Sugere-se a leitura até ao fim.
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Sunday, August 18, 2024
TURISMO: UM PROBLEMA DE PROSTITUIÇÃO DA ECONOMIA? - 2
Quando, a 10 de Julho, coloquei aqui uma nota neste caderno de apontamentos, com o mesmo título/pergunta do apontamento de hoje, fui colocado no bloco de "Velhos do Restelo".
Não era a primeira vez que abordava a questão, antes pelo contrário, fui observando e comentando a excessiva importância dada ao turismo no nosso país, muito influenciado pelo que observara há várias décadas na minha cidade, premiada com uma praia então considerada a rainha, esgotou-se o encanto da praia por razões naturais e conjunturais e a cidade perdeu a sua pouca actividade não turística.
Reganhou actividade industrial, anos mais tarde, com uma indústria de dimensão internacional, por mero acidente político, mas foi um ganho sem grande mérito dos locais, ainda e sempre a olhar para a tiara perdida.
Hoje lê-se no Público - "Lisboa prostituída" -, um artigo de um comentador norte-americano.
Começa assim:
"Há muito que evito ir à Baixa de Lisboa, mas, neste dia, resolvi arriscar. E inevitavelmente encontrei o que receava: na Rua das Portas de Santo Antão, uma multidão de turistas segue um guia que debita para um microfone com alto-falante as suas sábias curiosidades sobre o local. Apenas metade do seu rebanho o ouve, mas todos os outros transeuntes, incluindo os que estão nas esplanadas, são obrigados a suportar o assédio sonoro. No meio da confusão, passam bicicletas de serviços de entrega de comida e trotinetas ziguezagueiam na zona pedonal. Numa esquina, vários “vendedores ambulantes” oferecem abertamente marijuana a quem passa..."
Sugere-se a leitura até ao fim.
Sugere-se a leitura até ao fim.
act. - 19/08
Segundo o que venho a ouvir na rádio, o Governo vai alterar (ou já alterou?) a lei do alojamento local com o objectivo de o facilitar, dificultando aos residentes habituais, frequentemente há muitos anos, a possibilidade de se oporem à introdução de um negócio no prédio em que residem sem que tal possibilidade tenha sido prevista nos contratos de arrendamento subscritos.
Será uma alteração que para além de violar o estabelecido nos contratos de arrendamento de apartamentos em prédios construidos para habitação é facilitador do "turismo de massas", "sem massa", com impacto na economia nacional mais que discutível.
Não senhor primeiro-ministro, o crescimento económico e social deste país não se consegue suportando-se num sector explorado com processos terceiro mundistas, criador de emprego nem sequer medianamente qualificado.
Thursday, August 15, 2024
QUANTO CUSTA O TURISMO A ESTE PAÍS?
Sobrecarga turística em Lisboa e Algarve está ao nível de Barcelona ou Amesterdão
Lisboa e Algarve têm mais turistas por habitante ou mais alojamentos locais por habitações do que Barcelona e Amesterdão, onde já estão a ser impostas restrições pesadas à actividade turística.
"... A cidade de Lisboa e o Algarve – principais regiões turísticas de Portugal, respondendo por quase 40% dos hóspedes e perto de metade das dormidas registadas a nível nacional – jogam no campeonato de alguns dos principais destinos turísticos europeus. Em 2023, Lisboa registou, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), cerca de 6,46 milhões de hóspedes, enquanto o Algarve recebeu mais de 5,12 milhões de hóspedes. Assim, a capital portuguesa contabiliza quase 12 hóspedes por habitante (considerando os censos de 2021) e perto de 65 mil turistas por quilómetro quadrado nesse ano; já o Algarve regista praticamente 11 hóspedes por habitante e 1025 hóspedes por quilómetro quadrado...."
Hoje, depois de uma das nossas habituais caminhada pelas dunas do Guincho, entrámos, como sempre entramos, no bar instalado no cimo do percurso, para uma paragem, curta, café e acompanhante sólido. Tinha ido à nossa frente um casal, provavelmente da nossa idade, que entrou na esplanada do bar, e colocou em cada uma das duas cadeiras de espaldares disponíveis, voltadas para o mar, os bonés, e vai cada um para seu lado: ele para a casa da sanita (não, casa de banho não é, não tem chuveiro nem banheira, só urinol e sanita), ela para a fila das encomendas de comes e bebes.
Tivemos de nos sentar onde havia lugar, no interior do bar, espaço frequentemente ocupado por nómadas digitais.
Ele saiu pouco depois ainda a fechar a braguilha, ela demorou. Quando chegou trazia no tabuleiro um café, uma limonada, uma garrafa pequena de água. Devem ter pago menos de seis euros, com direito a xixi e tempo ilimitado a olhar o mar.
Assim, qual é o estrangeiro que não gosta de Portugal?
Tuesday, August 06, 2024
FACTURA, PRECISA?
Ontem fomos com familiares jantar a Cascais.
Muito raramente almoçamos ou jantamos fora de casa. Hábitos ...
Cascais, ontem ao fim da tarde, o movimento no centro da vila-cidade, recordou-me Torremolinos há mais de cinquenta anos. Em tamanho reduzido, mas, de qualquer modo, um formigueiro turístico excessivo para um espaço tão limitado. Muitos, aquela hora, sete e meia da tarde, já jantavam nos restaurantes, alguns com espaço prolongado para parte do passeio, outros cirandavam rua abaixo, rua acima, à procura de não sei quê.
Entrámos, recepção calorosa pelo dono, ou gerente?, do restaurante onde se tinha reservado mesa. Pelo tom da voz e pelo gesticular dos braços, pareceu-me italiano.
No fim, aquando do traga a conta, agradeceu imensamente a gratificação, cruzou os braços a abraçar-se de reconhecido, pareceu-me sobressaltado quando solicitei factura com número de contribuinte.
Precisa de factura? No problem, vou lá abaixo tirar a factura, já volto.
Não voltou.
Descemos e perguntou-nos o gerente, ou dono?, se estava tudo ok, sim estava tudo ok, mas ainda não tínhamos a factura.
Oh! A minha cabeça, disse batendo a palma da mão direita na testa ... é muita gente ao mesmo tempo, sabe? A factura vai sair imediatamente, quer dizer, agora temos de repetir tudo o que consta do outro papel, a nota de encomenda.
Foi uma complicação, indiciadora de que estava completamente fora dos hábitos dos seus clientes, sobretudo, se não na totalidade, turistas não portugueses. Ao fim de dez minutos à espera que saísse a factura, a família já na rua, saiu a factura.
Já, entre outras ocasiões, em Julho de 2012, anotei aqui o aberrante procedimento de facturação em restaurantes - Factura, precisa?
Volvidos 12 anos, a aberração continua.
Não é difícil perceber a preferência dos donos dos restaurantes pela clientela estrangeira, mais disponível para melhores gratificações e dispensados dessa prática obsoleta de emitirem, ou nem sequer emitirem, notas de encomenda.
E tudo seria tão mais fácil e garantida a correcta receita dos impostos cobrados se fosse estabelecida a obrigatoriedade de apresentação da factura no acto do pagamento. Tal como está, a prática da emissão de nota de pagamento e, agora aguarde que já trago a factura, é um convite à evasão e à iniquidade fiscal entre nacionais e estrangeiros.
Há uns anos, ainda não existia a suposta vantagem de dedução em sede de IRS de parte cobrada do IVA, nomeadamente, em restaurantes, e eu ainda não estava reformado.
