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Saturday, April 19, 2025

POR UM CESTO DE DEPLORÁVEIS

Por um cesto de deploráveis, perdeu Hillary Clinton as eleições de 2016.
Os deploráveis entregaram o governo dos Estados Unidos da América a Trump, um magnata sem experiência governativa para além do governo dos seus negócios pessoais.
Hillary Clinton perdeu por ter considerado, e com razão, que uma parte dos apoiantes de Trump eram, e ainda são, pouco ou mesmo nada instruidos.
Foi muito criticada por essa afirmação e apresentou desculpas públicas. O recuo custou-lhe a presidência.
Trump nunca teria recuado.
 
Trump perdeu para Biden em 2020,  mas nunca reconheceu a derrota, seguindo estritamente as instruções do seu mentor, Roy Cohn que tinha como filosofia de vida três regras: mantem-te sempre ao ataque, não admitas nada, nega tudo, clama sempre vitória e nunca admitas a derrota. 
Trump ingeriu as indicações do guru e dispensou-o, mas manteve-se agarrado às regras e levou-as tão longe a ponto de, mesmo perante todas as evidências, nunca admitir a derrota frente a Biden, excitou as hordas  ao seu serviço, e impeliu-as para a maior afronta às instituições democráticas com assalto ao Congresso e o medo a assombrar os congressistas.
Numa democracia liberal onde não governasse o medo e a cobardia, Trump deveria ter sido julgado e condenado  
Foi eleito em 2024 pelo cesto de deploráveis.
 
Dentro de dias, Trump contará cem dias na Casa Branca.
Desde a inauguração do seu segundo mandato, o déspota pode vangloriar-se de ter feito tremer o mundo, eventualmente balanceando-o, à beira do abismo, para um confronto com a China. 
Entretanto, Putin continua a bombardear a Ucrânia, 
Netanyahu a tentar empatar o genocídio na Palestina com o Holocausto perpretado pelos nazis.
Trump tinha garantido que, com ele, não teria havido a invasão russa da Ucrânia e a solução da guerra estaria encontrada em poucos dias após a sua tomada de posse. 
O mesmo, ou mais ou menos o mesmo, para Gaza.
 
A democracia liberal é susceptível de ingerir o veneno que acabará por matá-la sem que se vislumbre, desta vez, antídoto que a possa ressuscitar.
Trump ataca, ofende, desrespeita as instituições fundamentais de um estado de direito.
Ataca e subjuga todos os que, cobardemente, se prestam a bajulá-lo. 
Que são muitos. As excepções reconhecidamente assumidas são poucas.
Corta apoios à investigação científica, quer controlar actividades das Universidades, sobretudo das mais prestigiadas, desrespeita decisões dos tribunais, ontem revelou o que já era conhecido mesmo antes de tomar posse: dominar a FED, gerir segundo os seus critérios arbitrários o sistema financeiro.cf. aqui.

Há quem acredite, ou queira acreditar, que a democracia liberal é suficientemente resistente aos ataques de demagogos e ditadores, e acabará sempre por ressurgir. Se os mandatos têm termo, a alternância está garantida. Mas se deixam de ter?
A resistência à perda de liberdade requere oposição bastante. Trump já deu conta da sua intenção de ser candidato a um terceiro mandato. Nada que Putin e Xi Jimping já não tenham adquirido.

Trump considera que a União Europeia foi criada para "lixar os EUA". E pretende fracturá-la o mais possível. Não recebe Ursula Von Der Leyen, nem visita Bruxelas. Recebeu Giorgia Meloni e aceitou convite para visitar Roma. 
Trump gosta de ser bajulado?
Gosta mas despreza quem o bajula. 

Reconheça-se, contudo, que a União Europeia por ser uma União de Tribos continua a ser Um bando desorientado, sem leader democraticamente eleito e universalmente considerado como tal. 
Trump sabe que é assim e sabe que é fácil desmontar o puzzle mal concebido da União Europeia.
Putin pensa o mesmo.
Xi Jinping também mas, ainda que participe indirectamente na desagregação europeia, é mais discreto. 

Muito resumidamente: O que falta na União Europeia? 
Europeus.

Monday, March 31, 2025

ONDE MORA AGORA A DEMOCRACIA?

Le Pen, condenada a dois anos de prisãoe efectiva e mais dois com pulseira electrónica, não vai poder concorrer às presidenciais francesas em 2027.
 
Entretanto, no  Brasil, Bolsonaro, acusado de golpe de Estado e atentar contra as instituições democráticas do país, arrisca prisão e impedimento de se candidatar às próximas presidenciais.
 
Nos Estados Unidos da América, Trump, incentivador do assalto ao Congresso, símbolo máximo do poder democrático,  transmitido em directo para todo o mundo, continua impante e impune a desgovernar o planeta por palpites.
 
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 Le Pen impedida de concorrer às presidencias francesas de 2027 O tribunal decretou que, durante cinco anos, a líder do Reagrupamento Nacional não pode concorrer a eleições. É uma das consequências da condenação por desvio de fundos europeus.  

