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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Oliver Twist - Charles Dickens


Comentário:
Segundo livro de Dickens, apresenta-nos as bases daqueles que serão os traços fundamentais da sua magnífica bibliografia: escrita muito visual, simples e fluída, servindo de base a uma temática de âmbito social que hoje talvez apelidaríamos “de intervenção”. Numa fase pré-socialista e pré-sindical, o capitalismo ainda mais selvagem que o de hoje imperava no ambiente vitoriano. A sociedade “british”, altiva e hipócrita, encaixava no seu seio a mais rude e desumana pobreza, encarando-a com naturalidade, como se os homens desprotegidos pela sorte constituíssem uma espécie de casta menor, que esses mesmos cidadãos “asseados” tinham de suportar.
Oliver, o miúdo órfão representa toda essa classe de crianças que a sociedade londrina rejeita, empurrando-a para a sarjeta da criminalidade e da miséria.
Este é um dos primeiros livros de Dickens e talvez por isso é um dos mais lineares e mais “ingénuos” na medida em que privilegia a narrativa, o humor e a emoção, a incerteza no evoluir da narrativa. Na sua tendência para a narrativa biográfica de ficção (que viria a reforçar e desenvolver com Nicholas Nickleby e David Copperfield, toda a ação é centrada nas personagens, nas suas emoções e sentimentos. Neste aspeto talvez Dickens tenha sido um dos percursores do género “novela”, entendido como romance ligeiro e que dá preferência às histórias “de vida”. Não sei, deixo isso aos especialistas da literatura. No entanto, o que interessa reter é que, sendo uma obra publicada em fascículos, Dickens, mesmo nesta fase inicial da carreira, manobra como ninguém a emoção e a incerteza na mente do leitor levando-o a devorar página sobre página.
Embora seja um crítico da austera sociedade vitoriana com todos os seus problemas. Dickens não deixa de ser, a seu modo, um moralista, como se vê numa parte essencial do livro em que um assassinato é seguido por uma violenta crise de consciência, um remorso a fazer lembrar o Crime e Castigo de Dostoievski.
Neste livro, o génio britânico desmente um pouco aquela ideia que por vezes fixamos a respeito das suas ideias, segundo a qual o autor defende incontornavelmente os elementos hierarquicamente mais baixos da sociedade; na verdade, aqui ele acusa claramente esse tipo de pobre que se refugia na criminalidade e por vezes roça até um certo moralismo. Mas depressa esse moralismo se desvanece e é substituído pelo humor com que a sua crítica atinge, por exemplo, os elementos da polícia londrina, supremos exemplos de estupidez.
O sentido de humor é finíssimo que deixa um sorriso permanente e não a gargalhada efémera. Exemplo, um trecho de um diálogo entre um bedel (funcionário paroquial) e a mulher de meia-idade, beata e bem nutrida:
“A dama não pôde resistir. Caiu nos braços do bedel, e este depôs um apaixonado beijo no nariz da matrona. 
— Que perfeição paroquial! — Exclamou o Sr. Bumble!”
Posteriormente, o casamento destes personagens serve a Dickens para uma corrosiva e brilhante crítica social, apresentando-nos um bedel que deixa de ser o altivo funcionário para se transformar no submisso marido, capaz de encaixar uma valentes “porradas” por parte da matrona.
O livro termina de forma algo melodramática, num quadro profundamente emotivo que Dickens não repetirá (pelo menos de forma tão vincada) nas obras subsequentes.
Uma nota final para esta histórica e excelente tradução de Machado de Assis: aqui nada é supérfluo. Assis terá optado por uma tradução bastante interventiva que tornou o livro mais sintético mas, ao mesmo tempo, mais atraente ao leitor.

Sinopse (in wook.pt)
Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist destaca-se pelo seu realismo, retratando pela primeira vez a rudez dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha.
Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente. Diversas vezes adaptado ao cinema e à televisão, Oliver Twist tem agora uma nova versão cinematográfica pela mão do mestre Roman Polanski.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Guinéu da Orfã e A História do Limpador de Botas - Charles Dickens