Reservei num restaurante carote, uma mesa para jantar com seis clientes nossos, estrangeiros; a empresa tinha muito poucos clientes nacionais, e, suponho, agora terá ainda muito menos.
Jantados, traga a conta se faz favor. Veio a conta, choruda, paguei o valor indicado num papel manuscrito, com cartão de crédito, e, disse discretamente ao gerente, que, entretanto, veio à mesa para nos agradecer a visita, perguntar se tudo tinha corrido bem, que precisava de uma factura.
Esperei, esperei, pela factura, entretive os meus clientes o mais possível enquanto não vinha a famigerada factura, até que saímos, não ia poder esperar mais nem informar os meus clientes que toda aquela espera se devia a uma factura que não vinha.
Mas precisava da factura para apresentar na empresa. No dia seguinte, telefonou-se, sim senhor, vamos tratar disso, enviaremos pelo correio, pode ser? Pode.
Nos dias seguintes, a factura não apareceu.
Telefonou-se outra vez. Não atendeu o gerente, o gerente não estaria naquele dia, mas, pode dizer-nos para que quer a factura?
Tuesday, July 30, 2024
TURISMO: UM PROBLEMA DE PROSTITUIÇÃO DA ECONOMIA?
pergunta de um economista nascido no ano da revolução de abril (ou golpe militar, à escolha do freguês). No mesmo ano em que o Prof Pereira de Moura, então, com 50 anos de idade, afirmava que o turismo era a prostituição da economia.
Entre a pergunta de Paes Mamede e a afirmação (talvez exagerada pela excitação da revolução) de Pereira de Moura) passaram-se cinquenta anos, a questão subsiste, cada vez mais candente: Quanto vale o turismo em Portugal?
Sobre este assunto anotei neste caderno de apontamentos, além do mais:
Produtividade (vd última parte)
Em Portugal, segundo as notícias, a região mais procurada pelos magotes de turistas acidentais é Lisboa e arredores de clichê. Uns chegam em cruzeiros, a maioria vem de avião. Lisboa é, agora, durante a maior parte do ano um arraial de gente cliente de restauração e dormida por tuta-e-meia e lugares para recordar em selfies de que não sabem nem querem saber o chão que pisam. Os que vão até Sintra, geralmente de comboio, sobem ao Palácio da Pena, tiram selfies, comem hamburgers, e voltam duas horas depois.
O Algarve é região preferida pelos turistas com carteira mais recheada, alguns gostam tanto que ficam para residentes.
É assim tão importante o turismo para os algarvios, desabituados pelo turismo de pensar em alternativas?
Parece que não. O Chega dominou nas últimas eleições legislativas, sinal evidente do seu desagrado.
Mas não são apenas as regiões de Lisboa e Algarve que vivem embriagadas pelo turismo.
A embriaguez é geral, mais grave nuns casos que noutros.
Há algum tempo, passou nos canais de televisão um programa (Redescobrir Veneza) sobre o descontentamento dos venezianos relativamente ao excesso de turistas que os obrigou, uns a retirarem-se para ilhas menos conhecidas na Laguna, outros, a grande maioria dos deslocalizados instalou-se em Mestre, a cerca de nove quilómetros de Veneza, e Veneza deixou de pertencer aos venezianos.
Asfixiada
pelo turismo de massa e pela especulação imobiliária, Veneza perde
quase mil venezianos todos os anos. O que é uma cidade sem os seus habitantes?
- Qual o nosso interesse que esses paquetes de cruzeiros atravessassem os canais?- pergunta de um velho veneziano ao repórter incumbido de ouvir o que pensam aqueles que habitaram a cidade e dela foram escorraçados pela pressão dos interesses turísticos? Esses que chegam nos cruzeiros, desembarcam, vasculham cantos e recantos, comem e dormem nos paquetes deixando, quando muito, mais lixo nas ruas da velha cidade agora transformada em museu sem alma.
Tirei duas fotos, colocadas abaixo, a partir do referido programa, Redescobrir Veneza, que mostram, apesar da falta de qualidade resultante do facto de terem sido obtidas a partir de imagens em vídeo, do peso enorme, da afronta, da presença destas bisarmas flutuantes que poluem os mares, sobretudo os locais onde atracam, e onde os passageiros avançam para terra, como bárbaros à procura de despojos.
Hoje, fomos a Lisboa e, sem termos procurado, deparou-se-nos uma imagem que nos relembrou as obtidas a partir do programa sobre Veneza.
Lisboa não é Veneza nem corre o risco de se tornar um museu aberto. Mas vai a caminho.
E o problema é que são poucos os que notam isso.
O turismo é vital para o crescimento económico português?
Quem vive embriagado, parece, vê melhor o que vê ao perto. Escapam-lhe as médias e longas distâncias. ---
act. - 31/07 - Acaba de entrar no meu e-mail um contributo sobre este tema, que devo registar, - Não sei se há turistas a mais, mas se o seu número e comportamento impõem hoje muitos custos sobre os residentes a solução mais natural é cobrar-lhes por isso - Ricardo Reis -
com os meus agradecimentos ao contribuinte.
--- - 31/07 - Turismo: euforia já foi, o antagonismo aproxima-se
"Barcelona, Canárias, Amesterdão e Santorini são bons exemplos de locais onde o estado de antagonismo já foi atingido. As recentes manifestações, um pouco por toda a Espanha, vão mostrando (56 mil pessoas nas Canárias!) como um país pode chegar à “moléstia”, mesmo devendo ao turismo uma boa fatia do seu desenvolvimento económico, uma actividade que ainda representa cerca de 13% do seu PIB".
---act. 2/08 - Qual é o problema do excesso de turismo? (National Geographic)
act. 18/08 - Lisboa prostituída
(clicar nas imagens para aumentar)
Há duas semanas tínhamos sido surpreendidos por estas.
act. 26/09/24
Thursday, September 14, 2023
TURISMO : MOTOR FROUXO DA ECONOMIA
O turismo é a prostituição da economia?
A pergunta é minha mas a afirmação citei-a aqui: ",,,, na ressaca do Verão de 1975, o Prof. Pereira de Moura
afirmava, com nítido exagero, que o turismo é a prostituição da
economia".
Exagero, sim, mas não tanto assim.
Exagero, sim, é considerar que o turismo pode ser o motor fiável do crescimento de uma economia, seja ela qual for. Temos turistas a mais e turismo a menos.
Temos um tecido empresarial de pequenas unidades económicas a mais e de grandes empresas a menos
Entre a Figueira da Foz, Aveiro, Coimbra e Leiria, as distâncias são curtas. Já foram maiores e sobretudo mais demoradas quando não havia autoestradas a os percursos tinham aparecido pelo meio dos pinhais consoante circunstâncias várias. Em meados do século passado, a Figueira era "a Rainha das praias de Portugal".
Cantava a sereia: ... "São Pedro de Moel, beleza bem amada/ é bela a da Rocha, perfumada/ Espinho é trigueiro/ a Póvoa, maneirinha/mas Figueira da Foz é a rainha!"
Em Julho, Agosto e e Setembro, enchia-se a praia da Figueira de portugueses de todo o lado. Chegavam também muitos casais de espanhóis, sobretudo de Salamanca e Cidade Rodrigo, com os filhos ao cuidado das suas amas a chilrearem no jardim, ao lado do mercado.
Em Outubro, chegavam os "banhistas de alforge", depois de terminadas as colheitas, para meter os pés na água e descansar de um ano de trabalho, sem férias nem fins de semana.
