a fé. Conta a vida de um luterano que tem três filhos, o mais velho é ateu, o segundo tem uma loucura mística, convence-se que é a reencarnação de Cristo, e o terceiro, o pai tenta casá-lo com uma rapariga de outra seita protestante. Todos consideram louco aquele que se julga Cristo, eu até escrevi na crónica loucura entre aspas, para acrescentar uma nota em que dizia que sou céptico, mas sou céptico em relação ao próprio cepticismo, mas depois acabei por tirar as aspas porque já não tinha espaço para as explicar. A certa altura do filme, a mulher do filho mais velho, ateu, morre, e as duas crianças pedem ao tio que ressuscite a mãe, porque têm aquela fé pura e sem limites acreditam nisso – é das cenas mais comoventes da história do cinema – e ele ressuscita-a. As únicas pessoas que não ficam surpreendidas são as duas crianças. É curioso que eu que não tenha fé nenhuma, mas quando vejo coisas daquelas sinto uma espécie de melancolia. É a sensação que têm os amputados que sentem a perna que já não têm."
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A entrevista completa aqui.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um grande filme de 1928



Henri Langlois, famoso director da Cinemateca Francesa, afirmou em 1953 que este filme tinha uma "riqueza técnica extraordinária". E cineastas da grandeza de um Jean Vigo e de um Carl Dreyer manifestaram a sua profunda admiração pela atmosfera poética desta obra do realizador francês Jean Epstein (1897 - 1953).
A obra em causa é uma célebre adaptação de um conto de terror gótico do escritor Edgar Allan Poe: "A Queda da Casa de Usher". Uma história de uma sinistra casa isolada no meio de lagos na qual vivem um lorde (Roderick Usher) obcecado pela sua mulher. O filme foi realizado no período de ouro do cinema mudo (1928) e, apesar da inequívoca originalidade e qualidade da obra, foi mal compreendido na época.


Filme de grande beleza plástica, de efeitos e metáforas visuais de grande impacto (câmara lenta, fotografia de sombras, cenas oníricas...) , "A Queda da Casa de Usher" (que Roger Corman recriaria em 1960 com Vincent Price como protagonista) é ainda considerado um marco do cinema de vanguarda dos anos 20. Jean Epstein, amante de filosofia, de poesia, oriundo de famílias aristocráticas e de grande cultura, foi também claramente influenciado pelo surrealismo e pelas teorias estéticas do russo Dziga Vertov. Esta obra permanece como uma das melhores adaptações cinematográficas do universo de Edgar Allan Poe, seja pela criatividade expressa no estilo abstracto da narração, seja pela prodigiosa utilização da imagem, da iluminação, dos enquadramentos ou dos jogos de montagem, que conferem ao filme uma atmosfera poética admirável, carregada de surrealismo e onirismo psicológico. De referir que o realizador espanhol Luis Buñuel foi assistente de realização neste filme, experiência que o terá levado a fazer a curta-metragem "Un Chien Andalou" (1928).

Um dos mais formidáveis filmes mudos da história do cinema, "A Queda da Casa de Usher" é um belo manifesto da arte poética e visualmente expressiva que é o cinema, numa obra plena de segundos sentidos, de um formalismo fascinante e de uma atmosfera perturbadora. Para comprovar esta teoria, basta apreciar estes escassos minutos de um excerto do filme (com música original de Stephan Micus):

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"O Cavalo de Turim" - O fim de tudo


O realizador húngaro Béla Tarr afirmou que "O Cavalo de Turim", Urso de Prata no Festival de Berlim, representa o último filme da sua carreira, justificando que já nada mais tem a fazer e a dizer com o seu cinema. Depois de ver o filme, concordo com ele (mesmo considerando que, em 2007, realizou uma obra-prima chamada "O Homem de Londres"). Depois deste filme, Béla Tarr não tem de provar mais nada, não tem necessidade de revelar, uma vez mais ao mundo, a sua mestria, a sua visão inigualável do cinema.