Comentário:
Chegaram-me às mãos estes dois livrinhos que, como é óbvio, li num instante. Por se tratar de narrativas curtas com características comuns, optei por inseri-los numa mesma mensagem.
Trata-se de um curioso formato de minilivros, ideal para uma viagem ou uma sala de espera. O Guinéu da Órfã contem apenas um conto, enquanto a História do Limpador de Botas inclui para além do conto que dá título ao livro, A História de Ninguém e Entrar na Sociedade.
Para ir diretamente ao mais importante, o que melhor me impressionou nestes pequenos contos foi a constatação de uma verdade que só confirma o génio de Dickens: se, nas suas grandes obras, ele se espraia por explicações e descrições por vezes demasiado exaustivas, na narrativa curta, Dickens coloca totalmente de parte essa tendência, oferecendo-nos uma escrita muito económica, cingida ao essencial, desprovida de qualquer elemento supérfluo. Como é próprio de um contista de génio, ele consegue tratar a escrita de como se fosse filigrana, com um cuidado notável na escolha das palavras, o que confere uma enorme clareza à narrativa.
O Guinéu da órfã é um conto que sintetiza muitos dos grandes temas da obra de Dickens: a atenção dada aos desprotegidos, nomeadamente os órfãos, para quem a caridade vitoriana é mais um aspeto de exterioridade do que, de facto, obra de ajuda ao próximo. Por outro lado, a crítica social, nomeadamente em relação a uma aristocracia fútil e materialista.
A História do Limpador de Botas é um conto de raríssima beleza onde está bem vincada a sensibilidade e o humanismo de Dickens. O personagem central da estória é Cobbs, um modesto mas simpático criado de uma família abastada. Cobbs sintetiza as qualidades que o autor vê nas classes inferiores da sociedade: laboriosas e injustiçadas. Cobbs funciona, no entanto, como narrador da estória que nos fala da paixão infantil entre duas crianças com cerca de dez anos. Ao abordar o amor puro e belíssimo entre Henry e Norah, Dickens constrói algumas das páginas mais belas da sua bibliografia. É que Henry e Norah ainda não estão corrompidos pela hipocrisia e vícios da sociedade aristocrática; eles são belos e encantadores na sua pureza e na sua inocência. Eles são belos e de coração puro. Por oposição,  a sociedade é pérfida  e injusta.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Nicholas Nickleby - Charles Dickens


Comentário:
Só agora, à medida que vou conhecendo a obra de Dickens, começo a compreender porque é que os seus livros me fazem sentir jovem. É que livros como este despertam o sonho; são dramas da vida real em que o bem e o mal entram em confronto, mas sendo o Bem o eterno vencedor. Esta ingenuidade não é mais que o reflexo da bondade natural que caraterizava este magnífico ser humano chamado Charles Dickens. Os famosos finais felizes de Dickens não são apenas elementos de simplismo romântico; são um manifesto da sua crença no futuro da humanidade, com base na bondade natural do ser humano.
Este é talvez o seu livro mais dramático, em que as situações de injustiça e de maldade são mais cruas e violentas; mas é também o livro (dos que já li) em que a redenção é maior, em que os castigos são mais pesados e em que os bons são mais magnanimamente premiados, a fazer lembrar as mais românticas novelas dos séculos XIX e XX, com personagens profundamente maniqueístas
Este é talvez o livro de Dickens em que a sua experiência como jornalista é mais notória, com descrições objetivas, claras, quase visuais. Daí advém uma leitura simples e agradável.
Ao longo do livro, o protagonista vai reforçando o seu caráter. De início ele é uma boa alma, mas de comportamento algo amorfo. Mas a violência da sociedade leva-o à necessidade de moldar esse carater forte e na segunda metade da obra deparamos com um Nicholas com grande força de caráter, um justiceiro, um elemento de força e de crença capaz de servir de modelo aos políticos amorfos e interesseiros que Dickens também ridiculariza. Na verdade, o que distingue os personagens, mais do que o Bem ou o Mal é a Vontade; é o querer, é a força para querer mudar, para salvar uma sociedade manchada violentamente pela desigualdade e pela injustiça.
Ou seja, o âmago do livro assenta uma profunda crítica social acima de tudo, mas também critica política. Os alvos são o lorde, ou seja, o aristocrata balofo, interesseiro e ignorante, o burguês explorador e egoísta mas também os políticos, desinteressados do bem público. Convém notar que o livro foi escrito em 1838/39, 4 a 5 anos depois da publicação das leis conhecidas como Poor Laws, em que o governo britânico adotava uma estratégia de apoio aos pobres com base na segregação. Dickens, como é óbvio, esteve na charneira do debate.
A crítica ao sistema de ensino parece estender-se, de uma forma mais global, a todo um sistema social assente sobre o materialismo e uma certa ordem racionalista. A crítica assume uma forma satírica, mau grado o dramatismo da forma como são tratados os alunos do internato onde Nicholas trabalha; o mestre-escola, avaro, pérfido, é a imagem do personagem a quem apenas interessam os bens materiais e a escola pratica um sistema de castigos corporais violentos justificados pela necessidade de ordem; ora, esta ”ordem” parece ser também o motivo de uma repressão social mais global que Dickens acusa na figura dos políticos, dos comerciantes sem escrúpulos, dos funcionários do estado, enfim de toda a classe burguesa reinante na época.
Mas não se pense que o livro redunda numa pesada e austera crítica; de repente o livro deixa de ser um drama para se ir transformando num quase alegre livro de aventuras;  a transformação de Nicholas em ator e o contacto com as novas personagens dão ao livro uma leveza, uma graça que à partida não se descortinava, tal era o peso das desgraças da família Nickleby.


