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Sunday, August 18, 2024

TURISMO: UM PROBLEMA DE PROSTITUIÇÃO DA ECONOMIA? - 2

Quando, a 10 de Julho, coloquei aqui uma nota neste caderno de apontamentos, com o mesmo título/pergunta do apontamento de hoje, fui colocado no bloco de "Velhos do Restelo".
 
Não era a primeira vez que abordava a questão, antes pelo contrário, fui observando e comentando a excessiva importância dada ao turismo no nosso país, muito influenciado pelo que observara  há várias décadas na minha cidade, premiada com uma praia então considerada a rainha, esgotou-se o encanto da praia por razões naturais e conjunturais e a cidade perdeu a sua pouca actividade não turística.
Reganhou actividade industrial, anos mais tarde, com uma indústria de dimensão internacional, por mero acidente político, mas foi um ganho sem grande mérito dos locais, ainda e sempre a olhar para a tiara perdida. 

Hoje lê-se no Público - "Lisboa prostituída" -, um artigo de um comentador norte-americano. 
Começa assim:
 
"Há muito que evito ir à Baixa de Lisboa, mas, neste dia, resolvi arriscar. E inevitavelmente encontrei o que receava: na Rua das Portas de Santo Antão, uma multidão de turistas segue um guia que debita para um microfone com alto-falante as suas sábias curiosidades sobre o local. Apenas metade do seu rebanho o ouve, mas todos os outros transeuntes, incluindo os que estão nas esplanadas, são obrigados a suportar o assédio sonoro. No meio da confusão, passam bicicletas de serviços de entrega de comida e trotinetas ziguezagueiam na zona pedonal. Numa esquina, vários “vendedores ambulantes” oferecem abertamente marijuana a quem passa..."

Sugere-se a leitura até ao fim.
 
act. - 19/08 
 
Segundo o que venho a ouvir na rádio, o Governo vai alterar (ou já alterou?) a lei do alojamento local com o objectivo de o facilitar, dificultando aos residentes habituais, frequentemente há muitos anos, a possibilidade de se oporem à introdução de um negócio no prédio em que residem sem que tal possibilidade tenha sido prevista nos contratos de arrendamento subscritos. 
Será uma alteração que para além de violar o estabelecido nos contratos de arrendamento de apartamentos em prédios construidos para habitação é facilitador do "turismo de massas", "sem massa", com impacto na  economia nacional mais que discutível. 

Não senhor primeiro-ministro, o crescimento económico e social  deste país não se consegue suportando-se num sector explorado com processos terceiro mundistas, criador de emprego nem sequer medianamente qualificado.

Thursday, June 27, 2024

QUANTO TEMPO LEVARÁ A CHEGAR A REALIDADE?

Há dias, em novembro de 2023, 

"de um momento para o outro, rebentaram suspeitas de negócios chorudos acerca do hidrogénio verde, do lítio, sobretudo, do Data Center de Sines, levantadas por uma NOTA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL - Inquérito DCIAP, divulgada pelo Gabinete de Imprensa da Procuradoria-Geral da República, datada de 7 de Novembro de 2023. Poucas horas depois era anunciada uma comunicação do Primeiro-Ministro ao País às 14 horas desse dia" - vid. aqui
.
Hoje, o ex-Primeiro-Ministro que se demitiu retirando consequências políticas do último parágrafo daquela "nota", será, muito provavelmente, nomeado Presidente do Conselho Europeu.
Entretanto, sobre os assuntos objeto daquela "nota" nada se sabe para além daquilo que os procuradores incumbidos de guardar segredo (se não eles, quem?) transmitem clandestinamente aos media com a oportunidade que lhes dá na realíssima gana.
Na União Europeia, e ainda bem, consideram que a Justiça em Portugal é uma farsa que não pode emperrar o funcionamento das suas instituições, e, para António Costa a realidade vai chegar em tempo oportuno.
Já quanto aos projectos alvo das investigações do Ministério Público (e não sei bem de mais quem) os procuradores continuam em roda livre e a senhora procuradora-geral  mantém-se fechada em copas.

Para além da nomeação de António Costa, o projecto "hidrogénio verde", parte do pacote embrulhado na "nota", suscitou-me o interesse em registar neste caderno de apontamentos um artigo publicado hoje no Washington Post - How water could be the future of fuel A new generation of fuels could power planes and ships without warming the planet.
Trata-se de um artigo extenso, ainda que, dada a complexidade do assunto - utilização do hidrogénio como combustível quase gratuito e inesgotável - não responde a muitas questões enfrentadas por quem se dedica à perseguição deste el dorado. 
 
Se os procuradores nada dizem, o certo é que também os investidores envolvidos nos projectos não têm apresentado (que se saiba) reclamações  por perdas e danos causados pela ela indolência da Justiça.
Estaremos, também neste caso, perante um equilíbrio vicioso entre a ficção e a realidade? Entre golpadas e assuntos sérios?
Estão ou não estão em causa projectos que poderão ser importantes para o país?
Suspeitam os senhores procuradores de corrupção porque, eventualmente, algum ou alguns dos investidores interessados falou com com algum ou alguns titulares de cargos com poderes de decisão ou influência?
Se não com eles, que podem decidir ou influenciar a decisão, com quem devem falar os investidores?

A Justiça, dizem, administra-se em nome do povo. 
Clandestinamente?