Durante 146 minutos, o espectador fica submerso perante a belíssima - e ofuscante - fotografia, hipnotizado pela música repetitiva, preso à vida rotineira do pai, da filha e do cavalo no campo, isolados de tudo e de todos. Pai e filha vivem do que transportam numa velha carroça e esperam durante 6 dias que o cavalo doente recupere para retomarem as actividades que os sustentam. O quotidiano é marcado por raras frases e acções monótonas sob uma ténue luz e dolorosos actos repetitivos. Mas é nesses momentos monótonos onde, aparentemente, nada acontece de diferente, que Béla comunica com o espectador. Tarr dá ao espectador tempo para observar e para pensar, porque este filme está repleto de ideias filosóficas, apesar da suposta banalidade narrativa.
É um filme perturbador pela aparente simplicidade formal, de uma grande exigência para o espectador comum: uma obra feita de pequenos detalhes visuais, de longos e hipnóticos movimentos fluidos de câmara, da crescente desagregação da relação entre pai e filha, da metáfora pessimista sobre o estado da humanidade (a partir de um episódio verídico protagonizado por Nietzsche), dos ruídos e silêncios, da escuridão súbita, do som do tenebroso vento constante... Tudo isto e muito mais é "O Cavalo de Turim", um filme de uma intransigência estética sem paralelo no cinema actual, de um radicalismo irredutível, de uma beleza plástica sufocante, de um estilo narrativo minimalista que desconstrói a forma convencional de olhar para imagens em movimento.

Béla Tarr arquitectou um filme sobre o fim dos tempos, o vazio absoluto, um mergulho angustiante no coração das trevas mais profundas. Não há violência, não há terror, não há sangue; mas em casa imagem, em cada plano e movimento de câmara, pressente-se um terror insano, um desassossego da alma, uma sensação absoluta de solidão que nos leva ao âmago da essência da existência: ou seja, ao Nada. Todo o filme é assolado por uma espécie de caos calmo, pela proximidade fétida da morte, num mundo sem esperança e sem Deus, que vai varrendo os restos de humanidade daquelas personagens. Um vizinho do velho diz-lhe: "A decadência do mundo foi provocada por seres maus, que tudo dominam, sem interferência de Deus. Os seres bons foram derrotados, ninguém mais os protege. Tudo está decadente, podre, em total desmoronamento. O fim está próximo”. Ver "O Cavalo de Turim" é sentir essa experiência-limite, quase física, quase abstracta, quase claustrofóbica, que provoca e incomoda, mas que não deixa ninguém indiferente.

Aquando da exibição do filme no Brasil, a produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre, avisou a plateia: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Se este é mesmo o último filme de Béla Tarr, então deixou ao mundo um "experiência de vida", em forma de testamento monumental, um objecto estético cujo conceito ultrapassa o do "cinema." Esta é já uma outra linguagem, outra força expressiva, bruta e complexa, que desafia e desconcerta, um olhar profundo sobre a essência das coisas que nem Tarkovsky ou Dreyer alguma vez conseguiram almejar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cinema - O momento da revelação

Todos os cinéfilos guardam na memória imagens marcantes de filmes, igualmente, marcantes. Mas raramente retêm aquelas imagens nas quais surgem incrustados os títulos dos filmes.
Tema de importância menor? Talvez. Mas como disse o Rato Cinéfilo num dos seus últimos comentários, a imagem ainda é uma componente fundamental na memória de qualquer cinéfilo.
Eis alguns exemplos de grandes obras de cinema e dos "screenshots" exactos dos respectivos títulos - ou seja, o "momento da revelação":












terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais do que um mero filme sobre bruxaria


O site dvdgo.com (que já esteve melhor do que agora) anunciou há tempos uma edição em DVD como um grande destaque editorial no panorama da cinefilia caseira. E, na verdade, não era para menos.
Tratava-se da versão especial remasterizada (som e imagem) de um dos mais míticos e sublimes filmes do período mudo: "Häxan", realizado em 1922 pelo cineasta dinamarquês Benjamim Christensen. "Häxan", um dos primeiros grandes filmes fantásticos de sempre (é do mesmo ano de "Nosferatu" de Murnau), documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras e os actos de bruxaria numa Europa medieval conspurcada pela intolerância religiosa e pela Inquisição.
A prodigiosa fotografia do filme, as encenações de rituais e de possessões demoníacas, e o ambiente visual expressionista recriado viria a influenciar outras obras-primas do cinema, como o clássico de Carl Dreyer, "A Paixão de Joana D'Arc" (1928). Muito do imaginário de terror psicológico e visual dos filmes das décadas posteriores (aliás, até aos nossos dias), foi gerado a partir deste filme escandinavo. Há muito de "Häxan" no filme "O Exorcista" (1973); e os produtores do filme-fenómeno "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. E até inspirou a criação de um grupo homónimo de música... Black Metal.