Sinopse: (in wikipedia)
O romance retrata os percalços de um jovem britânico, Nicholas Nickleby que, com a morte do pai, tornou-se responsável pela família composta por sua mãe e irmã. Nicholas, porém, não tinha emprego nem dinheiro e sua mãe escreve para Ralph Nickleby, irmão de seu marido recém-falecido, solicitando ajuda. Ralph é um homem desalmado, com muito dinheiro e amigos desagradáveis e perigosos. Sua ajuda tem um quê de crueldade levando Nicholas a separar-se de sua família e a conviver com situações muito dolorosas. O jovem, porém, digno e sensível, direciona seus esforços para ajudar a sua família e seus amigos que direta ou indiretamente passam a ter suas vidas atormentadas pelas ações do tio Ralph.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Dickens - Genialidade absoluta


Estou neste momento a ler Nicholas Nickleby e estou encantado. E dececionado por ter chegado a esta idade sem ler os grandes livros deste génio literário.
Talvez Charles Dickens tenha sido o maior contador de estórias de todos os tempos. Não me refiro, obviamente, a muitas estórias mas, certamente, a GRANDES estórias. Cada livro do grande mestre britânico é uma viagem encantadora a um mundo que já não sendo nosso, foi o meio encantado e desgraçado que nos precedeu: esse magnífico e medonho século XIX, cheio de esperanças e de fascínio mas também carregado de injustiças e medos.
Charles Dickens talvez tenha sido um comunista antes do comunismo: preocupado, acima de tudo, com as injustiças daquela época vitoriana, em que a exploração do homem pelo homem era uma regra implícita mas bem patente do universo vitoriano; um mundo cheio daquela perfídia que resulta da legitimidade na luta pelo sucesso material; a isso se chamou, com muito descaramento, moral burguesa. 
É por isso que as personagens de Dickens são tão encantadoramente maniqueístas: há uma linha clara que separa os bons, os honestos que são vítimas, daqueles que representam as forças do mal e que mais não são que os frutos desse meio burguês materialista e capitalista. E é por isso que é impossível a qualquer leitor esquecer personagens fantásticas, magníficas enquanto seres humanos como são Nicholas Nickleby, David Copperfield, mas também geniais personagens secundários, autenticas obras de arte na criação o romancista, como são Wilkins Micawber ou Newman Noggs. Mas, muitas vezes, é no horrível que encontramos a mais belas obras de arte e personagens pérfidas como Uriah Heep ou Wackford Squeers não deixam de ser criações únicas e geniais.
imagem de http://www.notable-quotes.com/