A Figueira era, nessa época, uma vedeta jovem, atrevida, aliciante. O Figueirense tinha, pensava ter, uma mina de ouro na sua praia.
Quem é que, fora de portas, conhecia Aveiro ou Leiria?
Coimbra continuava a ser o que sempre fora: a cidade da Velha Universidade, de estudantes, na sua grande maioria filhos de famílias abastadas. Coimbra vivia bastante desse abastecimento.
Vinte anos depois, o turista português e o estrangeiro tinham descoberto que as águas das praias algarvias eram mais ensolaradas, os ventos, quando os havia, mais amáveis, e a Figueira, como, aliás, a generalidade das praias do Norte foram preteridas pelas praias ao Sul.
Para que fosse possível que a Figueira tivesse a entrada num porto, que permitisse o movimento de embarcações da pesca sem risco de vida dos pescadores e de navios de meio calado para escoar a produção para portos no Norte da Europa, construiram-se pontões de retenção das areias da praia e as sereias emudeceram.
Muitas vezes me perguntei, depois, por que razão se tinham desenvolvido Aveiro a Norte e Leiria a Sul, ambas tão próximas da Figueira, economicamente definhada, incapaz de oferecer ou suscitar oportunidades à maioria dos seus naturais, repelindo-os para a capital ou para o estrangeiro? Que tinha a Figueira, que tinha Coimbra, que as tornava incapazes de ombrearem com Aveiro e Leiria?
Só encontrava, e só encontro ainda, uma explicação: a Figueira tinha uma praia, e logo para desdita sua, cantava-lhe a sereia, que essa praia era a "rainha das praias de Portugal". Coimbra, não tem praia. Aí o canto da sereia foi sempre outro, o das serenatas dos seus estudantes, das praxes, das capas e batinas, de quem chegou, cantou, andou até sair doutor.
Tiques que outras academias imitam embalando um sonho que muitos poucos saberão como concretizar.
... correl.
Monday, May 22, 2023
Monday, January 03, 2022
PRODUTIVIDADE
Produtividade, produtividade, produtividade ...
Não
faltam comentadores, há mais comentadores profissionais que moscas neste
país, a clamar que o país está no charco porque a produtividade é
fraquinha.
E é. Porquê?
Sector público e sector privado colhem, cada um, grosso modo, metade do PIB.
Qual é a produtividade do sector público em Portugal?
É
difícil responder. A resposta mais simples seria o quociente entre o
VAB do sector público e o número de empregos no sector, mas ficamos na
mesma.
Aliás, se no VAB o pagamento de remunerações apanha a
maior fatia, o aumento das remunerações no sector público sem
correspondente aumento da produtividade no sector equivale a uma
transferência de VAB do sector privado para o sector público.
Parece,
portanto, que uma análise da produtividade do sector público só pode
realizar-se por via indirecta. Se comparamos produtividade em Portugal
com, p.e., a produtividade no pelotão que corre na UE, forçosamente se
torna necessário segmentar a comparação.
Como comparamos a
produtividade da Justiça em Portugal com a produtividade dos outros
corredores no pelotão? A produtividade na Justiça é fulcral para o
aumento da produtividade do país. Espero não estar a dizer nada de novo,
que esteja a dizer o que é óbvio. Ou não?
O mesmo
na Educação. Proclamamos que temos hoje a juventude mais bem preparada
de sempre. Admitamos que é verdade. Estamos a correr no pelotão, ainda
não descolámos, mas estamos cada vez mais para trás. Porquê? Comparem-se
os indicadores críticos. Segundo o relatório anual do PNUD, estamos
persistentemente a cair no ranking mundial. Desde 2000, descemos do
28º. lugar para o 38º em 2019., posição, neste caso, do IDHAD, índice de
desenvolvimento humano ajustado pela desigualdade. E porque caímos
persistentemente? Sobretudo pelo critério de avaliação da educação.
Que fazer? Comparar e tirar conclusões.
Na
estrutura do tecido empresarial. Ouve-se mil uma vezes repetido que os
nossos pequenos empresários não têm formação, que os trabalhadores têm
mais formação que os pequenos empresários, que a economia portuguesa
vive de pequenas e médias empresas, como se tal facto fosse, por si,
uma vantagem. Não é. Temos pequenas e médias empresas a mais e grandes
empresas a menos. Como fazer crescer as PME sem diabolizar as grandes
empresas? Comparem e tirem conclusões.
Destaca-se,
frequentemente, a importância do turismo. Mas pode uma economia que se
quer produtiva e crescente sustentar-se em grande medida no turismo?
Não pode.
Há
muitos anos, na ressaca do Verão de 1975, o Prof. Pereira de Moura
afirmava, com nítido exagero, que o turismo é a prostituição da
economia. Não é, mas vive muito da vida fácil, de empregos de baixa ou
mediana qualificação. Do turismo vivem os restaurantes, de emprego não
geralmente muito qualificado. O que também lhes vale é os portugueses
adorarem comer em restaurantes por se terem esquecido de cozinhar em
casa.
Sunday, September 19, 2021
Thursday, June 04, 2020
APRENDER COM OS GREGOS
Hoje, no Jornal de Negócios
EPIDEMIOLOGISTA SUECO ADMITE QUE ERROU
Há três semanas, 20/4, no Jornal de Negócios
GREGOS MOSTRAM AO MUNDO COMO COMBATER O SURTO DO CORONAVÍRUS
Sexta-feira, passada, 31/5, no Observador
GRÉCIA ABRE PORTAS E DEIXA PORTUGAL DE FORA. GOVERNO QUER ESCLARECIMENTOS
O Governo português quer esclarecimentos.
Pois aí estão eles.
Basta ler a notícia até ao fim, e tirar as devidas ilacções enquanto há tempo, se ainda houver, para não deixar alastrar a pandemia para níveis incontroláveis.
A questão maior que se coloca é esta: controlo apertado nas entradas para garantir confiança aos turistas ou facilitismo para satisfazer inquietações dos operadores turísticos que podem obrigar a um confinamento que deitará tudo a perder este ano, no próximo, e quem sabe, até quando?
... "Como
já se previa desde o momento em que o primeiro-ministro grego anunciou o
regresso do turismo, da lista de 29 países autorizados fazem parte os
vizinhos da região dos Balcãs, os países bálticos e os países nórdicos
(com excepção da Finlândia). China e Alemanha, dois dos mais afectados
pela pandemia, também voltar a enviar turistas.
Na lista de países
com permissão para a viajar para a Grécia estão: Albânia, Austrália,
Áustria, Macedónia do Norte, Bulgária, Alemanha, Dinamarca, Suíça,
Estónia, Japão, Israel, China, Croácia, Chipre, Letónia, Líbano, Nova
Zelândia, Lituânia, Malta, Montenegro, Noruega, Coreia do Sul, Hungria,
Roménia, Sérvia, Eslováquia, Eslovénia, República Checa e Finlândia.
Os
números do surto na Grécia são muito mais baixos do que os registados
por Itália, França ou mesmo por Portugal. Até agora, confirmou pouco
mais de 2.900 casos de infectados pelo vírus da Covid-19 e 175 vítimas
mortais."
Wednesday, January 01, 2020
FAKE NEWS MUSEUM
Aberto em 1997, o Newseum em Washington DC não chegou a 2020, encerrou ontem. Tinha sido transferido em 2008 para instalações construídas na Pennsylvania Avenue, dotados dos meios tecnológicos mais avançados na altura, envolvendo um investimento de 450 milhões de dólares.
No mural à esquerda lê-se a transcrição do tributo constitucional à liberdade de expressão:
"Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances."