En direct, procès de Marine Le Pen – l’ex-présidente du RN condamnée à deux ans de prison ferme et cinq ans d’inéligibilité avec application immédiate : les dernières informations et réactions

La députée d’extrême droite, reconnue coupable de détournement de fonds publics dans l’affaire des assistants européens du RN, sera sur le « 20 heures » de TF1 ce soir. Vingt-trois autres prévenus ont été condamnés avec des peines d’inéligibilité, parfois avec sursis. Le RN en tant que parti a été condamné à 2 millions d’euros d’amende, dont un million ferme. - Le Monde 

Le premier ministre hongrois, Viktor Orban, apporte son soutien à Marine Le Pen
Alors que le jugement est en train d’être rendu contre Marine Le Pen - reconnue coupable de détournement de fonds publics et déclarée inéligible - le chef du gouvernement hongrois et homme fort du groupe d’eurodéputés d’extrême droite Patriotes de l’Europe (présidé par Jordan Bardella) a écrit sur X : « Je suis Marine ! »
 
La justicia francesa inhabilita cinco años a Marine Le Pen y compromete su candidatura a la presidencia La líder ultraderechista, condenada también a cuatro años de cárcel, abandona el tribunal antes de que terminara la lectura de una sentencia de efecto inmediato y que podría impedirle presentarse a las elecciones de 2027 - EL País

Sunday, February 23, 2025

UM BANDO DESORIENTADO

... - 
 
- Lamento reconhecer mas a Europa, democrática-liberal, é um bando desorientado.
Sou europeísta, continuo a pensar que a Europa em que me reconheço europeu só poderá continuar  a afirmar-se digna do seu passado histórico se lutar pela preservação dos valores democráticos liberais. Digo democráticos liberais consciente do conteúdo pleonástico para distinção do uso abusivo da palavra democracia em espaços e contextos que são totalmente contrários à vivência democrática. Por exemplo a República Popular Democrática da Coreia do Norte ou a ex-República Democrática Alemã
 
- Concordo que a Europa atravessa um período de grande desorientação, mas daí considerar a Europa um bando parece-me excessivo...
 
- Mas é. O que é um bando? Em sentido genérico, sem interpretação pejorativa, um bando é um grupo de pessoas reunidas para um fim comum, ou um grupo de aves ou outros animais. 
 
- São coisas diferentes: a espécie humana é, pelas suas capacidades inteligentes, claramente distinta de outros seres do mundo animal. 
 
- Admitamos que sim, que os humanos, pelos seus dotes de inteligência, são diferentes dos não humanos supostamente não inteligentes ou não tão inteligentes quanto os humanos. É assunto que dá pano para muitas mangas. Mas chame-lhe bando ou grupo ou união, chame-lhe o que quiser, mas num aspecto os grupos de humanos ou não humanos com intenções de atingir objectivos de interesses comuns instintivamente escolhem, designam, nomeiam, votam, um líder, alguém que os conduza ao objectivo pretendido pelo grupo. 
 
- Nem sempre.
 
- Nos grupos de não humanos a necessidade de liderança, que pode e muitas vezes é, revezada, é instintiva; nos grupos humanos é uma necessidade racional que só é concretizável em sociedades democráticas ou consequência de uma imposição pela força em sociedades não democráticas. Mas, em nenhum caso um grupo atinge os seus objectivos sem uma liderança imposta pela força ou designada pela vontade dos seus membros. 
 
- Há animais que não seguem qualquer líder ...
 
- Refere-se aos cães, aos gatos, aos bovinos aos caprinos?
Sim. Esses não têm líderes, mas não têm líderes porque foram domesticados pelos humanos, passaram a ser membros de grupos humanos. Considerando todas as espécies do mundo animal, representam um número ínfimo da totalidade dos não humanos que os humanos ainda não extinguiram.
 
- Mas se é natural que um grupo de seres vivos não atinge os seus objectivos sem um líder - e não sabemos nada quanto a esse aspecto o que se passa a nível das bactérias, dos vírus etc., - como é que explica a desorientação europeia livre, democrática? São um grupo não inteligente?
 
- Curiosamente, a sua referência às mais remotas formas de vida - bactérias, vírus, etc., - é impressionante a forma como atacam os seres humanos mas também os não humanos, podendo levar-nos a pensar que esse ataque ordenado procede de algum processo biológico impresso na sua origem. Mas não vou por aí, não sou biólogo nem tenho oportunidade de falar com eles. 

- Eu tenho, mas a minha pergunta era outra: para si, a Europa democrática, no exacto sentido da palavra,  é formada por humanos parcialmente não inteligentes?
 
- A Europa é um continente que, por razões históricas, é formado por tribos, isto, é por diferentes grupos com objectivos diferentes ambicionando alguns objectivos comuns. Decidiram essas tribos (reconheço que a designação pareça imprópria por ser forte) formar uma união com alguns objectivos comuns.  E é na armadilha das contradições dos objectivos de cada uma das das tribos e de alguns objectivos comuns que pretendem alcançar que reside a incapacidade  de surgir uma liderança do bando e a desorientação que atinge a união dos europeus quando essa união é  colocada perante uma ameaça que a pode liquidar.
Neste sentido, a desorientação por falta de liderança, é prova de falta de inteligência suficiente para evitar a sua liquidação a prazo. 

- Só isso?
 
- Isso é muito. É, no ponto em que a situação se encontra uma quase impossibilidade. 
A Europa livre e democrática (releve-se outra vez o pleonasmo) simplesmente não existe. E não existe porque não há europeus.
 
- Não há europeus???
 
- Não. Há franceses, alemães, italianos, espanhois, portugueses, etc., mas não há europeus. Foi sempre assim durante toda  história da Europa que, por essa razão, foi e continua a ser campo de batalhas. Houve períodos de paz? Sem dúvida. Mas foram curtos. Tão curtos que não chegaram para modificar o tribalismo que ainda persiste e ameaça continuar.
 
- Mas não acontece isso mesmo noutros pontos do planeta?
 
- Acontece  em todo o lado onde predomina a organização tribal susceptível de obedecer aos mais diversos interesses externos e alguns internos. 
 
- Então não serve como sistema sustentável de governo. É isso?

