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junho 22, 2025

Sua Excelência, de Corpo Presente - Pepetela

Título: Sua Excelência, de Corpo Presente
Ano da edição original: 2018
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote


"Num enorme salão deitado num caixão jaz um ditador africano. Está morto, mas vê, ouve e pensa. Assim estirado, aprisionado num corpo sem vida, mas na posse das suas faculdades intelectuais, só lhe resta entreter-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram diversos familiares, a primeira-dama (e as outras mulheres e namoradas), os numerosos filhos e as altas dignidades do Estado. Ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a presidente e os muitos anos como chefe de Estado, vai-nos revelando os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e os vários abusos permitidos a quem o detém.
E, como percebe tudo o que se passa à sua volta, e é muito difícil a um ditador deixar de o ser, Sua Excelência não só vai tecendo considerações sobre os presentes e os seus interesses políticos, como tenta adivinhar os seus pensamentos e maquinações. Pois, mesmo morto, não deixará a sua sucessão em mãos alheias, e nela tentará imiscuir-se através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida."

O ditador de um país africano morre. O ditador, por algum motivo desconhecido por todos os envolvidos, embora esteja morto e não existam dúvidas relativamente a isso, permanece numa espécie de limbo, e consegue ver e ouvir tudo o que se passa à sua volta. Tem consciência de quem foi, de que morreu e de que está a assistir ao seu próprio funeral. Não está assustado mas sim divertido e muito curioso para saber o que realmente pensam sobre ele. Quem apareceu e, principalmente quem está ausente. 
Enquanto decorrem as cerimónias, relembra a sua vida e todos os que se cruzaram consigo. Os aliados de sempre, os muitos amores, os filhos, os amigos e os inimigos. Recorda a forma como chegou à posição de Chefe de Estado e como se manteve por lá tantos anos.

Pepetela não desilude. Este é um tema de que o escritor gosta. Caminha pelos meandros do poder, de homens que governam para si e não para quem os elege. Homens que utilizam o seu poder para enriquecer, sabendo que não pode ser de outra maneira. Se não fossem eles seriam outros a fazer exatamente o mesmo. O sistema está podre e ninguém está interessado em torná-lo melhor e mais justo.
Protegem-se a si e aos seus, derrubando todos os que sintam que os podem atraiçoar.

Não sendo o meu livro favorito de Pepela, é um livro divertido e que se lê bem.

Recomendo sem qualquer ressalva.

Boas leituras!

Excerto (pág. 9):
"Estou morto.
Estou morto, de olhos cerrados, mas percebo tudo (ou quase) do que acontece à minha volta. Sei, estou deitado dentro de um caixão, num salão cheio de flores, as quais, em vida, me fariam espirrar. As pessoas não sabem que flores de velório cheiram mal? Sabem, mas a tradição é mais forte e velório sem flores é para pobre.
Ora, não somos pobres, dominamos uma nação.
Estou morto, no entanto, posso escutar, entender os dizeres, mesmo os sussurros e, em alguns casos, adivinhar pensamentos.
Um grupo cochicha lá atrás na multidão. A distância e outros sons e ideias partilhando o éter não permitem perceber a razão das piadas em surdina, ou estarão a conspirar governos e lideranças, ou a prever o futuro. Esses são inimigos há muito camuflados, pois se divertem ao me verem estirado em fato preto no caixão. É cedo para revelar nomes, mas conheço todos e nenhum me surpreenderá. Sempre os avaliei como hostis, ou a minha polícia política não valeria os altos salários sempre providos a tempo e alguns presentes caros pelo Natal. Deixei-os intrigarem durante anos, eram inócuos. Sem mim na tribuna, talvez ganhem alguma força, daí a alegria deles. Ou o que virá para o meu lugar dá cabo do seu pescoço com um assopro. Uma coisa é certa, no momento do meu enterro, também se prostrarão em soluços, alguns até se ajoelharão, em gesto de orfãos desamparados. E cantarão saudades antecipadas. De preferência diante de jornalistas e televisões.
É a natureza das coisas."

maio 29, 2022

Se o Passado Não Tivesse Asas - Pepetela

Título: 
Se o Passado Não Tivesse Asas
Ano da edição original: 2016
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

“A terrível luta diária pela sobrevivência dos meninos de rua, em plena guerra, contrasta com a fartura desmesurada dos jovens da nova burguesia de Luanda.
Himba, treze anos acabados de fazer, durante a fuga do Planalto Central para Luanda, motivada pela guerra, perde-se do resto da família, vendo-se de repente sozinha no mundo. Sem outros meios que não sejam a sua inteligência, consegue chegar à capital, onde conhece Kassule, um menino de dez anos que perdeu uma perna devido a estilhaços de uma mina. Ambos órfãos vítimas da guerra, sem teto e dependendo do lixo dos restaurantes, unem-se para conseguirem subsistir, lutando pela sobrevivência dia a dia. Assim nasce uma bela amizade.
Sofia, que há muito aguarda uma oportunidade para mudar de vida, descobre que tem um sentido muito apurado do gosto. Numa aposta arriscada, aceita gerir um restaurante, onde dá conselhos sobre temperos. À medida que o restaurante vai ganhando clientes da classe alta de Luanda, também a ambição de Sofia vai sendo alimentada. E está disposta a agarrar todas as oportunidades que lhe garantam uma vida melhor, a ela e ao irmão Diego, um artista de rua que sonha expor em galerias.

Se o Passado não Tivesse Asas cruza duas histórias, duas grandes personagens femininas, numa narrativa original com um desfecho imprevisível, que retrata os últimos vinte anos da história de Angola.”

Se o Passado Não Tivesse Asas é um livro duro, sobre a infância num país em guerra, num país pobre e desigual e sobre os adultos que são o resultado de crescer nestas circunstâncias.