Não suportou as vicissitudes políticas da crise espoletada no ano da sua abertura e do poder agora instalado na Casa Branca.
E foi compelido a fechar portas.
Talvez mude de ramo.
Museu das fake news parece o negócio óbvio, muito apelativo nos tempos que correm.
----
A escrever este apontamento ocorre-me o nosso garboso NewsMuseum de Sintra, inaugurado, muito intencionalmente, a 25 de Abril de 2016 pelo afectuoso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Ocupou as instalações onde anteriormente esteve exposta uma colecção particular, muito visitada, do brinquedo. Sairam os brinquedos, entraram notícias de museu. Não sei se têm mais visitas que os brinquedos. Mas podem mudar de ramo. Fake News é negócio.
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Wednesday, August 21, 2019
SUBINDO O DANÚBIO
AVISO À NAVEGAÇÃO
O que se segue tem como único propósito registar algumas informações recolhidas ao longo de nove dias de navegação fluvial, com saídas a terra, antes que o tempo as apague ou, pior ainda, as deturpe. Os amigos e conhecidos, ou curiosos que, por acaso, aqui tenham vindo parar, considerem que a qualidade das fotografias é resultante da inabilidade do fotógrafo, do equipamento utilizado - um telemóvel ., e das condições de luminosidade do dia no momento.
Aliás, pretende-se que as fotos inseridas neste texto funcionem apenas como dicas das nossas recordações. Na internet há ziliões de fotografias, a internet é exemplo de um universo infinito, sempre em expansão.
Há quatro fotos que foram retiradas da internet - as das catedrais de Bucareste, Belgrado e Budapeste e ainda da Universidade de Budapeste, que, por serem tão grandes, não me cabiam no alcance do telemóvel.
O texto segue ao correr das teclas.
O Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa (o Volga é maior) e tem entre 2845 e 2888 km de extensão, com um fluxo médio de 6700 m/s. Tem a sua fonte na Floresta Negra, a 60 km a noroeste do Lago Constança, a partir de dois pequenos ribeiros, Brigach e Breg, que se juntam em Donaueschingen e passam a ser chamados Danúbio dali em diante. O Breg desce de uma altura de 1078 metros.
Não muito distante da nascente do Breg, nasce o Reno. Mas enquanto o primeiro se junta ao Brigach, e formam o Danúbio, correndo para sul até ao Mar Negro, o Reno vira-se para Norte e vai, após percorrer 1233 km, desaguar em delta comum Reno-Mosa-Escalda, no Mar do Norte, numa vasta extensão que abrange territórios da Bélgica e Holanda.
Nascendo na mesma maternidade, a ideia de os ligar através de um rio intermédio - o Meno - remonta ao ano 793 quando Carlos Magno ordenou a construção de um canal ligando outros dois rios nas proximidades. Com avanços e recuos, a ideia original de ligar o Danúbio ao Reno foi concretizada em 1992, cerca de 1200 anos depois.
Voltando ao Danúbio, compreende-se que, nascendo a uma altitude relativamente baixa, pouco acima dos 1000 metros, para percorrer quase 3000 km., o enorme caudal faz o seu percurso principalmente em planície. Entre o delta, onde desagua no Mar Negro, e Budapeste há apenas um desfiladeiro, aliás pouco elevado, na área das "Portas de Ferro", a separar os Balcãs, a oeste, dos Cárpatos, a leste.
Delta do Danúbio - Laguna lateral nos meandros do delta.
Nos canais por onde andámos no delta, os cursos de água são ladeados por vegetação densa, do mesmo tipo que acompanha o rio em toda a sua extensão, salvo quando se erguem, mas não muito, os Balcãs e os Cárpatos. Nas margens do delta, aparece de vez em quando, saído não se sabe de onde, um ou outro esforçado de olho na cana de pesca a acenar aos turistas.
Informa o guia que em toda a área do delta vivem cerca de 5000 pessoas. Não há habitações à vista, de vez em quando vislumbra-se uma ou outra cabana.
Corvos-marinhos ou cormorões. Os corvos marinhos (há cerca de 60 espécies na família) têm plumagem preta, cinza ou bronzeada, por vezes com peito ou garganta branca. Os fotografados são da espécie de peito e garganta branca.
- Tenham atenção a tudo o que mexe, diz o guia.
- Lá ao longe anda um bando, de quê?
- São pelicanos.
Voam ao longe e muito alto. Bailam no ar e, consoante as voltas, o sol mostra-lhes a cor branca ou escurece-os. São pelicanos? Se o guia o diz, são pelicanos.
Aparte os pelicanos ao longe, não se viu muito mais que uma ou outra garça real, várias garças brancas pequenas, muitas gaivotas de tamanho mais reduzido que as que temos por cá.
Não estivemos nos melhores sítios de observação? Na internet leio e vejo imagens que não vi.
De Sulina e Crisan, prometidos no programa não demos conta.
Garça, sozinha, para turista ver ou a ver passar turista.
Para se ter uma ideia menos imprecisa da dimensão do delta do Danúbio, da sua diversidade biológica, da beleza dos seus meandros a correr para o Mar Negro, seriam necessários vários dias de observação, equipamentos e competência para os usar, e muita paciência para esperar pelos momentos oportunos. Para conhecer na Roménia alguns dos mais diversificados eco sistemas da Europa, teríamos de subir às montanhas, percorrer os vales povoados de espécies vegetais e animais, raros ou inexistentes em qualquer outro local do continente europeu. Percebemos isso ontem, 23/08, quando vimos no canal Odisseia um programa sobre a natureza na Roménia. A não perder. Repete amanhã, e, muito provavelmente, em outros dias no mesmo canal.
Já em Budapeste, quando o rio passa junto ao edifício da universidade, a que adiante farei referência,
regalavam-se na água do Danúbio umas dezenas de pessoas.
O rio é largo, volumoso, apressado, não se vê nele nem traineira, nem barco à vela. Nem transporte de passageiros ou mercadorias. Só em Budapeste há movimento de barcos de turismo e barcos de recreio.
Excepto algumas barcaças carregadas de, ao que supomos, lixo, talvez sucata metálica.
As barcaças, quatro ou seis, lado a lado são empurradas por um ... empurrador.
Antes de chegarem às margens montanhosas do rio, aliás não muito extensas, os navios galgam duas eclusas, a primeira de 15 metros, a segunda, em dois níveis, subindo 30 metros.
Primeira eclusa, a porta ao fundo baixa quando a porta de entrada se fechou. Normal.
Saída da segunda eclusa, segundo segmento. Note-se no fim do paredão a parte superior da porta já quase imersa.
Entre os Balcãs e os Cárpatos
Para que não restem dúvidas, porque a Sérvia aproxima-se, a Roménia pôs marco no território por alturas das chamadas (designação virtual) "Portas de Ferro".
Porque a paisagem nas margens do rio, e no próprio rio, é quase sempre idêntica, optei por, muito sucintamente descrever o rio e só agora dar conta dos passos em terra. A monotonia da navegação poderia ter sido quebrada com informações do comandante ou da tripulação sobre o território, história, a cultura, que ao longo dos séculos passaram por aquelas águas, mas talvez não tinham sido pagos para isso. Só quando lhes referimos que tanta monotonia só era boa para quem gostasse do silêncio perturbado pelo rumor das águas, passaram a dar algumas informações em apreçadas rotações por minuto para calar o freguês.
Conclusão minha: por aqueles lados do mundo ou há muito ressentimento ou estão saturados com tanto turismo na época de férias.
