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quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Pão, Amor e... Totobola!"

"Pão, Amor e...Totobola!" é um filme de Henrique de Campos que tem duas curiosidades: 

-Uma sequência num snack-bar onde se podem ver jovens a dançar.




 



- E Zeca do Rock é um dos actores secundários. No entanto, segundo o próprio a maioria das cenas onde entrou, a fazer de leader de um gang de teddy boys, foram cortadas na versão final. 

Além disso, o filme teve direito a banda-sonora editada em disco e aí pode-se ouvir, além Maria Helena e o Conjunto de Hélder Martins, Zeca do Rock a cantar o seu "Twist para Dois". Seria esta a sua última gravação. Depois disto partiria para Inglaterra onde viveria a Beatle-mania em primeira mão.



Como curiosidade acrescente-se que em 1987 os Ena Pá 2000 gravam uma música com o título do filme para o lado B do seu primeiro single.


Pode ser ouvido aqui, numa versão ao vivo num concerto de 2016:


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

' A Invasão Britânica' (1964): Parte 1



Musicalmente, o ano de 1964, em Portugal, começa com o Festival de Ritmos Modernos no Teatro Monumental. Realizado a 11 e 12 de Janeiro nele participam Zeca do Rock, Nelo e o Conjunto Luís Costa Pinto, Fernando Conde e os Electrónicos, Daniel Bacelar e os Gentlemen, Madalena Iglésias e Marina Neves. Poucas semanas depois, a 9 de Fevereiro de 1964, os Beatles chegam aos Estados Unidos, tocam no Ed Sullivan Show, o mundo muda. Apesar de Salazar querer o país "pobre mas independente", Portugal não escapa à "invasão britânica” e, mesmo se “devidamente” controlada, esta alastra-se por todo o país. Tudo o que está para trás – rock ‘n’ roll, twist, instrumentais à Shadows - deixa de interessar ou passa para segundo plano…



Com instrumentos comprados na Casa Gouveia Machado, em Lisboa, começam a formar-se dezenas de conjuntos a tentar imitar os Beatles. Os Rockers e Os Galos de Guimarães, Os Fantasmas de Unhais da Serra, Vagabundos do Ritmo de Évora, Conjunto Manchester da Covilhã, Kings de Caldas de Vizela, o Conjunto Nice 64,Os Gaúchos, Os Martinis, são alguns dos nomes dos novos grupos formados neste ano mas dos quais não resta nenhum registo. 




Mas duas bandas formadas neste ano iriam a marcar o panorama musical dos anos seguintes: os Sheiks e os Ekos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os Verdes Anos (1960-1963): Parte 3



 Estava-se em 1961 e numa altura em que "o público est[ava] arreigado à ideia, aliás falsa, de que o rock é uma música para teddy boys, uma música para transviados e que concorre para actos menos dignos". Por essa razão, cuidadosamente, alguns músicos optam por uma "nacionalização do rock", como lhe chama Zeca do Rock, por "criar um estilo de Rock português" para afastar essas conotações

(retirado de guedelhudos.blogspot.pt)
Assim, a partir daí, começam a fazer e a ouvir-se músicas com nomes como Nazaré Rock e Hino a Jesus, assim como versões instrumentais e "modernas", à Shadows, de temas tradicionais, como o Vira da Nazaré, tocado pelos Titãs ou o Alecrim tocado pelo Conjunto Mistério. Por opção ou por obrigação, o que é certo é que tocar temas populares era uma forma de agradar a novos e velhos e de conseguir mais oportunidades de tocar ao vivo em bailes e festas privadas sem causar grande alarido. Opção que fazia algum sentido especialmente quando os jovens músicos dependiam dos cachets recebidos nestes circuitos para pagar as prestações dos instrumentos. Caso contrário, como constata António Duarte no livro A Arte Eléctrica de Ser Português, quando “os bailaricos em liceus, em colectividades ou centros de convívio não chegam para arranjar a massa, são os pais que cobrem a despesa das prestações"…