Quando a guerra se aproximou da povoação onde Himba vivia, a família decidiu que estava na altura de fugirem. Himba tinha treze anos quando se viu, na fuga e após um ataque ao autocarro onde seguia com a família, perdida e sozinha. Com o ataque, afastou-se dos pais e nunca mais os conseguiu encontrar. Com algum esforço conseguiu chegar à cidade, na esperança de que os pais lá estivessem à espera dela, tão desesperados por encontrá-la como ela estava por voltar a vê-los. 
No entanto, o que Himba encontra na cidade grande é barulho, confusão, indiferença e mais miséria. Vê-se obrigada a dormir na rua, junto de outras crianças, também elas vítimas da guerra, perdidos das suas famílias, vagueiam pelas ruas a pedir, a roubar a fazer o que é necessário para sobreviverem mais um dia.
É lá que conhece Kassule, um menino mais novo que ela e que está na rua há mais tempo que Himba. Kassule não tem uma perna, perdeu-a quando pisou uma mina, no entanto, é um miúdo cheio de energia, com boa disposição e muito honesto. Percebendo que ela está com dificuldades em adaptar-se à nova realidade, acolhe-a sob a sua alçada e os dois acabam por se tornar inseparáveis.
Pouco tempo depois, os dois decidem, deixar a cidade e partem para uma zona costeira, onde a competição por comida, na teoria, será menor. E é lá que vivem o melhor e o pior das suas curtas vidas. Conhecem o amor e o ódio, a paz e a violência, riem e choram. 

Paralelamente conhecemos a história de Sofia e Diego, dois irmãos a viver em Luanda, num país que já não está em guerra. 
Sofia trabalha num restaurante, onde é responsável principalmente pela cozinha e por toda a comida que é servida aos clientes. Tem um dom inigualável para os temperos e uma intuição que vai tornando o restaurante, pouco a pouco, numa referência, que começa a atrair a atenção da classe mais alta de Luanda. É inteligente e ambiciosa e, embora não seja de todo uma má pessoa, é uma sobrevivente que tem uma visão, por vezes um pouco distorcida do que é correto ou não fazer para se atingirem determinados objetivos.
Diego, por outro lado, é um artista. Pinta quadros e ganha algum dinheiro a vendê-los na rua aos turistas. Tem a noção de que não é muito bom naquilo que faz, mas vive uma vida despreocupada. Não é ambicioso e parece ter até alguma aversão ao dinheiro. Quer ganhar apenas o suficiente para viver o dia-a-dia. 
Os dois vivem juntos e, embora sejam muito diferentes um do outro, a vida vai correndo com alguma normalidade.

Se o Passado Não Tivesse Asas talvez fosse possível deixar para trás aquilo que nos tornou em adultos menos simpáticos, menos capazes e menos seguros. Se fosse possível apagar da nossa história aquilo que nos prende, que não nos permite avançar, voar e sermos mais felizes, aposto que muito pouca gente escolheria manter esse passado presente nas suas vidas. Por vezes o passado torna-nos melhores pessoas, outras vezes só nos torna menos capazes.

Gostei muito deste livro, porque está muito bem escrito e porque as personagens são difíceis de esquecer. Este foi leitura das férias de Verão do ano passado (estou muito atrasada nas minhas opiniões aqui no blogue, eu sei) e, tendo passado quase um ano, ainda guardo na memória, com carinho a Himba, o Kassule, a Sofia e o Diego. A minha memória não é grande coisa, por isso, para mim, o facto de ainda os ter tão presentes diz muito sobre o livro.

Pepetela, mais uma vez, a não desiludir. Acho até que este está no meu top três dos livros do Pepetela.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras.


Excerto (pág.246):

“Não sentia dores, mesmo se o sangue não parava de sair do nariz por causa das chapadas. O corpo estava feito para ser torturado, por isso era indiferente doer ou não doer, qual era a diferença? Quando a dor é constante, deixa de ser sentida. E assim queria ficar, imune à dor, física e à outra, a da perda. Já tinha perdido tudo ou quase, pois lhe restava Kassule. Era pouco?
Era imenso.
Mas também queria mais. Mentira. Agora já não desejava mais nada, ficava satisfeita com o que tivesse, só tinha de andar, andar, evitar pensar, evitar fazer comparações com outras vidas, o passado se enterrava automaticamente, inútil fazê-lo ressuscitar, pois só trazia sofrimento, saudade, angústia. Devia agradecer cada minuto de vida e viver assim, cada minuto de sua vez.
O futuro não existe para gente como nós, só o minuto em que ainda cá estamos.”

fevereiro 03, 2019

O Tímido e as Mulheres - Pepetela

Título original: O Tímido e as Mulheres
Ano da edição original: 2013
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"Estamos em Luanda nos dias de hoje.
Acompanhamos Heitor, um escritor em início de carreira, o tímido.
Ouvimos a voz quente de Marisa, responsável por um programa de rádio de grande audiência, que a todos encanta e seduz.
Conhecemos Lucrécio, seu marido, uma mente brilhante aprisionada numa cadeira de rodas.
É este o trio que une as diversas histórias e personagens deste romance. Além dele, encontramos ainda os amigos de Heitor, o Senhor do Dia 13 e os habitantes de um musseque na periferia de Luanda: a grande família de dona Luzilu e, em especial, a bela Orquídea, outra das poderosas mulheres que habitam este livro. Todos eles nos conduzem por uma cidade que fervilha e cresce a um ritmo alucinante, onde os homens se apaixonam, sonham e desesperam, procuram novos caminhos, novas formas de vida e novas soluções.

Com a sua habitual mestria, Pepetela volta a surpreender-nos com este romance, desenhando uma paisagem imparcial e objetiva da atual sociedade angolana, fruto de muitas mutações culturais e políticas derivadas da sua história recente."