- A democracia - "a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros", Churchill - é tão complacente com os seus inimigos que corre sempre o risco de ser esmagada por eles. 
Amanhã. haverá eleições na Alemanha. O partido da extrema-direita (como ameaça a democracia, se fosse da extrema-esquerda provavelmente as consequências seriam idênticas) é claramente anti democrático. O desfile de ontem de duas centenas de membros do partido neonazi alemão em Berlim demonstra que a democracia é complacente a ponto de consentir que o inimigo se desenvolva, cresça sem restrições, no seu seio.
 
- Deveria ser proibida essa e outras manifestações com idênticas intenções? Se proibisse trairia os valores democráticos, não?
 
-  Não. A um inimigo não se franqueia a porta de entrada.  Aos extremistas não deveria sequer ser consentido candidatarem-se. 
" Se alguém se engana com seu ar sisudo. E lhes franqueia as portas à chegada. Eles comem tudo eles comem tudo. Eles comem tudo e não deixam nada" - lembra-se desta?
 
- Significa isso que cerca de um quinto dos eleitores alemães estariam proibidos de votar amanhã.
Não me parece que seja uma posição democrática.
 
- Porquê?
 
- Porque contraria os valores democráticos.
 
- Os valores democráticos não são, não devem ser valores suicidas. 

- Mas o que é que o chefe do bando, se existisse, poderia fazer? Impor a proibição da entrada do inimigo mesmo contra a vontade da maioria do bando?
 
- Se houvesse um líder, independentemente da forma como se tornou líder, ele teria a capacidade delegada pelos membros do bando para impedir que o inimigo da democracia entrasse. Sem líder, o bando dispersa-se em posições que os desorientam e o inimigo entra. Amanhã terá um quinto dos votos, na próxima alcançará a maioria. E, nesse caso, o líder da maioria não democrática impedirá os democratas de votarem
Tem dúvidas? Só tem dúvidas quem não conhece a história.
 
- Tenho dúvidas que o meu amigo seja um verdadeiro democrata.
 
-  Um verdadeiro democrata deve saber fazer contas para avaliar até que ponto a complacência da democracia para com os seus inimigos não é demolidora da democracia.


Monday, January 27, 2025

COERÊNCIA, PRECISA-SE

Ontem, Ricardo Araújo Pereira entrevistou Alexandra Leitão, destacada socialista, que já desempenhou cargos no Governo, e é agora candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa,  e que afirmou apnntar sempre para os seus objectivos e nunca "atirar para canto".

- Mas a senhora deputada, sendo socialista convicta defensora do ensino público como explica terem os seus filhos estudado num colégio privado?
- Já me fizeram muitas vezes essa pergunta. Primeiro, matriculei os meus filhos em escola pública, depois porque ambiciono para eles uma carreira internacional, matriculei num colégio que oferecia essa garantia. 

Alexandra Leitão não procedeu de modo diferente do seguido por muitos outros, em matéria de educação e saúde, também eles acérrimos defensores da escola pública e do SNS. 

A propósito: 
Recebi hoje convite de um amigo, também ele um homem, sem concessões, de esquerda  para me inscrever no Instagram.
 
As redes, ditas sociais, podem e já estão a ser um instrumento de dissolução da democracia.
Elon Musk apoia declaradamente os mal disfarçados herdeiros dos nazis alemães. 
E todos os regimes autocráticos,
Os canais de Zuckerberg são esgotos por onde passam algumas águas limpas misturadas com muitas sujidades. 
Uso WhatsApp num círculo familiar.
A liberdade de expressão deixa de o ser se consentir a mentira. 
A democracia também se defende boicotando os multi bilionários que usam os seus canais para conspurcar a liberdade limpa.

Correlacionado:
 

Monday, January 06, 2025

O DIA DO ASSALTO IMPUNE À DEMOCRACIA

A continuidade do Aliás depende do seu merecimento, avaliado por comentários, críticas, sugestões, correcções, de quem o lê.

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6 de janeiro de 2021 

Apoiantes de Trump, com o público incentivo deste, realizaram o acto mais abominável em Democracia: o assalto ao centro do poder político, neste caso o Assalto ao Capitólio dos Estados Unidos da América com o objectivo de reverterem os resultados das eleições ganhas por Joe Biden.

Em entrevista publicada no Washington Post de hoje, Joe Biden pede aos norte-americanos que não consintam que os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 sejam deturpados ou esquecidos.

Hoje é o dia em que serão pacificamente confirmados os resultados que deram a vitória a Trump em 28 de novembro. 
Há quatro anos, os tumultos provocados para impedir a confirmação dos resultados que, inequivocamente deram a vitória a Biden, ficarão como uma das páginas mais repulsivas da democracia norte-americana.
Mas quem valoriza hoje, não só nos Estados Unidos da América mas também na maior parte do mundo, os princípios democráticos?
Poucos e, pior que poucos, cada vez mais poucos. 

Trump será pela segunda vez presidente dos EUA. 

Para que lado se irá virar agora o touro desembolado? 

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O FPÖ é euro céptico e admirador de Putin. 
A União Europeia desmorona-se para gáudio dos eurófagos, aqueles que se alimentam do corpo que vão corroendo.
No fim, o que sobrará do mundo livre de déspotas e de seguidores entusiasmados para aplaudirem o desfile das tropas de Putin nas principais avenidas europeias? 
 
 

Como nos Campos Elíseos - Paris 1940 - Diário de uma Invasão

Friday, November 08, 2024

O DIA DA FALTA DE VERGONHA

A continuidade do Aliás depende do seu merecimento, avaliado por comentários, críticas, sugestões, correcções, de quem o lê.
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Anteontem, 6 de novembro, quando foram conhecidos e reconhecidos os resultados das eleições do dia anterior, 5 de novembro, um manto de vergonha cobriu quem foi surpreendido pelos resultados conseguidos por um arruaceiro infame num país onde a expressão livre do pensamento perdura há duzentos anos.
Ontem, 7 de novembro, choveram trovoadas de explicações para o fenómeno político que, afinal, era, mais que esperado, era inevitável. Tão inevitável como as alterações climáticas sem culpa humana.

