Antes que o meu amigo Fernando Penim Redondo publique um post sobre o artigo de Immanuel Wallerstein (IW), Le capitalisme touche à sa fin, publicado no Le Monde, de 11/10/08 (ver aqui e aqui) e que foi oportunamente traduzido para o blog Antreus, de António Abreu, resolvi publicar este post que já tinha em mente, mas que devido à minha proverbial inacção ainda não tinha posto em prática. O Fernando já tinha ameaçado o António Abreu que iria fazer um post sobre o assunto, espero que o faça, para confrontarmos ideias.
Em post anterior, provavelmente com um título pouco feliz, já tinha chamado a atenção para que não bastava os locutores e alguns comentadores falarem da intervenção do Estado e da nacionalização da banca, para que o capitalismo caísse. Era necessário dar-lhe um piparote. No fundo, levantava a velha questão do poder e recorria a uma polémica, referente a outros assuntos, mas de grande actualidade, entre Charles Bettelheim e Paul Sweezy. Ou seja, introduzia a luta política e a Política, com maiúscula inicial, nos problemas da crise. Provavelmente ninguém me leu, nem o tema despertou qualquer interesse.
No entanto, nestes últimos dias alguns comentadores recorrem à política para falar da crise. Pacheco Pereira diz mesmo É à política e não ao Estado que devemos regressar e Rui Tavares afirma É preciso ter lata . No entanto, qualquer dos artigos, por razões diferentes, não aborda as minhas preocupações. O primeiro ataca Sócrates e a politiquice do primeiro-ministro e a sua pretensa defesa da intervenção estatal. Chegando a afirmar que “desde a história do diploma e das casinhas que o personagem me aparece bem mais perigoso do que antes”. Eu, que fui seu subordinado no Ministério do Ambiente e que tive a desgraça de tê-lo como chefe de delegação nas conversações para a aprovação do Protocolo de Cartagena sobre Segurança Biológica, em Montreal, confirmo para pior todas as crítica que lhe façam. Ainda um dia hei-de contar esta história.
Quanto ao segundo artigo chama a atenção para que foram os políticos, com a sua permissividade, que permitiram que a "ganância dos executivos" chegasse onde chegou. Sendo isto verdade, o certo é que os comentadores de direita, com algumas inverdades pelo meio, pretendem concluir, com afirmações semelhantes, que a culpa é do Estado, chegando a afirmar que a maioria dos bancos responsáveis por este desgoverno têm capitais públicos.
Mas regressemos ao que nos trouxe aqui. Entre os muitos artigos que na net começaram a circular sobre esta crise realço o de IW, inicialmente referido, que de um ponto de vista histórico e sistémico aborda o fim do capitalismo, considerando que actualmente este está na sua “fase terminal”.
O mais preocupante neste artigo de IW, é que ao contrário do que os marxistas sempre afirmaram, acreditando, como ele diz, “num progresso contínuo e inevitável”, é possível em trinta ou quarenta anos “vermos instalar-se um sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, do que, pelo contrário, aparecer um sistema mais igualitário e redistributivo”.
Mas como anteriormente IW afirmava “estamos num período, bastante raro é certo, onde a crise e a impotência dos poderosos deixa um espaço ao livre arbítrio de cada um: há agora um período de tempo durante o qual todos teremos a oportunidade de influenciar o futuro pela nossa acção individual. Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas acções, é absolutamente impossível prever qual o modelo que finalmente irá prevalecer.”
Penso eu, provavelmente ingenuamente, que a acção política dos homens tenha possibilidades de canalizar as acções referidas para “um sistema mais igualitário e redistributivo”, a que chamaria socialismo. Mas é possível que isso não suceda, e aqui divirjo, tal como IW, da crença inelutável dos comunistas ortodoxos que pensam que ao sistema capitalista sucederá inevitavelmente o socialismo.
Só para dar um exemplo, a crise de 1929, não foi ainda o fim do capitalismo, mas a solução encontrada por alguns para a resolver foi o reforço do fascismo e o aparecimento do nazismo, que trouxe muito mais sofrimento e exploração do que formas anteriores de domínio sobre os trabalhadores.
