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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Amadeo


Ser moderno será talvez isto: 99 anos depois da sua morte criar em quem olha as suas obras uma enorme emoção. Foi o que senti hoje ao visitar a exposição que pretende revisitar as exposições individuais que aconteceram no Porto e em Lisboa em 1916.
Percebemos que Amadeo estava consciente, na altura, da dificuldade de a sua pintura ser compreendida. De facto, muito se falou sobre ela e nem sempre bem. Mas isso até convinha a quem queria avançar e ir além das convenções e gostos da época.
De diversos suportes e técnicas, de temas variados, de muitas cores e texturas se faz a obra deste artista. Vê-la é sempre um prazer. 
Destaco este auto-retrato do artista com paisagem. É quase hipnotizante na sua capacidade de nos mostrar, simultaneamente, a sua pequenez e a sua grandeza. O seu apego à terra e ao seu país, tão presente nas temáticas que aborda, e a sua singularidade dentro dessa paisagem. 


Apesar da dimensão reduzida de algumas salas onde está a exposição, valeu bem a pena esperar tanto tempo numa fila. Este domingo é o último dia para a ver. Pouco mais de um mês é manifestamente tempo insuficiente para tão grande artista.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Sentada

                              Vilhelm Hammershøi, Interior with Ida in a White Chair, óleo sobre tela

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Uma janela enganadora


Paula Rego, "Looking Out" (1997), pastel sobre papel em suporte de alumínio. Imagem aqui.

Podíamos pensar que esta obra retrata "apenas" uma mulher que está a uma janela. Na realidade se dissermos que esta mulher é Amélia, personagem principal do livro "O Crime do Padre Amaro" de Eça de Queirós, tudo se torna diferente. Vemos, então, uma mulher absolutamente impotente para alterar o seu destino, confinada a uma vida marcada pela opressão de uma sociedade tacanha. Talvez Paula Rego (que nasceu num dia 26 de Janeiro) quisesse dar-lhe um pouco mais de liberdade colocando-a à janela e com um pé na cadeira como que a dizer que, se Amélia quisesse, poderia sair para a rua e ser um pouco mais ela própria. Na obra literária do século XIX o fim desta mulher foi trágico. Aqui não tem que ser.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Ler sempre

Mesmo que doa.

                               Imagem aqui                                                           Girl in Grey (1939)
                                                                Louis le Brocquy (Ireland, 1916 – 2012)

sábado, 3 de janeiro de 2015

A terceira e a sétima

Integrar a pintura no cinema é algo que nem todos conseguiriam fazer da forma como Mike Leigh fez. Mr. Turner, artista reconhecido e ao mesmo tempo incompreendido na Inglaterra do seu tempo, precursor nas técnicas, capaz de absorver, quer a natureza mais selvagem, quer as mais recentes inovações da era industrial; é-nos apresentado como alguém excêntrico mas absolutamente humano, capaz de actos tão elevados quanto censuráveis.
Mas o filme, se se centra na figura do pintor, leva-nos a conhecer melhor a sua obra e vai muito para lá de uma simples história de vida (dos seus últimos anos e que não nos é contada, apenas sugerida). Compreendemos as suas fontes de inspiração, percebemos as relações com os pintores seus contemporâneos, com os críticos, com os compradores das obras, com o público ou os públicos e a forma como estes olhavam o seu trabalho. E com esta abordagem entendemos melhor a sociedade inglesa da época com tantos pormenores que nos vão sendo dados a ver. 
Timothy Spall, no papel principal, está de facto fantástico e Dorothy Atkinson é também excelente como a mulher que mesmo tratada com crueldade nunca deixa de amar o seu patrão.
A fotografia do filme, fundamental e sob os holofotes com um tema como este, está à altura e cenas há que nos deixam com um sorriso de satisfação. Numa das cenas, uma das que mais gostei, um comboio, maravilha da tecnologia da época, surge real, para se transformar no tema de uma das pinturas que vemos imediatamente a seguir. O filme vale por si e por aquilo que nos sugere. As duas artes estão bem representadas, portanto.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Refeição especial