Há excepções, como em todas as regras. Voltarei ao assunto mais adiante.
Tínhamos embarcado em Tulcea, na ponta norte do delta, quase à hora de jantar, na manhã do dia seguinte passámos para lanchas rápidas (no programa) na realidade barcos já velhotes e cansados, para umas voltas nas voltas do delta, estivemos a cerca de 60 km. do Mar Negro, voltámos para o navio. De noite, navegou-se até Oltenita, e de autocarro vamos até Bucareste.
A estrada atravessa a planície, onde, se a terra está cultivada, a paisagem está, a perder de vista, quase sempre coberta de searas de milho e de girassol. Já na Bulgária, onde o panorama é em tudo idêntico, perguntei:
- É latifúndio?
- Há quem possua 154 mil hectares.
- Como é que isso pode ter acontecido se antes, na época comunista, toda a propriedade tinha sido nacionalizada?
- Por isso mesmo. A privatização foi aproveitada por uns quantos que por meios vários se apropriaram de áreas enormes. O segundo maior tem quase 100 mil hectares e depois há meia dúzia deles com idênticas áreas de grandeza. É a direita no poder, percebe?
- Pensa que em próximas eleições os comunistas poderão voltar ao poder?
- Não creio. Apesar das dificuldades que defrontamos não acredito que o comunismo volte. Mas que há muita gente saudosa dos tempos antigos, há.
Recordei-me, a propósito desta última afirmação da guia, da obra de Svetlana Aleksievitch, Nobel da Literatura em 2015, "O Fim do Homem Soviético". Recomenda-se.
Temas recorrentes nas informações dos guias que nos acompanham são as reminiscências do pavor causado pela ocupação otomana, entre meados do século XVI e meados do século XIX, a elevada percentagem (oficialmente 3,3%, mas provavelmente superior) de ciganos, povos oriundos do norte da Índia e que no ocidente continuam a ser considerados romenos por a si mesmos se terem nomeado povos roma (no plural, rom, no singular), relutantes à integração social.
E a perda da Moldávia. A Moldávia é romena!, defende o guia com forte determinação nas palavras. Somos o mesmo povo, falamos a mesma língua, uma língua latina, temos a mesma cultura, nada justifica que o território da Roménia tenha sido amputado. Esperamos que um dia o erro seja corrigido.
O guia tem razão: identificar o povo romeno com o povo cigano (rom) resulta de uma confusão de nomes que prejudica a imagem do país. Os roma, povo nómada, migrou para muito lado do mundo. Mas são as especificidades dos seus valores culturais e a sua relutância à integração nas sociedades por onde passam ou vivem que geralmente os ostracizam, e a confusão com o povo romeno é indigna do elevado grau cultural da Roménia. Em 2017 era de 11 o número médio de anos completos de escolaridade para indivíduos dos dois sexos com 25 ou mais anos. Em Portugal 9,2.
Constantin Brancusi, escultor, Eugéne Ionesco, dramaturgo, George Palade, Prémio Nobel da Medicina em 1974, são alguns de vários artistas, cientistas e intelectuais que enriqueceram a cukltura europeia.
- Bucareste é a cidade mais limpa da Europa, garante-nos o guia. Talvez o guia exagere um pouco, mas que Bucareste é, indiscutivelmente, mais limpa que Lisboa, é. A recente polémica das beatas lançadas para o chão é apenas um testemunho que o nível de civismo colectivo luso ainda anda muito por baixo.
Bucareste, à semelhança de outras capitais do leste europeu - Sofia, Belgrado, Budapeste - exibe muitos edifícios de porte pesado e adornado que recordam os tempos de riqueza do império áustro-húngaro. Muitos deles foram deteriorados pelo tempo e pelas circunstâncias políticas, mas observam-se, por outro lado, esforços de restauração da imponência perdida.
Na foto junto da fachada modernista do teatro nacional, celebra-se a libertação do regime comunista. Do outro lado da rua, o estilo majestoso da Universidade.
Registe-se, registo quase desnecessário, que a Roménia é o único pais no leste europeu onde a língua latina sobreviveu a todas as migrações, invasões e conflitos que formaram na região uma heterogeneidade de etnias, de confissões religiosas, de miscelâneas linguísticas.
Em Bucareste, almoçámos (assim-assim, frango de cebolada, sobremesa boa) neste restaurante, que na frontaria reclama ter sido a primeira capital a ser iluminada com lâmpadas a petróleo, em 1857. A propósito, na Roménia há muitos anos que se extrai petróleo.
O que falta na Roménia, onde a população decresce porque a taxa de natalidade é baixa e a emigração elevada?
Na esquina oposta, situa-se um palácio em reconstrução que, em frente, mantém um busto do Conde de Drácula. O seu castelo é uma das atracções turísticas da Roménia.
Neste café, arte nova, onde fiz a foto num instante porque o tempo urgia, a comitiva não esperava, nunca há um lugar vago, garantiu o guia. No centro de Bucareste não faltam esplanadas, apesar das férias.
Ao fundo à esquerda, o palácio mandado construir por Ceaucescu. Não chegou a vê-lo terminado por ter sido morto antes. Hoje é a sede do parlamento romeno. Não consigo imaginar o que fazem os deputados num espaço tão vasto.
Cá fora, vd. imagem abaixo, há espaço para manifestações de protesto contra o governo. Onde é que nós já vimos isto, mas perante um edifício incomparavelmente menor?
"Milhares de pessoas participaram este sábado numa manifestação em Bucareste contra o Governo de esquerda, concentrando-se em frente à sede do executivo para assinalar o aniversário da repressão violenta de um evento semelhante há um ano."
"Queremos que este governo cheio de incompetentes, pessoas corruptas e ladrões se vá embora porque não podemos continuar assim", disse à AP Mihai Munteanu um manifestante residente em Bucareste. - aqui
A guia disse-nos que a culpa da situação calamitosa do país era o governo de direita.
Nesta notícia, de uma manifestação que ocorreu poucos dias depois de lá termos estado, refere-se que o governo é de esquerda.
Nem só os romenos se entendem sobre para que lado está virado.
O Estado romeno é laico, não tem religião oficial, mas, à semelhança dos vizinhos, a recuperação ou a reconstrução dos templos é evidente mesmo para os menos observadores. Mais de 85% dos romenos identificam-se como cristãos ortodoxos, 7% como protestantes, 5% como católicos gregos. Os restantes 3% são muçulmanos, judeus e irreligiosos.
Tanta devoção religiosa só pode ser explicada pelas restrições impostas durante o período comunista.
A inauguração da nova catedral ortodoxa de Bucareste, construída mesmo ao lado do edifício ambicionado por Ceauscescu, está prevista para Novembro deste ano. Em Maio foi visitada pelo Papa Francisco, na busca do ecumenismo entre as igrejas irmãs.
- E, se posso perguntar, qual é a sua religião?
- Sou cristão ortodoxo. Mas a minha mulher e os nossos três filhos são católicos. E eu costumo ir à igreja católica porque as missas são mais curtas. Sabe quanto tempo pode demorar uma missa numa igreja ortodoxa? Mais de quatro horas. Mas podem ser seis.
- Tanto?
- É verdade, é demais.
Bucareste é uma capital onde os muitos parques, verdejantes nesta altura do ano, oferecem a residentes e visitantes uma atmosfera refrescante.