Também é verdade que o filme de Christensen foi, durante décadas, censurado e banido, quer pelas autoridades religiosas, quer pelas autoridades políticas, tornando-se num filme marginal e num verdadeiro fenómeno de culto internacional. Mas nessa suposta marginalidade existia imensa criatividade e inovação estética.
Esta edição especial em DVD traz além da versão original restaurada, a rara edição americana lançada em 1968 com narração do poeta beat William S. Burroughs (grande admirador do filme) e com o subtítulo "A Bruxaria Através dos Tempos" (no segundo disco do DVD). Imperdível, portanto.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Corbijn e Dreyer


Há várias sequências prodigiosas no filme "Control" de Anton Corbijn. Uma delas é no momento em que Ian Curtis inicia a sessão de hipnose com a ajuda do amigo e músico Bernard Summer. Curtis está sentado num sofá preto, e a câmara começa a circular à volta do cantor dos Joy Division. Pela profundidade emocional do momento, pelo preto e branco imaculado da fotografia, fez-me de imediato pensar numa sequência similar do filme "A Palavra" de Carl Dreyer (na foto): o personagem que se julga Cristo está sentado no meio da sala a falar com a sobrinha, e a há um movimento de câmara que gira em volta da sua figura, lentamente. Percebo porque é que alguns críticos referiram Dreyer como influência para certas imagens de "Control". Depois, o final do filme, com a câmara a subir pela chaminé crematória até se fixar no respectivo fumo negro, com a música "Atmosphere" em fundo, é um espantoso exercício de mise-en-scène. E um dos mais belos e comoventes finais de filme dos últimos anos (na sala de cinema onde assisti ao filme de Corbijn havia uma rapariga à minha frente a chorar copiosamente).

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bresson, Tarkovski e Welles juntos

Esta sequência é uma preciosidade histórica e um momento raríssimo. No Festival de Cannes de 1983, três génios do cinema encontram-se no mesmo palco: Orson Welles (como apresentador), o francês Robert Bresson e o russo Andrei Tarkovski. Repare-se na forma como Welles apresenta o prémio para o último filme de Bresson ("L'Argent"). Não só não o cumprimenta como nem sequer olha para ele. E a reacção do público? Uma indescritível mistura de palmas e... assobios. Depois, entra Tarkovski a receber um prémio pelo magnífico filme "Nostalgia". Orson Welles já cumprimenta o realizador russo. Teria o cineasta de "Citizen Kane" mais admiração por Tarkovski do que por Bresson?
Tarkovski dirige-se ao microfone apenas para dizer um seco "Merci Beaucoup" (fazendo lembrar o também seco "thank you" de Hitchcock quando recebeu o seu único Óscar).
Bresson e Tarkovski nutriam grande admiração mútua e, ao que consta, foi a única vez que estiveram juntos. O realizador de "Stalker" morreria apenas 3 anos depois deste evento, logo após ter terminado o filme-testamento "O Sacrifício". O cineasta francês viveria até 1999, mas nunca mais conseguiu realizar nenhum filme. No fim, ao saírem do palco, Bresson puxa pelo braço de Tarkovski, numa manifestação clara de companheirismo e respeito.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Genealogia do rosto feminino no cinema


Sobre os rostos no cinema haveria muito a dizer. Rostos femininos e masculinos. Desde que Carl Dreyer, no final do período mudo, filmou o rosto expressivo de Maria Falconetti (na foto) em grandes planos no filme "A Paixão de Joana D'Arc" (1928) que a imagem da mulher na Sétima Arte nunca mais voltou a ser a mesma.
A seguir a Falconetti, muitas outras actrizes contribuíram para o glamour da sétima arte, as tais divas que falava uns posts mais abaixo: De Greta Garbo a Marlene Dietrich, de Katherine Hepburn a Ingrid Bergman, de Sofia Loren a Charlize Theron, de Brigitte Bardot a Nicole Kidman.
Na sequência que se segue, maravilhosamente montada com a técnica "morphing", surgem dezenas de rostos de actrizes famosas pelo talento, mas também pela incrível fotogenia e beleza plástica. São imagens de mulheres que fizeram a história do cinema desde o período mudo até aos nossos dias.
Curiosamente, esse sofrido e expressivo rosto de Maria Falconetti não surge contemplado nesta montagem. Falha grave.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sombras

Se há matéria plástica que me interessa no cinema, essa matéria é a sombra. O Expressionismo Alemão foi o movimento estético, por excelência, que explorou as capacidades expressivas e dramáticas das sombras, através de uma fotografia depurada. Mas ao longo da história do cinema muitos outros realizadores e filmes souberam impressionar o espectador com o mistério, quase sempre inquietante, que a sombra acarreta. Eis apenas alguns exemplos (outros existem, como no cinema negro, mas não consegui as respectivas imagens):