Monday, July 31, 2023

CHEGOU A ERA DA EBULIÇÃO GLOBAL

"... O secretário-geral da ONU, António Guterres, tem o hábito de fazer pronunciamentos apocalípticos sobre mudanças climáticas. Mas é impossível ignorar o seu último aviso quando os cientistas confirmam que julho se tornaria, desde sempre, o mês mais quente registado na Terra. "A era do aquecimento global", declarou Guterres em entrevista colectiva na sede das Nações Unidas em Nova York na quinta-feira. "A era da ebulição global chegou"

Em todo o mundo vimos os efeitos severos do que equivale a uma emergência planetária em andamento. Ondas de calor recentes atingiram a América do Norte, Europa, Norte de África e Oriente Médio,  desencadearam incêndios florestais em ambos os lados do Mediterrâneo e incêndios incineraram milhões de hectares de terra no Canadá. Uma monção recorde inundou partes do norte da Índia. Um aumento nas temperaturas oceânicas confundiu e alarmou os cientistas, enquanto um estudo recente sugeriu que o aquecimento global estava a causar o colapso de um importante sistema de circulação no Oceano Atlântico. Enquanto isso, no inverno hemisfério sul, estão a congelar menos áreas do mar da Antártica..." 

" Apesar da evidência visceral de um planeta em mudança e de todas as súplicas dos funcionários da ONU e cientistas climáticos, há pouca unanimidade sobre o que deve vir a seguir. Governos de todo o mundo apresentaram planos e compromissos para reduzir drasticamente as emissões e descarbonizar suas economias. Mas as medidas necessárias para evitar o aquecimento planetário além de um limite considerado pelo consenso científico como catastrófico para o planeta ainda estão a ser difíceis de vender. Os partidos de direita em todo o Ocidente estão a explorar a inquietação pública sobre as políticas verdes..." - vid. artigo completo aqui.

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correl. - Sick of hearing about record heat? Scientists say those numbers paint the story of a warming world

Histeria climática ou competitividade e adaptação? 

 

Friday, January 13, 2023

SOMA-ZERO, CONTAS ERRÁTICAS

 



The Economist

The Economist was founded in 1843 to champion the cause of free trade. Open markets and limited government still lie at the heart of our worldview. Our cover this week draws on those principles, to warn of a looming threat to ideas that have helped bring about an astonishing improvement in people’s lives.
 
An era of zero-sum thinking has begun. Countries are racing to subsidise green industry, lure manufacturing away from friend and foe and restrict the flow of goods and capital. Mutual benefit is out and national gain is in. 
 
For many in Washington, muscular industrial policy holds a seductive appeal. America has unleashed vast subsidies, amounting to $465bn, for green energy, electric cars and semiconductors. These are bolstered with requirements that production should be local. Bureaucrats tasked with scrutinising inward investments to prevent undue foreign influence over the economy now themselves hold sway over sectors accounting for 60% of the stockmarket’s value. 
 
Fans argue that this will help seal America’s technological ascendancy over China, which has long pursued self-sufficiency in vital areas using state intervention. As carbon pricing is politically unfeasible, it could also foster decarbonisation. And it reflects a hope that government intervention will succeed where private enterprise failed, by reindustrialising America’s heartlands and even reviving support for market capitalism. 
 
Such thinking is misguided. If zero-sum policies are seen as a success, abandoning them will become only harder. In real­ity, even if they do remake American industry, their overall effect is more likely to cause harm by corroding global security, holding back growth and raising the cost of the green transition. Even when it is inspired by the best of motives, zero-sum thinking threatens to make everyone poorer and the world more dangerous.





Saturday, September 10, 2022

O VALOR ECONÓMICO E ESTRATÉGICO DA CACA

 

Falando da nossa caca, é um artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público de anteontem.

Transcrevo parte e concluo com informação que recebi de fonte fidedigna sobre o que é afirmado na parte final do artigo de JAF

"Olhemos dois números. Há 8015 mil milhões de seres humanos. E cada habitante do planeta produz diariamente 450 gramas de fezes. Que lhe fazemos? Não é um assunto repugnante que deva ser silenciado por tabus ou preconceitos. É uma questão de saúde pública, de ecologia e agricultura. Hoje, queremos livrar-nos das fezes. No Japão eram objecto de cobiça e foram o segredo da sua alta produtividade agrícola.

Parto de uma investigação da BBC, da jornalista Lina Zelnovich: "Por que é tempo de falar sobre a nossa caca". Os restos dos nutrientes humanos são desperdiçados, remetidos para os nossos oceanos e aterros sanitários em vez de serem devolvidos ao solo. As nossas fezes são um poderosíssimo fertilizante. Os cereais, a fruta e as verduras que comemos estão cheios de substâncias nutrientes, como azoto, fósforo, potássio e muitos outros. ...

Há hoje dispositivos para uso doméstico, que reciclam as fezes e limpam a água de factores patogénicos, permitindo, por exemplo, adubar e regar jardins. E há experiências em maior escala. A DC Water, de Washington, trata de forma inovadora toda a caca dos habitantes da capital americana, produzindo um fertilizante sólido, vendido por uma instituição sem fins lucrativos.

Mas é uma gota de água à escala mundial. E, como era de esperar, a sua aplicação na agricultura tem pela frente um poderoso lobby: a indústria de fertilizantes. Só pela força das crises se fará esta revolução: à terra o que vem da terra."

Sim, é verdade. 

Melhor ainda - não é só em DC- mas DC Water é provavelmente a maior entidade que tem esse programa. Inicialmente, DC Water oferecia o fertilizante a quem o quisesse ir buscar porque mandar o fertilizante para os aterros é mais caro. Mas a realidade económica mostra que as pessoas valorizam mais o que lhes custa comprar, e poucos se dirigiam às estações de tratamento para levantar os fertilizantes que necessitavam.

Foi, então, criada empresa que comercializa, embalando e distribuindo a preço conveniente. Está a ser bem sucedida.