No Parque Herastrau, em Bucareste, estão, além do mais, reunidas as construções tradicionais que em tempos foram habitadas pelas gentes dos campos. Depois a agricultura dispensou trabalhadores porque o regime comunista emparcelou e mecanizou, as pessoas procuraram emprego na indústria e nos serviços - os serviços representam, presentemente, 52% do PIB- depois a indústria estiolou, as aldeia foram abandonadas, a emigração foi a porta de saída.
Na foto pode observar-se uma habitação rural antiga que, para poder iludir os otomanos e escapar às suas atrocidades, foi construída em subsolo, de modo a poder ser coberta com terra quando soava o alarme de proximidade do inimigo.
Repare-se ainda numa "cegonha" que, entre nós, também se chamava "picota" para tirar a água dos poços.
Enquanto visitamos Bucareste o navio avança para Ruse, já na Bulgária.
É dali que, no dia seguinte, vamos até Veliko Tarnovo e Arbanassi.
Sofia, a capital do país, fica a mais de 300 km. Visitamos Veliko Tarnovo que foi cidade capital de começos do séc XII até finais do séc XIV (1185-1393).
O trajecto de hora e meia é traçado sobre paisagem idêntica à da planície romena. Os terrenos são férteis e de irrigação natural. Talvez seja anedota mas conta-se, contou o guia, que um dia um governo japonês propôs comprar 10 cm de terra destas planícies para aumentar a fertilidade das suas.
Voltamos à planície, de searas de milho e girassol, em propriedades latifundiárias como na Roménia. Aliás foi nesta ida a Veliko Tarnovo que a guia contou a enormidade de hectares adquiridos por meios esconsos, que referi atrás na travessia da planície romena.
Constata-se um padrão que, com algumas excepções, é muito evidente na evolução da titularidade dos meios de produção nos países que viveram em regime (dito) comunista: apropriação do poder e da gestão dos meios de produção pelos dignatários do regime, privatização e devolução desses mesmos meios a grupos protegidos - há quem os designe por máfias -, alguns dos quais se não a maior parte, transitaram do anterior regime.
À planície extensiva, que se estende à produção animal - bovinos, ovinos, etc.- sucede uma orografia de altitude moderada que depressa descobre a silhueta de Veliko.
Da grandeza passada de Veliko Tarnovo sobra a beleza natural e a urbanização antiga que se desdobra nos vales à volta do rio circundante, o Yantra.
Está um dia de assar caracóis, 35º., vamos subir até ao cimo da fortaleza, a quem não conseguir prosseguir recomenda-se que espere cá em baixo à sombra das muralhas. Resultado: à saída faltava-nos um companheiro. Esperámos, telefonámos, afinal entrou no autocarro antes de nós, os que o esperavam.
À entrada da primeira porta, encontra-se um desenho do conjunto quando estava inteiro e bem conservado, há muitos séculos atrás. O tempo, mas sobretudo as guerras, derrubaram a maior parte do conjunto, pouco deve ter ficado em pé. Foram reconstruídas as muralhas derrubadas e a igreja que dominava o centro da fortaleza.
A igreja reconstruída está interiormente decorada com pinturas nas paredes, seguindo a tradição ortodoxa, mas em estilo modernista. No altar pende uma peça que sugere o nascimento de Cristo recortada como antiguidade feita recentemente. Vale pela intenção. Pelo esforço da subida vale a vista do conjunto urbano aos pés da fortaleza.
De Veliko Tarnovo vamos para Arbanassi por estrada de montanha amável, cerca de 15 km, 10 minutos.
Arbanassi, hoje com menos de 300 habitantes, foi em tempos idos, sobretudo na segunda metade do séc XVII e finais do séc XVIII, chegou a ter 1000 casas, terra de prósperos comerciantes que transaccionavam na Transilvânia, nos principados do Danúbio, Rússia e Polónia, artesanato em cobre e ouro, vinhos, seda.
Agora vive do turismo, da amostra de algumas casas em que foi mantida a dignidade de outros tempos, das suas igrejas e, principalmente, da igreja da Natividade de Cristo (sec. XVII)
A casa do próspero comerciante em Arbanassi que todo o turista visita é esta. No rés-do-chão, além do mais, havia a adega, que hoje é loja de artesanato, principalmente bordados. No primeiro andar, a cozinha, os quartos, camas largas onde dormia toda a família e um quarto separado onde a mulher, quando parturiente, tinha espaço reservado, sossegado, para ela e espaço com berço para o nascituro.
E tinha retrete, um espaço com porta, de onde os moradores em cima evacuavam para baixo através de uma conveniente abertura no chão.
Se perco o meu tempo com estes pormenores é porque, dizia a guia, não ser comum haver naquele tempo em toda a Europa espaço dentro das casas para o efeito referido. Nem em Paris. A comitiva, francesa em grande maioria, calou-se e eu concluí que a guia não estava a contar basófias.
A Igreja da Natividade de Cristo (pela descrição da guia pareceu-me tratar-se de um mosteiro, e, no mosteiro, uma das salas a igreja) terá sido construída com dimensão recatada para não suscitar a excitação da fúria otomana. Trata-se de um espaço composto por três salas, totalmente decoradas com frescos segundo a tradição ortodoxa.
Num desses frescos, que coloquei acima, a figura central é a mãe de Cristo. A Igreja chama-se da "Natividade de Cristo", mas uma das figuras que rodeiam a figura central é a figura de Cristo.
- Explique-me, se faz favor, como é que Cristo assiste ao seu próprio nascimento.
- Não. Este quadro não representa o nascimento de Cristo mas a Ressurreição da Virgem Maria.
- E o filho assiste?
- Cristo está sempre presente.
A Internet é de infinita sapiência:
" ... quando se aproximava o fim da vida terrestre de Maria, houve uma grande agitação na Igreja. Maria soube de antemão que estava para deixar este mundo. Os apóstolos também foram previamente avisados, de modo que se reuniram em Jerusalém. Quando lá chegaram, Maria já tinha morrido; abriram o seu sepulcro, que encontraram vazio. Cristo viera buscar a alma de sua Mãe Santíssima, que a arte bizantina representa sob a forma de uma criança enfaixada. A seguir, o corpo da Santa Mãe de Deus, gloriosamente ressuscitado, também foi assumido e levado a reunir-se à respectiva alma no céu." - aqui
Esclarecido.
E assim convencidos, regressámos ao navio, em Ruse. Onde nasceu Elias Canetti (1905-1994), vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1981.
No dia seguinte, mais um mosteiro. O de Saint Dimitar Basarbowski, cavado nas rochas, provavelmente no séc. XV, durante a ocupação do otomana a avaliar pelos registos dos impostos dos
turcos. Feita a visita, regressámos a Ruse.
Mosteiro de S. Dinis (Ruse)
Depois da visita a Ruse, uma "paragem técnica" na "Bulgariana" para beber o que apetecesse desde que fosse água ou cerveja, a acompanhar uns folhadinhos. E voltámos ao navio.
O navio subiu o rio durante a noite e, de manhã, estávamos em Belgrado, a capital da Sérvia, que foi capital da Jugoslávia, pela mão dura de Tito, antes de se estilhaçar o puzzle balcânico e a Sérvia ter sido reduzida a um território menor que o território português: 88361 km2, 77474 km2 para quem reconheça o Kosovo independente. E de entre os que o Danúbio atravessa até Budapeste, o mais pobre.
Quando iniciámos a visita a Belgrado, as ruas junto ao cais de acostagem estavam, e devem continuar a estar, em obras. Disse a guia que o presidente da câmara prometeu que no princípio de Setembro estará tudo concluído, mas não passa de mais uma promessa que não vai cumprir. O costume, resumiu. Ah! Também prometeu que as obras da catedral ortodoxa estarão finalizadas no princípio de Novembro, mas ninguém acredita.
