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terça-feira, 17 de março de 2026

GAL, O MUSICAL

 

Fotos de Edgar Machado

        Marília Toledo e Emilio Boechat vêm se especializando em musicais biográficos de artistas brasileiros e seus últimos trabalhos (“Ney Matogrosso – Homem Com H” e este “Gal – O Musical”) revelam maturidade na concepção e muito bem-vinda originalidade em relação a seus similares da Broadway. Kleber Montanheiro, outro especialista em musicais junta-se a Marilia na direção do espetáculo sobre Gal e o resultado é uma festa colorida que deve fazer Gal cantar “Balancê”, esteja onde estiver.

        Em boa hora a dramaturgia não cita a última companheira de Gal, nem mostra sua triste partida, terminando apoteoticamente com elenco e público cantando “Festa no Interior”.

        A encenação deve muito à coreografia e a dinâmica direção de movimento de Semardha S. Rodrigues, à cenografia de Carmem Guerra que ocupa criativamente o espaço do 033rooftop e aos desenhos de luz (Gabriele Souza) e de som (Eduardo Pinheiro). Os figurinos de época são de autoria de Kleber Montanheiro.

        Não há como não destacar o visagismo (Louise Helène) e as perucas (Emi Sato) que muito colaboram para a caracterização de Walerie Gondim, que em certos momentos parece ser a própria Gal.

        Como as personagens do espetáculo provem de várias partes do Brasil é de muita importância a função de Andréia Vitfer na preparação vocal e de sotaque.

        A direção musical é de Daniel Rocha e os músicos são regidos por Vivi Godoy.

        O elenco afinado e animado canta e interpreta muito bem. Não há como não destacar Bruna Pazinato, como Lúcia Verissimo que tem belos duetos com Gal / Ivan Parente como o irriquieto Guilherme Araújo / Edu Coutinho (em boa hora estreando em São Paulo) como Caetano Veloso / Vinicius Loyola, muito bem como Tom Zé, mas nem tanto como João Gilberto / Marco França, Badu Morais e Fernanda Ventura que formam as divindades da Suméria que acompanham e criticam a trajetória de Gal / Théo Charles como Gilberto Gil / Daniela Cury (mãe de Gal).

        E que todos os holofotes e aplausos dirijam-se para Walerie Gondim, graciosa, simpática e bonita, que incorpora Gal Costa de maneira to-tal e fa-tal. Em certos momentos tem-se a impressão que é a própria Gal que esta ali. Some-se a isso a sua bela e afinadíssima voz, tal qual Gal (até rimou!!). Uma artista a quem se deve prestar muita atenção.

         A montagem é cheia de belos momentos, mas vale lembrar dos duetos de Gal com Lúcia Veríssimo (“Azul”), com a mãe (“Vapor Barato”), “Força Estranha” (solo de Gal) e “Fé Cega, Faca Amolada” com os Doces Bárbaros.

  

        GAL, O MUSICAL está em cartaz no 033 Rooftop (junto ao Teatro Santander). Sexta, 20h30 / Sábado, 16h30 e 20h30 / Domingo, 15h30 e 19h30.

        Delicioso demais para perder!

17/03/2026 – Dia do aniversário da Elis!

 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

DOMINGO NO PARQUE, O MUSICAL

 

Nunca houve, nem haverá jamais outra canção como “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. No “Festival de Música Popular Brasileira” da TV Record de 1967 essa música causou espanto, vestida com um revolucionário arranjo de Rogério Duprat, que mescla sons de música clássica com toques de berimbau e interpretada por Gil e Os Mutantes.

Nos seus três minutos e quarenta e dois segundos de duração a canção conta uma história desde a definição dos personagens até seus finais trágico. Tudo de maneira tão envolvente que o ouvinte chega a visualizar o que acontece com José, João e Juliana.

A transposição para a cena teatral dessa história sensual e trágica que acontece em um ambiente de capoeira deve ter ficado no imaginário de muitos encenadores brasileiros por muito tempo.

O diretor Alexandre Reinecke comenta que essa ideia ficou na sua cabeça por 30 anos até a sua realização ora em cartaz no Teatro Claro Mais SP.

Reinecke criou uma dramaturgia simples, mas bem estruturada ambientada numa roda de capoeira e seus arredores. Introduziu as personagens de Juci, companheira de João e da Mãe Preta, conselheira de José. Comparecem também duas crianças, uma, filha de Juci e João e a outra, filha de Juliana. Juliana é cantora numa casa noturna e, para dar um toque político em sua versão, o autor também a coloca como militante engajada na luta contra a ditadura (a ação se passa nos anos 1970).

Com a inclusão desse aspecto político abriu-se uma brecha para a inclusão da “Canção do subdesenvolvido” de Carlos Lyra e Chico de Assis muito em voga naqueles anos de chumbo. Esse número musical encerra de maneira vibrante o primeiro ato com todo o elenco no palco.