E o arruaceiro transfigurou-se em salvador de um mundo vicioso, depravado, que perdeu a alma.
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Obs. As fotos colocadas anteontem e hoje são, para mim, de autor desconhecido, razão porque não consigo identificar a sua origem.
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Correlacionado - Em 19 de agosto, cerca de três meses antes do dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América, J M Tavares escreveu no Público: Entre Trump e o Rato Mickey eu votaria no Rato Mickey.
Em 6 de novembro, dia seguinte aos das eleições, conhecidos os resultados, escreveu isto: Desta vez Trump tem uma equipa. E isso fez toda a diferença.
 
A ameaça medonha que esta contradição anuncia não é o facto de ter sido escrita por J M Tavares. Não. A contradição espraiou-se globalmente revelando um mundo futuro povoado por cobardes subservientes dos autocratas em crescimento imparável. 
Condição a que o Rato Mickey nunca se sujeitará.

Monday, November 04, 2024

DE QUE LADO MORA A IGNORÂNCIA?

Metade dos norte-americanos são estúpidos, ouço dizer a alguém que reside nos EUA há mais de vinte e cinco anos e é, desde também há muitos anos, cidadã norte-americana.

Outra portuguesa, também residente há largos anos nos EUA, experiente na análise dos mercados de commodities, especialmente de cereais - deduzo das frequentes referências ao assunto num blog - afirma que 
 
"As sondagens estão bastante próximas para se saber quem é o favorito, mas com o Trump nunca se sabe se as sondagens são de confiança. Julgo que o mais surpreendente é ver tantas pessoas que ainda o apoiam, especialmente as pessoas mais religiosas. Entretanto, os mercados agrícolas têm estado em queda na expectativa que ele ganhe e recomece a disputa comercial com a China. Quem fica a ganhar é o Brasil, especialmente se Trump for eleito, e a agricultura americana ficará um passo mais perto do fim. Tem piada que Trump receba mais votos das zonas rurais, que acaba por ser quem mais sai prejudicado com a sua política." 
 
É sobejamente conhecido que nos Estados Unidos da América, mas não só porque se passa o mesmo em muitos outros lugares do mundo onde há livre escolha dos seus líderes, é muito frequente os resultados sejam maioritariamente decididos por aqueles que, aparentemente, mais perdem com as suas opções depositadas nos seus votos. 
Hillary Clinton, quando defrontou Trump, considerou "deplorables", deploráveis, que causam tristeza, que inspiram dó, os que se preparavam para votar em Trump. E, talvez mais convictamente ainda, votaram em Trump. E Trump venceu. 

Amanhã há eleições mas os resultados destas serão determinados, tem sido dito e redito, pelos votos dos eleitores nos swing states, que tanto podem cair para um lado como para o outro. São sete, mas o mais determinante, o que enviará mais delegados ao Colégio Eleitoral que elegerá o/a Presidente, é a Pensilvânia. 
Na Pensilvânia votam nos democratas, neste caso em Kamala Harrys, a maioria residente nas áreas urbanas, onde os níveis médios de educação são manifestamente superiores aos residentes, menos instruídos, nas zonas rurais  do mesmo Estado, que votam maioritariamente nos republicanos, neste caso em Trump.

Tanto os com mais como os com menos tempos de escolaridade, são livres de escolher, free will, livre arbítrio, segundo os seus próprios interesses mediatos ou imediatos. Por que razão é que a ignorância dos menos habilitados com informação suficiente que os habilite a escolher o que mais os pode beneficiar se sobrepõe aos votos dos melhor informados?
Por que razão não são os melhor informados capazes de informar seriamente os menos habilitados?

Não sei.
Tu sabes? 
Sabes onde mora a ignorância?

Wednesday, October 30, 2024

MAIS OU MENOS TUDO NA MESMA?

Não. 

Entre dois mundos opostos, poderá o mundo tombar para o lado mais execrável, do ponde vista de quem preza o maior valor social da humanidade: a liberdade de expressão de pensamento, por oposição à tirania de ditadores, digam-se eles de esquerda ou de direita. Porque nenhuma ditadura tem dois lados.

 

c/p - Narrow victories in a handful of swing states are likely to determine whether Donald Trump or Kamala Harris wins the US presidential election on November 5.

Não há sondagens que significativamente difiram das apresentadas pelo Financial Times.
E, no entanto, segundo as sondagens, se as diferenças são mínimas e nos swing states podem tombar para um dos lados, as consequências poderão ser tremendas para os norte-americanos e para o mundo democrático, onde a expressão de pensamento é livre mas pode ser submersa pela vaga autocrática que se está a alastrar, aliás, como há oitenta décadas, por todo o mundo.  
Já tinha dito isto, pois já. E não digo nem acrescento nada ao que a liberdade permite dizer. Por enquanto.   
Há dias, espremia-se uma comentadora num dos canais da televisão pública (ou terá sido num canal por cabo?) que Trump não é um fascista porque ... e passou a esgotar o seu cardápio  de razões que não colocam Trump ao lado de Mussolini ou Hitler.
 
Voltando à tremenda possibilidade de Trump ganhar a maioria no Congresso e a maioria no Senado, hipótese provável, segundo uns, altamente provável para outros, Trump, com o voto da maioria do Supremo Tribunal de Justiça, terá rédea solta para ir até aonde quiser. E ele, não nega, que quer ir até onde ao seu incomensurável ego der na gana.

Pelo que se sabe sobre o seu carácter (ou da falta dele) e pelo que demonstrou durante o seu primeiro mandato, não falta a Trump nenhum dos atributos que podem fazer dele um ditador narcísico, um deus terreno a quem todos devem devoção religiosa.
 