Monday, January 03, 2022

PRODUTIVIDADE

Produtividade, produtividade, produtividade ...
Não faltam comentadores, há mais comentadores profissionais que moscas neste país, a clamar que o país está no charco porque a produtividade é fraquinha.
E é. Porquê?
Sector público e sector privado colhem, cada um, grosso modo, metade do PIB.
Qual é a produtividade do sector público em Portugal?
É difícil responder. A resposta mais simples seria o quociente entre o VAB do sector público e o número de empregos no sector, mas ficamos na mesma.
Aliás, se no VAB o pagamento de remunerações apanha a maior fatia, o aumento das remunerações no sector público sem correspondente aumento da produtividade no sector equivale a uma transferência de VAB do sector privado para o sector público.
Parece, portanto, que uma análise da produtividade do sector público só pode realizar-se por via indirecta. Se comparamos produtividade em Portugal com, p.e., a produtividade no pelotão que corre na UE, forçosamente se torna necessário segmentar a comparação.
Como comparamos a produtividade da Justiça em Portugal com a produtividade dos outros corredores no pelotão? A produtividade na Justiça é fulcral para o aumento da produtividade do país. Espero não estar a dizer nada de novo, que esteja a dizer o que é óbvio. Ou não?
O mesmo na Educação. Proclamamos que temos hoje a juventude mais bem preparada de sempre. Admitamos que é verdade. Estamos a correr no pelotão, ainda não descolámos, mas estamos cada vez mais para trás. Porquê? Comparem-se os indicadores críticos. Segundo o relatório anual do PNUD, estamos persistentemente  a cair no ranking mundial. Desde 2000, descemos do 28º. lugar para o 38º em 2019., posição, neste caso, do IDHAD, índice de desenvolvimento humano ajustado pela desigualdade. E porque caímos persistentemente? Sobretudo pelo critério de avaliação da educação.
Que fazer? Comparar e tirar conclusões.
Na estrutura do tecido empresarial. Ouve-se mil uma vezes repetido que os nossos pequenos empresários não têm formação, que os trabalhadores têm mais formação que os pequenos empresários, que a economia portuguesa vive de pequenas e médias empresas, como se tal facto fosse, por si,  uma vantagem. Não é. Temos pequenas e médias empresas a mais e grandes empresas a menos. Como fazer crescer as PME sem diabolizar as grandes empresas? Comparem e tirem conclusões.
Destaca-se, frequentemente, a importância do turismo. Mas pode uma economia que se quer produtiva e crescente sustentar-se em grande medida no turismo?
Não pode.
Há muitos anos, na ressaca do Verão de 1975, o Prof. Pereira de Moura afirmava, com nítido exagero, que o turismo é a prostituição da economia. Não é, mas vive muito da vida fácil, de empregos de baixa ou mediana qualificação. Do turismo vivem os restaurantes, de emprego não geralmente muito qualificado. O que também lhes vale é os portugueses adorarem comer em restaurantes por se terem esquecido de cozinhar em casa.


Saturday, September 04, 2021

ECONOMISTA DESCONHECIDO

A história desconhecida de um pioneiro no ensino de Economia

A introdução em Portugal de aulas de política económica internacional na segunda década do século passado foi uma inovação no ensino da Ciência Económica que tem estado esquecida. Até ali, os estudantes aprendiam uma trilogia de disciplinas em torno de uma mistura eclética a que se dava o nome de Economia Política, de várias áreas do Direito e de cadeiras mais técnicas viradas para a formação de técnicos aduaneiros e de quadros consulares e de empresas.

A mudança deve-se a um chefe de Alfândegas, Francisco António Correia, que era também professor no Instituto Superior de Comércio de Lisboa (ISC), recém-criado pela República num antigo colégio de freiras no Quelhas. O ISC era a única escola em Portugal virada para a Economia, e moldada pelos republicanos segundo as famosas Escolas de Comércio francesas. Apesar do seu papel renovador, Correia nunca foi incluído entre os ilustres economistas portugueses da época, uma galeria onde dominava a Faculdade de Direito de Coimbra, com Marnoco e Sousa e o próprio Oliveira Salazar.

Correia, que chegou a ser um muito ativo diretor do próprio ICS entre 1917 e 1928, foi agora ‘redescoberto’ e os seus dois principais livros foram republicados pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG, herdeiro do ISC), uma iniciativa sob a direção de Carlos Bastien, um especialista na história do pensamento económico. ...

mais aqui

Friday, October 30, 2020

A COVID 19 VOTA EM TRUMP?

A pandemia favorece a reeleição de Trump?

A questão colocada três dias antes de terça-feira, 3 de Novembro, o último dia de votação para a presidência dos EUA poderá parecer absurda. As sondagens continuam a considerar como muito provável a vitória de Biden, - Right now, our model thinks Joe Biden is very likely to beat Donald Trump in the electoral college-; hoje, segundo o modelo, actualizado diariamente, do Economist, obteria 350 votos no colégio-eleitoral, Trump os restantes 188 da totalidade de 538. Trump anunciou estar infectado no dia 2 de Outubro, e, dois dias antes, a 30 de Setembro, segundo o mesmo modelo, Biden teria 337 votos e Trump 201. Uma análise simplista levaria à conclusão que a covid 19 não favoreceu Trump.

