sábado, 22 de dezembro de 2018

Dia Vinte


O espírito de Natal entrou no quotidiano. Há mais paciência nas filas para a caixa, lembramo-nos que a pessoa atrás de nós só leva duas unidades e deixamo-la passar à frente, sorrimos e desejamos Boas Festas a quem se cruza connosco. Na rua, uma primavera friorenta sentou-se e cruzou a perna, diz que fica, pelo menos, até ao nascimento do divino bebé. Os mais antigos olham árvores de natal king size, plantadas bem a meio das praças, e estranham a diacronia climática enquanto as pistas de patinagem e neve artificial enchem e proliferam. Alguns abanam descréditos com a cabeça resignada, a murmurar por entre as faltas de dentes, a vida já não é o que era. E não é mesmo.
Tudo passa como em écran, coisa exterior que não bole comigo. Mas tu chegas e penso na árvore que anualmente enfeitavas. Julgo que te não importes de continuar. Peço. Fazes cara feia. Estranho. Pergunto admirada se não gostas de a fazer; e tu que não, não gostas nem um pouco. Sorrio e penso que a fazes há mais de vinte anos, começaste comigo, terias três anitos esticados em bicos de pés para colocar uma bola ou pendurar uma maçã nos ramos mais baixos da árvore. Certa vez, interrompi a cerimónia e quando voltei tinhas colocado todos os enfeites no rés do chão do pinheiro. Depois, fui-te deixando sozinho, a vigiar-te da porta sem ser notada. Até que apenas te dizia onde estavam as caixas e tu tratavas de tudo. E afinal, não mo disseste antes, mas não gostas. E agora que sei, respondo que a faço eu. Creio até que peço desculpa por não ter notado que a fazias a contragosto. Não acrescentas e não volto a pensar no assunto. Mas de repente já estás na sala rodeado de caixas, a árvore no sítio e dentro de um vaso. Colocas as bolas, vais pelas luzes que apagam e acendem, programa-las e pões a piscar. Sem palavras, fazes o meu Natal. O que eu gosto de ti, meu raio de luar! Tanto, que tenho medo que tropeces até mesmo numa gota de água (o poeta bem o sabe).   

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