Com todos esses elementos e a inclusão de 20 canções, Reinecke, agora encenador, transformou os três minutos e quarenta e dois segundos da canção em um espetáculo musical de duas horas de duração.

Os números musicais são bem interpretados sob a direção musical de Bem Gil e a preparação vocal de Gabe Fabri.

São sempre estimulantes as cenas de capoeira muito bem realizadas por quase todo o elenco.

O cenário de Marco Lima mostra de maneira simples e bela a casa de João e Juci, a casa de José, a banca da feira de José, a roda de capoeira e, é claro, o parque de diversões com direito até à roda gigante. Tudo isso sob a iluminação, sempre “iluminada” de Cesar Pivetti. Figurinos de Lena Santana e direção de arte de Billy Castilho.

Todo o elenco tem uma interpretação correta, mas não há como não destacar a presença forte de Adriana Lessa e sua bela voz como Mãe Preta, o magnetismo de Badu Morais como Juci, a mulher sofrida de João (ela tem alguns números musicais que arrancam emoção e aplausos da plateia).

E um tópico especial para Alan Rocha como José. Alan tem um gingado todo especial tão cheio de significados que poderia fazer parte ilustrativa do capítulo de “gestus” de um livro de Brecht. Sua interpretação é tragicômica e é o grande trunfo desta montagem. O ano teatral está apenas começando, mas já se pode pensar em seu nome na lista das melhores interpretações do ano.

O grande mérito desta encenação de Alexandre Reinecke é que há uma coerência entre o texto e a escolha das canções que o ilustram, sem as apelações e clichês desnecessários e tão presentes em espetáculos “livremente inspirados”.

 

DOMINGO NO PARQUE, O MUSICAL está em cartaz no Teatro Claro Mais SP até 08 de fevereiro com sessões:  quinta e sexta (20h), sábado (17h e 20h30), domingo (18h)

 

DELICIE-SE!

 

        06/01/2026

 

 

 

domingo, 5 de julho de 2015

CHAPLIN, O MUSICAL


 
                Tarefa árdua, senão impossível para um dramaturgo abarcar vida e obra tão ricas e complexas como as de Charlie Chaplin (1889-1977). Esse reducionismo aconteceu no filme Chaplin (1992) de Richard Attenborough e se repete nesta versão teatral de Christopher Curtis (também autor das músicas) e Thomas Meehan. Apenas pincelam-se momentos da vida de Chaplin, assim como de alguns de seus filmes (O Garoto, Tempos Modernos e O Grande Ditador).

         Por outro lado a figura do Vagabundo (no Brasil batizado de Carlitos) é perfeita para criar grandes interpretações. Isso aconteceu com Robert Downey Jr. no filme já citado. Jarbas Homem de Mello também faz uma composição perfeita e emocionante não só do vagabundo, mas também do próprio Chaplin. Jarbas canta, dança, faz malabarismos e, principalmente, interpreta com muita garra e emoção provocando lágrimas e aplausos do público quando sob pressão de Mack Sennett (Paulo Goulart Filho, cada vez mais parecido com seu saudoso pai) inventa a figura de Carlitos. São momentos como esse que fazem a magia do teatro fazendo o público tirar os pés do chão e se deslumbrar, como diria Ferreira Gullar. Com este trabalho o ator se insere na lista das grandes interpretações masculinas do ano.
 

         A encenação do argentino Mariano Detry tem produção luxuosa (cenário, objetos de cena, projeção de filmes) e, muito importante, não tem pontos mortos, algo comum em alguns musicais quando a música interrompe a ação falada. As cenas de conjunto são muito bem cantadas e coreografadas, além da original localização da orquestra. Além de Jarbas Homem de Mello merece destaque a presença forte e a voz poderosa de Paula Capovilla que interpreta a vilã da história, a colunista Hedda Hooper, que nesta versão é praticamente a única responsável pelo banimento de Chaplin dos Estados Unidos por seu envolvimento com a Rússia e a suposta simpatia pelo comunismo. (“Eu não sou comunista, sou um humanista!” repete Chaplin em altos brados em outro grande momento da peça).
 

         Pela própria trajetória de Chaplin o primeiro ato é bem mais dinâmico que o segundo. Chaplin volta aos Estados Unidos em 1972 para receber um Oscar tardio pela sua obra e é ovacionado pelo público presente na cerimônia. A cena final do espetáculo mostra este momento pungente da vida do grande gênio e encerra-se com muita emoção com a eterna caminhada vista de costas do Vagabundo. Chaplin morreria cinco anos depois em 1977, em plena noite de Natal.

         É de se estranhar que produção tão cara e com sucesso de público (teatro lotado na noite em que assisti ao espetáculo) fique em cartaz apenas por dois meses (estreou em 14 de maio e sai de cartaz no próximo domingo, dia 12 de julho).

         CHAPLIN, O MUSICAL está em cartaz no Theatro Net São Paulo às quintas e sextas (21h), aos sábados (18h e 21h30) e aos domingos (18h). ÚLTIMA SEMANA!

 

05/07/2015