Acontece que com Trump, um demagogo ao nível dos mais primários populistas ditadores do terceiro mundo, que mente repetidamente, afirma e diz o contrário com a maior naturalidade característica dos sem vergonha, ofende, desprestigia e ridiculariza a maioria dos norte-americanos que não votam nele - Trump até pode obter a maioria de votos no colégio eleitoral mas é muito improvável que obtenha a maioria dos votos do povo norte-americano, uma situação que, a repetir-se, ocorreria pela terceira vez nas últimas cinco eleições - com Trump nada é linear e previsível, salvo a sua enorme necessidade de sobrevivência no poder; por essa sobrevivência, que lhe permitirá a continuar a usar o lugar que ocupa para defender os seus interesses particulares, Trump é capaz de tudo.

Até de chamar milícias armadas, a quem não se coibiu de dizer perante as câmaras de televisão, durante o primeiro debate com Biden, que se mantenham alerta para o defenderem. Conta com a brutalidade desses grupos supremacistas brancos se o presidente dos correios, que o financiou e ele nomeou para o cargo, não impedir suficientemente  a contagem dos votos não presenciais, geralmente remetidos por eleitores residentes em zonas urbanas, que na sua maioria votarão Biden, mais sujeitos ao contágio pandémico do que os que vivem na América rural onde a densidade populacional é muito menor e a influência dos radicais evangélicos determinante junto dessas comunidades mais isoladas e conservadoras, que se manterão fiéis a Trump mas não o declaram às sondagens; Em última instância, conta com o Supremo Tribunal Federal de Justiça onde dispõe de uma confortável maioria republicana, que ele nomeou, e não hesitará  empossá-lo por obediência ao chefe, mandando a justiça às urtigas.

Por outro lado, Biden assenta a sua estratégia de contenção da pandemia nos conhecimentos que a ciência já adquiriu acerca do covid 19 e já vitimou, até ontem, mais de 235 mil norte-americanos; Trump acusa-o de, com essa estratégia, matar a economia norte-americana; Trump, pelo contrário, que já foi infectado e se considera, ele, a mulher e o filho mais novo, vacinado, mantém o propósito de ridicularizar os meios de minimização dos efeitos da pandemia, a começar pelo uso de máscaras e tudo o que empecilhe a liberdade de viver como se nada estivesse a acontecer. E, na América rural, o slogan vende. Venderá o suficiente para iludir as sondagens e reeleger um presidente perigoso para os EUA e para o mundo? É improvável mas é possível.

Sunday, May 31, 2020

OPORTUNIDADE PARA O INTERIOR DO PAÍS


Há dezenas de anos que os sucessivos governos têm prometido acções de desenvolvimento do interior do país, cada vez mais desertificado.

Houve protestos contra a redução das escolas, dos correios, dos tribunais, e outras actividades, insustentáveis com a emigração do interior para o litoral, para o estrangeiro, para onde o desenvolvimento económico requeria emprego.
Entretanto assistia-se à entrada de imigrantes para desempenharem actividades que - argumento geralmente usado - os portugueses não aceitavam, ou porque não eram compatíveis com as suas competências ou não eram remunerados em conformidade com elas.
Dos projectos promotores com intenções de desenvolvimento no interior do país - o desenvolvimento anémico do país a nível global é outro tema - resultou pouco, o interior continuou a esvair-se de gente, a desertificação cresceu. As autoestradas de ligação ao interior, as SCUT, que se pretendiam gratuitas e muito virtuosas, segundo o pai da ideia, o sr. João Cravinho, promoveram sobretudo a facilidade de visitar o interior e voltar mais rápido para casa.

Mas há uma oportunidade para fazer crescer o interior proporcionada por esta experiência alargada de tele-trabalho forçado pela pandemia. Se o sr. Costa e Silva, convidado pelo primeiro-ministro para  "coordenar e negociar o Programa de Recuperação Económica e Social", acreditar, como eu acredito há três dezenas de anos, no fundamental da mensagem transmitida no vídeo que coloco a seguir, talvez possa eleger uma acção de colocação de funcionários públicos (incentivada ou para novos recrutamentos) em regime de tele-trabalho no interior do país. Atrás dos tele-trabalhadores, por consequência natural, seguir-se-iam os não tele-trabalhadores necessários aos primeiros: professores, médicos, entre outros.



Thursday, April 23, 2020

GRAÇAS A ZEUS?


Obrigado pelo seu comentário.

Num ponto estamos de acordo: "vamos ser um dos países do mundo com mais dificuldade para retomar a nossa vida anterior. Aqui também manda quem é mais rico e pode suportar melhor casos destes."

Mas não me parece que a relação entre número de infectados e PIB/capita seja a relação mais determinante para enfrentar as consequências da pandemia sobre a economia quando ocorrerem condições para a retoma da utilização da capacidade instalada. O que é mais preocupante para os países é o endividamento que têm de enfrentar e a capacidade para o pagar. Também é muito relevante a estrutura da actividade económica: o peso do turismo na economia portuguesa é um significativo handicap para a recuperação.
A dívida portuguesa já era enorme antes da pandemia, a que níveis irá subir, ninguém sabe, mas serão certamente elevadíssimos. 

Este o nó górdio que ou as instituições europeias, neste momento em negociações complicadíssimas conseguem desatar, avançando para uma cooperação só possível naquilo a que há muito tempo chamei neste caderno de apontamentos uma federação mínima, ou a União Europeia desintegra-se.

Portugal, mas não apenas Portugal, também a Itália, a Espanha, até a França, entre outros (e a Grécia?, é muito estranho que ninguém fale da Grécia, tem um número relativamente reduzido de infectados, para já, mas a dívida grega não deixou de ser enorme, ou deixou?) *

Resumindo: Sendo a pandemia uma ameaça global, as suas consequências na esfera económica serão também globais. Piores para uns, os mais pobres, que para outros, os mais ricos, certamente. Mas, relativamente, muito piores para os mais endividados no fim da pandemia, se não houver cooperação entre países. 