O Tímido e as Mulheres leva-nos para uma Luanda atual, cheia de novidades, progresso, uma cidade em franco crescimento. À semelhança de outras cidades que passaram ou estão a passar por processos similares, Luanda cresce a duas velocidades. Existem pessoas que não têm condições para acompanhar todas as mudanças que surgem, umas por razões sócio-económicas outras por estarem presas a um tempo e formas de pensar que deixaram de ser compatíveis com o mundo atual.
Um mundo onde as mulheres trabalham e querem ser igualmente reconhecidas pelo trabalho que fazem, onde assumem o controlo das suas vidas, da sua sexualidade e dos seus corpos. Um mundo onde os homens têm de se adaptar a esta realidade e onde as mulheres tentam conciliar este novo mundo, cheio de oportunidades, com o papel tradicional que sempre lhes esteve atribuído. Embora não tenham de ser necessariamente incompatíveis, a verdade é que se toda a sociedade não estiver estruturada e orientada para a igualdade, continuará a existir uma pressão extra sobre as mulheres que castra o seu futuro, que as mantêm na linha da frente da pobreza, da baixa escolaridade e por isso mais frágeis e dependentes.

Luanda é uma cidade em transformação, onde todos os dias nasce mais um negócio, mais um prédio de escritórios ou de habitação. Está a crescer para a periferia, a alargar as suas fronteiras e a afastar cada vez mais todos os que, não tendo condições para viver na grande cidade, todos os dias têm de deixar as suas casas, apanhar os decrépitos candongueiros para poderem trabalhar e regressar ao fim do dia, nas mesmas condições. Luanda é uma cidade deslumbrada pelas aparências e refém da construção desenfreada, sem planeamento, sem outra estratégia que não seja a do dinheiro rápido, menosprezando as necessidades básicas de todos o que nela vivem ou trabalham.

Esta nova Luanda é-nos apresentada através de Heitor, um jovem escritor em início de carreira. Heitor é o tímido desta história. As mulheres são, Marisa uma mulher inteligente, estrela de um programa de rádio, dona de uma voz quente inconfundível, é extremamente sedutora e muito pouco acessível e Orquídea, uma jovem universitária, determinada, com sentido de humor e, mais uma vez, muito bonita.
É através desta espécie de triângulo amoroso que vamos conhecendo Luanda e as diferentes pessoas que a habitam, os seus medos, os seus sonhos, as suas lutas pessoais, as suas dúvidas e as suas ambições.

Pepetela é um dos meus escritores favoritos. Sei que, quando pego num livro dele a experiência vai ser boa. Às vezes é mesmo muito boa e acabo o livro com a sensação de que li algo que me mudou de alguma forma. Outros não têm esse efeito em mim, não deixando de ser livros que, para mim, são sempre bons! O Tímido e as Mulheres é um destes últimos casos, não me deixou arrebatada, mas é bom, como tudo o que li de Pepetela.

Recomendo, naturalmente.

Boas leituras!

Excerto (pág.213):
" - Pode haver alguma verdade na crítica que os estrangeiros fazem à nossa baixa produtividade, mais-velho. Está explicado, as sociedades camponesas têm outros rítimos de trabalho, embora não seja justo dizer que são imbumbáveis, como já ouvi. Fazem o que têm a fazer, só com o seu tempo definido pela natureza. E são sobretudo as mulheres quem mais trabalha.
Uma vénia em relação às donas, as quais sorriram. As três. Ganhou fôlego para continuar:
 - Os nossos trabalhadores abandonaram o campo há poucas gerações, a maior parte ainda cresceu nele. Também as relações sociais e familiares são vitais nessas sociedades precárias, sempre em risco. Daí a solidariedade forte, o parentesco fundamental, nunca se sabe quando vamos precisar do apoio da família ou do grupo social. Por isso ninguém pode faltar a um óbito de um conhecido para ir trabalhar, é contra as normas da convivência. A razão é portanto cultural. Mas pode ser modificada aos poucos. Se houver incentivos para que se mudem os costumes. Leva tempo. Com bons salários, boas oportunidades de promoção, os costumes começam a ser menos rígidos..."

novembro 23, 2017

As Aventuras de Ngunga - Pepetela

Título original: As Aventuras de Ngunga
Ano da edição original: 1972
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"Escrito em 1972, numa época em que Angola vivia sob o jugo colonial, esta é a história de um jovem guerrilheiro do MPLA, de caráter determinado e reto, que se faz homem aprendendo a pensar pela própria cabeça. Uma história pungente é terna que não deixará nenhum leitor indiferente."


No dia em que Pepetela me desiludir vou ficar perdida.

Este é mais um pequeno grande livro de Pepetela que se lê num instante e nos enche o coração de angústias mas também de esperança no Homem e nas nossas capacidades.
Numa Angola em plena guerra com Portugal, Ngunga é um jovem guerrilheiro do MPLA. Ngunga é orfão,  como muitos naquela época. É querido por todos e é reconhecido pela rectidão, pela honestidade e pela boa-vontade. Não se limita a obedecer e questiona o que se passa à sua volta, sem ter medo da resposta.
As Aventuras de Ngunga é uma espécie de conto que se foca em temas como a importância da educação e da necessidade de todos questionarmos a verdade instituída. A importância do espírito crítico e de pensarmos pela nossa cabeça e não pela cabeça da pessoa com a patente mais elevada. Não devemos nunca perder a vontade de mudar o mundo, mesmo que seja apenas o mundo na nossa "aldeia".

Gostei muito como já seria de esperar e, naturalmente que recomendo.

Boas leituras!

Excerto:

(pág. 102)
"Oh, este Mundo está todo errado! Nunca se pode fazer o que se quer!
- Hei de lutar para acabar com a compra das mulheres - gritou Ngunga, raivoso. - Não são bois!
- Para isso precisas de estudar. Eu não sei sobre o alambamento. Se se faz, os meus avós ensinaram-me isso. Mas, se achas que está mal e que é preciso acabar com ele, então deves estudar. Como aceitarão o que dizes, se fores um ignorante como nós?"

(pág. 110)
"Talvez Ngunga tivesse um poder e esteja agora em todos nós, nós os que recusamos viver no arame farpado, nós os que recusamos o mundo dos patrões e dos criados, nós os que queremos o mel para todos.
Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?
Como as árvores, como o massango e o milho, ele crescerá dentro de nós se o regarmos. Não consigo água do rio, mas com ações. Não com água do rio, mas com a que Uassamba em sonhos oferecia a Ngunga: a ternura."

dezembro 12, 2012

A Montanha da Água Lilás - Pepetela

Título original: A Montanha da Água Lilás
Ano da edição original: 2000
Autor: Pepetela
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"«O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou, fumando o seu cachimbo que ele próprio esculpiu em pau especial. Dizia a estória se passou aqui mesmo, nas serras ao lado, mas pode ser que fosse trazida de qualquer parte de África. Até mesmo do Oriente, onde dizem também há água lilás. Se virmos bem, em muitos lados pode ter uma montanha semelhante. Eu só escrevi aquilo que o avô nos contou, não inventei nada.»"

