A
primeira vez que li sobre castas indianas quedei estarrecida com a noção de impureza em
que se baseiam e que não sei quem criou, mas há-de ter sido um homem; nenhum deus, por menor que seja, conceberia tão
ignóbeis diferenças entre seres humanos. Foi com sumo interesse que li sobre os
intocáveis (dalit), seres que, como o nome indica, não podiam relacionar-se com
outras castas por serem indignos e tão impuros que na sua presença recuavam
varrendo o chão que pisavam, apagando assim o vestígio dos passos. Hoje é
diferente. A lei aboliu o sistema de castas e é respeitada nos meios citadinos.
Mas a extensão da Índia prolonga a crueldade do preconceito em zonas rurais.
Pergunto-me
às vezes se, na vida familiar das mulheres portuguesas, não existirão também vestígios das absurdas regras
dos intocáveis. Vejamos, se um homem sai a passeio, apenas sai. E por tal razão
é, por regra, pontual, sai quando sai, chega quando chega. É fácil desprender-se
daquilo a que nunca esteve profundamente ligado. Mas a mulher sai e passeia com
a casa nas costas, que é como quem diz, deixa tudo em ordem para quem fica. E é
bastante. Mais: quando regressa, trata, como os intocáveis, de apagar a saída. Varre
os próprios passos. Põe tudo tão no lugar que parece não se ter ausentado.
E,
portanto, recuada à função e cumprido o papel de intocável, selei o dia com um
arroz doce de mexida bem lenta. Sentada num banco alto junto ao fogão. Ajuizando sobre a magnitude da vida moderna.
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