Há muita gente a dizer o mesmo, mas nem todos o que dizem o mesmo estão a pensar o mesmo.

 ---
* No dia 11 deste mês, podia lar-se num artigo do Público, vid. aqui,
que
       "... Por trás do sucesso está a entrada do país em regime de quarentena muito antes de a epidemia ganhar dimensão. Ao contrário de Itália ou de Espanha, as autoridades gregas esperaram menos de duas semanas desde o primeiro caso de confirmado encerrar as escolas e cancelar grandes eventos - nos dois países mais afectados, por outro lado, passou mais de um mês até que essas decisões fossem tomadas"...

"O analista da Fundação Helénica para a Política Externa e Europeia, George Pagoulatos, disse à Al-Jazeera que “talvez tenha ajudado o facto de a Grécia estar num estado quase constante de gestão de crise desde 2010”.

“Não sofremos do tipo de complacência que as  economias que estão em bom estado podem dar-se ao luxo de ter” .... "O Governo conservador liderado por Kyriakos Mitsotakis não esconde que uma boa gestão da pandemia se tornou numa forma de o país recuperar credibilidade junto dos parceiros europeus. “A Grécia emergiu de uma crise económica de dez anos com a sua credibilidade atingida e queríamos ultrapassar o rótulo de ovelha negra da Europa”, disse à Al-Jazeera o conselheiro económico de Mitsotakis, Alex Patelis"...

A propósito das consequências económicas e financeiras destas políticas de contenção da pandemia, que, segundo os últimos dados, continuam a ser bem sucedidas, não vi, desde então, nenhuma informação, nenhuma referência nos noticiários na rádio ou na televisão. 
No news, good news?




 

Thursday, December 21, 2017

PERSPECTIVAS





Começa hoje o Inverno.

- Esteve um dia fantástico. Soalheiro.  
- Não imaginas quanto isto nos está a custar.
- Isto, o quê?

Saturday, December 02, 2017

VERTICALIDADE E RESSABIAMENTO


Num país onde a generalidade dos empresários se abriga, ou faz por isso, debaixo do chapéu do Estado, mal seguro pelos procuradores alternantes, Belmiro de Azevedo foi, de longe, a mais evidente excepção. Recusando a participação em jogadas de compadrios partidários, perdeu as propostas que apresentou em cursos de privatização de algumas empresas nacionalizadas em sequência do golpe 11 de Março de 1975.

Se as contas referidas num artigo do Expresso publicado ontem aqui* estão certas, e não tenho nenhum indicação em contrário, os comissários políticos a quem foram dados poderes para defender os interesses do Estado, cometeram erros, e, provavelmente crimes, que prejudicaram os interesses públicos em valores incalculáveis, mas, em qualquer caso, enormíssimos.
Belmiro de Azevedo, ainda assim, por inabilidade ou conivência de quem decidiu ou mandou decidir, ganhou, em três tentativas perdidas, muito dinheiro: cerca de 123 milhões de euros.

Provavelmente, ressabiado, o PCP votou contra o voto de pesar pelo falecimento de Belmiro de Azevedo aprovado na Assembleia da República. Não conseguem os comunistas admitir que o Estado é um ente sem capacidade volitiva e os procuradores mais propensos a defender os seus próprios interesses que o bem comum. E que, lamentavelmente para o país onde nascemos e vivemos, empresários com a dimensão e verticalidade que caracterizaram Belmiro de Azevedo, não se vislumbram, por agora.

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*
"... Houve um tempo em que na Sonae se gracejava sobre a semelhança entre o jornal “Público” e as privatizações. Com o “Público”, Belmiro perdia dinheiro e ganhava inimigos, com as privatizações ganhava dinheiro e inimigos. Belmiro defendia que um grupo industrial poderoso como a Sonae teria vantagens em controlar um banco. E logo na abertura das privatizações tentou o Totta & Açores mas depressa sentiu que o jogo estava viciado. Recusara uma aliança com o espanhol Banesto que se aproximaria depois de José Roquette. A aliança levou Belmiro a abdicar da luta pelo controlo, vendendo a sua posição a Roquette. Em cinco meses, ganhou 3,4 milhões de contos (€17 milhões) e teve a virtude de arrastar no negócio outros 200 acionistas que lhe permitiram representar 12% do capital. No Totta, não quis “prolongar guerras difíceis” e o banco para ele foi “just another business”.
Desafiado por Elias da Costa, secretário de Estado das Finanças à época (1991), Belmiro entusiasmou-se com o BPA, um dos bancos com que a Sonae lidava. Mas acabaria derrotado, indignado com o árbitro (Eduardo Catroga). No BPA, a batalha foi árdua, Belmiro lutou mesmo pelo seu controlo, beneficiando do apoio de um núcleo duro e da gestão do banco.
Quando, em 1994, o BCP lança uma inesperada OPA parcial sobre o BPA, o Estado tinha 24,5% e o núcleo duro de Belmiro dava sinais de incoerência e vulnerabilidade. Num primeiro momento, Catroga alinha com o núcleo de Belmiro e recusa a OPA. O BCP reincide, com uma segunda oferta sobre a totalidade do capital. Catroga está em últimas exibições, quer resolver o dossiê BPA e maximizar receitas. Aceita a operação, desprezando o compromisso que celebrara com o núcleo do norte para a venda das ações do Estado. Catroga desafia Belmiro a lançar uma OPA concorrente. Belmiro desdobra-se em reuniões em Lisboa, desde o primeiro ministro, Cavaco Silva, ao líder da oposição, António Guterres. A OPA avança e Belmiro perde a batalha. No fim, recebeu €60 milhões pelo lote de 7% com o investimento de perto de €40 milhões. Ainda recorreu a tribunal, exigindo uma indemnização ao Estado (€37,5 milhões) por quebra de compromisso. O juiz reconheceu que o Estado criara legítimas expectativas e violara o compromisso com o núcleo duro, mas que a indemnização não se justificava.