Exagero?
Era o que pensavam os que há cerca de oito décadas se curvaram perante auto arvorada divindade.
Terá, já tem aliás, dois concorrentes: Putin e Xi Jimping.
Um regime de triunvirato, também já o referi neste bloco de notas, terminou sempre com a eliminação de dois deles. 
Um filme de horror de que não verei, nem quererei ver o fim.

Friday, October 18, 2024

O VALOR FACIAL E O VALOR INTRÍNSECO DA DEMOCRACIA

Já depois de ter editado o meu apontamento de anteontem - O valor dos valores morais - observei que Daron Acemoglu, um dos três laureados com o Nobel da Economia, e aquele que, em directo televisivo respondeu a questões que, a propósito, lhe foram lhe foram colocadas por alguns dos presentes na sessão do anúncio, observei que de Daron Acemoglu tinha sido colocado a 30 de agosto deste ano, um artigo no project-syndicate.org - The Trump Threat to Democracy has grown - de que retiro apenas a primeira parte, disponível para não assinantes.

"Donald Trump is not the first anti-democratic demagogue to atttract a strong following, and he will be not the last. American institutions  can weather such challenges and come out even stronger, but only if pro-democratic forces mobilize and demonstrate  that the system can deliver meaninful results for ordinary people"

O artigo é, relativamente, longo e aponta para a gravidade da situação criada pela impotência das  instituições democráticas norte-americanas, que não foram concebidas para defrontarem quem, além do mais, proclama governar sem submissão às regras democráticas e fomentou o assalto ao Congresso, símbolo maior da democracia norte-americana, sem que a Justiça, admito, por falta de previsão de enquadramento legal no momento da concepção constitucional, o condenasse por alta traição e agora permite que se recandidate para comportamentos muito mais gravosos nos Estados Unidos quando de todo o mundo chegam sinais de guerra definitiva. 

No meu apontamento de anteontem parti da conclusão dos laureados - "In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy." - expressa, tanto na transmissão televisiva da comunicação do Nobel da Economia deste ano como no "Press release", para registar neste caderno de apontamentos a desvalorização que, do meu ponto de vista, tem vindo a observar-se na democracia liberal. 
Há alternativa melhor?
Durante muito tempo adquiriu-se a ideia cimentada na afirmação de Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos."

Talvez Churchill continue a ter razão e a resposta dada a um dos assistentes ao anúncio do Nobel no período de perguntas e respostas que questionou sobre o sucesso da China, um país cujo líder Li Xijinping considera a democracia um dos inimigos do comunismo chinês, Daron Acemoglu recordou que alguma experiências ditatoriais foram bem sucedidas durante os primeiros tempos, mais ou menos longos, mas perderam perderam o ímpeto inicial e a democracia acabou por prevalecer.

No tempo que vivemos, com os regimes autocráticos a ganharem terreno por recuo dos valores morais  da democracia, a afirmação de Daron Acemoglu de 30 de agosto no Project Syndicate, atrás transcrita, de que "as instituições norte-americanas podem opor-se à força das multidões atraídas pelas promessas de Trump, um anti-democrático demagogo, se as forças pró-democráticas se mobilizarem e convencerem que a democracia é mais vantajosa para as pessoas comuns, carece de prova
Porque é neste ponto se contradizem as conclusões.

Kamala Harris posicionou-se nas sondagens à frente de Trump imediatamente à sua nomeação em substituição de Biden. O voto popular, segundo as sondagens, posicionavam Harris entre dois a três pontos percentuais acima de Trump. Entretanto, a diferença ter-se-á reduzido, colocando-se num intervalo de empate técnico.
 
As eleições presidenciais norte-americanas não se decidem pelo voto popular universal mas pelo voto em seis ou sete Estados, swing states onde o resultado final pode cair para um lado ou para o outro, e onde as sondagens sugerem agora ligeira diferença favorável a Trump. 
Conclusão: as forças pró-democráticas parecem incapazes de atrair em número suficiente aqueles eleitores que, aparentemente, mais ganhariam com a vitória de Harris. 

Kamala Harris, filha de mãe indiana e pai afro-jamaicano, é considerada, estatisticamente, negra.
É, no entanto, a candidata democrata com menos apoio da população negra, quando, (ou porque), uma mulher negra substitui um homem branco. Biden obteve 87% dos votos dos negros; Harris tem apenas 80%. 
Trump tem dito, e os seus apoiantes acreditam, que os imigrantes roubam empregos geralmente desempenhados por negros. Mais imigrantes negros a entrarem nos USA significará mais pressão para a baixa nos salários. Deste raciocínio decorre, mesmo se falacioso, serem os negros, os asiáticos, os hispânicos mais favoráveis a medidas repressivas da imigração que os brancos.
Também são os não brancos menos tolerantes relativamente à liberdade de opção sexual e tão misóginos quanto os brancos. 
A perda de empregos resultante da entrada de emigrantes é o valor facial, visível, da imigração; o crescimento de uma economia em expansão, como é o caso da economia norte-americana, hoje, que requer mais força de trabalho, é um valor intrínseco que poucos entendem.
Trump entende, mas interessam-lhe os votos dos que já residem nos EUA. As suas declarações de que procederá à maior deportação de imigrantes ilegais, reforça nos imigrantes legalizados o apoio que Trump procura mobilizar.

A lista é longa mas uma evidência se salienta: qualquer que seja o tema envolvendo a importância da democracia para o progresso dos povos, é mais estendível o seu valor facial, a aparência imediata, do que o seu valor intrínseco, aquele que só o tempo pode demonstrar.
Quando se vivem tempos de comunicações curtas e fáceis, o imediatismo, mesmo se falso, porque o falso é célere e a verdade lenta, sobrepõe-se a razões fundamentadas. 