Que livro delicioso... Pepetela não pára de me surpreender e é cada vez mais um daqueles escritores que acreditamos não consegue escrever um livro mau. :)
A Montanha da Água Lilás é uma pequena fábula, um livro de "faz de de conta" com uma história que surpreende por ser tão certeira, tão séria e ao mesmo tempo tão divertida.

No tempo em que os animais falavam existia uma montanha onde habitavam os lupis. Os lupis viviam separados dos outros animais da planície e alimentavam-se dos frutos que colhiam das muitas árvores da montanha. Eram umas criaturas pequenas e reconchudas, com o corpo coberto de pêlo cor de laranja. Uma espécie de macacos, com características que nos levam a pensar neles como os antepassados longínquos dos Homens.
Os lupis distinguiam-se uns dos outros pela inteligência e pelo tamanho. Os mais inteligentes eram os cambutinhas, os mais pequenos dos lupis, era deles que partiam todas as ideias. Os mais trabalhadores eram os Lupões, maiores e menos dados às coisas do pensamento, eram fisicamente mais capazes do que os cambutinhas.
Os lupis viviam felizes, comiam a muita fruta da montanha e viviam pacificamente, sem motivos para discutir. Por um acaso da evolução, algumas das crias lupis começam a crescer mais do que os seus progenitores. Estes novos lupis para além de serem fisicamente maiores eram também muito preguiçosos e violentos. Eram completamente incapazes de sobreviver sozinhos, porque não conseguiam subir às árvores para colher fruta e aproveitavam-se da boa vontade dos seus semelhantes (parece-vos familiar?), para se alimentarem. Não contribuíam em nada para a vida na montanha, a única coisa que sabiam fazer era perturbar a paz na montanha. Por serem tão diferentes dos restantes lupis começaram a ser chamados de jacalupis, porque até na maneira como expressavam o seu estado de espírito eram diferentes dos outros lupis.
Embora os jacalupis tenham vindo complicar um pouco a vida simples que até aí se vivia na montanha, os lupis foram-se adaptando às novas circunstâncias e aceitaram, estes seus semelhantes de forma pacífica.
A vida seguia sem percalços, comiam a fruta das árvores e, os momentos de lazer continuavam a ser passados no vale da poesia em contemplação da natureza.
Um dia, para surpresa de todos, da montanha que habitavam desde que se lembravam, começa a brotar uma espécie de água, de cor lilás e com um perfume inebriante que deixa quem se aproxima dela mais feliz. Os lupis ficam, naturalmente, muito intrigados com a água lilás e os lupis cientistas começam logo a investigar as potencialidades de tão extraordinário líquido. Será que se pode beber? Será que se pode tomar banho nela? Se apenas cheirá-la os deixa tão felizes... O aparecimento de um bem a que mais nenhum animal tem acesso e, ainda por cima, um que parece ter potencialidades infinitas, vai alterar a vida dos lupis para sempre. O lupão comerciante começa logo a conceber planos para rentabilizar o precioso líquido, os jacalupis tornam-se ainda mais violentos e preguiçosos, e o cambutinhas começam a parecer-se cada vez mais com escravos, embora estejam em maioria.
Acho que não é difícil perceber onde esta fábula de Pepetela quer chegar. :)

Depois de um livro tão extenso como Os Pilares da Terra, do Ken Follett, que embora me tenha dado muito gozo ler, quando comparado com este pequeno livro de Pepela, acaba por parecer tão pretensioso...

Soube-me mesmo muito bem voltar a Pepetela com este A Montanha da Água Lilás e é óbvio que o recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto:

"De repente do sítio de onde saiu a pedra, brotou muito timidamente um líquido escuro. O lupi-poeta inclinou-se para ver melhor e sentiu então o perfume que saía daquele líquido lilás. Era um perfume muito doce. Pôs o dedo no líquido e levou-o ao nariz. Que maravilha! Os odores de todas as flores estavam reunidos naquele cheiro único que logo o encheu de enorme alegria, ele que momentos antes quase explodia de irritação. Ajoelhou no chão e cavou à volta, alargando o buraquinho. O líquido começou a brotar em maior quantidade e o perfume intensificou-se. A alegria também. Ficou ali sentado no chão, ao lado da fonte, aspirando o perfume, todo feliz, esquecido mesmo de fazer o poema à Lua."

agosto 05, 2012

O Desejo de Kianda - Pepetela

Título original: O Desejo de Kianda
Ano da edição original: 1995 
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"«João Evangelista casou no dia em que caiu o primeiro prédio. No Largo do Kinaxixi. Mais tarde procuraram encontrar uma relação de causa a efeito entre os dois notáveis acontecimentos. Mas só muito mais tarde, quando a síndrome de Luanda se tornou notícia de primeira página do New York Times e do Frankfurter Allgemeine. Aliás João Evangelista casou às cinco da tarde, na Conservatória do Kinaxixi, e o prédio caiu às seis. A existir relação, parece claro ser o casamento a causa e nunca o suicídio do prédio. O problema é que as coisas nunca são tão límpidas quanto gostaríamos.»"

Este é um daqueles livros que se lêem de uma assentada. É pequenino, quase um conto a dar para o comprido. Não é o meu Pepetela favorito, aliás este não é o registo que mais aprecio no escritor, no entanto gostei bastante da história.