É interessante analisar a evolução dos índices de desenvolvimento humano nestes países avaliados pelo Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano - PNUD: A Hungria é a 45ª no ranking do IDH, a Croácia 46ª., a Bulgária é 51ª , a Roménia 52ª, a Sérvia 67ª.
A propósito, Portugal estava na 41ª posição. Refira-se, no entanto, que num dos componentes do índice - anos de escolaridade completos da população a partir dos 25 anos -, Portugal posiciona-se pior que qualquer daqueles cinco países. Sendo a educação o principal motor do desenvolvimento humano, Portugal arrisca-se, enquanto aquele handicap subsistir, a ficar para trás no pelotão.
Catedral Ortodoxa de Belgrado
A foto do exterior foi retirada da internet por não me caber tanto volume na objectiva do telemóvel.
As duas abaixo foram obtidas na cripta da catedral, o único espaço acessível a visitantes.
- Gostou?
- Não. Francamente, não gostei.
- E porque é que não gostou?
- Porque a grandeza volumétrica e as iconografias douradas, são sinais opostos das direcções que, segundo as Escrituras, Cristo apontou.
Kalemegdan (parque)
Depois da entrada no meio da confusão das obras com conclusão prometida para o princípio de Setembro, entrámos na fortaleza que domina a confluência do Danúbio com o Sava. E o que vimos é muito esclarecedor dos ânimos bélicos que subsistem no imaginário sérvio. De um lado e do outro da
muralha, há uma exposição de armas de artilharia, incluindo mísseis, que metralharam os países vizinhos. Uma exposição prometedora de novos conflitos.
A Sérvia não aceita a independência do Kosovo, que considera o berço da sua pátria. A Rússia votou contra na resolução das Nações Unidas sobre a independência do Kosovo.
Para melhor se entender o vulcão político repleto de conflitos étnicos, religiosos, linguísticos, vale a pena ler aqui, a Desintegração da Jugoslávia. O gráfico com resolução dinâmica é muito impressivo da velocidade temporal com que tudo se processou.
Do lado oposto da entrada da fortaleza, observa-se uma panorâmica esplêndida sobre Belgrado. Ali, à direita junta-se o rio Sava ao Danúbio.
À tarde, saímos de Belgrado a caminho de Novi Sad.
Após "paragem técnica" para beber o que se quisesse, conquanto fosse água, cerveja ou refrigerante, ao som de um animado quarteto de cordas, visitámos Juzno-Backi.
É um centro religioso, dominado por um enorme complexo de edifícios exclusivamente destinado a um seminário menor, seminário maior encontra-se em Belgrado.
- Que diferenças teológicas separam os ortodoxos dos católicos.
- Ortodoxos não crêem no purgatório.
- E crêem no inferno?
- Acreditam que o inferno existe. O céu e o inferno.
- Quantos padres ortodoxos existem na Sérvia?
- Hum! Talvez dez mil? Não sei quantos são, mas são muitos.
- São casados?
- Ah, sim, são casados. Só se forem casados podem ser padres ortodoxos.
- E se se divorciam?
- Deixam de ser padres.
- Aqui, neste seminário, formam-se padres?
- Não. Os estudos superiores de teologia são feitos em Belgrado. A formação aqui só permite que sejam monges, padres menores.
- Os monges são casados?
- Não, os monges não podem casar. Mas só eles podem atingir o patriarcado.
- Como pode ser isso, se têm estudos teológicos menores que os padres formados em Belgrado.
- São carreiras distintas. É um sistema muito complexo.
E com esta resposta, a guia apressou-se para a entrada no autocarro
Curiosamente, à entrada da elegante arquitectura neo-clássica do edifício principal do seminário menor, foram colocadas réplicas da Esfinge de Gizé, uma em cada lado da escadaria de acesso à entrada do edifício. Informou a guia que algum responsável pela obra, na altura da construção do edifício viajou até ao Egipto, ficou encantado com a Esfinge e mandou esculpir e colocar as duas réplicas. Verdade ou não, o escultor, entendeu que à Esfinge faltava o que é natural nos peitos femininos e colocou o que faltava.
A entrada de Novi Sad, uma cidade a cerca de 90 kms. de Belgrado, é dominada pela fortaleza.
Nos Balcãs não faltam fortalezas nem mosteiros.
Novi Sad é a segunda maior cidade da Sérvia com cerca de 300 mil habitantes, 400 mil na área metropolitana. É a mais multiétnica da região, cerca de 76% são sérvios, 6% são húngaros, 3% consideram-se jugoslavos, ainda que a Jugoslávia se tenha desintegrado, 3% eslovacos, 2% montenegrinos. Sobram 10% de outras etnias.
Situada a norte, à beira no Danúbio, foi violentamente atacada pelas tropas da OTAN durante a Guerra do Kosovo.
Novi Sad perdeu as três pontes medievais que tinha sobre o Danúbio, assim como os sistemas de comunicação, água e eletricidade. Áreas residenciais foram bombardeadas com bombas de fragmentação várias vezes, enquanto a refinaria de petróleo local foi bombardeada diariamente, causando uma grave poluição e um amplo dano ambiental.
c/p internet.
Apesar dos bombardeamentos a que foi sujeita, Novi Sad ainda apresenta grande elegância arquitectónica dos tempos em que foi o centro cultural mais importante da Sérvia.
A sede do poder local
A Igreja (Católica) do Nome de Maria
O interior gótico.
Mas também uma parte moderna que não escapa ao investimento chinês
Visitada a cidade, vamos ao Mosteiro de Krusedol.
A área ocupada pelo Mosteiro é enorme. Uma fotografia do conjunto, só com drone. Não temos drone. Poderia pescar algumas fotos na Internet mas nada acrescentaria ao que qualquer um pode aceder.
O que o drone não pode mostrar é o Rasputine.
- Rasputine? Tem algo a ver com o místico russo, influente na corte do último czar da Rússia?
- Absolutamente, nada. Entre na igreja, olhe à sua esquerda e verá um monge sentado, barbas compridas, vestes negras, com o tradicional barrete alto e negro na cabeça.
- Hum! E o que faz ele ali sentado?
- Quando não está a dormir ali, vela pela ordem e decência ( proibida a entrada a calções curtos) dentro da igreja. Também tem responsabilidades administrativas e supervisão das contas.
Entrei, olhei à esquerda, Rasputine olhou para mim, desviei o olhar para as pinturas, sempre presentes e omnipresentes em todo o espaço interior das igrejas ortodoxas. Não há ícones em três dimensões mas não há espaço que não esteja preenchido por pinturas, umas ingénuas, outras barrocas, sempre em honra de milhares de santos que já passaram pela terra e agora os querem eternizados nas paredes.
Visitado o mosteiro, voltámos para o barco, que, durante a noite, navegou até Osijek, na Croácia
Em Osijek, a 30 km da fronteira com a Hungria, não visitámos mosteiros.
Osijek é a quarta cidade da Croácia, com cerca de 120 mil habitantes.
Na Croácia, 87% dizem-se católicos, cerca de 5% ortodoxos. O estilo dos templos diz-nos quem reza lá dentro. Ao mesmo Deus, quase os mesmos ritos, a mais notória diferença para um leigo é a arquitectura dos templos.
Em Osijek, as ruas do centro histórico ligam-se entre si através de travessas em arcadas. Algumas bem mantidas, outras não tanto, sobretudo na parte mais antiga que cresceu junto da fortaleza.