Wednesday, October 16, 2024

O VALOR DOS VALORES MORAIS

Anteontem a Real Academia Sueca de Ciências anunciou a atribuição do Nobel das Ciências Económicas em Memória de Alfredo Nobel, mais conhecido como Nobel da Economia, a Daron Acemoglu, Simon Johnson, do Massachusets Intitute of Technology (MIT) e James Robinson, da Universidade de Chicago,

“for studies of how institutions are formed and affect prosperity” 

(Transcrevo do Press release, distribuído após a divulgação dos nomes dos laureados, de sínteses dos trabalhos realizados, seguidas de perguntas da audiência presente no acto e respostas de Daron Acemoglu   - LIVE: Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson win Nobel Prize 2024 for Economic Sciences)

 

They have helped us understand differences in prosperity between nations

This year’s laureates in the economic sciences – Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson – have demonstrated the importance of societal institutions for a country’s prosperity. Societies with a poor rule of law and institutions that exploit the population do not generate growth or change for the better. The laureates’ research helps us understand why.

When Europeans colonised large parts of the globe, the institutions in those societies changed. This was sometimes dramatic, but did not occur in the same way everywhere. In some places the aim was to exploit the indigenous population and extract resources for the colonisers’ benefit. In others, the colonisers formed inclusive political and economic systems for the long-term benefit of European migrants.

The laureates have shown that one explanation for differences in countries’ prosperity is the societal institutions that were introduced during colonisation. Inclusive institutions were often introduced in countries that were poor when they were colonised, over time resulting in a generally prosperous population. This is an important reason for why former colonies that were once rich are now poor, and vice versa.

Some countries become trapped in a situation with extractive institutions and low economic growth. The introduction of inclusive institutions would create long-term benefits for everyone, but extractive institutions provide short-term gains for the people in power. As long as the political system guarantees they will remain in control, no one will trust their promises of future economic reforms. According to the laureates, this is why no improvement occurs.

However, this inability to make credible promises of positive change can also explain why democratisation sometimes occurs. When there is a threat of revolution, the people in power face a dilemma. They would prefer to remain in power and try to placate the masses by promising economic reforms, but the population are unlikely to believe that they will not return to the old system as soon as the situation settles down. In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy.

“Reducing the vast differences in income between countries is one of our time’s greatest challenges. The laureates have demonstrated the importance of societal institutions for achieving this,” says Jakob Svensson, Chair of the Committee for the Prize in Economic Sciences.

 

Ouvi a comunicação, já captada em vídeo, li o Press release, e ocorrem-me algumas questões que gostaria de ter perguntado mas, obviamente, não fui convidado para estar presente ...
Desloquei então as minhas questões para este meu espaço de entretenimento mental que não foram colocadas pela audiência presente nem foram minimamente abordadas pelos laureados, partindo do princípio que, se tivessem sido, teriam sido, minimamente que fosse, referidos pelos três membros da Real Academia Sueca de Ciências que anunciaram e comentaram as razões da atribuição de tão alto galardão a cientistas dedicados à profunda análise dos muito complexos meandros da economia.

Porque o tema é demasiado ambicioso para as minhas mais que exíguas qualificações, destaco uma conclusão dos estudos realizados : "In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy."
 
A democracia, sustentada na liberdade de expressão do pensamento, encontra-se hoje em situação, por demais visível, de atrofiamento em consequência da acentuada desvalorização do seu valor moral, mesmo, mesmo e sobretudo, no país e no povo onde mais floresceu porque as instituições nunca foram abaladas e o direito que regulava a vida em sociedade nunca foi posto em causa, até 6 de janeiro de 2021 quando o Capitólio dos Estados Unidos, símbolo máximo da democracia norte-americana, foi atacado, com o incentivo do ex-presidente aos assaltantes perante muitos milhões de espectadores que, em todo o mundo, assistiram ao impensável. 

Não foi a primeira vez que o Capitólio foi atacado. 
Em 24 de agosto de 1814 o Capitólio foi incendiado por tropas britânicas, durante a guerra de 1812. A 4 de julho de 1776, 13 colónias tinham declarado formalmente a sua separação do Império Britânico. 
(Obs. - O Brasil, colonizado por portugueses, mas não só,  foi declarado independente em 1822)
A 1 de Março de 1954 nacionalistas porto-riquenhos entraram no Capitólio com armas contrabandeadas. Foram presos e condenados; o Presidente Jimmy Carter mais tarde concedeu-lhes clemência.
Em 24 de Julho de 1998 foram mortos, por um atirador com histórico mental,  dois polícias em serviço na Capitólio; em 1999, um juiz federal considerou-o incapaz de ser julgado por sofrer de doença mental.
 
6 de janeiro de 2021 foi a única vez que o Capitólio foi assaltado por norte-americanos, motivados pelas declarações e incentivos do presidente que tinha perdido as eleições para Biden.
Com diversas culpas de grau elevadíssimo no cartório, em cima da maior afronta feita à democracia norte-americana, perante a passividade permissividade e conivência das suas instituições judiciais, o mobilizador do ataque em 6 de janeiro é agora novamente candidato à presidência, sendo muito provável, a julgar pelas últimas sondagens, que possa ser eleito.

Quanto vale a liberdade? Quanto vale a democracia?

Admitamos que Trump não ganha em 5 de novembro, próximo. 
Ainda assim, o valor moral da liberdade e da democracia não se alteraria significativamente porque as instituições consentiram que um assaltante do Capitólio (tão ladrão é o que assalta a vinha como aquele que fica ao portão a vigiar) se apresente a sufrágio isento e limpo como qualquer cidadão sem cadastro.