No dia de casamento de João Evangelista com Carmina, membro do Comité Central, tem início, em Luanda, um fenómeno que ninguém consegue explicar. No dia do casamento cai o primeiro prédio no Largo do Kinaxixi. Cair um prédio, sem razão aparente já seria de estranhar, quando a queda do prédio parece desafiar todas as leis da física o acontecimento torna-se um fenómeno. Como é que é possível que o prédio tenha caído lentamente, com todas as pessoas a chegarem ilesas ao chão? Estranho? Sim, no mínimo. Mais estranho só mesmo se a queda do prédio não for única mas o primeiro prédio do Largo do Kinaxixi que rui daquela forma. Pouco a pouco, todos os prédios do Kinaxixi vão caindo, sem que ninguém consiga encontrar uma razão lógica para o fenómeno que acaba por ser apelidado de Síndrome de Luanda. Um por um, os prédios de um bairro residencial recente, habitado pela classe média de Luanda, vai desaparecendo.
No bairro existe um prédio cuja construção nunca foi terminada e junto a ele existe uma espécie de lago, barrento e putrefacto. Cassandra é uma das muitas crianças que moram nesse prédio e apenas ela parece pressentir a razão do estranho comportamento dos prédios naquele bairro. Cassandra ouve uma voz que apenas ela consegue ouvir. A voz de Kianda, a figura que os angolanos crêem que habita em todos os lagos, rios e mares, uma sereia. O bairro do Kinaxixi foi construído em cima de uma lagoa, onde naturalmente habitava Kianda. A pessoas que assistiram à destruição da lagoa, contam que uma mafumeira, a mafumeira de Kianda, chorou sangue pelo cepo durante uma semana. Será que o Síndrome de Luanda não é apenas Kianda a fazer cumprir o seu desejo de restituir a lagoa ao seu sítio original? Será que a natureza está a reclamar o seu espaço novamente?
Enquanto a natureza reclama o seu direito à terra, ao seu espaço, os homens guerreiam e vivem deslumbrados pelo poder e pelo dinheiro e João Evangelista vive num mundo de fantasia. Alheio ao que se passa à sua volta, passa os dias a jogar jogos de estratégia no computador, construindo civilizações enquanto lá fora se vão destruindo alguns dos pilares da civiliação.

Mais uma história de Pepetela que toca o tema da guerra e da corrupção em Angola. Onde os ideais são facilmente postos de parte se o que está em causa são milhões de dólares. Por milhões de dólares alguém que sempre lutou pelo povo e do lado do povo que tem a oportunidade de servir esse mesmo povo nas mais altas esferas do poder político de Luanda, sucumbe à tentação e fica milionário com o negócio de compra e vendas de armas, que alimentam a guerra civil que estalou na sequência das eleições. As mesmas eleições que legitimam a presença desses representantes do povo permite que estes lucrem com o conflito que se inicia

Fazendo alguma pesquisa na Internet, descobri que o prédio em eterna construção existiu durante mais de trinta anos (http://www.diariodaafrica.com/2008/07/o-prdio-do-kinaxixi.html) tal como o Largo de Kinaxixi e a lenda da lagoa de Kianda.  



Gostei e recomendo!

Boas leituras!


Excerto:
"Era um cântico suave, doloroso, que uma criança um dia ouviu. Disse aos amigos, que riram. Agora a água canta? É tão bonito, mas tão triste, repetiu a criança. Cassandra de seu nome. (...) Cassandra insistia, os pais não quiseram ouvir o cântico. Os amigos riam, Cassandra pirou de vez, diziam. Então não é maluco quem ouve o que mais ninguém ouve, ou quem vê o invisível para os outros? E no entanto, o cântico subia, cada vez mais dorido, das águas escuras onde rãs e cacussos coabitavam no meio de plantas de folhas redondas. Cassandra deixou de falar nisso, por inútil. Mas muitas vezes se punha à beira da lagoa, ouvido atento, o pé ritmando a música. E a sua cara de menina entristecia como as flores ao fim da tarde."

O nome da criança, Cassandra, que ouvia a voz de Kianda, fez-me lembrar esta música do cantor espanhol Ismael Serrano:

janeiro 18, 2012

Muana Puó - Pepetela

Título original: Muana Puó
Ano da edição original: 1978 (escrito em 1969)
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"[...] Muana Puó uma história de amor num fundo de luta. Era ainda em abstracto, eu nunca tinha visto guerra na minha vida, por isso arranjei a simbologia com a máscara. [...] Vi a fotografia de um cartaz para um espectáculo da Miriam Makeba, com a Muana Puó... e fiquei fascinado. Foi amor à primeira vista. Fechei-me uma semana no quarto, todo branco, com o cartaz à frente e comecei a escrever sem saber o que ia escrever. [...] A estória é perfeitamente intemporal e muito simbólica. O livro foi escrito com a máscara à frente e é para ser lido assim, com a máscara à frente. A acção segue as linhas da máscara: o mundo oval, o rosto, o lago, a boca..."

Pepetela


Pepetela é dos escritores que ultimamente mais me tem surpreendido pela positiva. Os seus livros mais recentes são muito bons e as suas obras mais antigas são surpreendentes. Cada vez o acho mais versátil na forma como escreve, sem medo de evoluir. Muana Puó é o seu primeiro livro e é diferente de todos os que já li dele.
É uma obra cheia de metáforas, onde Pepetela conta uma história de amor, uma história de sonhos realizados e esquecidos. Uma história inquieta, de luta pelos sonhos, de luta por uma vida digna e pela felicidade. A realização de uma utopia, que nas palavras de Pepetela parece ao alcance de qualquer ser humano.

Muana Puó relata a dura subida ao topo da montanha, levada a cabo pelos morcegos, e a conquista de um lugar que, desde o início dos tempos, era pertença dos corvos.
Nesta parábola, os morcegos produzem o mel que os corvos consomem e, alimentam-se dos excrementos dos mesmos. Dos corvos apenas é esperado que grasnem, e isto apenas se eles o quiserem. Numa relação que pouco ou nada tem de simbiótica, os morcegos oprimidos pela soberba dos corvos, revoltam-se e iniciam uma luta pelo direito de verem o mundo aos seus pés, do topo da montanha.
Paralelamente a esta luta entre oprimidos e opressores, Pepetela relata a história de amor de dois jovens morcegos que participam na subida à montanha, na caminhada que mudará o mundo. Ao mesmo tempo que tentam lidar com os sentimentos confusos que os assaltam, tentam encontrar o seu lugar no mundo, mesmo que isso signifique cada um seguir o seu próprio caminho.