(retirado de aja.pt)
 Os alinhamentos dos conjuntos nestes anos consistiam, por isso, nessas versões de temas populares, adaptadas a ritmos modernos, ou não, mas também versões portuguesas de êxitos internacionais. Esta era também uma das exigências das editoras, caso quisessem gravar e, como tal, era comum que os conjuntos se dedicassem a essa “arte” da imitação, que, de resto, como se verá mais adiante, era louvada e premiada pelas instituições e autoridades. A criatividade e a originalidade dos conjuntos limitava-se, nessa forma redutora e auto-censória, à tradução livre da letra inglesa e a algumas composições dos autores que talvez tivessem sorte de alguém gostar…

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rock 'n' Roll em Portugal (1955-1959): Parte III


Zeca do Rock

É também nesse final dos anos 50, que José das Doures começa a aprender a tocar guitarra. Estreando-se em 1959 no programa Bom Dia de José Oliveira Cosme é lá que recebe a alcunha pela qual hoje é conhecido, Zeca do Rock. Influenciado pelo rock 'n' roll norte-americano de então, canta em inglês e em português e opta ao contrário de outros, por fazer as suas próprias músicas. É dessa altura que data Nazaré Rock, que viria a ser gravada para o seu primeiro disco. Editado em 1961 este acabaria por ficar conhecido não pela referida música mas por outra, Sansão foi Enganado, música hoje recorrentemente referida por ser aquela em que ficou registado o primeiro yeah! gravado em Portugal…

Embora, julgando pelo conteúdo do disco, tudo aparente ser inocente ou convencional o seu percurso musical não o foi. Considerado "aos olhos do governo fascista” como “um opositor declarado, uma figura perigosa, incómoda, rebelde, capaz de liderar a juventude, o que representava um perigo para o sistema", conforme conta em entrevista a João Aldeia para o site vilardemouros1971, Zeca do Rock viu-se então remetido para as emissoras privadas e, nunca mais podendo gravar, teve de se cingir ao circuito das actuações ao vivo.

Apesar de tudo a sua carreira como Zeca do Rock durou sete anos e além do referido disco ficou também registado no filme de Henrique de Campos Pão, Amor e Totobola (1964), onde faz de líder de gang de rockers e canta Twist para Dois. No entanto, apesar de dizer que deixa a música, o seu nome reaparece em 1970, quando Sérgio Borges e o Conjunto Académico de João Paulo adaptam a sua composição Aguarela Portuguesa sob o nome O Lavrador e, em 1972, quando os mesmos gravam God of Negroes. Escrita aquando da sua estadia na Guiné, onde Zeca do Rock chegou a ter um conjunto, esta é, nas suas palavras, «uma balada pungente, verdadeiro “negro espiritual”, como apelo derradeiro para a salvação de um povo inocente e infeliz, a quem mais ninguém parecia poder socorrer». Pertinente para os tempos que então corriam…

domingo, 11 de novembro de 2012

Zeca do Rock (1943-2012)

"Segundo consta, a gravação desse primeiro disco foi feita em apenas duas horas e em condições adversas. Pode nos falar mais a respeito?

Primeiro, a gravação foi feita às 9 horas da manhã, que é um horário completamente impróprio para cantar, mas que era também o horário mais barato para o aluguel do estúdio. Segundo, eu acordei com uma forte amidalite nessa manhã, e uma temperatura de mais de 39 graus. Terceiro, o “estúdio” ficava numa casa milenar da parte antiga de Lisboa, não tinha as mínimas condições acústicas nem qualquer tipo de isolamento sonoro. Os ruídos dos carros na rua, dos aviões que passavam, etc, obrigavam a que se parasse a gravação porque o ruído entrava pelos microfones. Quarto, somente eram permitidos 2 “takes” de cada música, porque o estúdio tinha sido alugado somente por 2 horas. Quinto, a banda e eu gravamos todos em conjunto, na mesma sala, com um simples biombo a separar-nos. Sexto, eu nunca tinha ensaiado com a banda completa, somente com o pianista. Sétimo, foi a primeira vez que ouvi os arranjos orquestrais.

Aqui tem as 7 principais condições adversas que acompanharam a gravação do meu primeiro disco. Precisa mais?"

Zeca do Rock em entrevista a João Aldeia in http://www.oocities.org/vilardemouros1971/zecadorock.htm

segunda-feira, 13 de junho de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 26

Apesar de tudo Portugal continuou a investir nas colónias estimulando o seu desenvolvimento, com universidades, estradas, hospitais, aeroportos e dando isenção fiscal aos investimentos estrangeiros.