"The Third Man" (1949) - Carol Reed

"Shadow of a Doubt" (1943) - Afred Hitchcock

"I Confess" (1953) - Alfred Hitchcock

"Vampyr" (1932) - Carl Dreyer

"O Gabinete do Dr. Caligari" (1920) - Robert Wiene

"M - Matou" (1931) - Fritz Lang

"Nosferatu" (1922) - F.W. Murnau

"Shadows and Fog" (1992) - Woody Allen

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Cinéfilo incompleto


Apesar de já ter visto muitos filmes, de escrever sobre a sétima arte, de me sentir cinéfilo, a verdade é que tenho uma confissão a fazer: falta-me ver muito e bom cinema clássico e de autor. Na realidade, ainda não conheço a obra integral (ou a mais importante) de realizadores como Fassbinder, Otto Preminger, John Huston, Jean Renoir, Billy Wilder, Frank Capra, Sergei Paradjanov, Howard Hawks, Douglas Sirk, Fritz Lang, Mizoguchi, Ozu, Michael Powell, Samuel Fuller, Visconti, Satyajit Ray, Sidney Lumet, Nicholas Ray, Anthony Mann, Godard, Rivette, Kurosawa, Ernst Lubitsch, etc.
Claro que já vi filmes destes realizadores todos - de alguns conheço 3 ou 4 ditos essenciais, mas dada a diversidade e quantidade de filmes realizadores por estes cineastas, revela-se difícil conhecê-los a todos. Em contrapartida, conheço a filmografia completa de Stanley Kubrick, Woody Allen, Jacques Tati, John Cassavetes, Andrei Tarkovski, Luís Buñuel, David Cronenberg, David Lynch, Steven Soderbergh, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Roman Polanski, Terry Gilliam, Charles Chaplin (longas-metragens), Friedich Murnau, Steven Spielberg, Carl Th. Dreyer, Sergei Eisenstein, entre outros. Julgo que será uma condição inerente a qualquer cinéfilo: a tendência para conhecer e gostar mais de determinadas filmografias em detrimento de outras, umas estéticas face a outras, uns realizadores em comparação com outros. Ou seja, seremos sempre cinéfilos incompletos, e esta condição não é de todo negativa, mas sim construtiva.
Resumindo: como no caso de qualquer amante de música ou de literatura, o caminho do conhecimento está sempre em aberto. A sede de querer e saber mais nunca será saciada, porque, por mais que se conheça e se acumule informação, há-de haver sempre territórios novos e desconhecidos a desbravar. É esse prazer da descoberta constante que sustenta uma experiência cultural enriquecedora. A não ser que acreditemos na máxima de Goethe sobre o assunto: "Só sabemos com exactidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida".

sábado, 30 de janeiro de 2010

A arte do cinema mudo


Gosto muito de cinema mudo. Muita da melhor arte do cinema está no período silencioso. O Expressionismo Alemão, a Vanguarda Soviética ou a Comédia Burlesca Americana maracaram-me muito como cinéfilo, que via em cassetes VHS ou em sessões nocturnas da televisão (sobretudo espanhola). Incrivelmente, só vi dois filmes mudos em grande sala - "O Couraçado Potemkine" de Eisenstein, e "Tabu" de F. W. Murnau.
A genialidade dos filmes mudos de Chaplin, Murnau, Vertov, Eisenstein, Dreyer, Keaton, Pudovkin, Lang, Buñuel, Griffith, entre outros, são a prova que a verdadeira essência do cinema é feita de imagens do real ou do fantasioso (como dizia o crítico francês André Bazin).
Para quem conhece pouco ou nada do cinema mudo, por onde começar? Bem, para tal empreitada sugeria seguir, à risca, esta lista. Trata-se de uma excelente enumeração de 15 dos melhores filmes do cinema mudo - quase todos são, para mim, obras-primas absolutas. Obras de inigualável beleza estética, de grandes histórias dramáticas ou cómicas, de pura arte universal das imagens.
Quanto a mim, acrescentaria à lista dois títulos imprescindíveis: "Nanook" (1922)de Robert Flaherty e "O Homem da Câmara de Filmar" (1929) de Dziga Vertov.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O "smoking" de Lars Von Trier