Trump já disse e reafirmou que tenciona, além do mais, retirar o apoio aos europeus unidos pela democracia, incumprindo os compromissos assumidos com os outros membros da NATO e reforçando os seus apoios aos desígnios de Putin, que sistematicamente recorda aos europeus ocidentais que o poder nuclear de que dispõe é para ser usado quando e como este Czar entender. 
Como reagirão os europeus perante a concretização desta ameaça? Ou, simplesmente, perante esta ameaça respaldada por Trump? Resigna-se e submete-se? 
Quanto vale a liberdade, quanto vale a democracia, para a parte eurocéptica e a parte eurófaga dos membros da União Europeia?
Valem alguma coisa?

Thursday, October 10, 2024

O ASSALTO À DEMOCRACIA COM UM ABRAÇO DE PUTIN

Em reunião plenária do Parlamento Europeu, Viktor Órban, que preside, por inerência do cargo como primeiro-ministro da Hungria, preside ao Conselho da União Europeia durante o semestre a decorrer  de 1 de Julho até 31 de dezembro deste ano, apresentou as suas prioridades durante o período em que se manterá no cargo.

As opções políticas de Órban são sobejamente conhecidas e situam-no junto de todos os que têm como ideologia mestra o poder autocrático, que se alastra como mancha de óleo sobre os valores democráticos, admiradores de Trump a Putin, sem disfarce, inimigos da Europa. São eurófagos, - referidos aqui -  carunchos que penetraram nas estruturas das instituições europeias, para se alimentarem delas e as destruírem.
Órban é um eurófago posicionado numa função que será tanto mais influente quanto os dois outros titulares de cargos cimeiros, Presidência do Conselho Europeu, que passará a ser ocupada por António Costa a partir do próximo mês de dezembro, a Presidência da Comissão Europeia, ocupada por Ursula von der Leyen, reeleita recentemente por um novo mandato de 5 anos.
António Costa entrará em funções com Viktor Órban de saída; até lá, com o actual Presidente do Conselho Europeu, o pusilânime belga Charles Michel, Ursula von der Leyen terá de enfrentar as investidas de Órban. 
Uma tarefa que parece estar bastante bem ao alcance dela. 
Na reunião do plenário do Parlamento Europeu, anteontem, para apresentação, adiada por razões de catástrofes naturais ocorridas na Europa central, das prioridades da Hungria (leia-se de Órban) na presidência rotativa da União Europeia, Órban reafirmou o que tem dito em matérias que conflituam com os valores democráticos que sustentam a União Europeia, e foi muito claro no seu pendor para se posicionar ao lado de Putin e Trump, inimigos da UE e da NATO. 

Ursula von der Leyen assumiu a defesa dos valores de uma Europa livre, da forma frontal, e encostou Órban ao canto onde ele deposita os seus interesses pessoais evidenciando-lhe como num espelho colocado à frente do autocrata húngaro as contradições e as suas traições ao povo húngaro, que ele, apesar de nascido em 1963, certamente não ignora: a amordaça, o exílio, os tormentos,  as mortes  sofridas pela geração dos seus pais, perpetradas por aqueles de que Putin hoje se reclama sucessor. 


... correlacionado
 
Em 2012 coloquei aqui um comentário a sobre um artigo editorial do Washington Post desse dia - Assault on Democracy - acerca das ameaças que impendem sobre a Hungria, membro da União Europeia e da NATO. Um tema que já várias vezes abordado neste caderno de apontamentos, a última das quais aqui - O abraço de Putin -.

               O símbolo da revolução: a Bandeira da Hungria com o emblema comunista cortado

"Na sequência de uma revolta revolta popular espontânea, iniciada a 23 de outubro de 1956, contra as políticas impostas pelo governo da República Popular da Hungria e pela União Soviética, em 4 de novembro, um grande exército soviético (31550 militares, 1130 tanques) invadiu Budapeste e outras regiões do país. A resistência húngara continuou até 10 de novembro. Mais de 2,5 mil soldados húngaros e cerca de 700 soldados soviéticos foram mortos no conflito, tendo 200 mil húngaros fugido, passando a ser refugiados."

"Em 31 de Maio de 1963, nasce Viktor Orbán". 
Orbán tornou-se conhecido nacionalmente depois de fazer um discurso no enterro de Imre Nagy em 1989 e outros mártires da revolução de 1956, no qual exigiu abertamente que as tropas soviéticas deixassem o país"
"Em dezembro de 2021, tornou-se o chefe de governo com mais tempo em exercício na UE"
"Ao longo da sua trajetória política, Orbán adotou uma retórica nativista e social-conservadora, sendo considerado um político de extrema-direita por analistas."

 " No final da década de 1980, a Hungria foi um dos primeiros países da órbita soviética a procurar dissolver o Pacto de Varsóvia e a evoluir para uma democracia multipartidária e para uma economia de mercado. As primeiras eleições livres nessa nova fase da história da Hungria foram realizadas em 1990, onde, com poucos votos, os socialistas foram rechaçados. Mas, em 1994, voltaram ao poder, apoiados pela queda da qualidade de vida e da economia húngara. Desde então, socialistas e centro-direitistas disputam o poder político na Hungria. Seguiu-se de uma aproximação com o Ocidente que levou o país a aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1999 e à União Europeia em 2004."

Saturday, September 28, 2024

PODE UM (EX) BOMBEIRO INCENDIAR O MUNDO?

A pergunta não tem intuitos sensacionalistas porque decorre do muito diversificado sistema de eleição do presidente dos Estados Unidos da América, que não está sujeito a regras idênticas em todos os EUA e também não são claras as regras de validação da votação sobretudo nos casos de votação antecipada por correspondência, já a decorrer. Em qualquer caso persistem condições para emergirem dos resultados da votação em 5 de novembro confrontos irredutíveis, incompreensíveis na democracia mais antiga da era moderna e, ainda, a maior potência mundial. 