Vou com alguma frequência ao Café Império. Mesmo que a comida não seja nada de especial, o espaço compensa. Fechado durante algum tempo, temeu-se que não voltasse a reabrir com a anterior função o que teria sido lamentável. Felizmente tal não aconteceu.
Integrado no edifício do Cinema Império, um projecto de Cassiano Branco, podemos ver, no interior, numa parede revestida a cerâmica (de Jorge Barradas), uma composição de esculturas de Martins Correia. Na mesma sala e ocupando uma área considerável, uma pintura mural de Luís Dourdil. 
Durante muito tempo, sentia-me triste ao olhar para esta obra, de 1955, tal era o seu estado de degradação. Nas últimas vezes que lá estive, porém, pude apreciar muito melhor aquele magnífico trabalho, agora restaurado no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do pintor.
Não sei se os estudantes que enchem a sala ao almoço estarão conscientes da importância das obras em causa. Talvez não. Eu sinto-me uma privilegiada por poder tomar uma refeição na sua companhia. Passem lá e vejam. O café ganha muito. Lisboa também. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Magdalena Carmen

Nunca apreciei especialmente a pintura de Frida Kahlo. Provavelmente não compreendo inteiramente o sofrimento excessivo dos seus quadros, inspirados na sua vida que foi curta mas cheia de momentos terríveis. E não é fácil compreender o que sentiria alguém tão duramente marcada pela dor física e pelas pequenas e grandes tragédias do seu preenchido quotidiano. André Breton terá escrito que a sua obra era surrealista. Frida terá dito depois que tal não era verdade pois nunca pintou sonhos mas a sua própria realidade. 
É dessa realidade que podemos espreitar alguns episódios na exposição organizada pela Casa da América Latina de Lisboa que está, até ao final do mês, no Museu da Cidade. 
E a verdade é que, se a sua pintura não me entusiasma, sempre admirei a forma como viveu e sobreviveu num México em mudança e como a sua vida pessoal se cruzou com os importantes movimentos colectivos e com personagens que deixaram a sua marca naquele país e no mundo. É este percurso, ao mesmo tempo íntimo e mais alargado, que podemos acompanhar pelas fotografias tiradas por si ou em que ela está presente. Eu fiquei a conhecê-la melhor. E a sua obra passa a fazer mais sentido para mim.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Os quadros, o Estado e a Fundação

Provavelmente, no que às questões legais diz respeito, tudo está a ser feito dentro do cumprimento da lei. Mas não deixa de ser triste perceber que, pelo menos por agora, vamos ficar privados de ver estas obras. Felizmente estive frente a elas há cerca de um mês quando fui a esta exposição. 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Resistir. Mudar.

Parece tratar-se da ilustração de um livro, publicado no séc. XIX, de Júlio Verne, por exemplo.  É a pintura de João Fonte Santa. O monstro parece grande de mais para que valha a pena lutar contra ele. Mas há um machado empunhado por um homem que parece não querer desistir que nos lembra que, por mais que a realidade se imponha como algo inelutável, a impossibilidade de a vencer só existe se não se acreditar que a mudança pode acontecer.


Mesmo sabendo que o caminho é longo os egípcios começaram a percorrê-lo.

Imagem aqui

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Pintar o que poderia ter sido


Imagem aqui

Não são quartos reais os pintados por Nikias Skapinakis. Nem os ateliers ou os recantos. Não é como se uma qualquer revista nos mostrasse fotografias das casas dos "famosos". Os famosos, presentes nestes quadros, mesmo não estando visíveis, são dos que não precisariam de nos mostrar a sua intimidade para os admirarmos. Todos os pintores e escritores, mesmo os que, pela sua obra, estão perto da transcendência, têm um quarto e uma cama. O desta imagem poderia ter pertencido a Amadeo de Souza-Cardoso. A série "Quartos Imaginários" faz-nos ficar mais perto de todos eles. Mesmo que só na imaginação do nosso quarto.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Uma leitura de O Beijo


