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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

' A Invasão Britânica' (1964): Parte 7



Embora os registos sejam poucos, sabe-se que a "invasão britânica" foi além de Portugal Continental. Na Madeira, num concurso para promover as bandas locais, participam Os Demónios Negros, Os Incríveis, Os Dinâmicos, Celso e os Atómicos e Alberto Freitas e o seu Conjunto e aqueles que viriam a receber o primeiro prémio - uma viagem e actuação no continente -, o Conjunto Académico João Paulo

(retirado de osreisdoyeye.blogspot.com)


Contam os próprios, nas páginas da Plateia, que "um dos componentes - o Carlos Alberto - tinha um piano, um outro uma viola, outro ainda uma bateria. Reuniram-se e experimentaram ritmos novos de canções novas. A "coisa" não saiu desarmoniosa. Mas faltava um contrabaixo - cujo preço era aliás inacessível às bolsas dos estudantes. Resolveram então construir um contrabaixo. Semanas e semanas se aprestaram a tão delicado e difícil cometimento. Saíram-se bem. O Conjunto apresentou-se desde logo com contrabaixo e tudo, no primeiro teatro da cidade - o de Baltasar Dias, numa festa de estudantes. E daí por diante, foi um nunca mais acabar de êxitos, em que tem sobressaltado Sérgio Borges nas suas canções inglesas, francesas e italianas, Carlos Alberto e ainda Sérgio em canções a duas vozes, de ritmos moderníssimos e António Ascensão em curiosíssimas imitações, em que é exímio. Os restantes elementos são João Paulo (piano), Bruno (contrabaixo), Rui Brazão (viola) e João Gualberto (bateria)."

É com esta formação que o Conjunto Académico João Paulo se estreia no continente, a 13 de Setembro de 1964, no Teatro Monumental.Com intuito de estudar, depois deste concerto, passam a residir em Lisboa, conseguindo assim construir a sua carreira. Nesse ano de 1964 gravam o seu primeiro EP, com um alinhamento composto unicamente por versões e no ano seguinte gravam mais dois EP’s que, além das habituais versões, já incluem dois originais da qual se destaca o que foi o seu maior êxito Hully Gully do Montanhês, cujas vendas ultrapassaram as 10.000 cópias.



A 30 de Novembro de 1965, após o exame no Sindicato dos Músicos, tornam-se um conjunto profissional. Eram então formados por Sérgio Borges como vocalista, Carlos Alberto Gomes na guitarra solo, Rui Brazão na guitarra ritmo, Ângelo Moura no baixo, João Agrela nas teclas e José Gualberto na bateria. É também nesse ano de 1965 que fazem a primeira digressão por Angola e Moçambique. No ano seguinte editam o LP supostamente "ao vivo"- na realidade é uma compilação de gravações anteriores a qual foram adicionadas palmas - e mais dois EP’s onde constam um cada vez maior número de músicas originais. Entretanto, Sérgio Borges fica em segundo lugar no Grande Prémio da Canção.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rock 'n' Roll em Portugal (1955-1959): Parte III


Zeca do Rock

É também nesse final dos anos 50, que José das Doures começa a aprender a tocar guitarra. Estreando-se em 1959 no programa Bom Dia de José Oliveira Cosme é lá que recebe a alcunha pela qual hoje é conhecido, Zeca do Rock. Influenciado pelo rock 'n' roll norte-americano de então, canta em inglês e em português e opta ao contrário de outros, por fazer as suas próprias músicas. É dessa altura que data Nazaré Rock, que viria a ser gravada para o seu primeiro disco. Editado em 1961 este acabaria por ficar conhecido não pela referida música mas por outra, Sansão foi Enganado, música hoje recorrentemente referida por ser aquela em que ficou registado o primeiro yeah! gravado em Portugal…

Embora, julgando pelo conteúdo do disco, tudo aparente ser inocente ou convencional o seu percurso musical não o foi. Considerado "aos olhos do governo fascista” como “um opositor declarado, uma figura perigosa, incómoda, rebelde, capaz de liderar a juventude, o que representava um perigo para o sistema", conforme conta em entrevista a João Aldeia para o site vilardemouros1971, Zeca do Rock viu-se então remetido para as emissoras privadas e, nunca mais podendo gravar, teve de se cingir ao circuito das actuações ao vivo.

Apesar de tudo a sua carreira como Zeca do Rock durou sete anos e além do referido disco ficou também registado no filme de Henrique de Campos Pão, Amor e Totobola (1964), onde faz de líder de gang de rockers e canta Twist para Dois. No entanto, apesar de dizer que deixa a música, o seu nome reaparece em 1970, quando Sérgio Borges e o Conjunto Académico de João Paulo adaptam a sua composição Aguarela Portuguesa sob o nome O Lavrador e, em 1972, quando os mesmos gravam God of Negroes. Escrita aquando da sua estadia na Guiné, onde Zeca do Rock chegou a ter um conjunto, esta é, nas suas palavras, «uma balada pungente, verdadeiro “negro espiritual”, como apelo derradeiro para a salvação de um povo inocente e infeliz, a quem mais ninguém parecia poder socorrer». Pertinente para os tempos que então corriam…