Em 21 de dezembro do ano passado, coloquei uma nota neste caderno de apontamentos -  BIBEN NÃO SERÁ REELEITO, TRUMP TAMBÉM NÃO - sustentada num artigo publicado aqui, "Why neither Biden nor Trump will be the next president".

Para já, metade da previsão (ou profecia?) está cumprida: Biden não será reeleito Cumprir-se-á a outra parte com a não eleição de Trump?
A 37 dias da data das eleições, as sondagens não colocam nenhum dos candidatos, Trump ou Harris, em posição claramente vencedor.
 
Pode ser qualquer um deles, segundo uma longa lista de sondagens publicada ontem em diversos media.
Para cerca de metade dos norte-americanos a incerteza evidenciada nestas sondagens é preocupante para os democratas, favoráveis à continuidade de um sistema democrático-liberal, para cerca de outros tantos, entusiastas de um poder presidencial autocrático, é excitante a expectativa de um retorno de Trump à presidência.
Em qualquer dos casos não é, maioritariamente, sentida pelos norte-americanos a ameaça para o futuro de uma Europa livre de autocracias a eleição de Trump, com a consequente promessa deste de terminar o apoio norte-americano à Ucrânia, entregando-a a Putin e que, faça Putin o que entender aos países  da União Europeia, terá a sua bênção. 

É a propósito desta incerteza que teve repercussão expressiva o facto do senador Michael McDonell, do  Nebraska, com antepassados irlandeses, católicos, democratas, se ter registado recentemente no GOP republicano por discordar dos democratas em temas fracturantes: aborto, opção de orientação sexual, imigração. Como o Nebraska nomeia os seus representantes no Congresso por votação no congresso do Estado, um voto do ex-bombeiro desequilibra o empate e favorece Trump que pretende alterar as regras de votação em vigor naquele Estado.
Este senador terá, entretanto, desiludido Trump, comprometendo o seu futuro político, recusando apoiar alterações quando as eleições se encontram tão próximas.


 
Por outro lado, Trump e as suas tropas já começaram a movimentar-se no sentido de inventar situações para negar a validade dos resultados das eleições se não as vencer. Em causa as regras de votação pelo correio, já em curso, um meio essencialmente utilizado pelos democratas.
Não obstante estas intenções mal disfarçadas de Trump, este está a indicar aos seus apoiantes que utilizem também eles a votação pelo correio.
 
 
Chegados aqui, agiganta-se a probabilidade de, num mundo mais do que nunca antes na história da humanidade, a estupidez humana poder auto destruir-se e destruir todos os seres vivos no planeta Terra. 
O voto do ex-bombeiro, como qualquer outra causa aparentemente irrelevante, pode atiçar o rastilho de uma guerra nuclear de consequências incomensuráveis. 

Ainda anteontem Putin voltou a ameaçar o Ocidente com o uso de armas nucleares.
Ora, declaradamente, Trump apoia Putin. 
E Putin não esconde a sua ambição de submeter a Europa democrática ao seu dicktat.

 
Mas há quem não acredite ou não queira acreditar.
O certo é que, por todo o mundo ocidental, se alarga a mancha dos extremismos, de esquerda e de direita.
Que se tocam, como se sabe. 
Aconteceu o mesmo há mais de cem e há mais de oitenta anos. Com uma enormíssima diferença: a criatividade destrutiva da espécie humana tinha então atingido limites ínfimos quando comparados com os que hoje estão ao dispor da estupidez humana.  
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Tuesday, August 13, 2024

DEPOIS DA FESTA

Paris foi uma festa. E agora?

Uma abordagem serena, incontestável, de Teresa de Sousa sobre Paris, a Europa, o Mundo, hoje, que não agradará aos eurófagos, aqueles que afirmando-se sempre estar deste lado sustentam-se sempre em um qualquer mas para equilíbrio das suas convicções profundamente petrificadas. 

Quem não usa nem precisa de conjunções adversativas porque nunca deixaram de estar do lado de lá onde nasceram as suas deformações morais totalitárias são aqueles para os quais, por exemplo, "o regime da Coreia do Norte é o regime que o próprio povo coreano decidiu para si".
 
Subentenda-se que, só por lapso, o Secretário-geral do PCP não considera nesta afirmação, muitas vezes reafirmada, que o povo coreano, são cerca de 26 milhões de habitantes em 150 mil km2, na Coreia do Norte, mais cerca de 52 milhões em 100 mil km2 na Coreia do Sul.
A Coreia do Sul, posiciona-se  em 19º. lugar no HDI, índice de desenvolvimento humano (relatório UNDP das Nações Unidas). Portugal na 42ª.
Da Coreia do Norte, o mesmo relatório só regista a esperança de vida: 74 anos: Na Coreia do Norte, 84, um dos mais elevados do mundo.
Pois não. O Secretário-geral do PCP não quer saber o que dizem os relatórios sobre o desenvolvimento humano das Nações Unidas. Os eurófagos também não. Se não estão do mesmo lado, parece.
Sendo governados a Norte por um regime totalitário, aliás dinástico, e a Sul por um regime de democracia liberal onde a expressão de pensamento é livre, o povo da Coreia do Norte escolheu ser governado por uma monarquia de poder absoluto?
 
Por que razão perco tempo com o que diz Paulo Raimundo?
Porque ainda há quem continue a querer fazer-nos crer que o partido comunista é importante para a democracia portuguesa.
Não é, nem nunca foi.

Correl. - Da Venezuela à Ucrânia, a política externa continua a deixar o PCP em contracorrente