Muana Puó é um livro que se lê num piscar de olhos, não só por ser pequeno, mas principalmente porque a história, quase um conto, não convida a interrupções. Tem um ritmo muito próprio e que custa a quebrar quando se tem de deixar o livro de lado.
Está escrito numa linguagem muito africana e com momentos de verdadeira beleza literária, a fazer lembrar um pouco Mia Couto, não tanto na reinvenção da língua, típica deste escritor, mas na atmosfera de sonho que consegue criar com as palavras.

Gostei e recomendo, não só por ser do Pepetela, mas porque é um livro que continua tão actual como no ano em que Pepetela o escreveu, em 1969. Uma obra intemporal de um escritor que não pára de me surpreender.
Vale mesmo a pena reservar umas horinhas para leitura deste livro!

Boas leituras!


Excerto:
"Até que o pressentiu a seu lado. Bastaria virar-se prà direita, atravessar a montanha que os separava, e encontraria os seus olhos. Estremeceu. Não teve coragem de vencer a montanha, rompendo a igualdade de todos os dias. Sentia o abismo perto, ao lado da montanha. Nesta vertente , a tranquilidade e a monotonia. No cimo da montanha, onde o Sol brilhava em turbilhão de cores impossíveis, a angústia do desconhecido, a aurora."

abril 18, 2011

Jaime Bunda, Agente Secreto - Pepetela

Título original: Jaime Bunda, Agente Secreto
Ano da edição original: 2001
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"A moça se despediu da amiga e avançou para a avenida. Ainda conservava nos lábios o sorriso da despedida, quando parou bruscamente, assustada com o automóvel preto. O carro também estacou de súbito. O condutor viu o sorriso desaparecer dos lábios dela. Mediu num relance o tamanho dos seios pontudos, querendo furar o vestido muito curto. Esperou gentilmente que se refizesse do susto e continuasse a travessia. Ela hesitou, mas depois agradeceu com um vago sorriso para os vidros escuros e correu à frente do carro, mostrando o corpo meio de menina meio de mulher, moldado pelo vestido justo. Uma gazela, uma cabra de rabo de leque, pensou o motorista, sentindo compulsivos apetites de caçador. Arrancou com o carro e seguiu até ao fundo da Ilha."

Para desanuviar de umas leituras mais pesadas, em termos de temas, nada melhor do que ter o Jaime Bunda, do Pepetela, como companhia. Uma personagem com este nome só pode proporcionar uma leitura divertida. :) Foi o que aconteceu com este livro, que me fez sorrir, enquanto o lia no metro e que deve ter provocado alguns sorrisos, também, àqueles que repararam na capa, no título e, já agora no meu "delicioso" marcador! :p

Embora possa parecer um livro diferente daqueles a que o Pepetela nos acostumou, a verdade é que a única diferença é o tom em que está escrito, mais irónico e divertido. Fala de Angola independente e de toda a corrupção que parece proliferar por lá. Das desigualdades sociais e da facilidade com que se gasta o muito dinheiro que o país tem. Fala um pouco do deslumbramento em que alguns angolanos parecem viver, ansiando por uma posição que lhes dê poder e acesso ao tal dinheiro que parece perseguir os governantes do país e aqueles que gravitam à volta destes. O tema pode não ser novo, mas a forma como é abordado é uma novidade, não tanto para mim que já tinha lido o Jaime Bunda e a Morte do Americano (segundo livro com esta personagem de anca larga) e tendo em conta que o Jaime Bunda é uma personagem deliciosa, não há forma de não se gostar deste livro.

De uma forma muito resumida a história de Jaime Bunda, Agente Secreto é a história de um estagiário dos SIG (espécie de serviços secretos angolanos) que de repente é chamado a investigar a violação e homicídio de uma menina de 14 anos, uma "catorzinha". Jaime Bunda, alcunha que lhe serve como uma luva, é um jovem viciado em policiais americanos, única fonte dos seus conhecimentos de investigação criminal, que decide agarrar esta oportunidade com unhas e dentes. Com uma imaginação galopante e um instinto (ou sorte) extraordinário acaba, no decorrer da sua investigação, por "tropeçar" numa figura sinistra que todos temem. Numa história cheia de mal-entendidos, meias-verdades e golpes de sorte, Jaime Bunda acaba por se ver envolvido numa investigação que o vai tornar numa espécie de herói e tirá-lo da posição de eterno estagiário no Bunker (nome porque também são conhecidos os SIG). Nos entretantos, Jaime Bunda tem ainda de lidar com Florinda, a sua namorada que é casada com um traficante de diamantes que vai, finalmente tornar o seu negócio legal com a ajuda de um General. Tem ainda de aturar a má vontade da mulher do tio, a Tia Sãozinha, que não perdoa o facto de ter Jaime Bunda a viver no anexo de sua casa e de graça, sem receber um único dos ansiados dólares.

Como podem ver é um livro que promete e, digo-vos eu, que cumpre. No entanto e porque, como muito bem se diz por ai, "não há amor como o primeiro", gostei mais do Jaime Bunda e a Morte do Americano. Mas, é sem qualquer hesitação que recomendo este primeiro livro do Jaime Bunda! Este e qualquer outro do Pepetela, já que estamos numa de recomendações. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Mas foi numa aula de educação física, mais propriamente de vólei, que surgiu a alcunha. Às tantas, o professor, irritado com a falta de jeito ou de empenho do aluno, gritou:
- Jaime, salta. Salta com a bunda, porra!

A partir daí, ficou Jaime Bunda para toda a escola. De facto, as suas nádegas exageravam. Ele, aliás, era todo para os redondos, até mesmo os olhos que gostava de esbugalhar à frente do espelho, treinando espantos. A mãe é que não gostou nada quando ouviu colegas tratarem-no assim, és um mole, não devias que te chamassem um nome ofensivo, mas ele encolheu os ombros, a minha bunda é mesmo grande, vou fazer mais como então?"

junho 01, 2010

Parábola do Cágado Velho - Pepetela

"Falo de um amor e de uma transgressão.
Quem sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada.
Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um mundo?"