Temos pois que admitir que a solução para a crise pode desembocar num sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, mas que a nossa acção pode de facto inverter essa tendência.
Dêmos pois força à política.
Em post anterior, provavelmente com um título pouco feliz, já tinha chamado a atenção para que não bastava os locutores e alguns comentadores falarem da intervenção do Estado e da nacionalização da banca, para que o capitalismo caísse. Era necessário dar-lhe um piparote. No fundo, levantava a velha questão do poder e recorria a uma polémica, referente a outros assuntos, mas de grande actualidade, entre Charles Bettelheim e Paul Sweezy. Ou seja, introduzia a luta política e a Política, com maiúscula inicial, nos problemas da crise. Provavelmente ninguém me leu, nem o tema despertou qualquer interesse.
No entanto, nestes últimos dias alguns comentadores recorrem à política para falar da crise. Pacheco Pereira diz mesmo É à política e não ao Estado que devemos regressar e Rui Tavares afirma É preciso ter lata . No entanto, qualquer dos artigos, por razões diferentes, não aborda as minhas preocupações. O primeiro ataca Sócrates e a politiquice do primeiro-ministro e a sua pretensa defesa da intervenção estatal. Chegando a afirmar que “desde a história do diploma e das casinhas que o personagem me aparece bem mais perigoso do que antes”. Eu, que fui seu subordinado no Ministério do Ambiente e que tive a desgraça de tê-lo como chefe de delegação nas conversações para a aprovação do Protocolo de Cartagena sobre Segurança Biológica, em Montreal, confirmo para pior todas as crítica que lhe façam. Ainda um dia hei-de contar esta história.
Quanto ao segundo artigo chama a atenção para que foram os políticos, com a sua permissividade, que permitiram que a "ganância dos executivos" chegasse onde chegou. Sendo isto verdade, o certo é que os comentadores de direita, com algumas inverdades pelo meio, pretendem concluir, com afirmações semelhantes, que a culpa é do Estado, chegando a afirmar que a maioria dos bancos responsáveis por este desgoverno têm capitais públicos.
Mas regressemos ao que nos trouxe aqui. Entre os muitos artigos que na net começaram a circular sobre esta crise realço o de IW, inicialmente referido, que de um ponto de vista histórico e sistémico aborda o fim do capitalismo, considerando que actualmente este está na sua “fase terminal”.
O mais preocupante neste artigo de IW, é que ao contrário do que os marxistas sempre afirmaram, acreditando, como ele diz, “num progresso contínuo e inevitável”, é possível em trinta ou quarenta anos “vermos instalar-se um sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, do que, pelo contrário, aparecer um sistema mais igualitário e redistributivo”.
Mas como anteriormente IW afirmava “estamos num período, bastante raro é certo, onde a crise e a impotência dos poderosos deixa um espaço ao livre arbítrio de cada um: há agora um período de tempo durante o qual todos teremos a oportunidade de influenciar o futuro pela nossa acção individual. Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas acções, é absolutamente impossível prever qual o modelo que finalmente irá prevalecer.”
Penso eu, provavelmente ingenuamente, que a acção política dos homens tenha possibilidades de canalizar as acções referidas para “um sistema mais igualitário e redistributivo”, a que chamaria socialismo. Mas é possível que isso não suceda, e aqui divirjo, tal como IW, da crença inelutável dos comunistas ortodoxos que pensam que ao sistema capitalista sucederá inevitavelmente o socialismo.
Só para dar um exemplo, a crise de 1929, não foi ainda o fim do capitalismo, mas a solução encontrada por alguns para a resolver foi o reforço do fascismo e o aparecimento do nazismo, que trouxe muito mais sofrimento e exploração do que formas anteriores de domínio sobre os trabalhadores.
Temos pois que admitir que a solução para a crise pode desembocar num sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, mas que a nossa acção pode de facto inverter essa tendência.
Dêmos pois força à política.