Portucel: a hostilidade de Carlos Tavares

Na Portucel, Belmiro registou o desaire mais doloroso por ter comprometido de vez o seu projeto coerente na fileira florestal. O caso Portucel dava uma novela, com namoros desfeitos, traições e um final inesperado. Belmiro reforçara em bolsa até 30%, aprovou a fusão com a Soporcel de que era acionista e desistira no fim por se sentir hostilizado pelo ministro Carlos Tavares. Por sinal, o mesmo Carlos Tavares que Belmiro defendera para ver a dirigir o BPA, quando alimentava o sonho de comandar o banco.
Também neste caso, a visão do Executivo não se encaixou no plano da Sonae. Belmiro contestou desde o primeiro momento o modelo da operação e rejeitaria um aumento de capital que viabilizaria, em 2003, a entrada, como acionista de referência, do consórcio Cofina/Lecta, selecionado após um concurso lançado pelo Governo. Desautorizado, Belmiro estraga o plano de Tavares por achar que a solução “diluía o valor das participações” dos acionistas. Belmiro pressionou o Governo até ao último momento para rever a estratégia, acreditando numa negociação direta com quem já era acionista relevante. Mas não. Tavares avisa que a solução “não privilegiaria um acionista”. Belmiro declara “não estou vendedor, mas não sou um empata”. Tavares desafiara Belmiro a lançar uma oferta geral sobre a empresa, recusando uma negociação particular da posição do Estado. A Sonae queria um controlo sem grandes despesas e afastou-se do processo. A Portucel seria disputada por dois grupos (Cofina e Semapa) e ganho por quem não tinha currículo no sector — a Semapa, de Pedro Queiroz Pereira.
A Sonae deixaria o negócio do papel com muita pasta (€297 milhões) e um ganho de €86 milhões, o mais suculento das privatizações em que esteve enredado. O desfecho levaria a Sonae a vender no ano seguinte a Gescartão. Sempre que se meteu com o Estado, Belmiro perdeu os negócios mas ganhou na tesouraria. E fez a promessa de nunca mais falar com Carlos Tavares...  aqui

Sunday, August 27, 2017

CHUVA DE DIAMANTES


Os astrofísicos já tinham concluído há algum tempo que chove em Urano e Neptuno e que a chuva é de diamantes.
O fenómeno, para nós terrestres, parece bizarro mas, pensando bem, não será tão bizarro quanto isso. 
Neste planeta que habitamos, quando se reunem condições climatéricas favoráveis, das nuvens nem sempre cai chuva, pode cair, além do mais, neve, geada, ... pedras de granizo.

Pensavam os astrofísicos que as extremas altas pressões observadas em Urano e Neptuno comprimiriam os átomos de carbono que formam as atmosferas daqueles planetas provocando a formação e queda de diamantes.  
Faltava aos astrofísicos provar as suas conclusões teóricas.

Não sendo, para já, realizável expedições a planetas longínquos que tragam de volta à Terra uns compensadores carregamentos de diamantes, cientistas dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha recriaram em laboratório as condições observadas naqueles planetas e conseguiram obter, para já, pequeníssimos diamantes. Em Urano e Neptuno os diamantes terão, calculam os astrofísicos, milhões de quilates. 
Os resultados da investigação foram publicados na segunda-feira, 21, na  Nature Astronomy.
Note-se que diamantes sintéticos já são produzidos, usados e utilizados há muito tempo.
Estes, agora conseguidos, serão sintéticos mas indistinguíveis daqueles que os muitos milhões de anos produziram na Terra. 

Terão, dizem os especialistas, aplicações em instrumentos de alta precisão médica e na electrónica.
Cairão os preços dos diamantes e a fama de que são eternos. 

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cf . - The Telegraph




Monday, August 14, 2017

TURISMOFOBIA?

(clicar para ampliar)


Banhistas na praia de Barceloneta (Barcelona) ontem, domingo 13 de Agosto

"Quantos turistas cabem em Espanha?" - pergunta no El País de hoje a propósito das medidas restritivas à entrada desmedida de turistas em Barcelona. 

E em Portugal? Alguém já fez as contas?
Boom do imobiliário e turismo aumenta a receita fiscal em 80 milhões só em IMT
Quando o investimento produtivo regride e a especulação expande a procura de imobiliário, a trajectória  da economia é sinistra. 

"O que é demais passa a excesso"
"O que é demais é moléstia"
"O que é demais é erro"
Filosofia Popular


Wednesday, May 10, 2017

TURISMO RELIGIOSO

"Estava próxima a páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas sentados;  
e, tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio" (João 2:15-16)

"As conversas numa esplanada da Rua Jacinta Marto passam pelo tema dos preços exorbitantes.
Rosa Clemente mostra um panfleto de uma imobiliária, onde a imagem da estátua de Nossa Senhora de Fátima acompanha a informação de T1, quartos e suites para arrendar. Tiago Costa distribui os panfletos ao virar da esquina. Confirma que "ainda há alguns espaços por ocupar e que os preços andam entre os 300 e 500 euros. Os quartos estão mesmo às portas do santuário, a escassos metros, garante. 
Informação compilada pela Agência Lusa também aponta para algumas camas por preencher, mas não a preços inferiores: dormir em Fátima de sexta-feira para sábado custa entre 335 e 1650 euros em alojamentos locais e entre 500 e 2500 euros em unidades hoteleiras. A Airbnb dá conta de que o número de hóspedes que marcou dormida nas imediações aumentou 10 vezes face a igual período do ano passado." Público

"Fátima aguarda serenamente a enchente"

Monday, March 06, 2017

A CAIXA DE LOUÇÃ

O Prof. Louçã afirmou, em entrevista publicada aqui, que o plano de negócios da Caixa Geral de Depósitos é errado. E, do meu ponto de vista, é. Mas por algumas razões diferentes das apresentadas por Louçã. 