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

David Copperfield - Charles Dickens


Comentário:
Esta é uma das primeiras grandes obras literárias que denuncia a hipocrisia e a rigidez absurda da moral vitoriana (período histórico que acompanha o reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1901). Este livro, publicado pela primeira vez em 1850, é um testemunho forte da rigidez por vezes brutal de uma educação que encara a criança como um ser naturalmente malévolo, que é preciso civilizar, da mesma forma que, por essa época, os exércitos ingleses impunham a força das suas armas sobre o enorme império britânico. 
Esta época de forte industrialização serve de pano de fundo a uma sociedade que alimenta, cada vez mais, o orgulho britânico, tornando-o inquestionável e seguro de uma vanguarda civilizacional que deveria impor-se a todo o custo, tanto a nível externo como interno; assim se explica a emergência de uma sociedade eivada de injustiças e fortes contrastes sociais. É este o pano de fundo para o surgimento de diversas correntes revolucionárias, das quais o socialismo é o mais lídimo representante. E Dickens foi, indubitavelmente um percursor do pensamento revolucionário da segunda metade do século.
Um dos pontos fortes da arte literária de Dickens é a força das suas personagens; pela positiva ou pela negativa, a maioria delas têm uma personalidade bem definida, como se fossem modelos nos quais podemos encaixar qualquer ser humano. Desta variedade tão rica podemos destacar um personagem fascinante: Uriah Heep, o malévolo sócio de Mr. Wickfield. Trata-se daquele oportunista “lambe-botas” que tão bem conhecemos da vida real, sempre pronto a curvar a coluna vertebral para, hipocritamente, daí tirar o maior proveito. Até o retrato físico do personagem é eficaz, levando o leitor a imaginá-lo como uma autêntica ratazana.
Por oposição, merecem destaque três personagens muito poderosos que se afirmam pela bondade e pelas qualidades humanas: Mr. Dick, Wilkins Micawber e, na parte final do livro, o extraordinário amigo de David, Traddles; os três são algo alienados, ambos com aparência algo idiota. São três corações puros e três homens honestos vítimas da sociedade. 
Por outro lado, o meio em que David se move quando inicia a sua vida profissional é marcado por esse individualismo burguês que serve de base social à dinâmica capitalista liberal, assente sobre o princípio geral da concorrência. E o capitalismo, como sabemos, levou-nos dessa concorrência ao desprezo pela ética e pelo humanismo num abrir e fechar de olhos.
Mesmo assim prevalece ao longo de todo o livro a preocupação de manter o dedo acusatório em riste, sobre uma sociedade injusta e desigual, mais uma vez ilustrada pelo esforço feito pela personagem Mowcher para ser vista como um ser humano normal, mau grado a baixa estatura que a tornava alvo de desprezo. 
Esse dedo acusatório eleva-se de forma eloquente quando Dickens aborda as reações da ”sociedade” à perda da fortuna por parte de David. Na verdade, a necessidade de trabalhar é vista como uma desonra e a eminencia da pobreza é encarada como um fantasma tenebroso. A própria Dora não consegue colocar o amor por David acima desse fantasma que a assombra: a possibilidade de não ter todos os dias uma costeleta de carneiro para dar ao cão.
Aos pobres, a sociedade vitoriana exige, acima de tudo, humildade na aceitação da inferioridade social. No entanto, é forçoso distinguir a humildade honesta, fruto da consciência do seu papel secundário, do Sr.Pegotty da humildade falsa, calculista, do abominável Uriah Heep, esse personagem infelizmente tão atual cujos grandes méritos são a arte do fingimento e uma ambição capaz de o levar às maiores desonestidades e traições. Ontem como hoje.   
Dora é o testemunho implacável da ”cegueira” do amor de David; ela tem uma personalidade pueril, mimada e ideias totalmente ocas. No entanto, na mente apaixonada de David todos esses defeitos são vistos como qualidades.
Também na parte final do livro, emerge a importância vital da emigração para as colónias como meio de fuga às desigualdades e injustiças sociais. Países atualmente tão poderosos como EUA ou Austrália foram, naquela época, o refúgio para muitos pobres, perseguidos, enjeitados e deserdados da injusta sociedade de Sua Majestade Britânica.
O único aspeto menos positivo que podemos apontar a esta obra é a excessiva importância que Dickens dá aos pormenores. Tal preocupação faz com que o livro se torne demasiado extenso (esta edição tem 720 páginas) mas sem nunca deixar de ser uma leitura agradável, tal é a capacidade narrativa do autor.

Sinopse in www.wook.pt:

David Copperfield conta-nos a aventura de um rapaz, desde uma infância infeliz, até à descoberta da sua verdadeira vocação, a de romancista. Entre os fantásticos personagens do livro estão o seu padrasto, Mr. Murdstone; Steerforth, o brilhante, mas desprezível colega de escola; a formidável tia Betsey Trotwood; a humilde e traiçoeira Uriah Heep; a frívola e encantadora Dora; e ainda o "remediado" Micawber, uma das maiores criações cómicas da literatura de todos os tempos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