Vimos travessas idênticas a estas em Novi Sad.
Osijek também tem fortaleza. Que mais parece um conjunto de casernas, e talvez tenham sido isso mesmo, em degradação.
Na fortaleza, o guia, um homem novo, que trabalhou em tempos em Paris como distribuidor de livros e revistas, voltou para a Croácia para a costa adriática. Mas lá a renda da casa era muito cara e preferiu voltar às origens, neste lado, junto ao Danúbio. Pode dizer-se, neste caso com propriedade, que deu meia volta, porque a Croácia tem formato de ferradura ... quase.
Na fortaleza viu-se uma maqueta (em cobre?) da configuração da fortaleza quando ela merecia o nome. Agora resta a maqueta e os casarões a desmoronarem-se com o tempo.
Após a visita à parte mais antiga, e a mais arruinada da cidade, visitámos a parte moderna, alguma arquitectura arte-nova, testemunho de tempos idos mais prósperos.
Arquitectura e escultura contemporâneas apagam as memórias da passagem dos tempos em que orbitavam na constelação soviética.
Também na Croácia houve investimentos em que a crise de 2008 fez mossa grossa.
- Vêem aquele edifício ao fundo?
...
- Destinava-se a centro comercial, de artes e espectáculos, uma meca de negócios em terra católica.
Faliu. Está vazia há mais de dez anos. Quem está a arder?
O guia estava disponível para todas as perguntas. Tínhamos de estar de volta ao navio às 12,30, impreterivelmente, segundo o programa. Foi avisado a tempo de uma corrida em contra-relógio, de Osijek ao cais de embarque exigem pelo menos 45 minutos a um motorista experimentado.
A paisagem, repetida na ida e volta, são searas de milho e girassóis.
Navegou-se até Mohács, já na margem direita do Danúbio, em território húngaro.
O navio acostou para formalidades de controlo aduaneiro e eventual emigração clandestina.
Não havia clandestinos a bordo.
Não pisámos terra em Mohács. Não longe dali, defrontaram-se em 1526 e 1687 duas batalhas que determinaram o princípio e o fim do domínio do Império Otomano na Hungria. Quatro anos antes, em 1683, os otomanos tinham perdido a Batalha de Viena, e nela o fim da sua expansão na Europa.
Na manhã seguinte, depois de navegar de noite, chegámos a Budapeste
E à sua catedral.
Cerca de 60% da população húngara é católica, 24% protestante.
A Catedral Basílica de São João, o apóstolo ou, mais formalmente, Metropolitana Catedral Basílica de São João Apóstolo e Evangelista, São Miguel e da Imaculada Conceição também chamada de Catedral de Eger (nome complicado, a fazer lembrar o do nosso Dom Duarte) é um edifício barroco do séc. XIX. Excessivo para o meu gosto.
Em frente da Catedral Basílica encontra-se o Teatro da Ópera, mas está em renovação, não visitável, coberta como numa instalação de Christo ( Christo Vladimirov Javacheff, búlgaro).
Registe-se que, vendo o nosso grupo às voltas com um mapa sem saber onde se encontrava, uma senhora pequenina, aparentemente octogenária, de olhos azuis claros, vivos, acercou-se de nós oferecendo ajuda.
- Estão longe do local para onde querem ir. Mas eu vou convosco.
- Mas ia à sua vida ...
- Tenho muito tempo. Estou reformada. O meu marido está totalmente incapacitado. Venham. Vamos entrar no próximo carro eléctrico.
- Não temos bilhetes ...
- Os senhores são da União Europeia, não são?
- Somos. Pois com a vossa idade não pagam nada nos transportes públicos, incluindo o metropolitano.
E lá fomos atrás daquele anjo da guarda para chegar onde queríamos.
Podemos medir a simpatia dos húngaros pelo padrão desta senhora idosa? Obviamente, não. Mas é da mais elementar justiça registar o sucesso de simpatia deste encontro.
Não longe dali fica a Grande Sinagoga de Budapeste, a segunda maior do mundo, só superada pela de Jerusalém.
Frente
Interior
Entrada paga, cerca de 15 euros por pessoa. Uma fila longa, muita gente no interior.
Os homens devem cobrir a cabeça com um quipá, ou boné, ... um tipo descontraído entrou e sentou-se, a cabeça coberta com o capacete de motard. Às mulheres não é exigido que cubram a cabeça mas não podem entrar de perna ao léu. Há saias de plástico (transparente!) disponíveis à entrada.
Se mais não houvesse, cobrir ou não cobrir a cabeça, ou o rosto, ou todo o corpo, só os olhos descobertos, revela bem a importância da relevância com que a espécie humana reverencia Deus. Único.
O mercado tem dimensões colossais. Mas ainda não chegou a sua vez de ser restaurado. Exteriormente decadente, dentro podem comprar-se legumes, frutas, carne, sobretudo frango, bugigangas, kitsch de toda a espécie, atoalhados, roupas, trapos.
Tem três pisos. No piso inferior o letreiro prometia haver peixe. Havia muito pouco e muito mal encarado, salvo as postas de salmão de aquicultura. com melhor aspecto.
E havia peixes vivos num aquário de aspecto manhoso onde se mexiam com dificuldade algumas carpas (ou peixe parecido). Um deles estava morto, bem junto à vitrina virada para o corredor.
Há peixe no Danúbio?
Na internet afiança-se que sim.
Mas desde o delta, junto ao Mar Negro, até aqui em Budapeste comemos uma vez um desenxabido meio "red mullet", outra vez, salmão (bem) grelhado.
Ao lado do mercado, voltado para o Danúbio, está o grandioso edifício da Universidade. Também a precisar de restauro.
Budapeste é monumental. Uma monumentalidade construída sobretudo no séc. XIX, quando a Hungria era parte do Império Áustro-Húngaro. Em cima o palácio real.
Há muita renovação das majestosas construções daquela época. E também muita construção recente onde se instalam companhias multinacionais.
O ex-libris arquitectónico da cidade é o Parlamento, que se reclama o segundo maior do mundo, a seguir a Westminster. Outros posicionam-no em terceiro, depois do actual Parlamento de Bucareste, que Ceaucescu quis inaugurar mas foi morto antes que a construção tivesse acabado.
É muito visitado. Quisemos entrar, teríamos de aguardar uma tarde inteira. Desistimos.
O Parlamento de Budapeste, começado a construir em 1902 é, pelo menos mais recente, mais de um século que a reconstrução de Westminster após um incêndio. Se é segundo em dimensão não tem comparação com o perfil neo-gótico de Westminster.
Budapeste tem um Parlamento enorme, mas quando foi construído já a arquitectura e as artes plásticas em geral tinham enveredado por outros caminhos. É enorme, sem dúvida, em termos volumétricos, mas é uma volumetria de gótico plástico.
Curiosamente, o Palácio da Regaleira, em Sintra, começou a ser construído depois de ter começado a construção do Parlamento húngaro. Também em gótico plástico. Quem o mandou construir tinha milhões e como "O Milhões" era conhecido.
Com milhões constrói-se o que se queira. Até ao excesso.
Saindo do mercado, passa-se à frente do monumental edifício da Universidade, atrás referido, e atravessa-se a mais icónica das várias pontes que ligam Buda a Peste. Ao fundo vê-se o Hotel Gellért.
Ao lado fica o edifício dos "Banhos Públicos".
Entrada para os "Banhos Públicos"
Não tomámos banho ali.
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