Pepetela começa a figurar-se como um dos meus escritores favoritos. Fala de temas sérios de uma forma encantadora, com aquela característica que os escritores africanos parecem ter de nos falarem de assuntos tão sérios, como a guerra, como se de um conto de fadas se tratasse. O melhor é que as personagens pouco têm de princesas ou príncipes, são reais e credíveis como não o são muitas "personagens" que se cruzam connosco no dia-a-dia. :)

Segundo o dicionário:
Parábola é uma "narração alegórica que encerra algum preceito de moral ou verdade importante".
Alegoria é a "representação de uma realidade abstracta através de uma realidade concreta, por meio de analogias, metáforas, imagens e comparações".

Parábola do Cágado Velho é assim: uma parábola sobre a guerra mas, sobretudo sobre as pessoas que convivem com ela, que nada fizeram para a despoletar e que nem sequer compreendem porque se luta.

Ulume (homem na língua Umbundu) sobe todos os fins de tarde ao alto do morro junto à gruta de onde todos os dias sai um cágado, mais velho que o mundo, para beber água da fonte. Todos os fins de tarde Ulume sente que o tempo pára, só existe ele e o cágado velho e Ulume fica apenas vazio, numa grande paz intranquila.
Ulume é casado com Muari (a primeira mulher na língua Kimbundu e outras línguas) e tem dois filhos, Luzolo e Kanda. Toma para sua segunda mulher Munakazi (a mulher na língua Mbunda), uma rapariga mais nova por quem se apaixona, primeiro pelos seus pés que parecia se olhavam, com os dedos grandes levantados, depois pelos seus olhos grandes e melancólicos.
Um dia os filhos vão-se embora para fazer a guerra, lutando de lados diferentes, um contra o outro. Esta guerra, que ninguém na aldeia de Ulume percebe e da qual não conhecem as razões, apenas traz desgraça à aldeia onde vivem. Soldados que invadem a aldeia e levam tudo o que encontram, homens em idade de lutar, mulheres e toda a comida que conseguem carregar. Os habitantes da aldeia são obrigados a recomeçar sempre que os soldados passam por lá, num ciclo vicioso, de prosperidade e pobreza. Decidem, por isso, mudar-se para um sitio mais isolado ao qual chamam de Vale da Paz, acreditando que os soldados não chegarão lá. Até ao dia em que chegam e, por causa de uma querela insignificante destroem o Vale da Paz partindo novamente como se nada mais lhes importasse.
Esta é uma das passagens mais irónicas do livro, porque a guerra não tinha acabado estava-se, antes numa espécie de tréguas: os soldados disseram não é bem assim, ainda não há paz, só se anda à procura dela, mas é difícil de encontrar neste caminhos e descaminhos das montanhas e Ulume achou eles tinham razão, a paz era uma pomba branca com lhe tinham explicado de outra vez e como seria possível encontrar uma pomba naquele matagal (...)
Por causa de uma mal-entendido o Vale da Paz é destruído e Ulume acreditou ver, por volta do meio-dia, um pássaro escuro sair lá de baixo e voar por cima deles em direcção ao sol. Seria a tal pomba mágica? Se fosse, deixara de ser branca, toda chamuscada. E com esta ligeireza de destrói a paz e a vida de todos aqueles que ali viviam.
Muitos haviam já partido para o Lago da Última Esperança, pois achavam que já muita gente conhecia o Vale da Paz e receavam o regresso dos homens armados. Os que ficaram e sobreviveram acabaram também eles por partir para o Lago da Última Esperança, um local ainda mais para dentro da Munda (montanha) onde esperavam reconstruir mais uma vez a vida destruída.

É um livro muito bem conseguido, sobre a guerra e o pós-guerra. É um perspectiva muito interessante sobre a guerra civil de Angola, porque penso ser essa parte da história angolana que Pepetela retrata, onde as populações mais afastadas dos centros urbanos não faziam ideia dos porquês da guerra e, é quando olhamos a guerra desta perspectiva que nos apercebemos de quão injusta esta pode ser, pois foram estes os que mais perderam, materialmente e emocionalmente.

Fala também do eterno conflito geracional entre os mais velhos, presos a costumes e tradições que os mais novos consideram ultrapassadas e ridículas. O medo que os mais velhos sentem de perder o controle sobre a juventude, que eles desistam de trabalhar a terra, que os esqueçam e não os respeitem, no fundo, o medo do desconhecido.

Por isto tudo que aqui disse e também pelo que não disse, leiam este livro porque vale a pena, é muito bonito! :)

março 18, 2010

O Planalto e a Estepe - Pepetela

"Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.
Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno. Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras."

Mais um grande livro do Pepetela. À medida que vou lendo mais livros dele, vou como que revalidando a minha opinião sobre ele. Gosto muito dos livros dele, gosto da escrita, gosto das histórias, gosto do sentido de humor e da forma divertida como vai falando de assuntos tão sérios como a guerra. O Planalto e a Estepe não foi excepção, gostei muito. Embora as histórias de amor não surjam frequentemente nos livros dele como tema central, a verdade é que ele escreve muito bem sobre o amor e, acho mesmo que este foi um dos melhores livros que já li dele.

Os olhos dele continham o céu do Planalto,
Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da Estepe
mongol. Tons sobre o castanho.
Entremos primeiro no azul.