Também a indústria do entretenimento continuava a desenvolver-se, com Joe Mendes a organizar concertos e festivais com as bandas locais, como os Night Stars, Os Demónios, Os Dragões ou os Beatnicks. Foi nesse ano que se realizou também o 1º Grande Festival Yé Yé de Angola, com conjuntos de Malanga, Carmona, Nova Lisboa e Luanda e a eleição de Miss Yé-Yé e Miss Mini-Saia.

Em Moçambique organizaram-se os Encontros de Juventude Laurentina. Formaram-se novas bandas como os Sprits do Norte de Angola, os Play-Boys de São Tomé, os Joviais, os Palancas e o Conjunto Oliveira Muge de Moçambique ou os Inflexos, que tocavam sobretudo em boites dos hotéis, como a Comandante ou a Taverna. Tambem dentro dos acampamentos militares, com soldados membros de antigos conjuntos, formam-se novos grupos. Os Pop 6, situados em Luanda eram constituídos por membros dos Espaciais, do Porto, e de Os Rebeldes. Os Kapas, em Bissau, tinham na sua formação membros dos Titãs e dos Guitarras de Fogo da Caparica. Também Zeca do Rock fez por lá uma nova banda e foi para entreter os soldados que se marcaram digressões do Conjunto João Paulo na Guiné Portuguesa e Moçambique, dos Álamos, entre outros.

quarta-feira, 16 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 12

1964-1965: "A Invasão Britânica"

Lentamente o panorama começava a mudar. O ano de 1964 começou com o Festival de Ritmos Modernos no Teatro Monumental, realizado a 11 e 12 de Janeiro onde participaram Zeca do Rock, Nelo e o Conjunto Luís Costa Pinto, Fernando Conde e os Electrónicos, Daniel Bacelar e os Gentlemen, Madalena Iglésias e Marina Neves.

"O Festival foi o mais completo sucesso em termos de rock and roll, com a assistência a gritar, dançar, e aplaudir-nos vibrantemente. O grande erro foi o Vasco Morgado (talvez para fazer a vontade à Censura) ter tentado misturar cançonetistas tradicionais com intérpretes de rock. Pela nossa parte, tudo bem, porque éramos colegas e amigos dos tradicional-cançonetistas, mas certo público jovem, cansado da música que lhe era impingida pelas instâncias oficiais, estava ali para soltar o grito do Ipiranga contra o antigo regime em termos de preferências musicais. Em consequência, decidiu pura e simplesmente recusar-se a ouvir esses intérpretes, vaiando-os e até lançando objectos para o palco"[1].


Mas quando a os Beatles chegaram aos Estados Unidos e tocaram no Ed Sullivan Show, a 9 de Fevereiro de 1964, tudo mudou. Salazar queria "este país pobre mas independente", mas Portugal não conseguiu resistir à "invasão britânica"[2], e por todo o país começaram então a aparecer bandas de jovens a imitar estes seus novos ídolos. Os instrumentos, esses, eram comprados a prestações na "casa de instrumentos musicais na rua de S. José, em Lisboa, uma espécie de santuário para todos nós, a Casa Gouveia Machado"[3] e pagos com o dinheiro futuramente ganho nos bailes ou concertos. Por essa razão, os reportórios continuavam a consistir em, sobretudo, versões de músicas tradicionais e dos êxitos internacionais, sobretudo franceses e italianos.

Em entrevista à Plateia em Agosto de 1969, em jeito de balanço da década, o director desta casa conta que vendeu "instrumentos suficientes para equipar perto de 3.000 conjuntos"[4].



[1] Zeca do Rock in http://guedelhudos.blogspot.com , 8.2.2008

[2] Termo usado para descrever as bandas de rock'n'roll inglesas, da década de 60, que começaram a ter sucesso fora do seu país de origem, sobretudo nos Estados Unidos. Além dos Beatles, fizeram parte desta invasão os Rolling Stones, The Who, Yardbirds, The Kinks, The Animals, entre muitos outros.

[3] Daniel Bacelar in http://guedelhudos.blogspot.com , 26.12.2007

[4] "O negócio dos instrumentos em Portugal" in Plateia, no.446, 19.8.1969