O
espírito de Natal entrou no quotidiano. Há mais paciência nas filas para a
caixa, lembramo-nos que a pessoa atrás de nós só leva duas unidades e
deixamo-la passar à frente, sorrimos e desejamos Boas Festas a quem se cruza
connosco. Na rua, uma primavera friorenta
sentou-se e cruzou a perna, diz que fica, pelo menos, até ao nascimento do
divino bebé. Os mais antigos olham árvores de natal king size, plantadas bem a meio das praças, e estranham a diacronia
climática enquanto as pistas de patinagem e neve artificial enchem e proliferam.
Alguns abanam descréditos com a cabeça resignada, a murmurar por entre as faltas
de dentes, a vida já não é o que era. E não é mesmo.
Tudo passa como em écran, coisa exterior que não bole comigo. Mas tu chegas e
penso na árvore que anualmente enfeitavas. Julgo que te não importes de
continuar. Peço. Fazes cara feia. Estranho. Pergunto admirada se não gostas de
a fazer; e tu que não, não gostas nem um pouco. Sorrio e penso que a fazes há
mais de vinte anos, começaste comigo, terias três anitos esticados
em bicos de pés para colocar uma bola ou pendurar uma maçã nos ramos mais
baixos da árvore. Certa vez, interrompi a cerimónia e quando voltei tinhas colocado
todos os enfeites no rés do chão do pinheiro. Depois, fui-te deixando sozinho,
a vigiar-te da porta sem ser notada. Até que apenas te dizia onde estavam as
caixas e tu tratavas de tudo. E afinal, não mo disseste antes, mas não gostas.
E agora que sei, respondo que a faço eu. Creio até que peço desculpa por não
ter notado que a fazias a contragosto. Não acrescentas e não volto a
pensar no assunto. Mas de repente já estás na sala rodeado de caixas, a árvore no
sítio e dentro de um vaso. Colocas as bolas, vais pelas luzes que apagam e
acendem, programa-las e pões a piscar. Sem palavras, fazes o meu Natal. O que
eu gosto de ti, meu raio de luar! Tanto, que tenho medo que tropeces até mesmo numa gota de água (o poeta bem o sabe).
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