The Chimes (Os Sinos de Ano Novo) - Charles Dickens


Comentário:
O  Natal de Mr. Scrooge é talvez o conto de Natal mais lido no mundo. Ele tornou-se um hino e  um símbolo dos valores humanos que rodeiam esta época festiva. No entanto, este conto, Os Sinos do Ano Novo, muito menos divulgado, não se pode considerar em nada inferior ao consagrado Scrooge.
Com o título original The Chimes, Os Sinos do Ano Novo foi publicado pela primeira vez em 1844, exactamente um ano depois do conto de Natal.
Talvez se note neste conto alguma influência de Victor Hugo (ou mera coincidência?): a simbologia dos sinos havia sido explorada de uma forma semelhante pelo grande mestre da literatura francesa treze anos antes quando, em 1831, foi publicado o belíssimo Notre-Dame de Paris, onde o famoso Corcunda de Notre-Dame convivia diariamente com os sinos da majestosa catedral da capital francesa.
É curioso que, tal como no grande romance de Hugo, também aqui os sinos não simbolizam a alegria da época festiva; não são sinos de júbilo ou de felicidade; são sinos que marcam o ritmo de um tempo em que nada se modifica. O ambiente do interior da igreja e do campanário faz também lembrar as descrições lúgubres do interior da Notre Dame habitada pelo corcunda; um ambiente soturno e triste.
Assim, os sinos não anunciam nada de novo, da mesma forma que o próprio Ano Novo não anuncia nada de feliz. Na verdade, uma das mensagens fundamentais do livro é precisamente essa: não há razão para festejar o novo ano porque a injustiça e a pobreza continuarão a reinar.
Nunca é demais realçar a sensibilidade para as questões sociais que Dickens demonstra. Ainda antes do aparecimento das ideias socialistas ele anuncia um tempo de contestação que será determinante para temperar essa fase de profundas desigualdades que foi a época vitoriana.
Mesmo os contos mais belos de Dickens têm o condão de revelar o Mal nas suas facetas mais macabras e mais pérfidas. Para quem espera um belo conto de Ano Novo é por vezes doloroso enfrentar as descrições que Dickens faz da maldade, da injustiça e das desigualdades daquele tempo. Daquele tempo e de todos os tempos.
No entanto, na tristeza também há poesia. E até alguns laivos de felicidade. 
Um livro curto, simples, direto, onde está patente toda a beleza da escrita de Dickens, talvez o melhor narrador de todos os tempos. 
E para todos os leitores deste blogue UM BOM ANO NOVO.

sábado, 20 de setembro de 2014

O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens


Comentário:
Esta deve ter sido a terceira ou quarta vez que li este livrinho. E há sempre algo de novo a descobrir nestas singelas 114 páginas. Desta vez resolvi lê-lo longe da quadra natalícia porque um amigo pediu-me para selecionar 2 ou 3 trechos para um trabalho seu. Curiosamente, não foi fácil encontrar 3 frases lapidares; isto porque o livro, essencialmente narrativo, embora tenha uma mensagem muito forte, acaba por delinear essa mensagem através da globalidade da narrativa e não por frases lapidares.
E precisamente essa mensagem global tem algo de único: ao contrário de muitos outros livros sobre o espírito do Natal, esta obra de Dickens assenta numa fortíssima antítese entre o bem e o mal. Há, em determinadas fases do conto, um ambiente quase tétrico, em que o autor pretende chocar o leitor com os fantasmas do lado negro da alma humana. Na verdade, é mais esse lado negro que Dickens nos quer mostrar. E neste aspeto a obra é profundamente atual. Infelizmente, Scrooge não é apenas o velho avarento;é muito mais que isso; é o paradigma da maldade, do egoísmo interesseiro que ainda hoje domina o nosso mundo. São os Scrooge de hoje em dia que dominam as grandes finanças internacionais; as Troikas são feitas de Scrooges; as guerras e revoluções que vão decapitando inocentes são financiadas pelos Scrooges da atualidade. E muitos dos milhões que diariamente passam fome devem tal martírio a esses mesmos Scrooges...
Mais do que um livro sobre o Espírito do Natal, este é um belo livro sobre o lado negro da alma humana.