Do que conheço das suas linhas gerais, por terem vindo a público algumas apreciações críticas do documento, o plano de negócios elaborado pelo sr. António Domingues e a sua equipa conforma-se com as exigências do BCE, como condição sine qua non para a recapitalização da Caixa, em grande parte com dinheiros públicos, não ser considerada ajuda do Estado e, portanto, não agravar o défice das contas públicas. E as exigências do BCE impõem que a Caixa seja governada segundo critérios idênticos aos que estão subjacentes à banca privada. Com uma condição espúria: a suposta independência concedida à administração da Caixa sobreleva qualquer outra dominante em bancos de capitais privados, coibindo o governo em funções, enquanto representante do accionista, o Estado, entidade onde convergem os interesses e responsabilidades de todos os portugueses, de decidir em qualquer matéria que restrinja a capacidade pretensamente quase ilimitada da administração proceder como entender. Comentei aqui esta vertente do documento.

Critica Louçã que a seguradora Fidelidade tenha sido vendida (foram as perdas da Caixa que obrigaram esta e outras alienações de activos) e a Caixa amputada de um sector primordial como complemento da actividade bancária. A questão é, no mínimo, discutível e, de momento, inoportuna.

Defende Louçã que a Caixa não deverá reduzir a sua rede balcões, e, se as actividades em Espanha foram um desastre, há balcões no estrangeiro junto de comunidades emigrantes que justificam a presença da Caixa junto dessas comunidades.  
O acidente espanhol, sem que o condutor tenha sido julgado e condenado, mas transferido e promovido, deveu-se a arriscados créditos concedidos que se revelaram incobráveis. Se a Portugal faltam recursos financeiros parece absurdo que a Caixa exporte fundos que deveriam promover o crescimento em Portugal. Se a intenção é a canalização das poupanças dos emigrantes para Portugal, a forma mais eficaz é a recuperação da confiança perdida pelo sistema financeiro, tendo a Caixa enormes culpas no cartório. E não é visível, nem Louçã demonstra o contrário, que  a Caixa possa sair do atoleiro onde a meteram sem reduzir custos, o mesmo é dizer, sem dispensar os meios excessivos.

Mas é sobretudo a missão da Caixa, que Louçã não aborda nesta entrevista, que deveria merecer um debate avaliador do nível de consenso possível sobre o que se espera de um banco público, administrado como banco privado, que justifique a sua razão de existir. Do ponto de vista de Louçã, a propriedade pública sustenta-se em princípios ideológicos que sobrelevam quaisquer outros, tão inamovíveis quanto os sacrossantos direitos da propriedade privada defendidos pelos ultra liberais. Qualquer discussão balizada por cerradas barreiras ideológicas é inútil. 

Louçã poderia, por exemplo, defender que a Caixa, como banco público, fosse exemplar no repúdio de actividades especulativas, as eufemisticamente designadas operações de intermediação em fundos de investimento, ou transacções com offshores. Há muito tempo já, anotei neste caderno de apontamentos a necessidade de criar "bancos verdes", não poluídos, nem susceptíveis de virem a ser, de activos tóxicos; e que só esses poderiam contar, em última instância, do respaldo dos contribuintes. 

Poderia, mas nisso cairia em contradição com as suas convicções ideológicas, um chapéu de abas mais largas que as da teoria económica em que Louçã é catedrático.

Friday, September 09, 2016

O COMBÓIO DOS LOUCOS

 Nuno G.,

Não discordo das premissas nem dos seus cálculos mas reafirmo a minha discordância quanto às conclusões.

Subscrevo inteiramente a primeira parte do primeiro período do seu primeiro artigo, que reconhece que:

não se trata de um fenómeno português;
- não sendo uma coisa recente, ..., o discurso político no espaço público é fundamentalmente um conjunto de variações sobre a diabolização do adversário, para deleite das classes dos partidos;
- esse fenómeno aumenta exponencialmente nas redes sociais, onde predomina o ódio e insulto em detrimento de qualquer debate racional;

Do que discordo é que a progressiva redução da quota do eleitorado flutuante, os ciclos políticos ou o número de deputados em disputa em cada eleição sejam causas da crescente diabolização política.

Não são. Porque se:

- não se trata de um fenómeno português (o que é muito evidente para quem se encontra minimamente informado sobre o que, a este respeito, se passa fora do nosso país)
- não é uma coisa recente (o que também é muito evidente para quem tenha uma noção razoável do caminho da história),

o aumento da diabolização para deleite das classes políticas resulta do aumento exponencial das redes sociais onde predomina o ódio e o insulto em detrimento de qualquer debate racional.

Se há redução do eleitorado flutuante é porque os media em geral, e não apenas as redes sociais, ampliam os ódios e insultos partidários, empurrando, deste modo, os "infiéis" para a escolha de um dos credos em confronto. Na transmissão televisiva dos debates cada intervenção parlamentar é uma disputa de afirmação pessoal do orador.
E a redução do número de lugares de deputado em jogo é consequência natural da redução do número de eleitores sem credo.