Ao ler a reportagem sobre a estreia do filme “Anticristo” de Lars Von Trier no Ípsilon de hoje, fiquei a saber que o realizador tem em casa um “smoking” que pertenceu ao cineasta Carl T. Dreyer. E outra curiosidade da qual nunca me tinha apercebido: o realizador dinamarquês tem Von no nome, tal e qual dois outros grandes cineastas do período da transição do mudo para o sonoro: Erich Von Stroheim e Joseph Von Sternberg.
Ah, e três críticos do jornal Público cilindraram “Anticristo” com a classificação de apenas uma estrela (enquanto que João Lopes atribuiu 5). Era o esperado: tal como eu disse aqui, Lars Von Trier divide violentamente paixões. Ou se gosta ardentemente ou se odeia sem concessões. É desta fibra que são feitos alguns artistas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Haneke, Tarkovski, Dreyer, Bergman


O jornalista Rui Pedro Tendinha entrevistou para a revista Premiere o realizador Michael Haneke, autor de "O Laço Branco". Questionado sobre se este filme era uma espécie de "carta de amor" ao realizador russo Andrei Tarkovski, o cineasta austríaco respondeu desta forma: "Fico muito linsonjeado quando vejo os crítico dizer isto de "O Laço Branco". Tarkovski é um dos meus cineastas preferidos. Há também quem tenha comparado com Bergman, outro cineasta que amo, mas a verdade é que quando estou a filmar não me oriento neste sentido. Houve quem tivesse falado em Dreyer, mas aqui discordo. O meu preto e branco é inteiramente novo, é um preto e branco real em oposição ao preto e branco artifical e teatral de Dreyer".

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dois filmes

Como referi neste post, as expectativas em relação ao filme "Actividade Paranormal" estavam muito altas. Das duas uma: ou era, como muitos diziam, o melhor "filme de terror de sempre (e o mais assustador)" ou era, como os detractores asseguravam, uma verdadeira fraude. E é exactamente o que eu acho. O filme não é mau por ter sido feito em 10 dias da forma mais amadora possível. Não é mau porque, na verdade, nem a uma criança de 10 anos consegue assustar.
É mau porque assume-se como um objecto de cinema quando não passa de um fraco exercício de vídeo. Os actores, assumidamente amadores, são maus. O argumento (não chega a haver argumento) é mau, previsível e cheio de lugares-comuns. A alegada capacidade do filme induzir medo incontrolável no espectador resulta numa experiência patética e inconsequente (pelo menos comigo foi assim).
O hype gerado à volta do filme pela imprensa e pela blogosfera global é totalmente injustificado. Foi marketing gratuito a um produto vazio de ideias. O que me impressiona são os 100 milhões de dólares que já arrecadou em salas de cinema norte-americanas e a comparação com filmes como "O Exorcista" ou "Blair Witch Project" (que partia de uma ideia bem mais consistente). "Actividade Paranormal" é, portanto, um filme paranormal. No pior dos sentidos.
"A Fita Branca" é uma película que está nos antípodas de "Actividade Paranormal". O realizador Michael Haneke sabe o que quer e consegue-o com superior capacidade artística. O filme, Palma de Ouro em Cannes, é um testemunho inquietante (mais um) sobre as relações humanas dominadas pelo autoritarismo moral, por um sistema social discriminatório e pelo obscurantismo religioso. A tensão subtil e permanente das personagens percorre o filme, acentuadas pela brilhante qualidade plástica das imagens (um preto e branco radioso, arriscaria, à Dreyer de "Ordet").
Pela, aparentemente pacata comunidade na qual decorre filme, experiencia-se o medo velado pela violência latente (um medo bem mais perturbador do que no filme acima citado). Uma violência que pode começar na insuportável atitude do pai de família, ou pelos operários que se sentem oprimidos pelo poder controlador do Barão. Uma comunidade que, de forma alegórica, antecipa, num registo de micro-sociedade, os horrores da Grande Guerra. Ainda assim, no meio do pessimismo militante de Haneke e da sua habitual austeridade formal, vislumbram-se résteas de bons sentimentos em "A Fita Branca". Destaque especial para as magníficas interpretações do elenco infantil, que consegue transmitir, de forma intensa, as contradições sociais e culturais de uma época.
"A Fita Branca" não é, a meu ver, o melhor filme do austríaco Michael Haneke. Esteticamente é irrepreensível, mas esperava mais densidade dramática, mais audácia narrativa. É que de Haneke esperamos sempre um filme que perturbe o espectador, que o deixe em estado anímico KO após o visionamento. Não é o caso deste (e talvez tenha sido uma opção intencional por parte do realizador).
Ainda assim, um dos filmes do ano.