Sinopse:
O célebre conto “A Christmas Carol” (“O Natal do Sr. Scrooge”) foi publicado em 1843 e desde então tem sido alvo de sucessivas adaptações ao cinema, televisão e teatro.
Talvez porque este livro seja muito mais do que uma história natalícia. As imagens que geralmente se associam a esta época — o Natal como sinónimo de reunião familiar — foram fixadas e transmitidas de geração para geração por estas páginas que Dickens escreveu em apenas seis semanas.
Ebenezer Scrooge, o protagonista, é um homem velho e só, permanentemente mergulhado nas suas contas e negócios, de quem nem os cães ousam aproximar-se.
“Uma ave de rapina! Duro e afiado como uma pederneira, do qual nenhum aço conseguira fazer saltar uma centelha de generosidade; secreto, reservado e solitário como uma ostra. O frio que havia dentro dele gelava-lhe os traços, enregelava-lhe o nariz pontiagudo, enrugava-lhe as faces, endurecia-lhe o porte, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os finos lábios e transparecia no rabugento tom da sua voz desagradável.”
Numa noite, porém, Scrooge recebe a visita inesperada do seu antigo sócio Marley. Este avisa-o de que vai ser perseguido por três espíritos: o do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro. E, ao longo destas viagens pelo tempo, Scrooge vai-se transformando num homem diferente.
in http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/charlesDickens/contosDeNatal.htm

terça-feira, 27 de agosto de 2013

História de Duas Cidades - Charles Dickens

Sinopse
Ao fim de dezoito anos de prisão na Bastilha como prisioneiro político, o envelhecido Dr. Manette é libertado e parte para a Inglaterra, onde volta a encontrar a filha. Aí, dois homens, Charles Darnay, um aristocrata francês exilado, e Sydney Carton, um advogado brilhante mas de má reputação, apaixonam-se por Lucie Manette. Das ruas pacíficas de Londres, são levados para a Paris do Reino do Terror, onde a sombra fatal da guilhotina abarca tudo e todos.

Comentário:
Talvez só Victor Hugo tenha trasposto a Revolução Francesa para a literatura de ficção de forma tão fiel e emocionante como o fez Charles Dickens nesta obra. O enredo desenvolve-se em duas cidades, Londres e Paris e por detrás de todos os acontecimentos está esta tremenda verdade: as injustiças sociais que conduziram à grande revolução não eram específicas de França; elas existiam da mesma forma em Londres porque o sofrimento dos injustiçados é universal.
O que mais impressiona neste livro é este desmascarar das injustiças e a justificação das terríveis e sangrentas vinganças que marcaram aqueles anos de finais do século XVIII. Mas mais admirável é ainda o facto de este livro ter sido escrito em 1859, antes do surgimento das teorias socialistas. Na verdade, as ideias de Dickens podem, neste livro, ser consideradas percursoras do socialismo, tal é a preocupação com o desmascarar de tais injustiças.
No entanto, não se pense que estamos perante uma obra de cariz ideológico; pelo contrário, o autor consegue “ver os dois lados” a apontar o dedo às outras injustiças: as que se cometeram no período do terror, em que a vingança (neste livro personificada como a personagem Vingança) assume uma matriz de violência extrema, da qual foram vítimas muitos inocentes, em nome dos belos ideais da Revolução.
Pelo meio fica a inevitável estória de amor. Mas mesmo nesse aspeto, tão sujeito aos clichés da literatura oitocentista, Dickens não deixa de nos presentear com aquilo que, na minha opinião há de mais encantador na sua escrita: a caracterização das personagens; desde o bondoso Lorry, um velho e amável banqueiro até à impiedosa Madame Defarge, a imagem terrífica do mais cruel jacobinismo, desfilam personagens tipo, todas elas cheias de significado na representação global da alma humana: o magnífico e heroico Sidney Carton, que dá a vida para salvar os que ama, a singela Lucie, a imagem da ingenuidade imaculada e Charles Darnay, um herói quase imbecil, um homem de bom caráter mas incapaz de se opor à fúria dos tempos e dos homens.
Exposto o que de mais genial tem este livro, não posso deixar de apontar um defeito que, num autor como Dickens, é algo estranho: a imensa quantidade de coincidências que tornam o enredo francamente “impossível”. Alguns dos personagens cruzam-se de forma completamente impensável, em situações inimagináveis.
O final do livro é constituído por algumas páginas de arte em estado puro. Algumas das páginas mais belas que até hoje se escreveram. Simplesmente magistral.
Enfim, um livro de leitura fácil e apaixonante que me ajuda a cimentar a convicção que venho formando há uns anos: a literatura oitocentista é verdadeiramente apaixonante. Embora com grandes e honrosas exceções (Fitzgerald, Joyce, Mann, Murakami, Auster, Kafka, etc.), o século XX, a meu ver, não superou a centúria grandiosa que o precedeu. Mas isso será assunto para outros escritos…