Por outro lado, os ciclos políticos resultam dos ciclos económicos, quaisquer que sejam os factores provocadores das suas fases.
Atravessamos tempos de grande incerteza, sem fim à vista.
A política, ausência ou excesso de políticas, e, muito criticamente, a política financeira da União Europeia, só por si, é factor fracturante mais que suficiente para exacerbar os confrontos ideológicos e extremar posições.  Não por acaso, as abordagens serenas desta questão tão crítica para o futuro de todos os membros da UE em geral e da Zona Euro, em particular,  vêm de fora da Europa.

Há saída "limpa" para este impasse?
É talvez o pressentimento, até o pânico, de que não há saída ao fundo deste túnel sem fim à vista, em que hesita entre andar e recuar o combóio da UE, que mais exalta os ânimos dos passageiros.



Wednesday, September 07, 2016

UM DRONE DE PELE E OSSO


Há  dois anos comentei aqui a notícia de que Jeff Bezos, o criador da Amazon, estava a ensaiar a entrega ao domícilio com drones. Não tendo obtido autorização do regulador norte-americano para os ensaios, Besos voltou-se para o Reino Unido e, segundo esta notícia, vai iniciar os testes de distribuição em colaboração com os reguladores britânicos.

Mas Jeff Bezos não para. 
Segundo esta notícia -Will Amazon Kill FedEx? - tem mais de uma centena de doutorados em matemáticas  com a missão exclusiva de optimizar a capacidade de distribuição da Amazon. 
A Bloomberg Businessweek desta semana dedica a capa e o principal artigo ao anúncio do leasing de 20 Boeings de uma companhia aérea com a opção de 20% das acções da mesma companhia com o objectivo de reduzir tempos e custos de entrega. 

Se estes projectos forem bem sucedidos, a Amazon retirará uma quota importante do negócio da UPS e  poderá inviabilizar a FedEx.

Curiosamente, a semana passada, observámos a chegada de uma station, não identificada, junto de uma residência na área metropolitana de Washington DC. O condutor saiu, abriu a porta de trás, retirou três livros (volumosos), não embalados, colocou-os junto da porta de entrada, e foi-se embora. 

- Estavas à espera destes livros?
- Estava. Encomendei-os à Amazon. Com 25% de desconto sobre o preço de capa, vale a pena, não?
- Vale, vale. Mas sabes como chegaram?
- Pela FedEx, suponho. Tanto quanto sei ainda não há drones na distribuição.
- Não. Trouxe-os um sujeito, que nem tocou na campaínha.
- Agora fazem isso, fazem. É como a Uber. Quem quer distribuir, inscreve-se, vai buscar o que é vendido pela Amazon, onde a Amazon lhe diz onde está, e entrega em casa dos clientes.
- E se chove?
- Se chove???
- Sim, se chove e os livros, ou o que quer que seja, fica à chuva?
- Eles acreditam nos meteorologistas. De qualquer modo, se o artigo não chega em condições aceitáveis, eles substituem.  
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Correl . - Amazon versus Alibaba
Alibaba versus Amazon 

Monday, August 01, 2016

CHUTAR PARA CANTO EM AGOSTO

Ouço no noticiário das três da tarde que o Banco de Portugal divulgou hoje que a dívida pública voltou a aumentar, situando-se no final do primeiro trimestre deste ano em 240 mil milhões de euros, aumentando pelo quarto mês consecutivo.
E, logo a seguir, o ministro da Economia a desvalorizar o aumento em termos nominais porque, disse ele, o mais importante é a relação entre a dívida e o PIB. 
E disse mais (cito por memória):

"Estamos a trabalhar nos dois lados da equação, promovendo o crescimento para reduzir a dívida, com aumento de investimento. É público que a Fosun* está interessada numa participação relevante no capital do BCP e que o Banco Haitong** está interessado no Novo Banco. O interesse de investidores estrangeiros é uma prova de confiança no futuro do nosso país."- cf. aqui

Pelas minhas contas, a relação entre a dívida e o PIB no final de Junho, deve ter-se situado em 131%.
Em Novembro de 2012, a previsão da trajectória da dívida revista em baixa no sexto exame regular da troica (vd. quadro abaixo - clique para ampliar) apontava para 115,8%. 
Aconteceu há menos de três anos, de nada nos valeu este tipo de investimento financeiro estrangeiro que confiou no nosso país.



"No final do primeiro semestre de 2016, a dívida pública situou-se em 240,0 mil milhões de euros (Gráfico 1), aumentando 2,4 mil milhões de euros relativamente a maio (Gráfico 2). Esta variação no mês de junho reflete principalmente emissões líquidas positivas de títulos (2,0 mil milhões de euros). O crescimento da dívida pública foi acompanhado por uma redução dos ativos em depósitos (0,3 mil milhões de euros), pelo que a dívida pública líquida de depósitos da administração central registou um aumento de 2,8 mil milhões de euros em relação ao mês anterior, ascendendo a 222,0 mil milhões de euros no final do primeiro semestre de 2016." - aqui


Por outro lado, a dívida privada - cf. aqui - ainda que subsistindo a níveis relativamente muito elevados vinha apresentando uma trajectória discretamente descendente. 
Soube-se recentemente, no entanto, - vd. aqui - que a poupança das famílias foi negativa no primeiro trimestre deste ano, uma situação inédita nos, pelo menos, últimos 17 anos. Na origem desta inversão estará o crescimento do consumo e a compra de automóveis. 
Sem os reflexos no crescimento da economia esperados pelo senhor ministro da Economia e companhia.  
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Correl. - (10/08) - Dívida Pública deve ter-se situado entre 131 e 132% do PIB no fim de Junho - aqui