Apesar da quase unanimidade em relação a esta obra eu ainda não percebi se gosto ou não dela. Ou melhor, gosto no que diz respeito às questões mais visuais, das cores e dos padrões. Mas a atitude dos protagonistas sempre me deixou dúvidas.
Não consigo afastar-me da sensação de que é uma perspectiva muito masculina em que o homem controla subjugando, de alguma forma, a mulher (ele segura a sua cabeça não lhe deixando quase liberdade de movimentos) enquanto, não mostrando o rosto, se está a furtar ao nosso olhar e à possível exposição que isso lhe traria. A indefinição das suas formas, por contraste com as da mulher, mais contidas, sugere-me que, a concretizar o que deseja, a conseguirá dissolver no seu eu, dominando-a por completo.
Quanto à mulher, o facto de estar ajoelhada lembra submissão e o seu rosto revela resignação ou medo. Também a situação, à beira de um eventual precipício, em que é a mulher que está do lado de fora, pode indicar, até, um beijo de despedida antes do empurrão fatal. As mãos dela não me parecem muito decididas, oscilando entre a  vontade de o afastar e a certeza de não o conseguir. Definitivamente parece-me que não está ali mas em algum outro lugar para o que contribuem os olhos que se fecham (para não o ver ou para o ver melhor?).
Esta é a minha leitura de O Beijo. A maioria dos que conhecem este quadro (e são muitos, muitos mesmo) fazem uma interpretação menos crua e consideram-no uma representação por excelência de uma relação amorosa feita de paixão sem restrições em que a confiança e a entrega são tais que o facto de estarem à beira de um abismo só contribui para aumentar a união entre o homem e a mulher. É uma outra leitura, também possível. Mas eu não poria em qualquer lugar de destaque uma reprodução desta obra.

domingo, 8 de agosto de 2010

Os livros também se pintam

Não era esta a pintura mas era a reprodução de um quadro de Menez que tinha no meu quarto, durante muitos anos, até deixar a casa dos meus pais. Nele os livros tinham também um papel fundamental. Olhar para aquele quadro era olhar para o meu quarto dentro dele.


Foto aqui.

domingo, 18 de abril de 2010

À deriva

Egon Schiele é um dos meus pintores favoritos. Discípulo de Klimt, fez, no entanto, uma utilização muito mais comedida da cor que o seu mestre e aproximou muito mais da realidade, e menos do nosso lado onírico, aquilo que pintou.


Deste quadro retenho os cabelos espalhados em ondas, os lençóis revoltos, o movimento, a aparente tempestade de sentimentos que nos faz pensar num par de amantes à deriva num mar.

Die Umarmung (Liebespaar II), Egon Schiele, 1917
Imagem aqui.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Lisbon by night

A visão de um grupo de crianças, entre os 6 e os 11 anos, da cidade, à noite, vista da Serra de Monsanto.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Todas as mulheres são Jane Eyre

Gostei muito desta série de litografias (2001-2002), em especial deste retrato de costas.

Imagem copiada daqui

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Carnaval com cores e máscaras


O dia muito cinzento e frio convidava a ficar no interior. Ficámos então no interior deste edifício a que Paula Rego não quis chamar museu e que, por isso, se chama "Casa das Histórias". Acabou por ser uma tarde cheia de cor, de máscaras, de transfiguração. Uma boa tarde para um dia de Carnaval, portanto. 



imagem do "Príncipe Porco" e de uma das litografias a que serviu de modelo copiada daqui

sábado, 30 de janeiro de 2010

Os Graffiti que nos observam



Júlio Pereira resolveu, desta vez, juntar aos seus instrumentos  as vozes de Maria João (que dispensa apresentações) e Luanda Cozetti (vocalista dos Couple Coffee e que já cantou com J.P. Simões).

As letras são de Tiago Torres da Silva e as músicas do disco são pintadas por Tiago Taron que costuma passar também pelos dias imperfeitos. Parabéns a todos pelo resultado deste projecto que pode ser acompanhado aqui (de onde copiei também a foto da capa do disco).