Assim começa o livro.
Júlio é um rapaz angolano, branco de olhos azuis, que se vê a estudar economia em Moscovo, com o apoio do partido comunista russo. Em Moscovo para além dos rudimentos da economia é-lhe também ensinada a cartilha socialista. Cartilha essa onde é apregoada a igualdade entre os povos, valores de fraternidade e a lealdade para com a causa e países socialistas.
Sarangerel é originária da Mongólia, país socialista, e que se encontra em Moscovo também a estudar. Sarangerel tem nos seu olhos castanhos a beleza das estepes da Mongólia e a força e coragem dos criadores de cavalos do seu país.
Júlio conhece Sarangerel e o amor que nasce entre os dois é daqueles que duram um vida e que nem com a morte desaparece. Ele apaixona-se pela sua cara de lua cheia e pela serenidade dos seus olhos castanhos, ela perde-se nos seus olhos azuis que lhe dizem mais do que Júlio poderia alguma vez exprimir por palavras.
A causa socialista que permitiu que se conhecessem não tolerou, no entanto, que se amassem e Sarangerel acaba repatriada para a Mongólia onde o pai, um graduado militar, era Ministro da Defesa. Júlio vê-se impossibilitado de entrar em contacto com ela, foram-lhe negados vistos de entrada na Mongólia e autorizações para sair da Rússia. As cartas eram controladas e quem os tentasse ajudar corria perigo. Aparentemente a apregoada igualdade entre os povos tinha alguns limites...
Separado de Sarangerel mas sem nunca desistir dela, Júlio, após terminar o curso, é enviado para o sul da Rússia para combater no Mar Negro. Inicia-se aí uma carreira militar brilhante que termina em Angola onde lutou anos a fio pela independência do país, sempre com a sua Sarangerel no coração e a certeza de que se voltariam a encontrar. Este pensamento deu-lhe esperança e coragem para enfrentar os horrores da guerra e provavelmente salvou-lhe a vida umas quantas vezes.
Muitas mais coisas haveria a dizer sobre estes dois mas se vos contasse tudo, porque haveriam de ler o livro? :)

Pepetela usa a história de amor entre o Planalto e da Estepe para nos ir contando sobre as tensões políticas da época e sobre as contradições de uma ideologia que carecia de poder de concretização e carecia sobretudo de homens que realmente acreditassem nela. Fala também sobre a guerra, sobre o racismo, mas também sobre a amizade, pois também as há eternas como o amor de Júlio e Sarangerel. Existe também alguma crítica ao estado actual de África, em geral, e de Angola em particular. Angola está em paz mas corrupta e cada vez mais desigual: Pobre África, viramos as costas uns aos outros e quem lucra é o antigo colonizador. Pois segundo Júlio, e provavelmente segundo Pepetela, é mais difícil ver duas empresas africanas a cooperarem do que uma africana com uma europeia. África tem um longo caminho a percorrer mas nada se fará sem envolver as populações educando-as e fornecendo-lhes as ferramentas necessárias para prosperarem sem ajuda exterior. Talvez um dia, quem sabe...

O Planalto e a Estepe é recomendadíssimo!

Boas leituras. :)

dezembro 25, 2009

Prendinhas de Natal

Este ano o Pai Natal foi generoso e trouxe-me uns quantos livrinhos. Livrinhos, salvo seja porque alguns estão mais para livrões que para livrinhos! :)

Oferecidos pelo meu mais que tudo:

Caim - José Saramago
"Pela fé, Abel ofereceu a deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala." (Hebreus, II,4)

Fúria Divina - José Rodrigues dos Santos
"Uma mensagem secreta da Al-Qaeda faz soar as campainhas de alarme em Washington. Seduzido por uma bela operacional da CIA, o historiador e criptanalista Tomás Noronha é confrontado em Veneza com uma estranha cifra.
Ahmed é um menino egípcio a quem o mullah Saad ensina na mesquita o carácter pacífico e indulgente do islão. Mas nas aulas da madrassa aparece um novo professor com um islão diferente, agressivo e intolerante. O mullah e o novo professor digladiam-se por Ahmed e o menino irá fazer uma escolha que nos transporta ao maior pesadelo do nosso tempo."

Oferecidos pelos manos e cunhados:

A Sombra do que Fomos - Luís Sepúlveda
"Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militares de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local de encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal..."

O Planalto e a Estepe - Pepetela
"Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.
Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga a um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.
Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras."

2666 - Roberto Bolaño

"O que liga quatro germanistas europeus (unidos pela paixão física e pela paixão intelectual pela obra de Benno von Archimboldi) ao repórter afro-americano Oscar Fate, que viaja até ao México para fazer a cobertura de um combate de boxe? O que liga este último a Amalfitano, um professor de filosofia, melancólico e meio louco, que se instala com a filha, Rosa, na cidade fronteiriça de Santa Teresa? O que liga o forasteiro chileno à série de homicídios de contornos macabros que vitimam centenas de mulheres no deserto de Sonora? E o que liga Benno von Archimboldi, o secreto e misterioso escritor alemão do pós-guerra, a essas mulheres barbaramente violadas e assassinadas? 2666.
Para se ler sem rede, como num sonho em que percorremos um caminho que nos poderá levar a todos os lugares possíveis."




Oferecido a mim mesma:

A Caixa em Forma de Coração - Joe Hill
"Judas Coyne colecciona o macabro: um livro de receitas para canibais... uma corda usada num enforcamento... um filme snuff. Uma lenda do death metal de meia-idade, o seu gosto pelo bizarro é tão conhecido entre a sua legião de fãs como os excessos da sua juventude. Mas nada do que ele possui é tão inverosímil ou tão medonho como a sua última descoberta, um artigo à venda na Internet, uma coisa tão estranha que Jude não consegue resistir a pegar na carteira.
"Vendo" o fantasma do meu padrasto a quem fizer a licitação mais alta.
Por mil doláres, Jude tornar-se-à o orgulhoso dono do fato de um homem morto que se diz estar assombrado por um espírito inquieto. Ele não tem medo. Passara a vida a lidar com fantasmas - o fantasma de um pai violento, o fantasma das amantes que abandonara sem compaixão, o fantasma dos companheiros de banda que traíra. Que importância teria mais um? Mas o que a transportadora entrega à sua porta numa caixa preta em forma de coração não é um fantasma imaginário ou metafórico, não é um benigno motivo de conversa. É real."

À excepção do Roberto Bolaño e do Joe Hill (filho do Stephen King), são todos escritores que já li e que adoro.

O que fazer a tantos livros?! Lê-los, pois claro! ;)