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terça-feira, 10 de agosto de 2010

escrevo para desistir



" Ao amarrotar uma carta entre os dedos, sinto que está distante o fluir de momentos que foram meus e abandonei para sempre. É então que uma espécie de morte me percorre os sentidos.
O sol aquece, as folhas das árvores brilham. Devíamos estar gratos à vida só pelo facto de existirem árvores. Ao observá-las sinto haver em mim palavras adormecidas que hão-de despertar. Não chegou ainda a serenidade das longas tardes de Verão em que ao olhar o mar ficamos submersos na nossa vida interior.
As experiências penetram em cada um de nós e ficam a pertencer-nos. Mesmo as desagradáveis, aquelas que queremos afastar, permanecem insistentes, solidificam de um modo capaz de surpreender-nos. Quantas vezes uma simples palavra murmurada ganhou extraordinária importância, ou a expressão de um moribundo nos impressionou de tal modo que nunca mais pudemos esquecê-lo."


Isabel de Sá - Escrevo Para Desistir

domingo, 8 de agosto de 2010

semente de um amor atribulado



" Só o lume dos teus beijos rompe
a treva onde a solidão nos mata.
Enrolamos a vida no escuro,
na semente de um amor atribulado.
Conhecemos o ritmo e a sede,
a convulsão do desamparo.
No sentido do corpo, no acerto
desce a força pelos braços
na violenta festa do prazer.
Tudo o que disseste
no desaforo da paixão
só podia incendiar a vida inteira
e encher de esperança o universo."

Isabel de Sá - O Brilho da Lama

só... comigo.


imagem - Violet

sábado, 7 de agosto de 2010

dera-se a iluminação.



Fui à rua buscar a morte que andava desaustinada pelas paredes como cão raivoso. Ofereci-lhe o braço, trouxe-a comigo, fi-la minha amante. Num leito de linho nos deitámos e em segredo me falou dias seguidos sobre a sua infância, a solidão debaixo da terra, o amor pela natureza. Explicou-me como acariciava os bichos comedores de cadáveres e dessa alegria maliciosa.
A morte passou a ter para mim muita importância. Comecei a vesti-la de alvas roupas, coser-lhe flores ao crânio, amando-lhe a face lívida, iniciando-a numa sensualidade sem fim.
Então, numa manhã a Morte sorriu mostrando nos lábios o seu carácter perfeito, isento de mesquinhez; beijou-me a boca, as pernas, o coração. Perturbou-me.
No meu interior países fervilhavam, milhões de rostos se viraram à luz:
tudo era claro como nunca sucedera.
Começara outra vida: dera-se a iluminação.


Isabel de Sá - Esquizo Frenia
imagem - Lilya Corneli